Carmo Vasconcelos

 

 

O VÉRTICE LUMINOSO DA PIRÂMIDE
(Romance) 
 

por

Carmo Vasconcelos

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I PARTE
 
Capítulo XVIII
 
 
 
Apesar da chuva que resolveu brindar-nos com a sua aparição, nenhuma de nós desistiu do encontro marcado. Uma casa de chá muito acolhedora e, providencialmente, “às moscas”, deu-nos a tranquilidade desejada. Depois de nos libertarmos das incómodas capas molhadas e dos não menos incómodos chapéus-de-chuva, sentámo-nos confortavelmente, enquanto pedíamos um chá quente e reconfortante. A minha ansiedade não perdia tempo: 
– Vamos ao trabalho, Carmen?      
– Calma! – Respondeu-me. – Ainda não bebemos o nosso chá... 
Com Carmen tudo é assim! Leva a vida num ritmo muito próprio, sempre disposta a aguardar que “algo” lhe dê o sinal de partida – lhe indique o momento certo para dar um passo. Nunca se preocupa com o futuro. “É uma perda de tempo”, costuma dizer. E o passado, relembra-o, sim, mas como uma porta que se fechou.  
Não posso deixar de confessar que, por vezes, a sua tranquilidade me desconcerta. O que fez Carmen da sua turbulência juvenil? Da sua ânsia de abarcar o mundo? De que modo lhe teria a vida ensinado que não vale a pena correr atrás seja do que for, impacientar-se, remar contra a maré?... 
Tão embrenhada estava nestes meus pensamentos, que só difusamente ouvi a voz de Carmen: 
– Então, minha amiga, vai deixar arrefecer o chá? 
Como que apanhada em falta, imiscuída numa intimidade que não me dizia respeito, respondi apressadamente: 
– É que prefiro bebê-lo aos poucos e menos quente... 
– Sendo assim, que tal começarmos a trabalhar? 
– Estou pronta! – Quase gritei. 
– Terá de recordar-me onde ficou! 
– Deixe-me ver... Ah! Quando a Carmen se tornou funcionária pública, calculo que por volta de 1961. 
– Ah! Tinha eu vinte e dois para vinte e três anos... 
Dito isto, Carmen ficou silenciosa. Parecia com pouca vontade de prosseguir, o que me levou a perguntar: 
– Sente-se bem? Se não está com disposição...
– Não, não, estava somente a rememorar, a despedir-me de uma menina que rapidamente se tornaria numa mulher. – Abeiramo-nos de uma fase de mudança, minha amiga, da primeira grande viragem da minha vida. 
Lentamente, Carmen começava a abrir o portal das suas recordações. Pareceu-me notar uma nuvem de tristeza no seu olhar, fixo algures, num ponto longínquo. Aguardei em silêncio, temendo que qualquer interrupção quebrasse o fluir das suas lembranças.  
– Que tempos aqueles… – começou Carmen. – Cupido insistia em jogar comigo o jogo da “cabra-cega”. E eu, de olhos vendados, incapaz de o apanhar! Incapaz também de desistir!  
Ele deixava-se tocar, para logo me fugir...  
E nesse jogo de dá e tira me foi envolvendo, até que um dia mudou de jogo, deixando-me na mão uma charada para resolver...     
Foi quando pôs Jorge no meu caminho. Tinha a minha idade, era bonito, elegante, gentil e meigo. Trabalhava como desenhador e cursava o Instituto Industrial com vista a tornar-se engenheiro. Alguns meses depois de nos conhecermos, já falava em casamento. Tinha pressa em me apresentar aos pais, mas eu ainda me sentia hesitante. Ainda não privara com ele o suficiente para lhe definir o carácter. Apresentei-o à minha mãe que, caso raro, até gostou dele. A partir daí, passou a visitar-nos.         
Entretanto, Edgar estava de namorada fixa. Impossível eu não saber, dada a proximidade das nossas moradas. O mesmo se passava com Edgar, que já se tinha apercebido do meu recente namoro com Jorge. 
E Cupido continuou maquinando o quebra-cabeças que tinha inventado para mim.  
Um dia, era uma sexta-feira de Verão, Edgar acercou-se de mim com uma atitude sobejamente minha conhecida: 
– Preciso falar contigo! 
– Sobre o quê?  
– Sobre nós! 
– Não vejo o que possa ser! Já passou tanto tempo...
– Venho repetir-te o que sempre te disse: que contigo era para casar!
– Porquê repeti-lo agora? 
– Porque desta vez é definitivo! Acabei o meu curso de engenharia, estou bem empregado e ofereceram-me uma compensadora transferência para Moçambique. Quero aceitá-la e ir casado. Tenho poucos meses para resolver. Venho propor-te que cases comigo e me acompanhes.
Por segundos, fiquei muda. Tremiam-me as pernas. Depois, disfarçando o meu nervosismo, argumentei: 
– Não percebo. Sei que estás de namorada fixa! 
– Não é com ela que desejo casar. É contigo! 
– Deves saber que comecei há pouco um namoro e, desta vez, parece-me sério.  
– Eu sei! No entanto, ambos estamos a tempo. Sempre gostei de ti, apesar dos meus devaneios. Não precisas responder já. Pensa, fala com a tua mãe. Eu já falei com os meus pais, sabes como eles gostam de ti – apoiaram de bom grado a minha escolha.   
– Não sei... Além do mais, tenho o meu emprego no Estado, que me custou tanto a conseguir...
– Não precisarás trabalhar, vou com uma situação muito confortável – garantiu Edgar.
Porque estava na hora de me apresentar ao serviço, despedimo-nos à pressa, com um rápido mas terno apertar de mãos, enquanto Edgar ia dizendo:
– Telefono-te amanhã!
Lá fora, a chuva continuava a cair. A minha mão estava gelada, quase dormente, de escrever ininterruptamente. 
Não tive outra alternativa senão pedir a Carmen que descansássemos um pouco. 
– Com certeza, minha amiga! Se pedíssemos mais um chá? 
– Seria óptimo, porque o meu gelou. 
Enquanto aguardávamos a nova bebida quente, não pude deixar de dizer: 
– Mas que vida amorosa acidentada, Carmen! Cupido não hesitava em cravá-la de setas! 
– E não sabe de todas, minha amiga! Cupido sempre foi um brincalhão! Felizmente, apesar de me ter incluído nas suas “vítimas” preferidas, quase todas as setas que me dirigia eram de papel – tocavam-me e caíam sem deixar mossa. De aço mesmo, daquelas que enterram fundo e deixam cicatrizes quando as arrancamos, não mais que duas, até hoje... Mas, quanto a isso, o melhor é ficarmos por aqui, já que fizemos uma promessa de não nos perdermos hoje em divagações... 
– Melhor é quebrarmos a promessa – sugeri. – Será que vamos conseguir cumpri-la? 
– Também acho! Está quebrada! – Disse Carmen, rindo.
Só então reparámos que o chá que pedíramos já fumegava debaixo dos nossos narizes, transportado decerto por mãos invisíveis, pois nem demos conta de que já o tinham trazido. Bebemos uns goles, e mais reconfortadas dispusemo-nos a prosseguir. Carmen acendeu mais um cigarro e recomeçou: 
– A minha cabeça estalava. Era uma decisão importante! A primeira realmente importante com que me defrontava. Dela dependeria a minha felicidade futura!  
– Por um lado, Edgar era tudo o que eu sempre desejara, além de que realizaria ainda o meu sonho de uma vivência em terras de além-mar... No entanto, quem me garantia que ele tinha mudado, que o espírito de Don Juan o tinha abandonado para sempre? Por outro lado, havia Jorge, tão apaixonado e fiel... Cupido desta vez excedera-se! Era, na verdade, um quebra-cabeças! Uma charada que eu não conseguia resolver! Quando regressei a casa, contei tudo à minha mãe e ao padrinho. A mãe, sempre cautelosa, alertou-me: 
– Sabes como o Edgar é mulherengo! Além disso, perderias o teu emprego. E se tiveres problemas, lá tão longe, não terás quem te ajude! Jorge parece-me mais sério, mais digno de confiança. E com ele, ficarás perto de nós...        
O padrinho não era da mesma opinião.  
– Tu é que deves decidir! Sempre gostaste de Edgar, nós bem sabemos. E ele parece gostar de ti a valer, para te fazer essa proposta... Pode ser que tenha mudado... 
Todo aquele arrazoado só serviu para me deixar mais confusa. A minha cabeça duvidava, o meu coração impelia-me a aceitar sem reservas. Qual deles estaria certo?  
No dia seguinte, o telefonema de Edgar não se fez esperar: 
– Então, Carmen, pensaste no que te disse? 
– Não fiz outra coisa, mas ainda estou confusa.
– Não foi para saber já a tua resposta que telefonei. É que a minha mãe gostaria de reafirmar o meu pedido, na presença da tua mãe. É sábado, podíamos sair os quatro logo à noite, que achas? 
– Telefono-te mais tarde a confirmar. Não sei se a minha mãe estará de acordo... 
– Fico à espera. Um beijo!
– Outro! – Respondi.  
A noite chegou. A mãe concordou e combinámos sair.
Edgar tomou o caminho da Marginal. À frente, a seu lado no carro, eu podia sentir-lhe o perfume, o calor do seu corpo. As duas senhoras conversavam no banco de trás, o rádio tocava baixinho. Sempre que podia, Edgar tirava a mão do volante, afagava-me o rosto, apertava-me as mãos. A minha emoção era indescritível. O meu amor, apenas adormecido, acordava de novo com toda a sua força. Estava uma noite quente, um céu profusamente estrelado, e o sussurro do mar parecia dizer-me: “Por que esperas? Aceita! Aceita! Não é ele o teu príncipe encantado?”
Ficámo-nos por um local nocturno muito acolhedor. Tinha uma música ambiente, cálida e romântica. Para mim, era uma estreia, a primeira vez que pisava uma “bôite”! Os “slows” sucediam-se e enquanto as nossas mães falavam, talvez sobre o nosso futuro, nós dançávamos, frente aos seus olhos enlevados... A palavra casamento tinha vergado Diolinda. O marulhar das ondas misturava-se agora com as palavras de amor que Edgar me segredava. A minha cabeça rodopiava e tudo me parecia irreal, como num conto de fadas.
– Então, querida, já pensaste?... Já não me amas? 
– Sabes que te amo! Sempre te amei!
– Então, por que não me dás a resposta que quero ouvir? 
– Dá-me tempo. Só mais uns dias... Até segunda-feira, concordas? 
– Combinado! Segunda-feira dás-me a resposta. 
Na verdade, nem eu própria sabia por que não lhe respondia de imediato, se desde o primeiro instante tudo dentro de mim gritava: “Sim! Sim!” 
A noite acabou mais quente do que começara, e o nosso beijo de despedida foi mais terno e sensual do que nunca.

 


No dia seguinte, domingo, saí a passeio com os padrinhos, como era hábito. Emocionada, contei à madrinha o que se passara. Ela deu-me a sua opinião, sem hesitar: 
– Por que esperas? Se é de Edgar que gostas, como eu sei, deves ficar com ele!
O padrinho Rui dirigia-se, como de costume, à piscina do Hotel do Estoril. Foi quando me lembrei que Edgar me dissera ir passar o domingo na casa de veraneio que os pais possuíam numa praia não muito longe dali. Não resistindo à ideia de o ver, expor-lhe as minhas dúvidas, destrinçar mais claramente os seus sentimentos, pedi ao padrinho que mudássemos o programa e fôssemos até lá. Um tanto contrafeito, Rui, que como eu já disse não gostava de praia, acabou por me fazer a vontade. 
Os meus olhos percorriam a praia de ponta a ponta, na esperança de ver Edgar, e o meu coração batia acelerado na expectativa da surpresa que lhe faria. 
O que eu não sabia, ainda, era que Cupido continuava a fazer as suas traquinices... 
Só o percebi quando ao fim de algum tempo, avistei Edgar passeando junto ao mar, pisando a areia molhada com aquele jeito de andar que eu tão bem conhecia. Porém... não caminhava sozinho. Uma jovem caminhava a par e passo com ele, pendurada no seu braço. Reconheci-a. Era a sua última namorada.   
A minha reacção foi instintiva! Levantando-me de um salto, atravessei a praia, correndo, mesmo a tempo de, quase chocando com eles, mergulhar nas ondas, bem na frente deles. Deu para perceber que Edgar me tinha visto, e isso era tudo o que eu queria naquele momento.  
A minha decepção foi tal que nem o mergulho gelado conseguiu esfriar-me a cabeça. Regressei rapidamente para junto dos padrinhos, que me fitaram, atónitos, pois não tinham percebido aquele meu repentino desejo de mar...  
Tentando disfarçar o meu nervosismo, eu apenas disse: 
– Se o padrinho quiser, podemos ir embora. Já tomei o meu banho, e como está na hora do almoço... 
– Mas, que te deu? Porquê tanta pressa?          
– Não tive tempo de explicar. Edgar encontrava-se já junto de nós. Nervosíssimo, só conseguia dizer: 
– Não é o que estás a pensar!  
– Não estou a pensar nada! – Respondi, pondo um ar natural e continuando a vestir-me. 
– Estava precisamente a tentar acabar tudo com ela!  
– Não tens que me dar explicações! 
– Carmen! Ouve-me, por favor!     
– Já estamos de saída. Amanhã falamos!
E com estas palavras me afastei, seguindo os padrinhos que, discretamente, já se haviam retirado.
– Mas que situação! – Não pude deixar de intervir. 
– É para que veja, minha amiga, como Cupido me dava com uma mão e me tirava com a outra! 
– E o que decidiu, depois disso? 
– Depois disso, o meu orgulho rugia dentro de mim como um leão enjaulado, não me deixando ouvir mais nada! Só desejava que o dia seguinte chegasse depressa para enviar a Cupido a solução da charada que ele, maldosamente, tinha arquitectado para mim.
– Não me diga que? 
– Não sei o que está a pensar, minha amiga, mas o que eu fiz no dia seguinte, bem cedo, foi pegar no telefone e dizer a Edgar:  
– Conforme o prometido, venho dar-te a resposta.
– E então?  
– Não estou interessada na tua proposta! 
– E que respondeu ele? – Interrompi, de novo, ansiosa. 
– Por momentos, ficou mudo, mudo de espanto, como pode imaginar. Depois... um lacónico “Está bem!” encerrou a conversa e a nossa longa relação. 
– Só assim?... Apenas com essas palavras? – Indaguei, incrédula. 
– É verdade, minha amiga! Poucas palavras, mas as bastantes para alterarem definitivamente o rumo do nosso futuro...
– Futuro que iremos saber, não é verdade?   
– Certamente, minha amiga! Mas não hoje! Começa a fazer-se tarde.
– Tem razão! Além disso, já me forneceu material suficiente para uns dias de escrita.
– Os seus ouvidos merecem-no! Como dizia Goethe: “Falar é uma necessidade. Escutar é uma arte.” 
– Bela frase para terminarmos o nosso trabalho de hoje – comentei.
Já de saída, reparámos que a chuva tinha passado, dando lugar a um suave vento morno que trazia até nós um agradável cheiro a terra molhada. Foi quando Carmen me surpreendeu, dizendo:
– Ah! Que cabeça a minha! Se não fosse este cheiro característico que paira no ar, não me lembraria do poema que trouxe para lhe oferecer... Verá como ele se coaduna com esta tarde de chuva que passámos juntas, saboreando chá e memórias... 
– Muito obrigada, Carmen! Nada como finalizarmos estas emocionantes memórias, com o bálsamo da poesia!
 
 
BAILANDO COM A CHUVA
 
Lá fora... cai a chuva, indiferente,
Dançando nua, gelada e ondulante,
Invade-me o seu frio penetrante,
E ensopa-se a minha alma lentamente.
 
Baila com a chuva o meu imaginário,
A valsa de ontem, memórias esquecidas,
Rodopiam sonhos, paixões adormecidas,
Pecados inconfessos, segredos de um diário.
 
É um bailado grotesco, alucinante,
Vertiginoso, cruel, fantasmagórico,
A um só tempo deprimente e eufórico,
Sombras chinesas numa tela esvoaçante.
 
Lá fora... cai a chuva, persistente!
Já mal a ouço, absorta em devaneio,
De alma alagada, mente náufraga, sem freio,
Meu corpo enrodilhado e indolente.
 
Lá fora... pára a chuva de repente!
E um odor a seiva, a pão, terra molhada,
Enxuga-me a alma e faz brotar a gargalhada
Que devolve à vida o meu corpo já dormente!
 
Nas asas do vento morno, o passado foge!
Do porão da alma, eu tranco as escotilhas!
Mudo o cenário, troco as sapatilhas!
E volto para o palco, bailarina de hoje!


 

 

 
FIM DA PRIMEIRA PARTE

 

 
Livro de Visitas