Carmo Vasconcelos

 

 

O VÉRTICE LUMINOSO DA PIRÂMIDE
(Romance) 
 

por

Carmo Vasconcelos

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I PARTE
 
Capítulo XV

 

Após aquelas férias campesinas em que Edgar se mostrara tão apaixonado, Carmen, de volta à cidade, deparou-se com as habituais aventuras romanescas do seu eleito. Carmen, que não tinha vocação para sofredora, ia tentando encontrar alguém à altura da sua exigência. Alguém havia de superar Edgar ou, pelo menos, igualá-lo. Mas, o destino não a ajudava. Daí, as várias experiências. Depois do seu curto namoro com André que, diga-se de passagem, não chegara a implantar-se fortemente no seu coração, outras se seguiram, igualmente sem grande expressão. Por outro lado, Edgar, que volta não volta lhe aparecia para reiterar as suas juras de amor e a já conhecida promessa: “Contigo é para casar!”, desorientava-a e impedia-a de se fixar noutro amor.
 A dada altura, o Toy – o jovem pintor de que já vos falei – após a partida de Vitor Manuel para a Índia, começou a aparecer mais assiduamente na casa de Carmen. Ia saber notícias do amigo e da família que, à força de tão longa convivência, considerava um pouco como sua. Tinha, entretanto, acabado o curso de Belas-Artes, e persistia nele o sonho de vir a ser um pintor famoso. Até já alugara um estúdio, uma pequena divisão que destinava aos seus momentos de inspiração. 
Numa das suas visitas, Toy perguntou a Diolinda:  
– Posso levar a Carmen ao cinema? 
– Se ela quiser... porque não? Contanto que seja à “matinée” – respondeu Diolinda, que tinha por ele grande amizade, considerando-o quase como um filho. 
– Que vamos ver? – Perguntou Carmen, para quem o cinema era um dos passatempos preferidos.  
– Uma peça de teatro que adaptaram em filme: o “Pigmaleão”, de Bernard Shaw. Vais gostar! 
– Em que cinema vai? 
– No Tivoli. 
– No Tivoli? Fui com os padrinhos à estreia de sexta-feira e o filme não é esse... 
– É uma sessão especial que só decorre às 11 horas da manhã – explicou Toy. – Ofereceram-me dois bilhetes. 
– Então vou! – Disse Carmen, alegremente. – Já que a mãe deixa... 
– Virei buscar-te às dez! Mas não te atrases – recomendou ele.
Carmen ficou envaidecida. O Toy, a quem ela costumava fazer recados, levar cartas às suas apaixonadas... Ao pé dele sentia-se ainda a mesma criança... O que não sabia era que ele já tinha descoberto nela uma mulher! 
À hora combinada lá foram. Conversaram, riram, e ambos adoraram o filme. Carmen só estranhou o jeito terno com que o amigo lhe tomara a mão durante o espectáculo. Uma forte intuição lhe dizia que algo de estranho começava a passar-se. E como não adquirira o hábito de tirar dúvidas desse tipo com sua mãe – sempre preferira aclará-las sozinha – ficou-se com a sua dúvida.   
Dias passados, foi Carmen quem convidou Toy para uma sessão de cinema que ia passar à tarde no Instituto Britânico.  
Era o famoso “Hamlet”. Ele aceitou, com agrado. Mas a peça era longa demais, e às tantas, Carmen que não tinha lanchado, tirou às apalpadelas da sua bolsa a sanduíche que sua mãe lhe preparara e partilhou-a com o companheiro. A escuridão da sala não dava para ver o que recheava o pão. Quando perceberam que estavam comendo “omeleta”, vendo o “Hamlet”, tiveram um tal ataque de riso que a plateia, ofendida, não hesitou em mandá-los calar. Nem se lembraram que estavam assistindo a uma das maiores tragédias de Shakespeare!... Carmen era assim. Tudo lhe servia de pretexto para rir. Continuava a ser intrinsecamente feliz! O seu riso, fácil e espontâneo, contagiava quem a acompanhasse. Até o Toy, habitualmente tão sereno e comedido, não conseguia parar de rir. Contida a hilaridade, retomaram a peça e, tal como da outra vez, as mãos dele afagaram as suas. 
De volta a casa, comentaram a sessão, voltaram a rir do sucedido e despediram-se como bons amigos – como se as suas mãos não lhes pertencessem, tivessem tido uma linguagem independente... 
Toy, que sabia da paixão de Carmen por Edgar e daquele namoro irregular, perguntou um dia: 
– Então, Carmen, como vão as coisas com o Edgar? 
– Se queres que te diga, nem eu sei! Sabes como ele é! Não pode ver uma burra de saias... Anda meses desaparecido, mas se vê alguém rondando-me a porta, logo me aparece ao caminho. Da última vez, acabei tudo com ele! 
– Acho que fizeste bem! Conheço Edgar e o seu temperamento volúvel. Quer todas e não quer nenhuma! Na minha opinião, não te merece. 
– Mas Edgar não é só isso! – Defendeu Carmen. É inteligente, sensível, tem um coração de ouro e é um filho extremoso. Sei que dará um bom marido!  
– Duvido que te faça feliz...    
– E quem me fará feliz? – Desabafou Carmen. 
– O tempo o dirá!
E, mudando de assunto, Toy disse: 
– Queria que visses os meus quadros, que passasses um dia pelo meu “atelier”. Não os mostro a toda a gente, sabes? 
– Gostaria muito! Agora deixaste-me curiosa!     
E a oportunidade surgiu. Uma tarde, findo o trabalho no Laboratório, Carmen trocou as aulas do Britânico por uma visita ao estúdio do seu amigo pintor. 
Era uma sala pequena. Quadros e tintas espalhavam-se por todo o lado. Penduradas num gancho, uma bata suja de tintas e a boina preta que Toy frequentemente usava. A um canto, no chão, um colchão coberto de almofadas, sugeria momentos de descanso e inspiração, ou talvez algo mais... 
– Ainda bem que vieste! – Disse Toy, com ar feliz. – Tenho uma surpresa para ti! 
– Uma surpresa? Para mim?               
Toy tapou-lhe os olhos com as mãos e fê-la caminhar pela sala, guiada por ele. Até que parou e, destapando-lhe os olhos, exclamou: 
– Já podes!   
Apoiado num cavalete, um quadro tinha como legenda: “Ninotchka”. Era assim que Toy lhe chamava desde menina, por extensão do “Ninita”, o diminutivo familiar.  
Carmen mirou e remirou a pintura. Não sabia o que dizer. Era tão estranha!... O seu, porventura antiquado, conceito de beleza estremeceu.  
– É o teu retrato! – Disse o pintor, perante o silêncio da jovem. 
Carmen, pondo o seu habitual tom zombeteiro, perguntou: 
– Eu? Eu sou aquilo?!  
– Para mim, tu és aquilo! – Respondeu Toy, sorrindo.
– Mas... tenho apenas um olho, um cone no lugar dos seios, uma cabeça quadrada...
Era, nitidamente, uma influência da fase cubista de Picasso...  
Carmen não apreciava a pintura moderna. A sua noção de Arte – ou para quem quiser, a sua ignorância – não pactuava com determinadas obras muito em voga na época. Pernas soltas pelo espaço, cabeças viradas ao contrário, olhos flutuando fora das órbitas, não se harmonizavam com ela.
Era uma nova forma de arte, uma nova forma de ver o mundo, dizia-se.  
Mas Carmen sentia-se ainda ligada aos célebres retratos e paisagens de Rembrandt, aos famosos lírios azuis e girassóis de Van Gogh, às formosíssimas Virgens e Meninos de Memling. 
Conhecendo, porém, o espírito sensível e delicado de Toy, apressou-se a dizer carinhosamente:  
– Perdoa se não te compreendo! Vais dizer que sou muito ignorante... 
– Como te enganas! O que vou dizer é que estou doidamente apaixonado por ti! 
E antes que Carmen lhe pudesse responder, tapou-lhe a boca com um ardente e prolongado beijo. 
De seguida, retomando a compostura, murmurou: 
– Não fiques assustada! Sabes como te respeito!  
Só então, apesar de um pouco aturdida, Carmen teve a certeza de que a sua intuição não a enganara quando do terno enlace de mãos. 
Reparou, depois, que o amigo, que sempre vira como um irmão, tinha dois belos olhos negros, meigos e profundos, uma boca carnuda e sensual, e uma testa altíssima que não negava a sua inteligência. Da figura esguia, usualmente vestida de negro, sobressaíam as mãos ágeis e secas, de finos dedos alongados – verdadeiras mãos de artista!      
Assim, Carmen encetou um novo romance: terno e confiável.      
Certo dia, Toy veio com uma novidade: 
– Lembras-te daquela candidatura que fiz à Gulbenkian? Ganhei a Bolsa de Estudo! Irei a Paris, donde seguirei para a Alemanha. Não é fantástico?... 
– Bravo! – Exclamou Carmen. – Era tudo o que sonhavas, não é verdade? 
– Era... mas nunca julguei que o sonho se concretizasse. E logo agora que começava a realizar um outro sonho! 
– De que falas?...
– De ti! Do desejo de te ter só para mim. 
– Como? Se vais partir... 
– Irei organizar-me, fixar residência. Depois irás ter comigo. Tal como eu, deixarás este país que é pequeno demais para nós...
– Vais sozinho? 
– Não! Vamos um grupo de quatro.  
E Toy desfiou o nome dos jovens pintores que o acompanhariam e que ela já conhecia.  
Toy partiu! Carmen sentiu a falta dele. Era tão inteligente, tão carinhoso e protector...  
Primeiro os postais, depois as cartas, não se fizeram esperar. Todos começando por “Querida Ninotchka!”. Neles, Toy ia desenrolando os seus passos, ilustrando-os com fotos: Paris, Munique, as suas primeiras exposições... Estava lutando pelo seu ideal, com dificuldades mas feliz!         
Carmen sonhava já com o dia em que se juntaria a ele. Iria viajar, conhecer outros mundos. A vida irreverente e sem preconceitos que Toy lhe descrevia, fascinava-a. Diolinda, porém, estava renitente. Embora soubesse do namoro e gostasse de Toy, ia sempre dizendo:
– Nem pensar! Vida de artista, vida de saltimbancos... Lá por tão longe, sem eira nem beira.        
– Mas, mãezinha, não irei antes de casar e do Toy ter preparado uma casa para morarmos. 
– Isso veremos, veremos... – respondia Diolinda. 
Carmen que, segundo os meus cálculos, teria agora dezanove anos, ia continuando a sua vida: o Laboratório, o Britânico, as saídas com os padrinhos. 
Passaram-se os meses. Toy escreve dizendo que viria a Lisboa tratar de uns papéis. Não sabia ainda a data certa. Carmen esperava-o, alegre e ansiosamente. 
O que aconteceu a seguir, bem se pode dizer que foi uma grande partida do destino. Uma das muitas que esse “menino travesso” pregou a Carmen...
Toy chegou sem se fazer anunciar e, querendo fazer-lhe uma surpresa, resolveu esperá-la à saída do Britânico.
No mesmo dia e à mesma hora, Edgar – com quem Carmen já havia rompido – teve a triste ideia de fazer nova investida àquela que considerava a sua noiva eterna. De carro novo, plantado à porta do Instituto, esperava-a também.
Imagine-se a cena!  
Se Carmen não esperava ver Edgar, muito menos esperava a surpresa de Toy! Depois de uma azeda troca de palavras entre eles, que se conheciam bem, Edgar pôs o motor em marcha e retirou-se.   
Carmen, que se mantivera a distância, só então se aproximou. Toy estava lívido. Os beijos que guardara para ela, tinham-lhe morrido na boca. Caminharam juntos até casa. 
Em vão, Carmen tentou explicar-lhe que estava inocente. Porém, Toy parecia de gelo. Não acreditava em tamanha coincidência! E foi Carmen que, orgulhosamente, perante a sua teimosia, a injustiça do seu ciúme, da sua desconfiança, deu por terminado o namoro. 
Toy partiu daí a dias. Sem uma palavra, sem uma despedida. Carmen perdera, sobretudo, um grande amigo. E, com ele, uma janela para o mundo.  
O jovem pintor ficou-se pela Alemanha. Por lá casou, teve filhos, fez nome e tornou-se famoso, passando a expor em vários países.   
Hoje, o que Carmen mais lamenta é não ter voltado a encontrar o seu amigo de infância. Como gostaria de o abraçar, sem ressentimentos nem mágoas, de o felicitar pelo seu sucesso!

 

 

 
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