Eliane Triska

 

 
 
 
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 Preto e branco


Que sabes tu do meu ser entristecido
Se teu olho, que só vê e não distingue,
Borrando esse meu verso dolorido,
O branco que me abraça, o preto que me cinge?

Se tu chamas, aqui estou e me apresento,
Sem nuanças que alternem minha dor.
Teu olhar, quando se volta e eu me apascento,
Logo foge, brincando, em desamor.

O preto, esse teu verbo em si calado,
Veste branco, outras formas de me olhar.
À noite, sou sonho sobressaltado
Que o dia se nega a acalmar.

Escrevo versos sós e rotineiros,
Se brancos ou pretos, tal já nem sei.
No contraste dos teus olhos que, ligeiros,
Riscam em branco o que no preto apaguei.

A forma que, da cor, nada reclama
Esvazia-se nesse tempo enfim chegado.
Dou-te vida, esquecendo em minha alma
Esse amor branco/preto em tom barrado.

Eliane Triska

 

Quando voltas?


Sinto pena de mim, nessa saudade
Dos silêncios que tua falta multiplica,
Essa dor com sabor de eternidade,
Essa folha que no chão se faz caída.

Tempo, não te percas em leviandades,
Segue ao longe do andarilho ermitão,
Cala os ventos das afoitas tempestades
E as poeiras que espalham o furacão.

Quando voltas? Digo, a olhar o sol poente
Que, no beijo, amansa a sede de horizontes
E aplaca minha espera impertinente.

Volta! Seguir-te-ei, de mim mesma esquecida,
Como a reza, junto ao templo, penitente
E a pétala desfolhada, suicida.

Eliane Triska

 

 

Quem sou


Sou a pobre, a pequena cantareja,
De desejos e amor sobrepujantes;
Sou começo do que há, a que flameja
Nos acenos que saúdam visitantes.

Pergunto-me: sou encontro ou partida?
Se poema, se um conto ou uma prosa,
Quando escrevo o meu nome com a rosa
Do perfume que eu trago à minha vida.

Compreender-me é fugir do igual conceito
Das métricas do soneto, quando eleito,
Que retira, do verso, a compaixão.

E, para quem me lê, sou como escrevo,
Um sonho que liberto no relevo
Das letras, como bolhas de sabão.


Eliane Triska

 Refratário pergaminho


Lamparina sem do óleo socorrida,
Na treva adormece sem lampejo,
Uiva a sombra, nos vales, destemida,
Margeando holocausto do meu medo.

Por onde saio? Aonde vou? Alguém me sabe?
Substância que procuro, há nobre intento?
Se ficar, não me sou, como no Hades;
Se partir... Eu divido elementos.

Soluça outra lida embrionária,
Íngreme monte delineia a subida,
No pó hieroglifado, refratário
Pergaminho que o sinal sensibiliza.

Interrogo: Será que tudo vale
No gozo que o proveito reivindica?
Platônico sentir de um só entalhe,
Que guardo na espera enobrecida.

Filosofias, socorro!
Amparem-me na hora da partida,
Ainda não teci meu próprio gorro,
Nem a morte se deu como infinda.

Eliane Triska

 

 Resto...


Mais um dia... Outro mais, e resumido.
Alheia a uma qualquer analogia,
Pandorga, de papel enfraquecido,
Cai ao solo, abraçada à noite fria,

Carregando o mistério do que sou,
Desde a chuva a beijar minha vidraça
Ao meu pensar servido de carcaça,
Tão velho como o resto que sobrou...

Fantasmas de imagos vêm, distantes,
Aos vales assombrados de gigantes
Penarem na desilusão ingente...

Sou eu! Assim, em mim, é o desabrigo.
Aberto e interrogado por castigo,
Um vulto a fitar-me indiferente.

Eliane Triska

 

 

 Roda da palavra


Treme o galho... Ergue-se a tez.
Aguda, disforme e infante,
A primeira palavra pede a vez,
Ser-te-á a amante!

Abre-se qual um horizonte imenso
E, a antevê-la, a injusta infinitude.
No amanhã, se for, será o que penso,
A palavra da minha incompletude!

E, nas marés túrgidas e perenes,
Interpõe-se a boca de ávido sentido.
O universo - vassalo de outros seres -
Engravida-me de palavras, ressentido.

O silêncio faz-se em vulto... e tece;
Tal abismo, a boca cai e range;
O ser, de mim, desaparece...
Tange!

Eliane Triska

 

 

 Se me quiseres achar...


Estou aqui, basta me buscares,
Na renúncia da humana compaixão,
No tormento de febres crepusculares,
Sanguessugas dessa alma em transição.

Onde há o clamor a acordar o vento
Livre a descansar - pobre peregrino,
De perseguir exausto - sina de menino,
A rapidez da voz do pensamento.

Onde o verso rompe o compromisso
De a rima ser só sua e, submisso,
Jura a poesia a outros amores.

Mas, num delírio da alma pequenina,
Urde, à sombra (louca), e alucina,
Encontrar-me no teu peito, as próprias dores.

Eliane Triska

 

Livro de Visitas

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