Eliane Triska

 

 
 
 
Pág. 06 de 13 pág..

 

 Em demasia...


Sossega, ó vida... Em demasia,
Amante, sou teu caso, sem que queira
Ser segunda, a outra, ou a primeira
Das letras, ser mais uma companhia.

Estrofes são perversas... Almas frias!
Solitárias raparigas, sem enredo,
Condenam-me, na sentença, ao degredo!
Amordaçam-me a viver de fantasias!

Nem sabe a vida... Nem sabes, ó vida!
Se sou água, o ar, ou sou comida,
Se do vinho o calor, do que tu bebes!

Farta-te, pois! Sou como um banquete!
Usa o que em mim, sobras, ao ter-te,
E morre, no gole que te despedes...

Eliane Triska

 

Encontro


Abafo no meu peito esta emoção:
Encontro do Pai Nosso e Ave Maria.
Escrevo de joelhos – sim, e o não
Nos passos regredidos à romaria.

Enquanto tu, ao longe, eu suportava,
Nos versos, rezas, lívida fraqueza.
Agora que tu voltas, a dor negava
A dor que te esperava sobre a mesa.

Me nega! Dize: Dor, tu és passado,
Queimado, escurecido, no carvão
Do tronco que levou o supliciado!

Denega, réu, confesso à bulimia,
Que engoles esse amor como um ladrão
E vomitas a dor que ele sentia!

Eliane Triska

 

 Escrevendo um coração


Coração maltratado, sem saliva,
A uma pena, curvado, envolvente,
Fibrila em desespero e doente
No palco da minha boca apreensiva,

Dize dos mistérios...Onde habitam
A intuírem a semente à primavera?
E, dos meus tolos lábios que hesitam,
Florescem (de)lírios como espera.

Se recusas o lugar do anonimato,
Na trama que te acusa do boato
De negares o amor – o verdadeiro,

Sê a substância da sedenta
Pena que, da tinta, se alimenta
E torna-te, dela, um prisioneiro.

Eliane Triska

 

 

 Floração


Há um temor de prosseguir inerte
E de cansar no meu sentir aflito,
De ver tombar o que a palavra verte
E acumpliciar-me em igual delito.

Irrompo a vida... Isso acaso eu quis?
Buscar o verbo, e que ele não desabe
Se o mundo bruto, a me exigir feliz,
Faz perigar no riso o que me cabe.

Ao solo, deito um delicado trevo,
Quase maduro, para as mãos de espera,
As verdes sombras cheias de enlevo,

E nele, o amor, em forma de semente,
Na permissão floral da primavera
Ungido a tempo, seja um novo ente!

Eliane Triska

 

 

 Fogo sagrado do amor


Ó meu senhor de todos os saberes,
Pude beber da vossa santa chama
E, no fogo, arder, posto quem ama
Ser escravo fiel dos seus quereres.

Flor ígnea ter-vos-á. Ainda eu possa
Viver no credo e, ao me sentir inteira,
A vós submetida - amante vossa,
Negar-vos quantas vezes eu me queira.

Se não vos posso ver como presença,
Tão pouco do saber ainda me resta,
Às cegas, a apalpar vossa essência.

De mim, jamais direi o amor que tive,
Nem do fogo a arder o esquecimento,
Nas dores do morrer que o amor vive.

Eliane Triska

 

 

Força oculta


Se há o tempo, também há sujeição
E o silêncio, a palpitar impune,
Num outro verbo, o que se inaugure,
Como matriz de um novo coração.

Cada suspiro, arrastando um deus,
Arrasta vida, a paixão, a sede,
Essa verdade que jamais me teve,
Fluido estranho que me envelheceu.

Incendeias e foges na fumaça.
Deixada à dor, tão só que só não passa
Estranha sensação de um sol noturno.

Curvada, sob o exílio dos meus passos
Que carregam o peso dos espaços
Dos anéis prateados de Saturno.

Eliane Triska

 

Livro de Visitas

Para pág. 7