Capítulo IX
Carmen telefonou-me uns dias antes
da data aprazada para nos reunirmos, avisando-me de que
nessa altura estaria de férias numa praia da nossa
Costa. Convidou-me a ir até lá. Aceitei, gozando
antecipadamente, não só o prazer de um dia ao ar livre,
como a perspectiva de poder engordar o meu romance,
ainda tão magro.
Chegado o dia marcado, dificilmente encontro Carmen no lugar
combinado – uma esplanada de praia cuja única referência era um
toldo verde. Fui percorrendo o pontão, onde bares e esplanadas
rivalizavam a escassos metros uns dos outros. Toldos verdes,
perdi-lhes a conta. Comecei então a olhar atentamente os
ocupantes das esplanadas. Esquecendo os transeuntes, ia
esbarrando de quando em vez com uma barriga obesa, um seio
volumoso, tropeçando a cada passo em pés enormes e molhados,
cães que corriam seguindo os donos. A luminosidade do dia
confundia-me a visão e, um tanto aturdida, o que eu via já não
eram pessoas. Eram apenas corpos nus ambulantes; ossos montados
em andas; banhas derretendo em dobras sobre pernas minúsculas;
bocas disformes chupando gelados em trejeitos obscenos. O que eu
ouvia já não eram sons humanos, eram gritos simiescos;
gargalhadas de hienas com cio; choros aflitivos de crianças a
quem, selvaticamente, tinham tapado o nariz e a boca,
obrigando-as a mergulhar naquele mar imenso que as assustava.
Por pouco não desisti!
Finalmente, pareceu-me reconhecer Carmen reclinada sobre uma
cadeira, numa esplanada deserta, um tanto recuada, onde uma fila
de arbustos verdes, artificiais, se interpunha para nos poupar
àquele espectáculo grotesco, para amortizar aquela balbúrdia de
sons dissonantes.
Um chapéu vermelho de abas largas cobria-lhe parcialmente o
rosto; um “top” branco deixava-lhe a descoberto apenas o colo e
os ombros morenos, e uma saia longa, serpenteada de arabescos
vermelhos e brancos, descia-lhe até aos pés, poisados de forma
displicente numa cadeira fronteira. A posição, algo irreverente,
e o traje a destoar no meio de tanta nudez, fizeram com que me
aproximasse. Um livro e um estojo cigarreira/isqueiro meu
conhecido, poisados sobre a mesa, dissiparam de vez as minhas
dúvidas. De olhos semicerrados, Carmen nem deu pela minha
chegada.
Quase a assusto quando lhe toco ao de leve, dizendo baixinho:
– Bom dia, Carmen!
– Ah! É você, minha amiga? Já? Que horas são?
– Passa das onze. Venho cedo?
– Não! Eu é que perdi a noção do tempo. Creio que estava
sonhando. Hoje sinto-me estranha, pairando num ponto abstracto,
indefinível, entre feliz e melancólica. Deve ser a embaladora
influência do mar! Além disso, está um dia radioso, e este Sol
que me afaga o rosto e os sentidos, trouxe-me à pele carícias
remotas e perdidas. Deixei-me embalar pelo suave murmúrio das
ondas, envolvi-me nelas como num abraço de amor, e uma deliciosa
languidez transportou-me oceano além, até ao misterioso
Continente Africano. Era lá que eu estava quando me
despertou.
Um pouco embaraçada, desculpei-me:
– Lamento tê-la acordado de tão belo sonho. Como podia
adivinhar…?
– Ainda bem, minha amiga, que me trouxe à realidade. Foi tudo há
tanto tempo... Já nem faz sentido.
Curiosa, pergunto:
– Mas... era apenas um sonho ou já esteve realmente nesse
continente distante?
– Ambas as coisas! Foi uma realidade e um sonho, um belo sonho
de amor... Mais uma das brincadeiras de Cupido. Tão breve que me
deixou na boca o travo amargo da iguaria roubada... Ventos da
Revolução, minha amiga! Estávamos em 1974...
Perante a ambígua resposta de Carmen, hesitei, mas arrisquei
perguntar:
– Outro amor?!
– Não sabe que o Cupido tem asas, minha amiga? Não há continente
que lhe escape...
– Quer falar-me disso?
– De quê, minha amiga? Do sonho? Da felicidade breve? Do meu
doce amor deixado para trás?... Não sei! Creio que ainda não!
Talvez mais tarde... – Respondeu Carmen com a voz velada.
– Como queira! – Respondi, um tanto desiludida, pois já antevia
uma matéria quente para o meu romance.
De súbito, o semblante de Carmen modificou-se, e ouvi-a dizer
num tom cristalino e alegre:
– Que tal darmos um passeio pela praia? Creio que por hoje já
estive demasiado tempo sentada sobre as minhas lembranças.
Ainda mal refeita da minha recente experiência deambulante,
quase gritei:
– Isso não! Por favor!
Perante a estranheza de Carmen, contei-lhe resumidamente o que
tinha sofrido para a encontrar.
Carmen riu, e disse:
– Ah! As pessoas! Sabe, minha amiga? Eu embrenho-me de tal
maneira nos meus pensamentos, nas minhas recordações, nas minhas
sementeiras poéticas, que nem dou pelos estranhos que me
rodeiam. No entanto, compreendo como tudo isso deve ter sido
desagradável para si. Iremos então para minha casa!
Apresentar-lhe-ei a minha família mais chegada. Depois, poderá
refrescar-se, descansar um pouco, enquanto preparo um almoço
leve.
Concordei de imediato, visivelmente aliviada quando metemos pés
a caminho.
A casa de Carmen, um singelo apartamento de férias, distava
apenas uns poucos metros da praia. Modernamente equipado,
dispunha de três quartos, onde o mobiliário de palhinha e os
reposteiros floridos davam uma nota de frescura. Uma sala enorme
separava-se da “kitchenette” por um gracioso balcão de madeira
ao qual se encostavam quatro bancos altos, sugerindo refeições
rápidas. Na sala, uma mesa oval, de boa madeira clara, fazia
conjunto com dois jogos de sofás de tecido lavrado em tons
suaves de verde e rosa. O chão de mármore, cor de champanhe
rosado, arrefecia impiedosamente as ondas de calor
que ousassem entrar. E, ao fundo, uma ampla varanda coberta por
um toldo colorido, onde a mesa branca de ferro forjado e o
carrinho de bebidas completavam a decoração.
Situado o apartamento num andar altíssimo, da referida varanda
abarcava-se praia e mar numa extensão a perder de vista.
A família de Carmen era simpática e muito acolhedora. Carmen fez
as apresentações. E, apontando para mim: – Esta é a minha amiga
Carmo Vasconcelos com quem me encontro frequentemente. Ambas
amamos a escrita, e juntas estamos a tentar escrever um romance.
Depois, apresentando a família: – Rosalina, mãe do meu falecido
marido; Pedro e Telmo, os meus filhos; Isabel, mulher de Telmo,
e o meu neto Diogo, filho de ambos.
Com excepção do bebé Diogo, que dormia profundamente, alheio a
estas etiquetas, todos nos cumprimentámos numa troca de beijos
amistosos e apertos de mão que se cruzavam, acompanhando o
proverbial: “Muito prazer!”.
Apresentações feitas, Carmen sugeriu:
– Carmo, por favor, fique à vontade.
– Isabel, leve a nossa convidada até à varanda, enquanto preparo
alguma coisa para comermos.
Rosalina, sempre pronta a ajudar, seguiu Carmen até à cozinha.
Não tardou que passássemos à mesa do almoço, primorosamente
posta. Carmen, com aquele espírito prático que eu já tinha
adivinhado nela, tinha preparado, num ápice, uma refeição fria
muito agradável. Uma entrada de ricota com nozes – uma delícia
composta de queijo, tâmaras, nozes e passas, tudo picado e
envolvido em maionese, sobre folhas de alface; uma salada
fresquíssima, onde consegui descobrir cubinhos de tamboril,
camarões, ovos cozidos e azeitonas verdes, tudo coberto com
molho de abacate. A finalizar, uma mousse de manga, bem gelada.
Durante o almoço, conversámos, conhecemo-nos melhor. Soube que
Rosalina tinha a bonita idade de oitenta e quatro anos e que o
seu único incómodo era as artroses nos joelhos, o que a obrigava
a apoiar-se numa bengala. Todavia, uma cabeça muito lúcida e a
energia com que ainda ajudava nas lides caseiras, espantaram-me.
Pedro, o filho mais velho, enterneceu-me pelo carinho que
dispensava a toda a família, mas em especial a sua mãe. Com
trinta e quatro anos, mantinha-se solteiro e ninguém lhe daria a
idade não fosse o cabelo negro que começava a mesclar-se de
branco, contrastando com um rosto de menino. Parecidíssimo com
Carmen – observei. Os jovens, Telmo e Isabel, apenas com vinte
anos e já pais de um bebé, conseguiram contagiar-me com a sua
vitalidade e juventude. Diogo, que entretanto acordara
reclamando o seu biberão, era um bebé adorável. Com pouco mais
de dois meses muito rechonchudos e mexidos, prometia vir a ser
um belo rapaz, tal a vivacidade com que o seu olhar nos seguia,
a força com que tentava erguer a cabecita.
De seguida, tomando o nosso café na varanda e já a sós com a
minha anfitriã, não pude deixar de dizer:
– Os meus parabéns, Carmen! Agora percebo a sua habitual pressa
em deixar-me. Tem uma família encantadora! Deve sentir-se muito
feliz!
Carmen, olhar perdido mar adentro, respondeu-me:
– Feliz? Claro que me sinto feliz! Embora, nem sempre me sinta
assim – pelo que não tenho, pelo que não fiz, pelo que os outros
não têm, pelos que sofrem, pelos que não posso tornar mais
felizes, pelo que já não terei tempo de fazer nesta vida – Mas,
procuro não pensar nisso, e quando a insatisfação me assalta,
recordo este poema, cuja autoria se atribui a Francisco de
Assis:
|
"É maravilhoso, Senhor, ter braços
perfeitos quando há tantos mutilados!
Meus olhos perfeitos, quando há tantos sem luz! Minha voz que canta, quando tantas emudeceram! Minhas mãos que trabalham, quando tantas mendigam! É maravilhoso voltar para casa,
quando tantos não têm para onde ir! É maravilhoso! Amar, viver, sorrir, sonhar, quando há tantos que choram,
odeiam, revoltam-se em pesadelos! Morrem antes de nascer! É maravilhoso ter um Deus para crer,
quando há tantos que não têm o consolo de uma crença! É maravilhoso, Senhor, sobretudo,
ter tão pouco para pedir e tanto para agradecer!” |
– É um poema divino, Carmen!
– Exclamei. Pena é que nem todos o conheçam, ou melhor, que nem
todos consigam penetrar na sua essência!
– Tem razão, minha amiga! É uma pena que só saibamos pedir, e
nos esqueçamos de agradecer!
– Quanto a nós, minha amiga, peço-lhe que me perdoe esta mistura
de temas com que me perco nas nossas conversas, mas já que estou
a jogar consigo o jogo da verdade, dir-lhe-ei tudo o que sinto e
o que me vier à cabeça... Saiba que falo consigo como se
estivesse a falar comigo mesma. Cabe-lhe a si separar o trigo do
joio quando passar ao papel os nossos diálogos.
– Oxalá eu saiba fazê-lo, Carmen... É sempre um prazer
escutá-la! E este foi um dia muito agradável. Gostei de conhecer
os seus entes queridos, deliciei-me com o seu almoço, e adorei
alimentar o meu romance. Motivos mais que suficientes para
agradecer a gentileza do seu convite!
– Também lhe fico grata pela visita. Há muito que desejava
mostrar-lhe uma parte do pequeno mundo em que me movo. Se quiser
voltar, será um prazer!
Como sempre, as horas tinham corrido velozes como andorinhas em
migração, e já o Sol se punha no horizonte quando me despedi de
Carmen e dos seus familiares.

Durante a viagem de regresso, vim cogitando sobre a família que
acabara de conhecer. Quatro gerações vivendo em comum sob o
mesmo tecto e, como pude constatar, de uma forma muito
harmoniosa. Reparei que Carmen era a mola real daquele agregado.
Tomava sobre si, afectuosamente, a responsabilidade de manter
solidários e unidos seis entes de escalões etários diferentes,
que perfilham interesses e gostos divergentes, mas muitas
necessidades comuns. Fazê-los felizes, tanto quanto podia, era o
lema de Carmen! Até a jovem nora ela adoptara como filha,
amando-a como tal. Recordo-me de termos falado sobre isso
durante o almoço. Isabel fora criada sem o acompanhamento da
mãe, razão do imenso carinho com que Carmen e Isabel se tratavam
mutuamente. Percebi que uma estava ganhando a filha que não
tivera, e a outra recuperando a mãe que perdera.
Vim também a saber que a sogra, Rosalina, vivia com Carmen desde
a morte do marido Simão, há mais de vinte anos, e com ela
permanecera, mesmo depois do falecimento de Jorge, marido de
Carmen e seu único filho. A convivência com a nora e os netos
adoçara-lhe o carácter, outrora duro e seco, como devem
lembrar-se. Hoje confiava em Carmen como se confia numa boa
filha. Curioso foi notar como, apesar da idade avançada, se
sentia feliz partilhando tarefas. Entre outras, embalar o
bisneto, dar-lhe o biberão, o que me fez recordar um artigo que
li há tempos (não recordo onde) sobre a nossa sociedade actual,
e que não resisto a mencionar:
“As bisavós da nossa memória tinham cabelos cor de anil. Tinham
xailes negros de viuvez, armários defendidos a naftalina, dedos
refractários, pernas desmobilizadas e as recordações todas
emaranhadas. No exílio dos quartos deixavam-se estar a tricotar
malhas e vidas passadas.
As bisavós de agora andam de mala a tiracolo e ar atarefado. Os
seus dias têm uma hora de ponta que coincide com as saídas dos
colégios. Mudam fraldas, vão às vacinas e sabem os nomes dos
desenhos animados japoneses. Nunca têm mais que fazer, nunca
dizem: “despacha-te”. As bisavós de agora, são as avós de
antigamente.”
Eu própria já tenho observado que, com a esperança de vida a
aumentar, cada vez mais se vão formando famílias como a de
Carmen. Penso que elas são benéficas às crianças, dão-lhes uma
sensação de segurança, fazem-nas sentir-se como as árvores que,
agarrada às suas raízes, o vento não derruba. Para os mais
velhos, avós e bisavós, julgo que também são proveitosas, pois a
oportunidade de serem úteis – quantas vezes, imprescindíveis –
dá-lhes uma noção de continuidade, de não estarem na
“prateleira”.

Agora que a minha viagem terminou e este dia chegou ao fim,
tenho a estranha sensação de ter deixado para trás uma irmã
gémea muito querida.
Isto, e a perspectiva de ficar longos dias sem matéria-prima
para a continuação do meu livro, trazem-me uma espécie de
angústia.
Porém, os dias suceder-se-ão, inevitavelmente, e logo estarei de
novo com Carmen... e convosco!
