Capítulo XVII
EPILOGO
Esgotado o material que a minha amiga me tinha confiado e, também,
os meus apontamentos soltos, comecei a impacientar-me. Eu já tinha
galgado uma montanha de papéis. Como estaria a escalada de Carmen?
Algo me dizia que devia estar prestes a chegar ao fim.
Movida pela minha intuição, não resisti a telefonar-lhe.
– Não acredito! – Ouvi do outro lado do fio.
– Carmen? – Perguntei.
– Eu própria, minha amiga! Já não conhece a minha voz?
– É que fiquei surpresa... Porquê o “não acredito”?
– É que estava justamente a pensar em contactá-la ainda hoje.
– Quer dizer que já transpôs a sua montanha?
– Isso mesmo! Dei por terminado o meu trabalho e já está entregue.
Posso agora respirar um pouco.
– Então, ver-nos-emos em breve?
– Amanhã mesmo, se quiser...
– Óptimo! Onde?
– No Jardim Botânico, pelas quatro horas, está de acordo?
– É um lugar esplêndido! Lá a espero.
Apesar de Setembro estar a findar, o Verão não se mostrava disposto
a deixar-nos. No dia seguinte, sequiosa da frescura e exotismo do
lugar escolhido, caminhei alegremente ao encontro de Carmen.
Surpreendentemente, ela já me esperava. Abraçámo-nos como se não nos
víssemos há anos. A primeira coisa que me ocorreu dizer-lhe foi:
– De novo um jardim! Vejo que continua a amá-los!
– Eu não lhe disse, minha amiga? – Sinto-os do mesmo modo que os
sentia Natércia Freire quando escreveu:
“Possuem ou não os jardins, na penumbra da sua vegetação, na
humidade cheirosa do seu húmus, na dignidade orgulhosa da sua
solidão e do seu silêncio, uma alma atenta e profunda, capaz de
entender os poetas e os amantes, felizes ou desgraçados?! Parecem
feitos para o encantamento das crianças, para o gozo da sua
imaginação, para seu leito e seu baloiço, seu esconderijo e, um dia,
sua saudade. Mas na cósmica harmonia que os circula, feita de Água,
Luz e Vermes, eles são a expressão de uma alma hermética, antiga e
atenta, coerente com o eterno rodar do mundo, em seu despertar
deslumbrado, e seu adormecer fatigado.”
– Tal como disse a escritora e poeta, eles foram meu baloiço, meu
esconderijo e, agora, a minha saudade.
– Na verdade, Carmen, ninguém para sentir e amar os jardins como os
poetas – comentei.
Depois, falámos das nossas famílias, das graças do Diogo, dos dias
que nos separaram, da nossa saudade recíproca e, por fim, dos nossos
trabalhos literários.
Mostrei a Carmen o que tinha escrito a partir das notas que ela me
tinha confiado. Mostrou-se admirada:
– Tudo isto?
– Gostaria que lesse, não sei se traduzi exactamente as suas
memórias.
– E que importância teria se assim não fosse? A ideia é escrever um
romance, não uma biografia, quando muito uma mistura de ambos.
– Mas, sem as suas experiências, eu jamais o escreveria – retorqui.
– Digamos que eu lhe forneço a matéria-prima, minha amiga. Contudo,
sem o artífice toda a matéria permaneceria em bruto. E, neste caso,
eu não poderia tê-la posto em melhores mãos.
– É que há momentos em que me sinto tão insegura... Tudo me parece
imperfeito.
– Isso é próprio do artista, seja qual for a arte em que se empenhe.
Quantas vezes eu sinto o mesmo em relação à minha poesia. Quantos
sentimentos rasgados, deitados no lixo... Todavia, é essa
insegurança, essa busca da perfeição, que nos faz crescer. Portanto,
minha amiga, o segredo é continuar! “Labor omnia vincit improbus.”
– Como? Importa-se de traduzir?
– São fragmentos de dois versos das “Geórgicas”, de Virgílio. “O
trabalho perseverante vence todos os obstáculos.”
– E agora é tarde para parar, não é verdade? Só lhe peço que não me
abandone, Carmen, sentir-me-ia perdida...
– Não creio. Mas prometo caminhar consigo até ao fim desta aventura,
embora se avizinhem tempos difíceis...
O que já se avizinhava era o cair da tarde e, pela necessidade de
encerrar o jardim, quase fomos postas na rua. Combinámos uma sessão
de trabalho para daí a dois dias, exclusivamente dedicada ao nosso
romance, jurando ambas que da próxima vez não nos perderíamos em
divagações...

De volta a casa, quem se perdeu em divagações fui eu: “Será que
ainda falta muito para Carmen terminar a sua história? Que surpresas
me reservará ainda, o jorrar da sua fonte?”
Esta dúvida excita-me e atormenta-me! Se por um lado, anseio
concluir este romance, por outro, é como se me doesse já o vazio da
obra terminada...
Para amenizar um pouco a minha dúbia intranquilidade, resolvi
preencher o tempo dando uma olhadela, de relance, à História de
então. Relembro-lhes que, depois da última retrospectiva, Carmen
teria à volta de vinte e dois para vinte e três anos.
Estávamos, portanto, em 1961 – um ano “quente” para Portugal. A
segurança do Estado Português sofre abalos em várias frentes. Logo
no princípio do ano, o capitão Henrique Galvão, ferrenho
oposicionista ao governo de Salazar, toma de assalto o paquete Santa
Maria; em Fevereiro, têm início as lutas pela independência de
Angola; e em Março deflagra no Norte daquela colónia uma onda de
violência contra a presença portuguesa em terras africanas, o que
leva Portugal a encetar uma guerra ultramarina que duraria nada
mais, nada menos, que treze anos. Falar dela será escusado. Todos
sabemos as vidas que destruiu, o sofrimento que causou.
Melhor do que eu o faria agora, os meios de comunicação social
têm-se encarregado de trazer, frequentemente, ao conhecimento dos
mais jovens o que foram esses anos negros, o que representaram de
terror, invalidez e morte para outros tantos jovens como
eles...
E o ano culmina com a ocupação de Goa, Damão e Diu pelas tropas da
União Indiana.
Pelo meio, algumas tentativas internas de rebelião, sempre
abortadas, eram o espelho da revolta reprimida que grassava em
Portugal contra a política de repressão vigente.
E como ia o resto do mundo?
Impossível não falar do Muro de Berlim, “O Muro da Vergonha!”
Finda a Segunda Guerra Mundial, a constituição de duas Alemanhas
inseridas em blocos militares antagónicos, fez de Berlim Oeste, sob
administração da Alemanha Ocidental, uma ilha no território da
Alemanha Oriental. Centenas de milhares de cidadãos do Leste,
sobretudo quadros técnicos, aproveitam o estatuto internacional da
cidade para fugir para o Oeste. Foi então que o Muro, que se
estendia por mais de cem quilómetros, dividindo a cidade em dois
sectores, foi mandado levantar – justamente neste ano de que falo –
pelas autoridades do sector oriental, para evitar que os cidadãos
descontentes com o regime que aí imperava se passassem para o sector
ocidental. Esta medida que, por um lado, veio pôr fim à hemorragia
demográfica, insustentável para a jovem República Democrática Alemã,
por outro lado gerou, como todos sabemos, efeitos desumanos
indescritíveis: famílias irremediavelmente separadas; trabalhadores
privados dos seus empregos; seres humanos ceifados da sua liberdade
individual, confinados a uma barreira intransponível.
Quantos inconformados perderam a vida ao tentar escalar aquele muro!
Só passados vinte e oito anos, mais precisamente no ano de 1989,
outros ventos sopraram, e com eles ruiu o Muro de má memória.
Digna de nota, também em 1961, é a viagem de satélite levada a cabo
por Yuri Gagarine da U.R.S.S., o primeiro homem a cruzar o espaço!
De regresso à actualidade, lembro que amanhã irei encontrar-me de
novo com Carmen, facto que, só por si, já faz nascer em mim uma alma
nova!
