SEBO LITERÁRIO

autor

 
 

HUMBERTO VERÍSSIMO SOARES SANTA

 

 

ANJO TRISTE
Humberto soares santa



A sarça já não arde no Sinai.
A lei petrificada foi esquecida.
A vida de quem nasce, mata a vida.
O etéreo, pelos dedos, escorre e cai.

Num momento de grande reflexão,
Pensei muito em Moisés e sua lei.
Se não aconteceu, então sonhei
Que ceguei com a luz duma ilusão :

Um anjo, em golpe de asa abriu os céus,
Veio até mim e sentou-se ao meu lado :
- Que fizeste do mundo, ó desgraçado ?!
- Que fizeste de ti e do teu Deus ?!

Pegou na minha mão !... Pra meu castigo
Falou-me meigamente... com carinho :
_ É tempo !... arrepia o teu caminho !...
E abraçando-se a mim, chorou comigo.


Cotovia-Portugal

 

 

 

ÀRVORE DE NATAL
Humberto Soares Santa


Na árvore, os pássaros cantores,
Numa azáfama de grande energia,
Transformam o trabalho em alegria
Na construção do ninho dos amores.

Nos bicos trazem pétalas de flores
E palha e raminhos, que partidos,
Dependuram nos troncos retorcidos!...
Depois, após a acção dos construtores,

Abrem-se em cor os bicos esfaimados
Dos novos passarinhos, na certeza
De que o Natal chegou para aqueles lados.

Os ninhos pendurados… que beleza!...
São bolas coloridas com trinados
Na árvore de natal da natureza!...

Cotovia-Portugal

 

 

 

BARDOS E TROVADORES
Humberto Soares santa


O que cantam os bardos nesta hora
Em que os grandes heróis já se finaram,
As gárgulas das fontes se secaram
E aumentam os romeiros, estrada fora ?!...

O homem do realejo ?!... onde mora ?!...
Os menestréis, de fome soçobraram.
As virgens estão sós ou professaram.
Poetas !.... O que cantais pra nós, agora ?

Não há princesas belas pelos montes
Nem príncipes, nem sapos encantados.
Foram-se as cantarinhas junto às fontes

Dos tímidos casais de namorados !...
- Canta !... Ó poeta !... Quero que me contes
Quantos poemas, de ti foram roubados !

Cotovia-Portugal

 

 

 

CRONOS
Humberto Soares Santa


Na procura galáctica da vida
Em busca do princípio inteligente,
Se prendermos o tempo na nascente,
Haverá para o evo, uma saída.

Cronos deu-nos o tempo que à partida
Se dilui no instante do presente.
Um momento passado é de repente
Uma parte de nós já consumida.

O tempo corre tal como um cavalo
Sempre a fugir de nós... ai que revolta !
Não quero que se vá... tento agarrá-lo

Mas vai com o freio nos dentes... rédea solta !
Não adianta mais ir procurá-lo
Porque esse meu cavalo... já não volta !...

Cotovia-Portugal

 

 

 

CUMPLICIDADE
Humberto Soares Santa



Que é da cumplicidade no amor?
Que é do gesto meigo da ternura?
Onde fica o valor de quem procura
Abraçar o mundo ao seu redor?!

Eu, cúmplice da guerra e do horror,
Não grito contra a fome e a fartura.
Não sinto a tua dor e amargura!...
Duvido até de Ti, ó meu Senhor!...

Ao duvidar se Deus é realidade,
Sou cúmplice agnóstico e ateu
E ao Homem ímpio dou cumplicidade.

Sou cúmplice de Ti, ó Deus do Céu,
Sempre que a dor me chega!... Na verdade,
Sou cúmplice de mim e do meu eu!...

Cotovia-Portugal

 

 

 

E DEUS FEZ A MULHER
Humberto Soares Santa

Homenagem ao sacrifício da mulher mãe



A mulher e seus sentidos sempre alerta,
Resultaram da mistura em dose certa
Colocada num cadinho com a costela.
Perfume a mulher tem e tem amor,
Se Deus a pintasse com mais cor,
Certamente que seria menos bela.

Com um pouco mais de dor, era queixume.
Com um pouco mais de amor, era ciúme.
Com um pouco mais de olhar, era gazela.
Com um pouco mais de fulgor, seria raio.
Com um pouco mais de flor, seria Maio.
Com um pouco mais de luz, seria estrela.

A mulher é bela em qualquer idade
Mas só pode ser mãe sem virgindade
Pois só a mãe de Deus morreu donzela !

Cotovia-Portugal

 

 

 

 
para índice                  para pág 05

Registre sua opinião no

Livro de Visitas: