Capítulo VII
Sentada à mesa do Café Caleidoscópio, aguardo Carmen, que
prometeu transportar-me hoje de volta aos anos 50/52, ou talvez
mais, se tivermos tempo. Olho em redor do local, como sempre por
ela escolhido. Não é um café vulgar. Um salão enorme, à altura
de um segundo andar, forma um espaço completamente envidraçado.
Lá fora, flores, árvores, e lagos onde esvoaçam patos, deslizam
barquitos movidos a pedais. Basta-me olhar em redor para ter a
sensação de estar pairando sobre a paisagem. O ar condicionado
completa a sensação de frescura, imprescindível num dia de calor
como este. Como a minha amiga tarda em chegar, vou tentando
situar-me na época prometida, envolver-me na atmosfera que a
rodeava então.
Se a memória não me falha, o poder e a ambição continuavam a
gerar guerras pelo mundo. Os homens, esquecidos de que a Criação
formou um Universo sem fronteiras, pertença de toda a
Humanidade, querem a todo o custo delimitar possessões, demarcar
territórios, alargar poderes, fazer alarde do seu egoísmo. E,
para isso, não hesitam em continuar a derramar o sangue dos
inocentes.
É o início da Guerra da Coreia, tão vivamente pintada por
Picasso no seu quadro: “Massacres na Coreia”.
A origem desta guerra centrou-se na ocupação da península
coreana, em 1945, por tropas russas a norte e tropas
norte-americanas a sul. A rivalidade entre as duas
superpotências impedia uma solução comum, fazendo nascer daí
duas repúblicas de sinal político diferente. Em 1950, as tropas
norte-coreanas invadem a Coreia do Sul. A política de Truman
levou à intervenção da China e a guerra internacionalizou-se.
Só passados três anos, as partes beligerantes chegaram a um
acordo de cessar-fogo que determinou o paralelo 38 como
fronteira entre as duas Coreias. Entretanto, quantos massacres,
quantas vidas ceifadas (algumas ainda no ventre prenhe de suas
mães), quanta juventude dizimada, quantas viúvas e filhos
órfãos!
Em Portugal, Salazar orgulhava-se de manter a “paz”; as “guerras
internas” dominadas, refreadas – todos sabemos a que preço! –
Contudo, na sombra, a oposição vai crescendo, engrossando as
suas fileiras, atrevendo-se a mostrar o rosto.

Tenho que deixar a História por aqui! Carmen chegou! Como é seu
hábito, atrasadíssima em relação ao combinado.
Para se redimir, e antes que eu pudesse abrir a boca, coloca-me
na mão um rolo de papel, atado com uma fita dourada.
– É para si, minha amiga!
– Como assim? – Não faço anos!
O seu ar misterioso e ao mesmo tempo gentil, aguçou a minha
curiosidade. Apressei-me a desatar a fita cor de ouro e o rolo
de papel abriu-se para mim. Comecei a lê-lo. Era um poema.
Demorei algum tempo a saboreá-lo. Por fim, só consegui dizer:
– Obrigada, Carmen! É muito bonito!
– Que é isso, minha amiga? Foi apenas uma brincadeira. Uma
recompensa pelos meus atrasos.
– Posso mostrá-lo aos nossos leitores? – Perguntei.
– Se faz questão...
– Será um bom início para o nosso trabalho de hoje...
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UTOPIA
Ai de quem não alberga um ideal
E não sabe atear do sonho a chama,
De quem da vida nada mais reclama
Do que a mera verdade temporal!
Ai de quem escorraça a utopia
Esvaziando-se de vida aos poucos,
Dos que nunca foram chamados loucos
Porque não deram azo à fantasia!
Ai de quem não consegue ver estrelas
E em redor tudo o que vê é lama,
De quem por baixo seu olhar derrama
E não aponta ao alto para vê-las!
Ai de quem não consegue vislumbrar
A comédia escondida sob o drama,
De quem nessa cegueira chora e brama
Sofrendo as suas penas a dobrar!
Bendito o que com sonho e utopia
Ousar distribuir a sua luz,
Pois desse se dirá um certo dia
Que mais leve tornou a nossa cruz! |
– Agora que já divagámos, voltemos ao mais importante – o seu
romance, diz-me Carmen!
– Será que vale a pena, Carmen…? Será que chegarei a vê-lo
impresso? – Murmuro.
– Coragem, amiga, ajudá-la-ei! Continuemos!
E, de novo, Carmen abre as suas memórias.
Carmen ronda então os treze anos. Começam a vislumbrar-se nela
os contornos de uma mulher muito feminina. Seios precocemente
desenvolvidos, pernas bem torneadas, cintura fina. E cresceu,
embora não muito.
Findos com sucesso os dois anos preparatórios, Carmen é obrigada
a mudar de escola. Também longe de casa, situava-se esta junto à
Igreja de São Vicente, nas imediações do Castelo de São Jorge e
da Feira da Ladra. O percurso era obrigatoriamente feito a pé –
cerca de três quartos de hora para lá e outros tantos para o
regresso – pois não havia transportes compatíveis. Lembremo-nos
de que nessa altura ter pais que levassem os meninos à escola,
de automóvel, era um luxo raro.
Escusado será dizer que Carmen e Conceição continuavam
companheiras inseparáveis. Conceição ainda mantinha a sua figura
frágil, formas dissimuladas, os olhos talvez mais azuis,
realçados por fundas olheiras negras que tentava a todo o custo
disfarçar. Cada vez mais forte, porém, a sua louvável vontade de
vencer, movida pela certeza de que estava no estudo a sua
felicidade futura. Carmen não tinha tempo para pensar nisso.
Deixava-se levar ao sabor da maré. Tinha outras coisas na
cabeça... Ler, viajar, conhecer o mundo, eram os seus sonhos.
Mas deixemos Carmen com os seus sonhos e deitemos um olhar à sua
realidade de então – ao seu lar e à sua família.
Estamos já em 1952. Carlos Alberto tinha partido para fazer o
serviço militar em Macau. Carmen recorda-se bem dos navios
cheios de tropas junto ao Cais de Alcântara, onde foi com sua
mãe despedir-se dele. Muitos gritos, muitas lágrimas; abraços e
beijos sôfregos, como se fossem os últimos; depois, nuvens de
lenços brancos acenando e os navios afastando-se lentamente,
implacáveis, tornando-se cada vez mais pequenos na distância,
até desaparecerem na linha do horizonte, como se fossem
barquitos de papel. Neles partiam centenas e centenas de
“pedaços da própria carne” dos seres que, despedaçados, ficavam
imóveis no cais, de olhar estupidificado colado ao rio.
Diolinda, apesar de endurecida pela vida, chorava copiosamente,
dizendo entre soluços: “Meu querido filho, já não volto a
ver-te...” Nesse momento, varriam-se-lhe do coração todos os
dissabores, todas as arrelias, todas as palavras e acusações
amargas que já tinham brotado daquele filho – acções e palavras
que não eram senão o fruto da sua desajustada existência.
Carmen teve saudades desse irmão. Era de todos o que lhe
demonstrava mais carinho, mais ternura, como se depositasse nela
todas as suas carências afectivas. Carlos Alberto tinha um
coração enorme, daqueles que despem a própria camisa para dar a
um necessitado. Carmen não pode esquecer o dia em que ele,
aflito, levou para casa um gato, embrulhando-o na sua camisa
branca que, de imediato, ficou tingida de sangue. O pobre bicho
tinha sido atropelado. Seu irmão limpou-o, tratou-lhe as
feridas, deu-lhe leite, e o animal recompôs-se. Em breve,
ronronava em volta das pernas do seu salvador. Para além da
faceta altruísta, Carlos Alberto era bem-falante, alegre e
divertido; contava histórias mirabolantes e cantava com uma bela
voz de tenor.
– Gostava muito dele! Era um palhaço que ria para não chorar! –
Deixa escapar Carmen.
– Disse: “gostava”? Quer dizer que…?
– Isso mesmo, minha amiga! Já não se encontra entre nós!
Nesta altura, a minha narradora sente-se incapaz de continuar.
Vejo lágrimas nos seus olhos, lágrimas que ela tenta disfarçar
puxando de um lenço e limpando os óculos.
– Desculpe, foi mais forte do que eu. Apossou-se de mim uma
saudade imensa que arrastou com ela recordações terríveis, não
dessa época, mas posteriores. Recordações de assassínio e
morte... Duma grande dor, também.
– Carlos Alberto? Assassinado…?
– Apenas com quarenta e seis anos... Perdoe-me se não posso
falar disso agora, minha amiga.
– Mas? A Carmen, sempre tão alegre… – titubeei, incrédula.
– Nem sempre, minha amiga, nem sempre! Ainda verá rolar muitas
lágrimas!
Carmen recompôs-se rapidamente – mais rapidamente do que eu,
confesso!
– E, recomeçou, rapidamente, como se quisesse atropelar sem dó
aquela dor revivida.
As cartas de Carlos Alberto iam chegando regularmente de Macau.
Nelas, a par dos episódios divertidos que contava, podia
sentir-se a sua grande solidão interior, a carência de mãe que
ele nunca conseguiu ultrapassar. Acompanhando as cartas, sempre
enviava “santinhos” (estampas de papel) com ternas dedicatórias
para a sua irmãzinha querida. O que o tinha levado a ser tão
religioso, Carmen não sabe explicar.
– Ainda conservo essas estampas – diz-me Carmen, visivelmente
comovida. Trouxe até algumas para lhe mostrar. Veja!
– Incrível! Nem parece que passou por elas quase meio século! –
Exclamo, emocionada, ao ler as dedicatórias.
Carmen prossegue:
– Em correio separado, Carlos Alberto enviava-me sedas chinesas,
brocados berrantes – para fazer vestidos, dizia ele. – Sabe que
ainda guardo numa mala, como relíquia, um corte de brocado
“rosa-shocking”, do qual nunca me atrevi a fazer fosse o que
fosse? Em compensação, as sapatilhas de veludo verde com
bordados chineses, usei-as até não terem conserto. Com elas
fazia as delícias das minhas colegas de escola, dançando em
pontas sobre as secretárias reservadas aos professores. Um dia,
fui mesmo apanhada por um deles que resolveu entrar na sala mais
cedo. Mas, porque era benévolo, desculpou-me.
Do que Carmen me contou depois, se bem entendi, quem não
desculpou a Carlos Alberto foi o Exército. Fez tais tropelias em
Macau que foi deportado para Cabo Verde, de castigo. Era o pular
do muro depois do recolher obrigatório, as saídas do quartel sem
dispensa, o regresso a cair de sono e de bebida depois das
noites de estúrdia, etc. Constou na família, embora à boca
pequena, que se tinha apaixonado por uma chinesa e que, obrigado
a deixar Macau, teria por lá deixado o coração e um filho. Foi
coisa que Carmen nunca soube ao certo. O que sabe é que ele
regressou de Cabo Verde, são e salvo, talvez por volta de
54/55.
Vítor Manuel e Fernando José tinham-se tornado também uns belos
jovens. Porém, de temperamentos e gostos diferentes.
Vítor Manuel vivia para os livros e para a escrita. As faces um
tanto pálidas, uma certa tristeza no olhar escuro e profundo,
uma timidez mal disfarçada, davam-lhe um ar de artista
incompreendido. O cabelo negro, um pouco comprido na nuca (à
poeta, como se dizia então) usava-o sempre impecavelmente
penteado, à custa da “brilhantina” muito em uso na época; uma
camisola branca de gola alta, um sobretudo azul-escuro pelos
tornozelos (que tinha a vantagem de encobrir as calças puídas) e
uma pasta debaixo do braço completavam o figurino. E não se
julgue que esse era o traje de Inverno... Era a sua
indumentária, mesmo em pleno Agosto... A sua imagem de
marca!
Todos os seus amigos, entre eles, o Toy, o pintor de que já
falámos, professavam gostos e aspectos semelhantes. Havia alguns
que trajavam capa e batina pretas. As tertúlias em casa deste e
daquele ou no Café Martinho – ponto de encontro de intelectuais
– eram o seu passatempo preferido. Um café e água para toda a
tarde, livros diversos e jornais aos montes, enchiam as duas ou
três mesas que juntavam. Trocavam prosas e versos, desenhos e
caricaturas, falavam dos escritores e pintores que estavam na
berra e comentavam, entre dentes, a actualidade política. Muitas
vezes, Vítor Manuel deixava que Carmen, já uma senhorinha de
catorze anos, fizesse parte do grupo. Metia-lhe na mão um livro
para ler ou um jornal para que se entretivesse a fazer “palavras
cruzadas”. Carmen achava-se importante no meio deles e absorvia
como uma esponja tudo o que ouvia. O sentimento que a ligava a
este irmão era, para além duma grande ternura, uma profunda
admiração. No seu íntimo, albergava uma afinidade com os seus
gostos literários, com a sua alma de poeta, até mesmo com a sua
faceta mística.
De mão em mão, passavam os livros: “Na Outra Margem entre as
Árvores”, de Hemingway (que viria a ganhar o Prémio Nobel em
54); “A Rosa Tatuada”, de Tennessee Williams; “A Noite e a
Madrugada”, de Fernando Namora; “A Curva da Estrada”, de
Ferreira de Castro; “O Diabo e o Bom Deus”, de Sartre; “A Leste
do Paraíso”, de Steinbeck.
De boca em boca, corria a fama de pintores como: Júlio Pomar com
os seus “Meninos no Jardim” e “Vendedeiras de Estrelas”; Picasso
com “Massacres na Coreia”; Miró com “Convergência”; Dali com a
sua “Madona de Port Lligat”; Vieira da Silva e a sua “Capela
Gótica”.
Mas Carmen nunca esqueceu uns livros estranhos que seu irmão
recebia pelo correio. Ele não deixava que ela os lesse. “Não são
para a tua idade!” – dizia. Mas, curiosa, ela sempre arranjava
maneira de lhes dar uma espreitadela. Era literatura que naquela
época se lia em segredo – esoterismo, misticismo, ciências
ocultas. Talvez Carmen não entendesse completamente o que lia,
mas gostava, como se as ideias transmitidas não lhe fossem de
todo estranhas... E, passados mais de vinte anos, essas e outras
“sabedorias”, como Carmen ligeiramente lhes chama, vieram de
novo ao seu encontro, quem sabe se escolhendo elas próprias a
hora certa...
Mas voltando a Vítor Manuel:
Com vinte e um anos, sem emprego, viu-se obrigado a protelar os
apelos do espírito – quase sempre incompatíveis com as
necessidades da sobrevivência – e a deitar a mão a várias
profissões que, obviamente, não se coadunavam com o seu
temperamento sensível e idealista. Adiando até à última o
ingresso na vida militar, refugiou-se algum tempo no Alentejo,
em casa da tia Augusta, trabalhando como empregado de mesa no
Café que a ela pertencia.
Um retrato que mandou para a família, atestava bem o ar enfiado
com que suportava a “fatiota” da praxe: fato preto, camisa
branca e laço no pescoço. Carmen está em dizer que lhe veio daí
um certo tique engraçado que ainda hoje conserva em certas
ocasiões, quando com um dedo enfiado no colarinho, repuxa o
queixo para cima, como que para aliviar uma sensação de
aperto.
Fernando José, mais novo, era irrequieto, alegre e
despreocupado; preferia os cinemas e os bailes. Embora estivesse
a viver com o pai, raro era o dia em que não passava lá por casa
para que a mãe ou a irmã lhe passassem a ferro uma camisa, umas
calças, para ir a uma festa, a um baile. Carmen, que tinha um
leque de interesses muito alargado, logo se pendurava nele para
o acompanhar.
Bem frescos na sua memória esses bailes dos anos cinquenta, em
que três os quatro elementos formavam um conjunto musical,
tocando banjo e bandolim. Fernando José advertia: “Só danças
comigo, ouviste? Fica aqui sentada enquanto eu vou dançar, já
venho buscar-te!” Carmen fingia acatar, mas quando ele voltava,
já ela rodopiava na pista de dança. Seu irmão zangava-se, mas no
regresso a casa, riam ambos, felizes, e da desobediência de
Carmen ele guardava segredo à mãe.
Nessa altura, Fernando José trabalhava com o pai – que tinha
sempre uma firma própria, um escritório, fosse do que fosse. Era
uma espécie de secretário do pai, para todo o serviço, fazendo
de tudo um pouco. Ia aos Bancos, aos Correios, buscar-lhe um
café, comprar-lhe cigarros; atendia telefonemas, marcava
entrevistas, etc. Em troca, seu pai dava-lhe diariamente uma
pequena quantia, para o tabaco e pouco mais.
– Foi numa dessas funções de “ todo o serviço”, pegando numa
mala pesadíssima, que Fernando José deu o primeiro passo para a
morte – revelou-me Carmen, com a voz embargada.
– Meus Deus! Tão jovem!?... – Exclamei, sem me conter.
– É verdade, o primeiro passo para o último caminho – respondeu
Carmen. E fazendo menção de continuar:
– O que se passou a seguir...
Carmen parecia desligada das horas, de tal modo se tinha
enredado no passado. Fui eu que, reparando no seu ar cansado, no
seu olhar húmido e distante, puxei do relógio e fingi estar
atrasada. Por minha vontade não teria arredado pé, mas senti que
continuar a remexer nas cinzas só faria avivar as brasas
dolorosas que um dia queimaram, e voltariam a queimar agora, a
“nossa” Carmen. E, para uma única tarde, a fogueira já tinha
ardido bastante...
Por isso, dando um tom natural às minhas palavras, sugeri:
– Não acha melhor terminarmos por hoje, Carmen? É que... daqui a
pouco tenho um compromisso – menti – e quase me tinha esquecido
dele.
– Claro, minha amiga! Fez bem trazer-me de volta ao presente. Na
realidade, só agora reparo como também eu estou
atrasadíssima.
– Então, até mais ver! – Lancei apressadamente, receosa de
deixar transparecer a minha mentira improvisada.
– Até mais ver! – Respondeu Carmen, com um sorriso estranho,
como se tivesse compreendido tudo...

Durante duas semanas não voltei a ver a minha interlocutora.
Tínhamos ficado num ponto quente, prestes a saltar do lado
“esquerdo” das suas memórias. “Esquerdo”, pois segundo antigas
crenças era o lado do corpo e da mente que armazenava as coisas
más.
Uma outra Carmen começava a
abrir-se para mim, revelando-me facetas impensáveis da vida de
uma jovem que, julgava eu, fora sempre alegre e despreocupada.
Mas, como dizia Proust: “A nossa personalidade social é uma
criação do pensamento alheio.”
Uma ligeira gripe serviu-me de desculpa para protelar a reunião
seguinte. O relato que se avizinhava não me entusiasmava nem um
pouco. Embora o adivinhasse rico de emoções, pesava-me
desenterrar tristezas duma amiga tão querida.
Todavia, um romance não é um conto de fadas! Devo por isso
aceitar todo o material que me é oferecido e que é, afinal, o
único de que disponho no momento!
E foi com este pensamento encorajador que caminhei para o
encontro seguinte que, finalmente, eu própria me decidi a
marcar.
Para meu espanto, Carmen já me esperava. Sorridente, como de
costume.
Após as saudações habituais, acrescidas do meu “Bravo!” à sua
pontualidade, pedimos um café (um café sempre nos animava) e
decidimos encetar rapidamente a continuação do nosso trabalho.
Eu, simulando não me lembrar do ponto triste onde tínhamos
ficado, atirei:
– Então, Carmen, o que me traz hoje?
Lúcida e objectiva, Carmen respondeu:
– Antes de lhe transmitir algo de novo, gostaria de concluir o
assunto interrompido da última vez por causa do seu “compromisso
urgente”, lembra-se? Nessa altura, deixei em suspenso uma frase:
“O que se passou a seguir...”
– Ah, sim! É verdade, agora me recordo! Partamos então daí, se
prefere.
Carmen estava muito serena e pegou na deixa, calmamente.
– O que se passou a seguir foi terrível! Ver desaparecer um
jovem que vendia saúde e alegria, em cerca de uns escassos três
meses, é-me difícil descrever. Todas as palavras me parecem
escassas. Mas, “ver desaparecer” é o termo certo, pois Fernando
José ia desaparecendo todos os dias um pouco, perante os nossos
olhos sofridos e os nossos esforços vãos. Depois de ter pegado
naquela mala fatídica, algo que residia nele, quieto,
adormecido, acordou de repente com uma fúria assassina e não
teve contemplações. Começou por cercá-lo com dores nos rins e
nas costas. A princípio, atribuiu-se a causa a um mau jeito ou a
uma crise lombar. Experimentaram-se pomadas, fricções; tudo
inútil, não havia melhoras. Consultados médicos e hospitais,
fizeram-se os exames de diagnóstico possíveis à data. Não foram
precisos muitos, nem muito tempo, para o “cancro” mostrar a sua
face hedionda, localizada no baixo-ventre. A opinião médica foi
unânime: “É preciso operar com urgência!” E com urgência
Fernando José foi operado; num Hospital, onde, dizia-se, estavam
os melhores especialistas. Porém, todos foram impotentes.
Alegaram não haver nada a fazer, devido ao estado adiantado da
doença, e mandaram-no para casa. Para casa, para morrer! Não só
para morrer... Também para sofrer!
Um sofrimento atroz e indescritível que jamais se apagará da
minha mente...
Tentando dissimular a minha perturbação, interrompo Carmen:
– Descansemos um pouco! Quer uma água, outro café?
– Talvez uma água, sim! A minha garganta está um tanto seca.
– Não admira, Carmen, além de ter falado ininterruptamente, já
fumou quase um maço de cigarros!
– Ah! Os meus cigarros! São perniciosos, eu sei! Mas fazem-me
tanta companhia... Os cigarros são comparáveis a certas pessoas;
agridem-nos, fazem-nos mal, intoxicam-nos, e mesmo assim
teimamos em não dispensá-las, tomando-as como imprescindíveis,
no receio pueril de ficarmos sós... A propósito, vou tentar
dizer para si um poema que fiz há tempos, exactamente sobre o
cigarro. Quer ouvir?
– Claro! Um pouco de poesia só poderá fazer-nos bem. Nesta
altura, será como um bálsamo!
– Então, lá vai! Se quiser, pode escrever!
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NUM CIGARRO
Dia após dia, eu queimo num cigarro
Essa imagem que tento dissipar
De um amor fugidio que nunca agarro
E que mora não sei em que lugar.
E queimando apago essa voz que teima
Em reclamar, sem tréguas, esse amor,
Num crepitar constante que me queima,
Fogo manso, porém devastador!
Dia após dia, queimar somente almejo,
Essa imagem, longínqua e desfocada,
De um amor que imagino mas não vejo,
Para torná-la cinzas, pó e mais nada!
Mas a cada cigarro que inda acendo,
No ensejo de queimar, desiludida,
Essa miragem – dor que não pretendo –
Vorazmente, vou só queimando a vida! |
– Cuidado, Carmen! Está
desafiando o Cupido! – Brinquei.
– Ah, não! – Eu e o Cupido acabámos por nos tornar velhos
amigos.
– Amigos…?
– Digamos que aprendemos a brincar um com o outro...
Soltei uma gargalhada.
– Bem, agora que já nos refrescámos com água e poesia, posso
continuar a minha narrativa?
– Vamos a isso! – Respondi, ainda rindo.
Carmen recomeçou. O seu rosto expressivo, que por momentos se
desanuviara, retomou o ar grave.
– Depois de Fernando José ter sido mandado para casa, pôs-se a
questão: qual casa? A da mãe ou a do pai? Claro que foi para
nossa casa! Ninguém melhor do que a mãe para o acompanhar
naquele momento angustiante! Ele era o único que ignorava a
realidade. E até mesmo nós que conhecíamos a gravidade do seu
estado, não deixávamos de albergar esperanças.
“Os médicos às vezes enganam-se…” – diziam uns. “É tão moço
ainda, há-de recuperar-se” – diziam outros. Como se perante um
facto tão terrível e inesperado, todos duvidassem da sua
veracidade.
Estranhamente, o meu jovem irmão era o mais esperançado na
convalescença. Convalescer da operação, fora o motivo que os
médicos, enganosamente, lhe haviam dado ao mandá-lo para casa.
Crente nisso, a sua vontade de viver debatia-se ferozmente com
essa força estranha que parecia querer arrancá-lo à vida. E nem
por um só momento, ele mostrou suspeitar do mal que o
atingira.
Todos nos unimos como pudemos. Apesar de o padrinho providenciar
as despesas elementares, Vítor Manuel recorria ao nosso pai que,
solidário naquela hora amarga, mandava algum dinheiro e
medicamentos. A minha mãe tentava a todo o custo manter as
forças do filho doente, fazendo-o engolir um caldo, um copo de
leite, tudo o que ele dizia apetecer-lhe e que acabava por não
ingerir. As dores foram-se tornando cada vez mais atrozes, os
medicamentos menos eficazes. A morfina foi o último recurso.
Porém, uma vez aplicada, todos sabemos como a habituação ao
produto se instala rapidamente, dando origem à sua consequente
ineficácia. Um mês, dois meses, e tudo cada vez mais difícil,
mais doloroso... Fernando José era já uma sombra do que fora;
apenas dois olhos negros, desorbitados, sobressaíam na sua
magreza esquelética. As injecções que começaram por ser diárias,
eram já necessárias de hora a hora, quer de dia quer de noite.
Quantas vezes a minha mãe me levantou da cama, de madrugada,
para ir com ela tocar às portas dos enfermeiros mais próximos, a
fim de lhes implorar que fossem ministrar uma injecção. Por fim,
perante incómodo tão assíduo e fora de horas, as respostas
negativas intensificaram-se: “O Sr. Enfermeiro não está, só
amanhã!”; “A Sra. Enfermeira está de serviço ao Banco esta
noite!”; “O Sr. Enfermeiro foi atender um doente!”...
Voltávamos para casa em pânico, lágrimas nos olhos, o coração
apertado por tanta insensibilidade, e por termos de enfrentar
tamanha dor sem lhe levar apaziguamento.
Já na fase terminal da doença, minha mãe, arrancando forças não
sei de onde, enche-se de coragem e, sem nunca ter aprendido,
passa ela própria a injectar o filho, quando, perante os seus
gritos, já não suportava vê-lo sofrer.
Ao fim de três meses, simultaneamente tão curtos e tão longos,
cessou a batalha, a corda quebrou pelo lado mais fraco – a
impotência humana perante a invencível lei da morte!
Carmen calou-se. Respirou fundo, acendeu mais um cigarro...
Imitei-a.
Tentando romper o súbito silêncio, exclamei:
– Que tragédia! Não deve ter sido nada fácil para uma jovem
presenciar tudo isso. Por outro lado, que mãe corajosa a vossa!
Como a vida não parava de pô-la à prova, de a castigar...
– Foi mesmo, minha amiga! Uma grande mulher, a minha heróica
mãe! Só depois de eu própria ter sentido na pele as queimaduras
da vida, pude compreendê-la melhor. Quanto à jovem que eu era e
que presenciou todo aquele drama, hoje eu sei que transportava
dentro de si “uma alma bem mais velha”. Só muitos anos mais
tarde entendi porque tinha ficado quase insensível aquando do
funeral do meu querido irmão. Toda a gente chorava! Eu olhava-o,
indiferente, como se ele já não estivesse naquele lugar... Julgo
que, tal como um caminheiro que conhece bem a estrada, à força
de tantas vezes a percorrer, eu já era sabedora, embora
inconsciente, de que a morte não é o fim da caminhada. Apenas o
final de uma etapa, o culminar de uma série de experiências, o
“despir” de um corpo gasto ou precocemente deteriorado; uma
pausa para a alma se “revestir” de um novo invólucro e continuar
a jornada.
Carmen falava rápida e naturalmente, como se falasse de um
assunto vulgar. No entanto, as suas palavras soavam-me confusas,
dificilmente faziam sentido, o que me levou a interrompê-la:
– Mais devagar, Carmen, se não se importa... Não consigo
acompanhá-la. Falou de “uma alma bem mais velha”, de “uma
sabedoria inconsciente”, do “despir um corpo gasto”, de “uma
pausa...”? Está novamente a falar-me de Reencarnação?
Carmen pareceu acordar do que, para mim, era um monólogo.
– Desculpe, minha amiga! Por vezes, falo involuntariamente do
que me apaixona...
– Não! Continue, Carmen, por favor! É uma matéria que até me
parece interessante mas que conheço apenas superficialmente.
Ainda me suscita dúvidas, interrogações...
– Compreendo! A mim, porém, afigura-se-me bastante clara. Mas
foi preciso estudá-la a fundo... Só depois, Vida e Morte
passaram a ter significados compreensíveis. Na doutrina da
Reencarnação encontrei respostas para quase tudo o que não
entendia. Hoje, acredito que a morte não existe, não obstante o
desaparecimento do corpo físico, e que ela é apenas a transição
para um plano de consciência diferente, do qual havemos de
retornar várias vezes para cumprir a Lei Cósmica da Evolução.
Quanto à vida, aliás, “vidas”, sei que cada uma delas é apenas
uma etapa da pirâmide que escalamos, enfrentando lutas e
dificuldades, até que o tempo certo nos mostre O VÉRTICE
LUMINOSO DA PIRÂMIDE.
– Mas, Carmen...
– Voltaremos a falar sobre isso, minha amiga. Verá que é uma
doutrina apaixonante.
Dizendo isto, Carmen começou a arrumar maquinalmente as suas
coisas. Percebi que estava a dar por findo o nosso encontro.
Apressei-me a despedir-me, não resistindo ao impulso de a beijar
ternamente nas faces, enquanto lhe dizia:
– Mais uma vez, muito obrigada!
– Não me agradeça, por favor! Eu é que me sinto grata por poder
contar com uma ouvinte tão atenta; simbolicamente, uma fada que
nesta retrospectiva me tem ajudado a expulsar demónios e a
reaver deuses. Retrospectivas de vida são como visitarmos um
sótão há muito fechado à chave, onde largámos as “coisas
velhas”. Se apurarmos o ouvido, perceberemos que essas velharias
têm voz própria, e que todas elas nos dizem terem cumprido uma
finalidade no tempo apropriado, tornando-se depois testemunhos
das nossas etapas vencidas.
– Nunca tinha pensado nisso! Mas sendo assim, acompanhá-la-ei na
próxima “visita ao sótão”! – Respondi-lhe, em ar de graça.
– Tudo bem, conto consigo! – Retornou Carmen, deixando regressar
o seu sorriso.
