Eliane Triska

 

 
 
 
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 O apagar de uma estrela


Amor, não te atordoes, eu não fugi,
Há um recado que deixei posto na Lua.
Vaga-lumes fulgem na noite que acendi,
Luzem letras a brilhar, caindo à rua.

Não te atordoes, amor, se eu não voltar,
Quis o destino conduzir-me a outros lugares,
E as esmeraldas, de sorrir nossos olhares,
Perderam-se, sem poder nada salvar.

Sorrio em lágrimas... É o ocaso de um momento,
Nas asas que albergam o sentimento.
Não peças minha presença ao quereres tê-la.

Tal a prata das espadas em duelos,
Sou o poema, expulso dos castelos,
Apagado e extinto de uma estrela.

Eliane Triska

 

 Ó meu amor!


Ó amor meu, tão triste e descontente.
Vejo-te tão distante, sem ventura!
Da vida o que farás se, dela, é ausente
Minha alma que na tua se procura?

Foram-se os teus olhos. Me deixaram,
Ficando viva em mim a nostalgia.
Pergunto: Se sorriram, me amaram,
Ou eram de brinquedo, fantasia?

Onde andará vivendo o tempo,
Aquele que, pudesse, a mim traria,
No sonho, outra vez, novo momento?

Por certo, é ingênua a chama ao peito.
Bendita, essa ilusão me enganaria,
Fingindo ser meu o teu eleito.

Eliane Triska

 

 

O nascimento de Jesus


Na manjedoura, ouve! É um vagido!
Dois portais no olhar que a noite encobre:
Na casa de Davi, um choro nobre;
No chão de barro seco O Dividido.

Há aliança... O equador celeste!
Alinham-se astros: vértice de luz,
A evocar, no triângulo, a prece,
Vida e sangue do Salvador à cruz.

Ah, meigo Nazareno! Mansuetude...
Sagrada chama, estro e virtude!
Guarda a túnica do fiel da veste.

Da palavra, o silêncio do sermão
Batiza - do segredo - a iniciação.
Ao Cordeiro, sacrifício impuseste!

Eliane Triska

Olhos no cais


Pequenas chamas que o farol alcança,
Fitando o dia, amanhecido e vago,
Auréolas verdes, póstuma lembrança
De chão batido, quente, que orvalho.

Livre riqueza circulante ao cais,
Na onda morta, explodida aos ventos,
Velho navio indiferente traz
Especiarias, lendas e unguentos.

Ai, quem me dera, no aguardado dia,
Ensolarado céu de olhar risonho,
No céu do teu o meu expiraria.

E, no leito, espalmando a maresia,
Nos risos, aportado o antigo sonho,
O farol que, acenando, te trazia.

Eliane Triska

 

 

 Os rios do meu agosto...
Poema do meu nascimento


Ah, rios do meu agosto!
Rios de tantas estradas,
Beijando gramas molhadas,
Namoram o entardecer...
Serenos em passos ligeiros,
A deslizarem pequenos,
Amor que não se ousa deter
Das horas são quatro inteiros,
Estou pronta a renascer.

Ah, rios do meu agosto!
Que preguiçosos dormiam,
Nos sonhos que em ti viviam,
Nas asas de um despertar,
Cantando à roda dos tempos,
Girando nos cata-ventos,
Minha canção de ninar.

Ah, rios do meu agosto!
Mornos e aquecidos,
Nas notas do meu vagido,
O meu primeiro cantar!
É sexta...é lua crescente,
Teu recorte é um sorriso,
E dele e nele vivo,
Marcando meu caminhar.

Ah, rios do meu agosto!
Banham todo o meu rosto...
Um dia os vou encontrar.

Eliane Triska

 

 

 Pena desalmada


Escrevo... Sabe lá quem me procura,
Se é da boca o lugar con-sentimento!
Como tu, sendo um eu, qual a figura
Deu guarida à linguagem - pensamento?

Escrevo, com a pena, um pensar.
Um andar, se risonho, assim me guia.
A angústia, como trono num altar,
Trouxe a mim esse alguém que me seguia.

De súbito, aparece, extenuada,
Descerrando, na noite irreverente,
A sombra, acarinhando a luarada.

Alma que és minha, o és, por nada,
Emissária da letra incongruente,
Por render-te a uma pena desalmada.

Eliane Triska

 

 

 Pés no chão


No palco, ele adentra, e os tambores
Rufando na promessa um coliseu.
Dispersas, brilham mais todas as cores
Que a têmpera da vida escolheu.

Euforias... São crianças e se agitam.
Palmas! Palmas! Os adultos estão de pé.
Vivas! Vivas! É o palhaço - todos gritam:
Viva DEUS! Viva MARIA e JOSÉ!

Nasce na Terra “a alegria dos homens”!
Aquele que trará a salvação.
A mágica está no palco, em codinomes,
Nas trocas do real pela ilusão!

Adorável público! - diz o palhaço,
Oferta que o sorriso traz em si,
A inversa metonímia de um fracasso.
Hipnótica, a plateia em frenesi.

O riso faz o frio agasalhado
Da névoa, que é loucura e sedução.
No mais, tudo é resto, é o palhaço
Que volta ao camarim, de pés no chão.

Eliane Triska

 

Livro de Visitas

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