SEBO LITERÁRIO

autor

 
 

HUMBERTO VERÍSSIMO SOARES SANTA

 

 

A ÚLTIMA CENA
Humberto Soares Santa


No palco, o velho actor fungou e disse :
- Escutem !... Hoje a máscara caiu !
Alguém roubou a peça e fugiu
Pra que o acto final não se cumprisse.

A cena principal era : “Velhice”.
O povo arrefeceu. Nunca se viu
Tanta gente a tremer, cheia de frio,
Para assistir à última tolice.

A multidão gritou horrorizada :
- O que foi ?!... O que foi que aconteceu ?!
Qual o final da peça aqui roubada ? !

O velho mascarou-se e olhou o céu.
Só uma voz se ouviu entusiasmada :
- Viva o actor !... - e o velho actor morreu.

Cotovia-Portugal
 

 

 

 

A VIRGEM NEGRA
Humberto Soares Santa


Sempre que a virgem negra ajoelha em prece
Em frente do altar-mor da catedral,
A súplica em silêncio acontece,
Pedindo o grande abraço universal.

Pelo negro da pele passeia a dor,
Em anseios de amor já transformada.
A alma é branca, não devendo a cor
Tornar a linda virgem, mal-amada.

Na arte da sagrada catedral,
São brancos... anjos, santos e cupidos.
Negros!... Só Satanás e anjos do mal.

Os santos de pele negra, estão esquecidos
Mas são raios da luz celestial
Que só p’la virgem negra, são sentidos !...

Cotovia-Portugal

 

 

 

ABRAÇO DA SAUDADE
Humberto Soares Santa


Sou fantasma na casa velha e triste !...
Na sala o tempo geme, sufocado.
Meus passos soam secos no sobrado...
Tudo o que foi aqui, já não existe.

Procuro em vão por ti mas tu sumiste.
Só a saudade abraça o meu passado,
Pai, diz-me aonde estás ?!... Para que lado
Fica o mundo de luz, pró qual partiste ?

Ao abrir portas na recordação
Preciso estar por ti acompanhado :
- Chega-te a mim, vem !... dá-me a tua mão !...

Vem pisar os caminhos da lembrança.
Quero ficar a ti aconchegado
E ao teu colo... voltar a ser criança !...

Cotovia-Portugal

 

 

 

ABRAÇO
Humberto Soares Santa


Junta o teu coração ao meu e agora
Os dois seremos um na caminhada,
Alma com alma, ambos de mão dada,
Serenos pela vida... vida fora.

Sempre que um estiver triste, o outro chora.
Se um rir, o outro solta a gargalhada.
A estrada dum, será do outro a estrada,
Quando um está perto, o outro não demora.

O nosso abraço, abraça a vida agora,
Protegendo na arena o nosso espaço,
Um dia um vai partir e ao ir-se embora

Levará deste amor algum pedaço.
Se for eu o primeiro... nessa hora,
No céu, fico esperando o teu regaço !

Cotovia-Portugal

 

 

 

ALMA VESTIDA
Humberto Soares Santa


Um vulto nu e só, dança na estrada
Lavando, com seus sonhos, corpo e alma.
Perdido, foi parar na encruzilhada
Onde nem no cansaço, sente a calma.

Quem és tu, dançarino do caminho ?...
Que fazes por aqui, bailando nu ?...
Que fazes neste mundo, tão sozinho ?...
Homem (que sou eu)... diz !... - Quem serás tu ?...

Pra seres o ditador da própria sorte
Nesta difícil dança que é a vida,
Terás que demonstrar que és o mais forte

Erguendo alto, a fé nunca perdida.
Só assim vencerás a própria morte,
Nu de corpo, porém de alma vestida !

Cotovia-Portugal

 

 

 

AMANTES
Humberto Soares Santa


Dançaste, deslizando, divertida.
Depois, foi em nácar que te tornaste
Quando só, quase nua, meio vestida,
Na relva do jardim te acomodaste.

Beijada pela luz, sob a ramagem,
Estes meus olhos viram-te princesa,
Tendo eu, logo ali, virado pagem,
Guardião dessa fonte de beleza.

O sol que abria o verde, distraído,
Penetrando seus raios entre a folhagem
Era um ramo dourado, que caído,
Punha pequenos sóis na tua imagem.

Ao longe um girassol virava lento
Seguindo a cor do Sol embevecido.
Um cisne, só, nadava pachorrento,
De branco e de elegância bem vestido.

Beijei nesses teus seios a beleza,
Bebendo em delírio a tua imagem
Que via no teu trono de princesa
Comigo a teus pés, nascido pagem.

Mais tarde, quando o Sol já se deitava,
Rebolámos p’lo chão mais uns instantes
Sentindo a brisa terna, que afagava
Os nossos corpos de eternos amantes.

Cotovia-Portugal

 

 

 

 
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