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Sem me ver
Hoje me vi na novela.
Ria o dedo, com a ametista.
Salto, num pé. Uma artista,
Um olhar de passarela.
Hoje me vi na favela.
Um gole de trago. Bendito!
No passo, o maio ferido;
Que dirá na primavera!
Que seja a novela um ser,
Ser-vindo a quem não se via,
Quando a cortina descer
E na favela o morrer.
Aflita... Que fugidia,
A vida não me querer. Eliane Triska
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Sem
partitura
Retira
da
terra
o
sumo
da
horta
e,
do
caminho,
a
que
ficaste
morta.
Cala,
do
futuro,
a
partitura
invaginada
à
boca
escura
de
um
rio
seco.
Começo
de
algo
que
não
chegou
e
não
virá:
passos
em
sons
risonhos,
bolsos
cheios
de
sonhos...
Não
se
verá!
E o
mar
adulto,
guardião
da
vida
dos
prantos,
lamentará
o
vai-e-vem
do
galope
dos
cânticos
no
corpo
sem
leito!
Ó
alma
de
natureza
adversa!
És
ave
do
inverno,
queimada
no
frio
inferno
sem
feito
Eliane Triska |
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Senhor meu!
Minha alma dilacerada
Pergunta, aos versos feitos,
Se não sou mais tua amada,
Pois a rima magoada
Retirou-me os direitos.
Não grites! Todos nos ouvem!
Nada digas, por favor!
Teus versos são meus e sofrem,
E as bocas, que embora se toquem,
Beijam outras, sem amor.
Agora, versos ao chão,
Na imensa dor que continham.
E os tolos, que estes vão,
Com rimas sem expressão,
São os meus que te acarinham. Eliane Triska
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Seremos
Serei teu sutil encanto,
Como córrego em frêmito,
Sussurro quente e trêmulo,
Consagrado em solo santo.
Serás meu verso perfeito,
Dedilhado em lírica harpa,
Dançado na mais linda valsa
Do mais nobre sentimento.
Seremos almas em pétalas,
No formato do orvalho,
Cálido vigor do carvalho,
Vibrando apaixonadas.
E esse amor, chegado a tempo,
Desenhou em outra pauta,
Que nem mesmo a madrugada
Saberá contar ao vento. Eliane Triska
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Solidão
Quando me deixei sonhar sozinha,
Com a noite a evocar grilos falantes,
O relógio bateu asas na andorinha,
Anunciando serem duas meias-noites.
Acreditei ter a noção exata
De um amor, como se amante fosse,
E o tempo a pingar em conspirata,
Como dor de morte a interpor-se.
Do cheiro perfumado dos trigais,
Na fúria a adoçar os vendavais,
Fomos versos nas liras da paixão.
E ao me deixares só, na imorredoura
Luz solar que aos meus cabelos doura,
Nascia a sombra a carregar a solidão. Eliane Triska
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Solo sagrado
Mago, que me dizes se a torrente profetiza
Sulcos mananciais que a vida quis,
No segredo que teu manto azul batiza,
Guardião, com teu cetro, és meu juiz.
No cristal, quando ondula o devaneio,
Aparece este rosto que é o meu.
Mostro, à fronte, as insígnias que meneio:
Cabeleira, um escudo e um camafeu.
Se me encanto pelo olhar que sou cativa,
No deleite de um sonhar sofreguidão,
Lanço o dardo que o oculto aniquila,
Abatida, firo o próprio coração.
Dá-me a chave dos portais do eterno amor,
Desse mantra que no livro é cifrado;
Letra a letra, o nome dele é meu andor,
Beijo a terra deste solo que é sagrado. Eliane Triska
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Sonhos de maçã
Na madrugada dos Noturnos de Chopin,
Valsando nas esferas uterinas,
Cintilâncias são meus sonhos de maçã,
Reentrâncias, minhas formas femininas.
Me embriago... É o pulsar da lamparina
Que balança este fogo colorido.
Se penetras meu recato de menina,
Me enlaço nos teus braços, onde fico!
Misturando, a esse amor, todas as ervas
Que, à noite, nos transportam com seu cheiro.
Meus desejos que atendes, sem reservas,
São meus beijos no teu corpo, por inteiro.
Nesta noite em que a brisa faz, calada,
Nossos versos de amor em combustão,
Quando beijo, é tua alma apaixonada;
Se tu beijas, é o meu próprio coração. Eliane Triska
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Livro de Visitas

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