Eliane Triska

 

 
 
 
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 Minha morte


Vem de onde esse mistério tão profundo?
Insistente, perturba-me em vão.
Ó alma! Que fantasma é de outro mundo
E, da terra, é um punhado em minha mão?

Mistério! Decompondo-te, olvido
Que o verbo que organiza a alegoria
É um sopro a seguir o intrometido,
Velho céu que te espera noite e dia.

Sempre à frente, desde que eu nasci,
Alma gêmea da vida que vivi,
Lenitivo do que arde e incendeia.

Da noite de torpor, por ti vencida,
Ser em ti, esse agora, ou noutra vida,
O sorriso da estrela que vagueia.

Eliane Triska

 

Minha vida


Meu coração, a latejar constante,
Rubro, a sangrar o corte suturado,
Arrebentando a terra, grita arfante.
Assim padece exangue, amordaçado!

Cala-te, minha inércia! Messalina!
Deixa-me! Vou ao encontro do perigo
Morre! Vai! Cala ou te extermina!
Sê a fuga; o lugar do teu abrigo.

Meus lábios prisioneiros no bravio,
Trêmulos, queimam, ardem! Sentem frio!
Degradando-se, gêmeos deprimidos.

Em lágrimas, empresto-me à ternura
De seguir até o fim, com a bravura
Dos pássaros em voo abatidos.

Eliane Triska

 

 

 Não mais do que isto!
Relendo Fernando Pessoa


Qualquer coisa que se diga,
na mentira-leviandade ou
na verdade-infinda,
será sempre metade,
ainda!

O escondido não se lê,
no que minha alma importa,
e só para o que não crê
se mostra!

Porque aquela que vê
na cinza,
sem ser,
faz-se linda!

Eliane Triska

 

 

 Natureza surda


Se, em algum cântico de amor, te incluí,
Num vão esforço de completa partitura,
Fiz-me gozo, como parte da amargura,
Na igual saudade da alegria que fruí.

Hoje o que trazes não me farta,
Só no que sou, pouca sou e sobro,
Chão de arrasto, no andar que obro
Inocente corpo nessa Cruz de Malta.

Natureza fria. Quanto me pesa!
Ver-me repartida em tua gleba,
Sentido fado que inquieta meu porvir.

Surda! Te enfeitas de primavera às estrelas,
Castigas-me com dias, sem poder vê-las.
À noite, cansas. Fechas os olhos. Vais dormir...

Eliane Triska

 

 

 Ninguém falou sobre a dor em nós


Não! Ninguém falou sobre a dor em nós
Sabe ela o que é? Se reconhece?
Talvez se ignore, ao caminhar a sós,
A companhia que lhe faz a prece.

Piedosa irmã... Ah, tanto nos quer!
Que os sonhos mortos de liberdade
Vão viver em seus braços de mulher,
Como filhos delinquentes da vontade!

- Miserável! Como suportas teu ser
Faminto - na urna escura da noite,
A engolir nossas faltas para viver?

Ouve! Se me queres, estou pronta!
Contigo lutarei, como o açoite,
Ao explodires em gemidos à minha boca!

Eliane Triska

 

 

 No desfiladeiro


Rente à beira do senil desfiladeiro,
Contornando as cicatrizes da montanha,
Silenciosa, em suas curvas sem letreiro,
Peregrina misteriosa caravana.

Aonde vai? Qual o destino? Ninguém sabe.
Ninguém a vê. Ninguém fala, nem assunta.
Deambulam pensamentos como a ave.
Como a fome, engole o vento e tudo ajunta.

Livres ecos, nas sandálias já sem dó,
Pisam pedras, agitando o desespero,
Gritam em seco, replicado: Vivo só!

Obediente, a caravana segue a vida.
Faz de um passo uma chegada sem roteiro
E, chorando, faz do outro a despedida.

Eliane Triska

 

Livro de Visitas

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