Eliane Triska

 

 
 
 
Pág. 08 de 13 pág..

 

 Medusa


Silêncio! Fechaduras gritam, insolentes:
Que os loucos não se pensem em liberdade!
Deuses são, ou Figuras Sóis dos ventres,
Para a história lhes render a majestade?

Portas, que se lacrem às indagações!
Proíbam perguntas! Silenciem a degolada!
Amordaçadas as cartas de intenções,
É a ópera dos fantasmas orquestrada.

Óleo em telas, guarnecidas de loucura,
Que a noite, em delírio revanchista,
Redesenha um coliseu em miniatura.

Perpetrada a moldura do museu,
A Medusa, na estátua animista,
Era um quadro revelado do meu eu!

Eliane Triska

 

Meu carnaval


Prossegue o tempo no espessar da vida.
Das avenidas, vêm dois calados:
O antes e o depois - brincam de dados,
Nas mãos do agora, sempre de partida.

Fogo sem artifício, faze a massa
Da vida luzir o riso à metade,
Que o tempo quer a dor em igualdade,
E a paz é só cortina de fumaça.

Minha alma chora um corpo sem folia,
Na fome da mais pobre fantasia,
Cativa dos cordões de isolamento...

Meu bloco – ah, enredos de improviso!
Desfila, no arremedo de um sorriso,
Os pés pisando o chão do firmamento.

Eliane Triska

 Meu coração


Quem quer esse pulsar tão descontente,
Alheio, desalmado, inerte à vida,
Marchando qual soldado desistente,
Que, ferido de amor, não cicatriza?

Quem quer pequeno trapo encardido,
Figura desbotada de um baralho?
Dormido, as ilusões em ti, maldigo,
Nas palhas ressecadas do borralho.

Quem traz o beijo ao leito da promessa
De cura, desse enfermo apaixonado,
E à vida, pausa e morte que não cessa?

Quem cura sabe a vida em desconsolo.
É a sina que te fez tão desgraçado,
Ó tu, meu coração, um pobre tolo!

Eliane Triska

 

 

 Meu impreciso


Choro o tempo amassado nos rochedos,
Com lágrimas - excrementos da beleza,
A suportar, no disfarce da tristeza,
O peso impreciso dos meus dedos.

Escrevo... Obrigo-me a pensar na vida
Que me foi dada. Se caminhei,
Se só... É um prato de comida,
Um cárcere no qual me banqueteei.

Pensar o quê? No quê? Sou o impreciso!
Se há vidência na terra-sepultura,
Há febre no mundo que diviso
Reservado à semente-criatura.

Morrerei enobrecida, sem glória.
Triste, talvez, fosse vê-la inteira,
Vencida como letra sem memória!

Eliane Triska

 

 

 Meu sorriso!


Onde o perdeste, descuidado?
Que desfilo, com a máscara aderida
Ao semblante esculpido e mascarado,
Um sorriso, (des)sorrindo a própria vida.

Julgas e te apossas do direito
De interpor-te nesse espaço prometido,
Da face que tomaste, em incesto,
De público, o fazendo privativo.

Valha-me, Deus, por esse amor culpado!
Valha-me, sem direito ao seu perdão!
Oráculo preditivo, ó triste fado
De um querer, sem querer ouvir um não!


Devolve-me, imploro-te! É o meu sorriso
Que, no enredo dessa história, se perdeu.
Zombando, me ofereces o teu viço,
Pois, agora, quem o teu rouba sou eu.

Eliane Triska

 

 

 Minha alma


Minha alma, o que fizeste
Das soltas linhas à deriva?
Um ser da lua em preces,
Face da noite cativa?

Sussurros, ao céu, dos montes
Que semeiam cordilheiras,
Deitam suspiros às fontes,
Polinizam as corredeiras.

Impede, por piedade,
Louco intento da aprendiz:
Ser tudo! Verso ou metade?

Aquela, a que nunca fui.
Melhor seria o avesso
Nas sobras onde tudo rui!

Eliane Triska

 

Livro de Visitas

Para pág. 9