Carmo Vasconcelos

 

 

O VÉRTICE LUMINOSO DA PIRÂMIDE
(Romance) 
 

por

Carmo Vasconcelos

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I PARTE
 
Capítulo XIV

 

O segundo emprego de Carmen teve, também, algumas características peculiares.  
De entre vários, um anúncio que solicitava “Secretária” foi o escolhido por Carmen. Enviou a sua candidatura e foi-lhe marcada a entrevista. Dessa vez, convenceu sua mãe a não a acompanhar. Já tinha dezoito anos!...  
Vestiu-se com esmero. Pareceu-lhe apropriado à ocasião o seu “tailleur pied-de-poule” branco e preto, de saia pregueada e casaquinha cintada, na qual uma sobre-gola de “piqué” branco dava um ar de Secretária americana muito em voga nos filmes anos 50. O cabelo negro enrolado na nuca reforçava-lhe o aspecto profissional. Pintura no rosto não usava. Bastavam-lhe os olhos grandes e escuros sombreados pelas longas pestanas, a boca carnuda e vermelha, as faces rosadas. Enquanto aguardou a sua vez no meio de uma numerosa fila de candidatas, Carmen quase esmoreceu. Pareciam tão experientes! Todas mais velhas do que ela. Sobretudo, mais altas! Umas louras, outras morenas – havia até uma ruiva – vestiam-se imitando as actrizes de cinema mais ousadas,  não lhes faltando mesmo a  maquilhagem
exuberante. Só o seu espírito afoito a incitou a não desistir. Até que chegou a sua vez! Após uma longa troca de perguntas e respostas entre ela e o entrevistador – que era o próprio patrão – Carmen retirou-se, levando consigo, tal como as outras, apenas a frase sacramental: “Dar-lhe-emos uma resposta dentro de dias!”  
Quando Carmen já nem esperava, a resposta chegou. Tinha sido a seleccionada! Nem queria acreditar! Parecia-lhe um óptimo emprego e o ordenado era tentador. Novecentos escudos mensais representavam para ela uma fortuna! 
A firma situava-se num sítio muito aprazível de Lisboa – frente ao Parque Eduardo VII – num prédio de luxo, ocupando um andar altíssimo. O patrão, Monsieur L., era um francês simpático e dinâmico que geria uma representação de máquinas industriais. Duas salas enormes, modernamente equipadas e com amplas janelas viradas para o parque, estavam destinadas ao serviço de escritório. Uma sala para o Monsieur, outra para a Secretária. O resto da casa servia de habitação. Aí residiam, portanto, Monsieur L., a esposa, Madame L. e duas filhas, crianças em idade escolar. A Madame era belga. Mulher alta, graúda de osso, ao contrário do marido, era feia e antipática. Falava mal o português e arrastava os “erres”. As meninas eram loiras e encantadoras. 
Carmen adorava as suas novas funções. Era a única empregada e o patrão habituou-se a confiar nela para tudo. Além do serviço interno – correspondência, contacto com clientes, marcação de entrevistas, etc., havia também o serviço externo: depósitos bancários, letras para pagar, cheques para levantar. Ela gostava daquelas incumbências movimentadas; da responsabilidade que lhe cabia. Nunca lhe agradaram as tarefas monótonas! Quando contou a sua mãe estes seus serviços externos, Diolinda apavorou-se: 
– Toma cuidado, filha! Podem assaltar-te!  
Mas Carmen tranquilizava-a:  
– Não se preocupe, mãezinha, eu tomo cuidado! De resto, quem vai adivinhar o que levo comigo? 
Monsieur L. fazia viagens frequentes ao estrangeiro. Durante a sua ausência, o serviço interno amainava. Mas ficavam as datas calendarizadas para Carmen sair a pagamentos e cobranças. 
Nos dias mortos, lia os vários jornais que a firma recebia diariamente e os romances que sempre a acompanhavam. Divertia-se com telefonemas ao acaso e deliciava-se com a vista que o Parque lhe oferecia, incluindo os pares de namorados que, ignorando estarem a ser observados, se entregavam aos sedutores jogos do amor. 
Na hora de almoço, ela própria passeava pelas compridas alamedas, contemplando os verdes que a encantavam ou detendo-se junto ao lago observando os irrequietos patos que ora ensaiavam curtos voos ora mergulhavam, finalizando as suas acrobacias com ruidosos espanejar de asas. Na quietude melancólica da Estufa-Fria, saboreava a merenda que levara de casa e lia, lia e sonhava...  
Aquela paz acalmava-a, serenava a inquietude do seu espírito.  
De facto, Carmen não mentiu quando me disse, alguns capítulos atrás, que os jardins tinham sido uma constante na sua vida. 
A Madame não interferia nos assuntos profissionais. Fazia a sua vida: saía a compras, ia ao cabeleireiro, ia buscar as meninas ao colégio. Havia dias em que Carmen nem a via mais, a não ser quando lhe dizia: “Bon-jour”, quando chegava de manhã, ou “Au revoir, Madame”, ao fim da tarde. 
Mas, sempre que o marido estava ausente, a patroa não deixava de lhe solicitar alguns favores, à margem das funções para que fora contratada. 
– Se a menina “irr” ao Baixa, “trraga-me” café da Casa Chinesa, meu “marrido” “gostarr” muito. 
– Oui, Madame! – Anuía Carmen. 
– Como a menina não tem que “fazerr”, pode “irr” “comprarr-me” pão à “padarria” de São Nicolau (ficava no Chiado), minhas filhas só “gostarrem” do pão desse “padarria.”
– Oui, Madame! – Condescendia Carmen.
Com o tempo, a Madame foi alargando o rol dos recados: um dia o café, outro dia o pão, outro a farmácia, outro isto, outro aquilo... 
Carmen nunca soube se Monsieur L. tinha conhecimento disso, mas, por precaução, nunca lho disse. 
Seis meses passados, já a Madame tinha inserido no rol das tarefas extra, que Carmen iria buscar as meninas ao colégio. E elas não estudavam perto! Frequentavam o Liceu Francês, que ainda distava uma boa meia hora, a pé.      
– Oui, Madame! Oui, Madame! Oui, Madame! – Repetia a jovem Secretária.
Acumulava agora as funções de Secretária, moça de recados e aia de meninas... escondendo de sua mãe, é claro, tais serviços.  
Um dia, alguém veio em seu socorro. 
Estava ela no pátio do Liceu Francês, a aguardar que as pequenas saíssem das aulas, quando ouviu junto de si uma voz: 
– Carmen, que fazes aqui? 
Ficou para morrer. Era a Dra. Alice, sua ex-professora de francês e que nutria por ela uma simpatia especial.  
– Eu... Eu... – engasgou-se Carmen, envergonhada. 
– Tens aqui algum irmãozinho? – Continuou a professora Alice.
– Não! Isto é... – titubeou Carmen, acabando por desenrolar a sua história. 
A professora arregalou os olhos de espanto.
– Parece impossível! Uma aluna como tu! Vou contar o que vi e inscrever o teu nome na nossa Escola! Não sabes que há firmas idóneas que nos pedem referências das melhores finalistas, a fim de lhes oferecerem um emprego compatível? 
– Não sabia! Mas fico-lhe muito grata pelo seu interesse, Dra. Alice! 
– Não me agradeças ainda. Aguarda e verás! 
E com dois beijos nas faces ruborizadas da ex-aluna, se despediu Alice, a fada benfazeja. 
O caminho de regresso, fê-lo Carmen alegremente, com as duas francesinhas pela mão e quase saltitando como elas.   
A professora cumpriu o que prometera e não tardou que Carmen recebesse uma nova e melhor proposta de colocação, que prontamente aceitou.
Foi deste modo singular que a nossa jovem pulou para o seu terceiro emprego.



A firma empregadora, um conhecido laboratório de especialidades farmacêuticas, tinha como director e proprietário um não menos conhecido e respeitável médico. Carmen admirou nele o democrata preocupado com o bem-estar dos seus empregados, oferendo-lhes, além de remunerações compensadoras, outras contrapartidas de carácter social inovadoras. 
Carmen foi colocada na contabilidade e tinha agora tarefas bem definidas. E a remuneração já ultrapassava os mil escudos!  
Aí, tomou contacto com as primeiras máquinas de calcular. Eram engraçadíssimas! Funcionavam à manivela! Somas para a frente, subtracções para trás. A princípio, Carmen não confiava nelas e conferia os resultados à mão. Mas, a pouco e pouco, pôs de lado essa meticulosa desconfiança. O “cálculo comercial”, disciplina do seu curso, fornecera-lhe facilidade e rapidez de raciocínio. Rapidamente se integrou nas novas funções.
A empresa, que funcionava apertadíssima numa moradia no centro de Lisboa, mudou posteriormente as suas instalações para uma quinta enorme, situada numa localidade da linha de Sintra. Para lá foram transferidos todos os serviços e funcionários e, obviamente, Carmen também. O director, sempre atento ao bem-estar dos seus empregados, disponibilizou carrinhas para os transportar de Lisboa até ao novo local de trabalho e para os trazer de regresso. A carrinha destinada ao seu grupo saía, impreterivelmente, da Praça Marquês de Pombal às oito e quinze da manhã. A única dificuldade de Carmen, o seu calcanhar de Aquiles de sempre, persistia: cumprir horários. Não tiveram conta as vezes que ela, confrontada com a ausência do meio de transporte que entretanto já tinha partido, teve que rumar à estação do Rossio, apanhar um comboio e, chegada à estação de destino, fazer ainda um trajecto a pé, que levava no mínimo quinze minutos, por uma estrada de terra batida. Não teria sido tão mais simples cumprir o horário da carrinha? Mas nisso, Carmen era incorrigível.   
As novas instalações, onde tinham de permanecer das nove da manhã às seis da tarde, eram magníficas. Além dos departamentos reservados ao laboratório técnico, armazéns, e escritórios, dispunha de um amplo refeitório onde eram servidas refeições completas muito agradáveis, efectuadas na hora por competentes cozinheiras. Nele comiam os médicos, pessoal de escritório e operários, sem distinção de classes. O preço da refeição? Um escudo! Imaginem! É evidente que essa quantia tinha sido estipulada apenas como um preço simbólico. 
E uma coisa curiosa que Carmen nunca esqueceu: dispostos em vitrinas, viam-se chocolates, rebuçados, garrafas de sumos vários, completamente à disposição dos funcionários. Com uma particularidade: não havia ninguém para receber o preço neles marcado, ninguém a vigiá-los. Apenas uma caixa, ao lado, testemunha muda, aguardava que o comprador ali depositasse o valor da mercadoria retirada. Com tal voto de confiança, seria impossível ser desonesto!  
Uma sala de leitura repleta de livros e revistas, especialmente do foro médico, completava as instalações de lazer. Nela, Carmen saciava a sua curiosidade pela medicina. 
Certo dia, ao tomar conhecimento de que fazia falta mais uma empregada para a contabilidade, Carmen logo se lembrou da sua amiga Conceição e indicou-a para o lugar. Esta, que ainda não se empregara, aceitou de mãos abertas a oportunidade e, assim, ficaram de novo juntas. Juntas, porém, distantes... e a distância era criada por Conceição. Algo quebrara aquela profunda amizade juvenil de outrora, algo que Carmen nunca compreendeu. Talvez a dissemelhança de temperamentos apenas, ou porque Conceição, a quem não se conheciam namorados, criticasse intimamente os sucessivos namoros de Carmen a quem pouco importavam as opiniões alheias. Carmen era, de facto, e sob uma análise superficial, namoradeira. Para isso contribuíam os muitos pretendentes que a assediavam e a insegurança que sentia em relação a Edgar. Ou seria carência de afecto?... Ou seria já a sua ilimitada curiosidade pelos comportamentos humanos?... 

 

 
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