Eliane Triska

 

 
 
 
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Ano velho


Deixo mortos no caminho...
Que descansem no calcário dos córregos,
leves mortalhas.
A brisa ainda amealha os últimos suspiros.
Deixa-me! Não preciso mais lamentar
o fogo queimando a terra e o ar.
Há o céu, gentil, a dizer-me
que posso pescar no formigueiro de estrelas.
Apronto-me!
Arrumo as telas passadas,
sem mais a adiar.
Trago-te em mim, como desfalque,
a falta troca o ano
e o sabor ocre da despedida.
Insano!
Devolve os pensamentos que te alimentei!
Quero-os de volta!
Não os quero servidos ao filho que te dei.
Dá a luz e morre!
Morre, antes que teu filho nasça
velho
e, reclamado por ti,
seja o teu lugar.
Dou-te nenhum para ficar!

Eliane Triska

 Ânsia invisível


Acordar na cidade limpa,
De que um outro mundo fez-se,
Súbito, nele, sem medo,
A batida da passada
Não era mais que risada
Que fiz brincando comigo,
Sem que isso acontecesse.

Vi, na ânsia invisível,
Uma morada sem teto,
Lastro de um chão em aberto,
Descalça dos meus sapatos,
Totalmente imprevisível.

Onde o horizonte reto,
Coluna neutra, sem sexo,
Curvada no meu umbigo?

Colo um imã no meu verso,
Pra que a rima não se perca.
E, antes de rirmos juntos,
Anoiteça!

Eliane Triska

 

 

 Ansiar perdido


Ilegítimo, o ansiar perdido,
Se me conduz a esse campo aberto,
Onde os frutos do Éden prometido,
Leite e mel jorrados do deserto?

Das ilusões às tolas iguarias,
Na mesa posta à vida descontente;
Se é licor o doce da semente,
Por que murchar a cada novo dia?

Se sou alguém, e nisso insisto tanto,
Ser mais da existência. Livre canto!
O fremir de um lamento apaixonado.

Exijo que se retrate o insulto
De a vida ter passado como um vulto
E ter-me como um verso ignorado!

Eliane Triska

 

 

 Ao lado


Sou uma dor na tua anca,
Um saldo de escuridão;
Se sou passado, levanta
e põe o passo no chão.

Fomos um só. No banquete
do tempo, fui a calada
a te cobrir. Esqueceste,
como outra, a camuflada?

Tanto me escondi contigo
nas noites, dama felina.
Se fui açoite ou abrigo,
quem a isso determina?

Também das festas pagãs,
de ritual clandestino,
provaste aromas, maçãs
da liberdade - o menino.

Da escuridão saio, ao ser-me,
à mostra, essa medonha!
Se for teu dever dever-me,
paga em moeda a vergonha!


Sou muito mais do que dizes;
sou o mais que a vida disfarça;
sou, em ti, velhas raízes;
sou a culpa que te arrasta.

Eliane Triska

 

 

 Ar nevado


Sinto-me num silêncio consternado
Que emborca a verdade nunca dita.
Estranho ter a eternidade ao lado
E, carregá-la, ser minha desdita.

As geleiras cobrem o mar comprido
De branco, que o azul das camponesas
Águas, a espreguiçarem as correntezas,
Soltam no infinito de um gemido.

Ah! Minhas dores santas! São vertentes
Narradas nas histórias das nascentes
De minha alma a obrar sonhos ateus.

Um ar nevado esfria meus sentidos
Virgens que, sob luar, dormem vestidos
De sombras, infiéis filhas de Deus.

Eliane Triska

 

 

 

Até o final dos dias...


Quando, em ti, saudades fores,
Na espera morta, ó pobre poeta,
Sangrado e corroído pelas dores,
Abatido coração mostrado à flecha.

Neste dia, talvez, até compreendas,
O amor é fio que faz fino condão,
Carinhos são cuidados, oferendas,
Sem mimo, maltratado é roto ao chão.

Não faço tratos, nem vã promessas
De amar-te inteira, mesmo que tardia.
Sou como o vento, sopros das florestas,
Perfumes que dão forma à poesia.

Se tu me queres - sim - jamais olvides,
Quero teus versos em rimadas melodias.
Serei a musa, a quem em mim insiste
Ser tua, enfim, até o final dos dias.

Eliane Triska

 

Livro de Visitas

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