Capítulo VIII
Eis-me hoje de visita a mais um recanto do “sótão” de Carmen, aonde
a acompanhei conforme o combinado. Bem instalada, de ouvidos bem
atentos, escuto e escrevo:
Após a partida dos dois irmãos – Carlos Alberto, levado para terras
tão longínquas, Fernando José, tão cedo regressado à eternidade –
Carmen sentiu-se mais pobre, mais só, defraudada do carinho de
ambos. Diolinda, embora fisicamente aliviada de canseiras, carregava
agora o peso do maior dos desgostos, a perda de um filho! Porém, a
vida, de ciclo inalterável, obriga-nos a seguir a sua rota, a lutar
contra as marés, a esbracejar para não soçobrarmos. E nessa luta,
obriga-nos até a esquecer! Contudo, nos subsequentes Natais em casa
de Carmen, quando se erguiam os cálices com o vinho do Porto para
fazer a tradicional “saúde”, erguia-se com eles a memória dos que
tinham partido, e era com lágrimas nos olhos que todos, de pé,
tocavam os cálices, dizendo, solenemente: “Pelos presentes e pelos
ausentes!”
Diolinda ia envelhecendo e tornava-se cada dia mais nervosa e
irritadiça, aparentemente mais dura. António, pelo contrário,
redobrava de calma e paciência. Era ele que amainava frequentemente
as explosões da mulher, umas vezes dirigidas a Carmen que, como já
sabemos, era rebelde, outras vezes dirigidas a Eduardo que, nos seus
dez anos traquinas, nem sempre lhe obedecia. António, tentando
serenar Diolinda, ora intercedia por Carmen: “Deixa a pequena, nunca
perdeu um ano, traz sempre boas notas...”, ora defendia Eduardo:
“Tem calma, mulher, deixa o garoto brincar um pouco, depois fará os
deveres...” De seguida, chamando o filho, dizia-lhe:
– Não arrelies a tua mãe; sabes como anda nervosa. Deves estudar.
Põe os olhos na tua irmã!
António tinha nascido sob os auspícios do signo de “Balança” e
identificava-se perfeitamente com os seus canais astrológicos.
Segundo a minha narradora, “Balança”, além de abarcar as
características dos signos de “Ar”, que já descrevemos, é o signo do
equilíbrio, da harmonia, da compreensão humana, da amabilidade, da
doçura, dos bons costumes, da justiça, da paz e do coração amante.
Faço uma pausa para interpelar Carmen:
– Vejo que se prende à Astrologia...
– Digamos, minha amiga, que ela me atrai. Não a pseudo astrologia,
falsamente comprimida num minúsculo rectângulo de jornal, mas aquela
que atraiu Copérnico, Galileu e Paracelso, há muitos séculos atrás,
no tempo em que se inferiu a existência de relações e concordância
entre o que se passa no Universo Sideral e o que ocorre na Terra e,
em particular, no Homem.
– Mas diga-me com sinceridade, Carmen, acredita mesmo que os Astros
podem reger o nosso destino?
Carmen, não gostando de falar levianamente, pensa um pouco antes de
responder:
– Reger o nosso destino? Não! As características astrológicas dadas
por um determinado signo não significam de modo nenhum um destino
fixo e imutável, escrito de antemão, a que não se pode escapar.
Porém, o conhecimento dos factores de personalidade que recebemos ao
nascer devido à posição dos astros nessa hora, pode servir-nos, sim,
para canalizarmos as nossas potencialidades, trabalharmos a nossa
matéria-prima em direcção ao objectivo certo. Não falando apenas dos
factores positivos a que chamamos “qualidades”, mas também dos
factores negativos, ou seja, daquilo a que vulgarmente chamamos
“defeitos”. Foi Eça de Queiroz quem disse: “se a curiosidade, por um
lado, leva a espreitar para casa do vizinho, por outro, conduziu à
descoberta da América”. O que quer dizer que devemos aproveitar o
“ouro” das características positivas, não desdenhando, contudo, o
“barro” das negativas. Resumindo: Todos temos uma determinada
“natureza” que faz parte da nossa individualidade. Querer negá-la,
em todos ou em parte dos seus aspectos, é pretender remar contra uma
corrente demasiado forte. Muito mais fácil e produtivo será
encaminhar essa natureza por uma via útil, aproveitando a energia
que lhe é própria. Se todos nós tivéssemos um melhor conhecimento de
nós mesmos e da espécie de energia que corre a nosso favor, mais
facilmente evitaríamos decepções e frustrações; evitar-se-ia o mau
médico que daria um óptimo advogado, o engenheiro medíocre que daria
um louvável professor, ou o arquitecto frustrado que poderia ser um
pintor genial, etc. É assim que eu encaro a Astrologia, não me
“prendendo” a ela, como insinuou. Sei que há outras forças que
moldam a nossa maneira de estar na vida. Não podemos esquecer os
genes, o ambiente, a educação, a instrução, o “Karma” e, decorrência
de algumas ou de todas elas, a saúde física e mental.
– Não sei se respondi à sua pergunta ou se me perdi falando
demais... – terminou Carmen.
– Digamos que excedeu as minhas expectativas. Mas as suas respostas
sempre me surpreendem com algo que, não sendo totalmente novo para
mim, ainda permanece difuso na minha mente. Por exemplo, já li
alguma coisa sobre o “Karma”, mas confesso que não aprofundei. Por
vezes, assaltam-me dúvidas, cogitações, mas logo as expulso, talvez
por comodismo. Mas agora, à medida que a Carmen vai deixando escapar
essas “coisas”, é como se a minha curiosidade fosse despertando aos
poucos.
– Então, está no caminho certo, minha amiga. “Aos poucos” é a medida
ajuizada. Só devemos lançar a semente, depois de preparada a
terra!
– A ideia que tenho é que o “Karma” está relacionado com os
conceitos de “destino” ou “fatalismo”, não é assim…?
– Nem pensar! Onde ficava então o livre arbítrio de que é dotado o
Homem como ser pensante? O “Karma” é apenas a justa e harmónica Lei
da Compensação que, não interferindo com esse livre arbítrio, não
deixa de ser a balança de nossos actos e comportamentos, que nos
sujeita, inevitavelmente, a colher o que semeamos, quer nesta vida
quer numa próxima ou próximas existências.
– Parece-me agora mais compreensível...
– Mas não acha, minha amiga, que estas nossas conversas “extra”
estão empatando o curso do seu romance? – Lembrou Carmen.
– Tem razão, voltemos a ele!
– Então, ao trabalho! – Dissemos em uníssono, o que nos fez rir
bastante.
Após a morte de Fernando José, a vida foi retomando aos poucos a
normalidade. Carmen prosseguia os seus estudos na mesma forma de
sempre, isto é, sem grandes cuidados, sem grandes canseiras, não
permitindo que a tomassem na totalidade. Situada a escola, como já
disse, junto à Igreja de São Vicente, por detrás dela fazia-se a
típica Feira da Ladra. Desconhecendo-se a origem do topónimo,
sabe-se no entanto que a existência desta Feira data dos primórdios
da Nacionalidade, e que depois de ter ocupado vários locais, como a
Ribeira e o Rossio, estabeleceu-se finalmente no Campo de Santa
Clara. Hoje, penso estar um pouco deturpado o seu panorama, mas na
altura era uma espécie de Mercado de Antiguidades, à semelhança do
“Rastro” de Madrid, do “Marché-aux-Puces” de Paris, do “Porta
Portheçe” de Roma ou do “Porto Bello” de Londres. Tudo ali se
vendia, desde o inútil até às valiosas obras de arte. Frente a essa
miscelânea de objectos díspares, detinha-se Carmen, extasiada. O seu
espírito curioso estacava em todas as bancas e barraquinhas, bem
como nos inúmeros estendais coloridos que cobriam o chão, fazendo-a
tropeçar por vezes nos objectos mais estranhos. A sua atenção tanto
se prendia a um prato antigo, um velho sabre cravejado de pedras
preciosas, um vaso de prata, como a figurinhas de porcelana,
pinturas de madonas e santos, caixas de música, rendas, castiçais,
etc. Voltava às aulas com as faces afogueadas, e os seus olhos
cheios de tanta cor, de tanto brilho, pregavam-se às letras e aos
números com mais ardor, mais entusiasmo. E ao fim do dia, regressava
a casa sentindo-se mais rica, carregando consigo todas as
preciosidades que a tinham encantado.
Igualmente perto, o milenário Castelo de São Jorge, pleno de
História e de tradições. Mistura de arquitectura da época romana,
suevo-gótica e árabe, foi nele que o nosso primeiro rei colocou a
bandeira das quinas no lugar do quadrante muçulmano. E nessa varanda
sobre Lisboa, onde a cidade se abraça em redor das suas muralhas,
Carmen também se perdia, na visão contemplativa do Tejo, galgando os
horizontes distantes. Percorreu as suas alamedas arborizadas,
sentou-se nos velhos bancos de pedra. Desde a Cidadela à Torre de
Ulisses, da Torre do Tesouro à Torre de Menagem, da Porta da Traição
às altas ameias, Carmen conhecia-lhe todos os recantos, todos os
esconderijos. Neles correu, brincou de esconde-esconde e... namorou.

É altura de lhes dizer que Carmen, apesar dos seus verdes catorze
anos, já tinha descoberto o Amor. O seu primeiro amor!
Como e quando? No dia em que ele foi morar, junto com os pais, para
um andar vago, prédio fronteiro ao seu, janelas a um salto das suas,
não tardando que ambos começassem a fazer dessa abertura para o
exterior o seu lugar preferido, o seu posto de vigia recíproco.
Rapidamente surgiu a oportunidade de travarem conhecimento. A mãe de
Edgar – assim se chamava o eleito – instalou na nova morada, um
salão de cabeleireiro. Diolinda passou a ser sua cliente e Carmen
acompanhava-a de bom grado. Aí, os dois jovens chegaram à fala.
Edgar tinha dezassete anos, finalizava o Liceu, era filho único e
tinha uma relação excepcional com a mãe – muito carinho, muito
companheirismo, muita dedicação de parte a parte. Carmen chegou a
sentir uma pontinha de inveja daquela ternura tão explícita entre
mãe e filho. Mas logo percebeu que isso era apenas um dos
privilégios de que gozam os filhos únicos, privilégio que ela jamais
trocaria pela riqueza dos seus numerosos irmãos.
Pouco a pouco, foram-se conhecendo melhor. Enquanto Diolinda
arranjava o cabelo no Salão, os dois jovens passavam à sala de estar
e conversavam. Falavam dos estudos, de leituras, de música, e de si
próprios. Edgar, não sendo propriamente bonito, era muito atraente.
Inteligente, alegre, e um conversador brilhante. Amava os livros e
coleccionava pensamentos célebres, tal como Carmen. Além disso,
tocava piano e cantava com uma voz cálida e romântica. E ambos
adoravam dançar. Sem se darem conta, a breve trecho estavam
apaixonados. Depois, a propósito de trocarem livros, ou a qualquer
outro pretexto, Edgar passou também a frequentar a casa de
Carmen.
Diolinda, apesar de conservadora, não se podia dizer que fosse
anti-social. Na sua casa recebia de maneira afável, tanto a família
como os amigos, seus e de seus filhos. Porém, no que tocava a Carmen
e às suas amizades, não descurava a vigilância. Quando Edgar lhe
manifestou o desejo de namorar a filha, logo respondeu:
– Nem pensar... Carmen é muito nova! Só amigos!
Curioso é que Carmen, de facto, ainda usava “sockettes”. Sua mãe só
a autorizou a usar meias de “nylon” aos dezassete anos, quando
acabou o Curso. Mas... nem esse pequeno detalhe, nem a proibição de
Diolinda, a impediram de responder ao apelo do Amor! Sempre que
podiam, os dois jovens encontravam-se longe das vistas daquela mãe
tão atenta. Edgar ia esperá-la à Escola, tão-somente para fazerem o
caminho, juntos, de mão dada. Ou, se faltavam professores e havia
uma ou duas horas de lazer, Carmen logo lhe telefonava e ele corria
para estar com ela. Juntos, conheceram melhor o velho Castelo de São
Jorge e os Miradouros de Lisboa, onde, por entre trepadeiras e com a
cidade aos pés, se sentiam no céu.
Todos nós, salvo as excepções, conhecemos as delícias do primeiro
amor, do primeiro entrelaçar de mãos, do primeiro beijo... E Carmen
sentiu todas essas emoções, intensamente. Como definir o namoro
daqueles verdes anos? Puro?... Inocente?... Misterioso?... Talvez o
termo mais acertado seja: “Romântico”, comparado com os namoros de
hoje, em que nada é proibido, nada é ocultado e, consequentemente,
desvanecido se torna o mistério, diluído se esvai o romantismo.
Naquela época, uma troca de olhares mais ternos, um apertar de mãos
mais caloroso, um leve roçar de lábios, era o bastante para nos
deixar nas nuvens.
Durante muitos anos, Carmen não teve olhos para mais ninguém. Não
havia jovem, por mais bonito, por mais educado, que se comparasse
àquele que amava! Porém, há sempre um “porém”. Edgar era demasiado
conquistador e muito assediado.
Diolinda foi sempre contra aquele namoro. Chegou até a trancar,
provisoriamente, as persianas das janelas que batiam com as do
vizinho, não se dando conta que, inversamente ao que pretendia, não
mais lograva do que exacerbar aquele amor. Carmen insurgia-se; não
só aquela prepotência arranhava a sua sensibilidade, como a magoava
profundamente o desdém materno pelos seus sentimentos, criando-lhe a
sensação dolorosa de que a mãe não a amava o bastante. Então,
revoltava-se e atrevia-se a discutir com ela. Nessas discussões,
trazia o pai à conversa, lançando à cara de Diolinda o quanto
gostava dele, afirmando que o sentia mais inteligente, mais
compreensivo e tolerante. Um dia, numa discussão mais acesa, Carmen
chegou até a recriminá-la por se ter separado dele, deixando os
filhos privados da sua ternura. A resposta não se fez esperar: uma
pesada mão que, não sendo de ferro, também não era de prata,
assentou duramente no rosto de Carmen, obrigando-a a calar-se.
Contudo, não para sempre! Carmen ainda enfrentaria sua mãe muitas
mais vezes, e outras tantas sentiria o peso da sua mão.
Como se tudo isso não fosse já o bastante para a fazer sofrer,
Edgar, não abdicando dos seus devaneios, frequentemente era apanhado
a cortejar uma ou outra rapariga. Carmen fingia não ver, não se
zangava, não dizia nada. Mas como represália, deixava-se acompanhar
até à porta de casa por um ou outro jovem, dos muitos que lhe faziam
a corte. Era uma espécie de vingança muda! Edgar, que tudo
presenciava da sua janela, logo se apressava a procurá-la para
compor as coisas, reconquistar o seu lugar ameaçado, dizendo-lhe: “O
que viste não é nada importante! Contigo, é para casar!” E com este
argumento recuperava a confiança de Carmen e tudo recomeçava.
Mas, as tentações eram mais fortes do que ele e, rapidamente,
voltava ao mesmo. Carmen, ferida no seu orgulho, rompia o namoro e
ia aceitando a corte ora de um ora de outro pretendente, procurando
um substituto para esquecer Edgar. Todavia, cega no seu amor, não
conseguia encontrar o mesmo encanto em nenhum outro e logo os
dispensava.
Deste modo se foram passando os anos, durante os quais se manteve um
jogo de “pega e larga” entre os dois jovens.
Como acabou o jogo?... Não é possível sabê-lo hoje.
Começa a fazer-se escuro neste sótão que visitámos e as velharias,
cansadas, deixaram de se fazer ouvir. Decepcionada, só me resta
seguir Carmen, que já desce a caminho do patamar da sua actualidade.
