Eliane Triska

 

 
 
 
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 Beijo negado


Deixo a lágrima, em seu curso solitário,
Cair de um trapézio entristecido.
Do alto do meu sonho visionário,
A tua boca é meu fruto proibido.

Deixo que ela fale do abissal,
Desse arder que não finda e rivaliza.
De profundo, parte o leito nupcial,
Como a pérola rompe a concha e se eterniza

Nas mortalhas da razão e sentimento,
Insultos à esperança inútil, rouca,
Infeliz, enterrada no esquecimento.

Por teres te negado a um só beijo,
A lágrima, chorada à tua boca,
Levarás como adeus num jus cortejo.

Eliane Triska

 

 

Bela Adormecida


Varais de roupas curtas, que não servem,
Balançam e dançam em som ignorado.
Louça seca em águas livres que ora fervem,
Conto o t-e-m-p-o, frente e verso soletrado.

No espaço que se abre, transiciono,
Desenformo, desertora de um modelo.
Se me finjo, é a verdade que recolho.
Sábio é o galo a cantar o mesmo enredo.

Gira a roca, sangra o dedo no meu quarto.
Teço em sonho todos os versos dessa lida.
Encenando vida e morte em um só ato,
Reescrevo minha Bela Adormecida.

Quem me lê sabe, acaso, do que falo?
Diga, Freud, mas não mexa na ferida!

Eliane Triska

 Caixa de brinquedos


O meu céu de olhar ainda pequeno,
Imenso, cobria-me com sua mão.
Bailava a sorrir... Que riso pleno!
Flautim no meu tapete de algodão.

O alvorecer da vida me chamava,
Eram notas... Palavras de uma canção.
Meu céu – nessa canção – ah, me amava!
Com seu beijo no meu céu, à exaustão.

Velhinho, hoje não brincas comigo.
Lembranças trouxe, à face, o castigo,
Da metáfora, filha dos enredos

Ah, partiste, te foste, fiquei só!
E o sonho dessa vida, quanto pó
Guardado em minha caixa de brinquedos!

Eliane Triska

 

 

  Celibato


Se te quis, não te pedi a rogo,
Nem me fiz, de um corpo, o teu desdém;
Se me marcas frio, a ferro e fogo,
Sou um livre território de ninguém.

Por que me negas a possibilidade
De o passado ser chamado de meu bem?
Que o futuro, desconhecendo a saudade,
Traga um filho que ignora de onde vem?


Me escrevo, mas a pena não alcança
Os moinhos de fantasmas que em mim dançam,
Nem Quixote foi um louco a andar sem lança!

E o papel desdobrando-se, meu universo
Liberta-se, nas letras, como um louco
Amante da poeta deste verso.

Eliane Triska

 

 

 Dança real


Dança a flor com o seu perfume.
Semelhanças no salão, com seus espelhos,
E a imagem que se vê quer-se incólume,
Confundindo, no jardim, pares ingênuos.

O olhar, sem fruir da intuição,
Brinca, virgem, satisfeito, distraído,
E o espelho troca a flor, sem permissão,
Preferindo, dos perfumes, o mais antigo,

Celebrando, em regozijo e realeza,
Na cadência desses passos musicados.
De forma que o espelho não perceba,
Outros pares novamente são trocados.

Eliane Triska

 

 

 Dês-esperança


Ao meu lado, te sentaste, ser estranho,
Tal fruto proibido à gestação:
Nos pés, terras de sangue, sal e cânhamo;
Ungidas as mãos, com óleo e contrição.

Trouxeste-me no cálix -- Santo Graal!--
As visões do tear que veste o infindo;
Na taça, te ofereces ao rival
Que bebe do teu ventre, retribuindo.

Na concha que o mistério não afoga,
Navega alienada humanidade:
Cordel que no universo faz a roda.

Devir soergue um ser do véu profundo,
Rastreando a fagulha do cogitum,
De coisas que são tuas ou do mundo?

Eliane Triska

 

Livro de Visitas

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