Carmo Vasconcelos

 

 

O VÉRTICE LUMINOSO DA PIRÂMIDE
(Romance) 
 

por

Carmo Vasconcelos

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I PARTE
 
Capítulo XIII

 

Carmen inicia agora uma nova etapa da sua vida: o mundo do trabalho. A sua meta era ganhar dinheiro para custear as suas próprias despesas, entre elas, ampliar os estudos. O seu sonho secreto era ser médica, se possível na área da psicologia. As “doenças da mente” sempre a atraíram mais do que as do corpo. Carmen era uma curiosa dos comportamentos humanos. Essa sua inclinação era já visível nesta quadra da sua adolescência:
 
Eu queria saber tudo deste mundo
que tantas vezes na aparência mente.
Por que se ri quem chora lá no fundo, 
e por que chora a dor quem a não sente...

 
Mas, apesar dos seus verdes dezassete anos, ela tinha plena consciência de que um curso de medicina não era para a sua bolsa. No entanto, os impossíveis não a frustravam. Havia outros caminhos... 
Começou a busca de emprego pelos anúncios dos jornais. Sua mãe, conhecedora da vida, sempre a acompanhava às entrevistas. Queria saber e ver tudo: onde era a firma, quem nela trabalhava, quem eram os patrões. E essa protecção exagerada sempre gerava a discórdia entre mãe e filha. A jovem, mais uma vez se insurgia: 
– Onde já se viu? Ir responder a um emprego acompanhada da mãezinha! Hão-de julgar que não assumo responsabilidades! 
– Não senhora! É bom que vejam que a menina tem família, que não é uma qualquer – retorquia Diolinda. 
– Pensarão que sou uma criança, isso sim! 
– Irei contigo e está dito! 
E de nada valia Carmen ripostar. 
O seu primeiro emprego foi curioso. “Empregada de escritório” era o termo, à data. A remuneração era de trezentos escudos mensais; a firma, um grande armazém de roupas com loja para venda ao público. Nas montras, o pronto-a-vestir de “baixa” costura emparceirava com roupas de cama, jogos de banho, toalhas de mesa, meias, lenços e outras miudezas. No interior, uma sala exígua e sem janela servia de escritório. À luz de um minúsculo candeeiro eléctrico, Carmen lutava com montes de papéis e com uma antiquada máquina de escrever, da qual, a muito custo, fazia sair facturas e correspondência. À mão, somava facturas, passava recibos, escriturava os livros de contabilidade. Uma vez por semana aparecia o guarda-livros. E havia o patrão, um quarentão alto e encorpado, de bigodes farfalhudos e reluzentes anéis de ouro. Felizmente, parava pouco por lá. Carmen só dava conta de que ele tinha entrado quando um súbito silêncio se fazia entre os dois caixeiros de balcão e a engomadeira de camisas, esta muito tagarela, por sinal. 
Não tardou muito que Ricardo e André, os dois balconistas, entrassem, de certo modo, na sua vida. Com ela, eram sempre muito delicados e corteses. Ambos solteiros, eram muito amigos, não só profissionalmente como na vida privada. Contudo, eram donos de personalidades muito diferentes. Ricardo, que já rondava os trinta anos, tinha um ar enigmático e introvertido que o fazia parecer mais velho. Fumava cachimbo e andava sempre com um livro debaixo do braço. André, vinte e poucos anos, era alegre, divertido, e muito atraente. Ambos tinham uma paixão comum: as motos. Cada um com a sua, todos os dias provocavam um barulho ensurdecedor que anunciava o abrir e o encerrar da loja.  
O que surpreendeu Carmen foi quando o mesmo ruído atroador passou a rasgar os ares, sob as janelas de sua casa...  
Um dia, André aproximou-se de Carmen e disse-lhe: 
– Preciso falar consigo! 
– Pois não! De que se trata? 
– Ainda não notou? O Ricardo anda triste. 
– E daí? Fiz alguma coisa errada? 
– Não, não é isso! É que... o Ricardo está apaixonado por si. 
– Ricardo?! Então por que não veio ele falar comigo? 
– Não tem coragem. É muito tímido. Eu, que sou muito amigo dele, é que achei que a Carmen devia saber. Mas, por favor, não diga a Ricardo que lhe contei!   
– Fique descansado, continuarei não sabendo! 
E assim foram decorrendo os dias. Ricardo encerrado no seu mutismo e Carmen fingindo não perceber. 
Entretanto, os dois amigos, que eram sócios de uma Casa Regional, começam a convidar Carmen para os bailes que ali se realizavam.  
Devo dizer que, por essa altura, a vida amorosa de Carmen andava muito tumultuada. Edgar estava pior do que nunca. Tão embrenhado andava nas suas conquistas que Carmen tinha esfriado ao ponto de não querer mais vê-lo.
E como adorava dançar e nunca perdia uma oportunidade de se divertir, sempre convencia sua mãe a acompanhá-la aos referidos bailes.  
Ricardo e André, sempre lá caídos! Ricardo não dançava. Afastado, observava a assistência, fumando placidamente o seu cachimbo. André, muito extrovertido e um dançarino de primeira, tornou-se o par fixo de Carmen. Mal a música começava, logo ele se antecipava a pedir-lhe a dança.  
No dia do aniversário de Carmen, completava ela dezoito anos, um mensageiro bateu-lhe à porta para lhe entregar um soberbo ramo de rosas brancas. 
Ela ficou estupefacta.  
– De quem são? – Perguntou. 
– Não sei! – Respondeu o mensageiro. Venho mandado da florista. Deve trazer um cartão. 
Era a primeira vez que alguém lhe enviava flores. Intrigada, pensou: “Só podem ser de Edgar!”. Logo, um minúsculo cartão se desprendeu do vistoso ramo, e para decepção e surpresa de Carmen quem o assinava era Ricardo. Confissão, nenhuma! Apenas um “Feliz Aniversário!”. No dia seguinte, ela agradeceu-lhe a gentileza, ficando tudo por isso mesmo. 
Entretanto, Carmen tinha-se matriculado no Instituto Britânico para aperfeiçoar o seu Inglês, o idioma estrangeiro de que mais gostava. Após um exame preliminar, iniciou os estudos no Britânico posicionada no terceiro ano. Às aulas, ia depois de sair do emprego.       
A pretexto de falar de Ricardo, André começou a ir esperá-la à saída do Instituto. Sentados num banco do Jardim do Príncipe Real, conversavam. André manifestava a sua preocupação em relação ao amigo: 
 – Sabe? Ricardo não é mais o mesmo. Anda esquivo, não quer sair à noite com os amigos, e até mesmo comigo noto-o diferente. Penso que é por sua causa...
– Não vejo razão! – Respondia Carmen. Sempre fui simpática com ele. Além disso, Ricardo nunca me manifestou esse sentimento de que fala. 
– Quer dizer então que não lhe corresponde? – Perguntou André, um tanto hesitante. 
– De maneira nenhuma! Acho Ricardo muito correcto e um bom colega, nada mais! 
– Fico muito feliz por isso! – Deixou escapar André. 
Daí por diante, as esperas do jovem tornaram-se mais assíduas, as conversas mais prolongadas, e cada vez falavam menos de Ricardo. Uma atracção mútua foi nascendo entre ambos e um namoro começou a esboçar-se. Sempre se alongavam nos encontros, o que os obrigava a regressar “voando” na moto de André. Carmen, cabelos ao vento, o ar fresco fustigando-lhe o rosto, adorava aquela sensação de liberdade. Por outro lado, o estar fazendo algo que sua mãe nunca permitiria, dava-lhe também um inefável prazer. 
Por vezes, entre dois beijos, André soltava frases estranhamente tristes: “Por que não te conheci mais cedo?” ou, “Não quero perder-te!”. 
Carmen não entendia o sentido velado daquelas palavras, mas começou a suspeitar de que André tinha algum segredo...
Certo dia, uma voz amiga segredou-lhe ao ouvido: 
– Carmen, não se prenda! André tem uma vida complicada... 
– Complicada porquê? Pelo que sei, não é casado, nem sequer tem namorada... Nunca o vi acompanhado de qualquer rapariga, até aos bailes vai sozinho! 
– A mesma voz continuou: 
– Realmente, tudo o que diz é certo! 
– Então? Qual é o problema? – Insistiu Carmen. 
Perante a sua cegueira, a resposta veio de chofre: 
– Um filho! André é pai de um bebé. 
– Um filho?! – Exclamou Carmen, perplexa. – Tem a certeza? 
– Absoluta! 
– E a mãe? Quem é?... 
– Alguém que André diz não amar e que se recusa a assumir como esposa. 
– Mas isso não é justo! – Indignou-se Carmen. 
De súbito, fez-se luz no seu espírito. Estavam explicadas as meias palavras, as frases dúbias, o segredo pressentido.  
Se fosse apenas uma namorada, ela não se abalaria! Mas uma criança?! Um filho condenado a viver jogado entre pai e mãe, como uma bola de pingue-pongue? Carmen não hesitou! Sem contar nada a sua mãe – que decerto ficaria possessa – numa breve carta disse a André o que sabia, e nessa mesma carta o proibiu de voltar a acercar-se dela. E não foram necessários os conselhos de Diolinda para Carmen tomar essa atitude. Ela ressaltou da sua própria consciência. 
Para corroborar o afastamento que se impunha, Carmen decidiu mudar de emprego. 
– Porquê mudares? – Inquiriu a mãe.    
– Pagam pouco para o trabalho que faço! O que ganho mal dá para pagar as aulas de inglês. Tenho condições para arranjar melhor, afirmou Carmen, seguramente, e sem mentir.   
Na verdade, aquele emprego não a satisfazia; a remuneração era injusta, as condições de trabalho, péssimas. Além disso, havia Ricardo cujos olhos tristes pareciam acusá-la de não retribuir a sua paixão, e ainda teria de enfrentar André – a seu ver, um carácter indigno! 
E foi assim que, facilmente, se desprendeu daquela sua primeira experiência profissional e de um namoro que não chegou a criar raízes.


 

 

 
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