Carmo Vasconcelos

 

 

O VÉRTICE LUMINOSO DA PIRÂMIDE
(Romance) 
 

por

Carmo Vasconcelos

PÁG. 16 DE 18 PÁG.


 
I PARTE
 
Capítulo XVI

 

E como ia a família de Carmen?  
Seu pai, parecia ter assentado, finalmente. Vivia há já alguns anos com uma senhora (que o tempo veio confirmar ser a última) e com ela aumentou a sua prole. Carmen ganhara, entretanto, mais dois irmãos e uma irmã. Habituada a visitar o pai, continuou a dar-se de igual modo com a nova família. Peculiar era esta forma de relacionamento interfamiliar! Todos se davam com todos! De tal maneira, que os novos irmãos chegaram a participar de alguns Natais em casa de António. E, numa altura em que a mãe deles teve de baixar ao hospital, foi aos cuidados de Diolinda que os pequenos ficaram.  
Mais tarde, também Eduardo, filho de António, foi trabalhar com o pai de Carmen, como ajudante de guarda-livros.    
Isto não era comum em Portugal nos anos cinquenta! Hoje, já é vulgar coexistirem na sociedade portuguesa este tipo de famílias alargadas, provenientes de divórcios e de novos casamentos, onde, para além de “os meus” e de “os teus”, há também, “os nossos filhos”. Carmen cresceu neste tipo de convívio. Quando, os professores lhe perguntavam:  
– E tu, Carmen, quantos irmãos tens? 
Ela sempre demorava a resposta:  
– Um momento, sotôr, tenho de os contar... E, contando pelos dedos, lá ia enumerando os seus irmãos – sete ao todo. Quando lhe falavam de “meios-irmãos”, para ela não fazia sentido. Costumava até dizer, de brincadeira:  
– Meio-irmão, como? Da cintura para baixo ou da cintura para cima? Do lado direito ou do lado esquerdo?


 
Vítor Manuel, que também sentia a falta da família, desterrado nessa Índia estranha e misteriosa, resolve casar por procuração com a namorada que deixara em Portugal. Era uma jovem algarvia, de cabelos loiros e olhos amendoados como os frutos das amendoeiras da sua terra. Era muito bonita, muito serena, e apaixonada por Vítor. Corridos os trâmites do casamento, veio para Lisboa e passou algum tempo em casa de Diolinda, agora sua sogra, aguardando o navio que a levaria a tão longínquas paragens. Nunca viajara, mas esse facto não impediu que, sem hesitação, se aventurasse naquela longa viagem para se juntar ao homem que amava. Lá, viveram a sua lua-de-mel, e os filhos não se fizeram esperar. Primeiro uma menina e logo de seguida um rapaz. As cartas de Vítor traziam cada vez mais novidades. A nova casa, as fotos dos garotos, o convite para Carmen ser a madrinha da menina... Carmen ficou radiante! E Teresa Leonor tornou-se a sua primeira afilhada.


 
E Carlos Alberto? Também ele ganhou, tempos depois, uma companheira dedicada. Chamava-se Graça. De uma beleza incaracterística, sem artifícios, era uma alma simples e honesta. Apesar da situação incerta do homem que escolhera, amava-o e confiava que a sua ternura faria dele um ser equilibrado. Formaram um lar e dessa união nasceram dois filhos. Como se fosse uma praxe de família, também desta vez, Carmen foi a madrinha do seu primeiro filho, a quem pôs o nome de Luís Filipe.
Diolinda e Carmen uniram-se para segurar aquela família. Visitavam-nos frequentemente, levavam mimos para as crianças, ajudavam o mais que podiam. E era com elas que Graça desabafava, chorava as suas lágrimas – porque lágrimas já choviam naquele lar. Verdade seja dita, Carlos Alberto estimava a mulher e adorava os filhos, porém, as noitadas e o álcool derrubavam todas as suas boas intenções. Não raro era vê-lo chorar, revoltado, suplicando que o compreendessem, que o perdoassem.  
Mas Graça começava a estar cansada. Os seus esforços mostravam-se inúteis. Até que, exausta de lutar por aquele amor sem futuro, abandona Carlos Alberto e parte para França levando consigo as crianças. E foi um caminho sem regresso! 
Feita em farrapos, a vida de Carlos Alberto tornou-se um círculo vicioso. A frustração de perder a companheira, a saudade dos filhos queridos, tudo a escapar-lhe das mãos como areia por entre os dedos, fizeram-no descer mais fundo. Desse círculo escapava bebendo, e bebendo voltava a entrar nele... Carlos Alberto e a vida, não se poupando um ao outro!


 
Carmen debatia-se entre pedaços de inferno e retalhos de céu. Por um lado, o sofrimento daquele irmão, a ausência do outro, as suas próprias desilusões amorosas; por outro, os livros, os devaneios poéticos, os jardins, a busca constante do amor idealizado. 
A vida profissional corria-lhe sem problemas. Do Laboratório, só pretendia sair para ingressar na Função Pública.  
Era mais seguro, dizia-se. Além disso, garantiria uma reforma na velhice. Carmen nunca foi muito de pensar no futuro, e a velhice parecia-lhe tão distante... Mas os mais velhos alertavam-na.  
Especialmente sua mãe, que sempre sonhara esse futuro para a filha. Carmen observou então, que outros jovens, empregados como ela em empresas privadas, também mostravam essa preocupação. Entre eles, um casal com quem fez amizade: a Paula e o Manuel. Ambos estavam na corrida para o funcionalismo público. Liam o “Diário do Governo” (antigo nome do actual  Diário da República) e estavam a par de todos os concursos. Breve formaram um grupo, incluindo a Conceição, e os quatro juntavam-se para estudar a “Gorda”, livro que como o nome indica, era volumoso, recheado de legislação a empinar para quem se quisesse tornar funcionário público. Carmen detestava todas aquelas leis, artigos e parágrafos, e empinar, fosse que matéria fosse, representava para ela um tédio. Mas, por outro lado, era um desafio e de desafios ela gostava. Assim, entrou Carmen na movimentada concorrência com aqueles que almejavam “o tal cargo seguro com direito a reforma na velhice” – embora os seus vinte anos achassem isso um absurdo...  
Algumas afinidades foram unindo os quatro amigos, gerando entre eles uma convivência mais alargada que levou o grupo a acamaradar em passeios de fim-de-semana (sem a “Gorda”, é claro!) A Paula e o Manuel formavam um casal simpático, de ideias modernas e progressistas, roçando o intelectual. Razoavelmente cultos, interessavam-se por boas leituras e o marido dedicava-se, nas horas livres, a fazer traduções de livros estrangeiros. Carmen, já com um conhecimento mais profundo da língua inglesa, chegou a colaborar com ele na tradução de um desses livros: “Ser Peregrino”, de Joyce Cary.  
Como aparte, intercalo aqui uma curiosidade que confirma a forte ligação de Carmen ao passado, como se a ele se agarrasse para não soçobrar... Conforme guardou até hoje “os mimos” de seus irmãos, na sua biblioteca pode ver-se, há mais de quarenta anos, até hoje, um exemplar do dito livro, autografado pelo seu amigo tradutor.  
Mas, continuando:  
O casal, muito selectivo nos seus relacionamentos, integrou no grupo um primo muito chegado, o Francisco, e um amigo deste, o Bernardo, ambos já formados em “Económicas e Financeiras”. O primo Francisco era “um cérebro”, segundo constava, e estava já bem colocado num Organismo Público. Não obstante, era de uma simpatia e de uma simplicidade tocantes. Por sua vez, Bernardo, apesar de simpático, deixava transparecer uma certa vaidade, um certo snobismo. A verdade é que a selecção se fez naturalmente e, para além do casal, dois pares se formaram: Carmen e Francisco, Conceição e Bernardo. E digo “pares”, devido apenas à forma como se aliaram. Carmen e Francisco falavam sem parar e riam a bandeiras despregadas; Conceição e Bernardo, muito contidos, falavam menos e sorriam apenas. A mistura resultou num grupo que ora falava de cultura e coisas sérias, ora ria divertido, fazendo chiste de qualquer banalidade. Dos passeios que fizeram juntos, Carmen recorda especialmente uma visita a Óbidos. Como se deliciou com aquela paisagem que dir-se-ia saída da paleta de um pintor: o casario muito branco, envolvido pelas altas e negras muralhas; as ruas minuciosamente empedradas; as flores e trepadeiras nas velhas varandas, colorindo com a sua policromia a brancura das fachadas; as igrejas e pequenas ermidas, que escondiam verdadeiros tesouros. E as sucessivas provas de vinho do Porto pelas várias “capelinhas”? Essas, contribuíram para avivar o espírito alegre do grupo. Em suma, foi um dia inesquecível!
Outros encontros se sucederam. Almoços, passeios, sessões de “slides” em casa de Francisco. Por razões pessoais, Bernardo foi o primeiro a abandonar o grupo. Francisco mantinha-se e começava a demonstrar um interesse especial por Carmen. O facto de ser uns sete ou oito anos mais velho, deixava-o um tanto inibido. Um dia, aconselhou-se com os primos:       
– Gosto muito da Carmen. É muito inteligente e de uma alegria cativante. Gostaria mesmo de casar com ela, mas receio que não me aceite. Que acham? 
– Tu é que sabes... Carmen tem óptimas qualidades, mas não tem um curso superior como tu... Precisas de uma mulher “formada”, para melhor te acompanhar no futuro promissor que te espera... 
Fosse por isso ou pela sua timidez, o certo é que Francisco não ousou declarar-se e, entretanto, o grupo desfez-se. Os concursos a que se tinham submetido deram os seus frutos, e cada qual seguiu o seu caminho. Carmen deixou o Laboratório, onde tinha permanecido quatro anos e, para alegria de sua mãe, ingressou na Função Pública. 
Só muitos anos mais tarde, por casualidade, Carmen soube da conversa havida entre Francisco e os primos seus “conselheiros”. Veio a saber depois, que Francisco se tornara uma figura de vulto na economia portuguesa e que, após ocupar vários cargos de destaque, chegou a Ministro de um dos governos que se seguiram ao 25 de Abril. E mais: tal como o aconselharam os íntimos, casou com uma mulher “formada”. Se essa particularidade o fez feliz ou não, só ele poderá saber... O que pude perceber foi que Carmen não sentiu o menor abalo, pois nunca o vira senão como um amigo.  
Quem parece que se deu mal com aquele casamento foram os autores do “sábio” conselho, pois, não sendo eles próprios “formados”, logo se viram, discretamente, afastados da nova família, pela “bem formada” esposa de Francisco. Curioso, não?...

 

 
Livro de Visitas