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Fundamentação
Teórica
A Análise do Discurso (AD) como disciplina e como objeto de estudo surgiu
na
década
de
60,
na
França,
sendo
consagrada
em
1969
com
a
publicação
da
revista
denominada
Langages,
em
seu
número
13,
intitulado
“A
análise
do
Discurso”
e
tendo
como
precursor
Michel
Pêcheux.
A construção teórica caracteriza-se por revisões e mudanças que se expressam
em
três
épocas
distintas
que
caracterizam
a
Escola
Francesa
da
Análise
do
Discurso.
Na
primeira
delas,
o
processo
discursivo
era
visto
como
uma
máquina
estrutural
discursiva
automática,
fechada
sobre
si
mesma
e
dominada
por
condições
de
produção
estáveis
e
homogêneas
envolvendo,
pois,
sujeitos
assujeitados.
O
discurso,
nesta
fase
inicial,
era
resultado
de
condições
de
produção
estáveis
e
homogêneas.
Em
uma
segunda
fase,
em
que
aparece
a
noção
de
formação
discursiva,
extraída
da
obra
de
Foucault,
cai
por
terra
a
noção
inicial
de
maquinaria
fechada
e
prevalece,
então,
a
noção
de
formação
discursiva
formada
de
outras
formações
discursivas,
de
elementos
exteriores
que
Pêcheux
denomina
de
pré-construído.
É
nesta
fase
da
AD
que
também
aparece
a
noção
de
interdiscurso
para
designar
o
exterior
de
uma
formação
discursiva
e
que
surge
a
noção
de
sujeito
discursivo
como
assujeitado
à
formação
discursiva
com
a
qual
se
identifica.
A
terceira
fase,
por
sua
vez,
apresenta
as
mudanças
mais
expressivas
em
que
são
levadas
a
termo
noções
como
maquinaria
discursiva
estrutural,
homogeneidade
e
estabilidade.
É,
pois,
nesta
fase
que
aparece
o
discurso-outro,
questionamentos
sobre
o
sujeito
do
discurso,
espaço
de
memória
e
até
mesmo
questionamentos
sobre
como
a AD
vem
sendo
utilizada
como
procedimento
de
análise.
A AD
apresenta
um
caráter
interdisciplinar,
pois
além
da
Lingüística,
encontramos
estreita
e
inevitável
ligação
com
a
História,
com
a
Sociologia,
com
a
Psicanálise.
O objeto de estudo da AD é o discurso, que não é pronunciamento político
ou
retórica,
mas
palavra
em
movimento,
prática
de
linguagem,
conforme
definido
por
Orlandi
(2007,
p.15).
Seguindo
essa
mesma
linha,
Fernandes
(2007,
p.10)
diz
que
“o
discurso
implica
uma
exterioridade
à
língua,
cuja
compreensão
coloca
em
evidência
aspectos
ideológicos
e
históricos
próprios
à
existência
do
discurso
nos
diferentes
contextos
sociais”.
É
preciso
ressaltar
que
o
objeto
da
AD
não
se
restringe
ao
estudo
da
língua
(gem)
no
aspecto
gramatical,
sintático,
mas
vai
muito
além
procurando
apurar
o
sentido
que
não
se
esgota
em
uma
análise.
O
discurso
encontra-se
no
social
onde
é
possível
se
perceber
a
ideologia,
a
história,
que
são
determinantes
para
a
consideração
do
discurso
como
não
fixo,
passível
de
transformação.
Segundo
Fernandes
(2007,
p.10)
“analisar
o
discurso
implica
interpretar
os
sujeitos
falando,
tendo
a
produção
de
sentidos
como
parte
integrante
de
suas
atividades
sociais”.
Ao abordarmos o discurso, a AD trabalha com duas noções fundamentais,
propostas
por
Pêcheux
(1997),
quais
sejam
o
interdiscurso
e o
intradiscurso,
cujo
cruzamento
é
responsável
para
a
constituição
do
sentido.
O
primeiro,
também
chamado
de
memória
discursiva,
compreende
o
conjunto
de
saberes
que
antecedem
o
sujeito
e
que
emergem
no
discurso
e o
segundo
compreende
a
formulação,
ou
seja,
a
materialidade
lingüística.
Em Análise de Discurso, ao abordarmos a produção de sentido, trabalhamos
com
a
noção
de
que
os
sentidos
não
são
fixos,
não
são
aqueles
que
se
encontram
no
dicionário,
mas
“são
produzidos
face
aos
lugares
ocupados
pelos
sujeitos
em
interlocução”
(FERNANDES,
2007,
p.21).
Sendo
assim,
o
sujeito
para
a AD
não
é,
então,
o
sujeito
individual,
isolado,
mas
um
“ser
social,
apreendido
em
um
espaço
coletivo”
(FERNANDES,
2007,
p.33).
Ao
considerá-lo
em
um
espaço
coletivo,
o
mesmo
está
sendo
considerado
em
um
espaço
social,
num
dado
tempo,
influenciado
por
uma
formação
ideológica,
o
que
certamente
expressará
não
só
sua
voz
individual
e/ou
individualizada,
mas
“um
conjunto
de
outras
vozes
integrantes
de
dada
realidade
social;
de
sua
voz
ecoam
as
vozes
constitutivas
e/ou
integrantes
desse
lugar
sócio-histórico”
(FERNANDES,
2007,
p.34).
O discurso é território inesgotável e, assim sendo, a análise não é única
e
não
se
esgota
em
apenas
uma
abordagem,
levando
em
conta
o
sujeito,
o
tempo,
o
espaço
a
ideologia,
o
momento
histórico,
a
memória
discursiva,
bem
como
as
formações
discursivas
que
vão
se
apresentar
em
cada
discurso,
visto
que
o
sujeito
não
é
homogêneo,
mas
constituído
por
diferentes
vozes.
Dessa
forma,
é
inevitável
o
aparecimento
de
noções
de
heterogeneidade.
É óbvio, então que ao ser feita uma análise de discurso, o que será realizado
não
será
uma
análise
lingüística,
mas
a
apreensão
dos
efeitos
de
sentido
(que
não
é o
significado
da
palavra)
que
“são
produzidos
em
decorrência
da
ideologia
dos
sujeitos
em
questão,
da
forma
como
os
sujeitos
compreendem
a
realidade
política
e
social
na
qual
estão
inseridos”
(FERNANDES,
2007,
p.20).
Convém ainda definirmos, para melhor compreensão do assunto, o que é sujeito.
Assim
sendo,
como
observamos
na
obra
de
Cleudemar
Fernandes,
o
sujeito,
dentro
da
AD
considerado
sujeito
discursivo,
é
considerado
um
ser
social,
apreendido
dentro
de
um
espaço
coletivo,
portanto,
um
sujeito
que
tem
existência
dentro
de
um
espaço
social
e
ideológico,
constituído
por
diferentes
vozes
sociais.
Para
fins
de
clareza,
é
importante
distinguir
sujeito
falante
de
sujeito
falando.
O
primeiro
é o
eu
individualizado,
empírico
que
adquire
e
usa
a
língua
de
acordo
com
o
contexto
social
no
qual
se
insere.
O
outro,
o
sujeito
falando,
é
aquele
que
é
considerado
pela
AD,
ou
seja,
é o
“sujeito
inserido
em
uma
conjuntura
sócio-histórica-
de
vozes
sociais”
(FERNANDES,
2007,
p.34).
Segundo Orlandi (2007, p.35), “o sujeito é lingüístico, histórico, constituído
pelo
esquecimento
e
pela
ideologia”.
No
que
diz
respeito
ao
esquecimento,
é
importante
lembrar
que,
segundo
Pêcheux
(1997),
o
sujeito
é
afetado
por
dois
tipos
de
esquecimento,
o de
número
um e
o de
número
dois.
O
esquecimento
número
um
ou
esquecimento
ideológico,
que
é da
ordem
do
inconsciente,
é
aquele
em
que
temos
a
ilusão
de
ser
a
origem
do
que
dizemos,
quando,
na
realidade,
retomamos
sentidos
pré-existentes.
“O
sujeito
tem
a
ilusão
de
ser
o
centro
de
seu
dizer,
pensa
exercer
o
controle
dos
sentidos
do
que
fala,
mas
desconhece
que
a
exterioridade
está
no
interior
do
sujeito,
em
seu
discurso
está
o
outro
compreendido
como
exterioridade
social”
(FERNANDES,
2007,
p.41).
O
esquecimento
número
dois,
que
é da
ordem
da
enunciação,
é
aquele
em
que
o
sujeito
pensa
ser
dono
de
seu
dizer.
Diz
Orlandi
(2007,
p.35)
que
“ao
falarmos,
o
fazemos
de
uma
maneira
e
não
de
outra,
e,
ao
longo
de
nosso
dizer,
formam-se
famílias
parafrásticas
que
indicam
que
o
dizer
sempre
podia
ser
outro”.
O
sujeito
tem
a
idéia
de
que
o
que
é
dito
só
poderia
ser
feito
daquela
maneira,
com
aquelas
palavras
e
não
outras,
estabelecendo
uma
relação
“natural”
entre
a
palavra
e a
coisa.
Este
esquecimento
produz
no
sujeito
a
impressão
de
realidade
do
pensamento.
É a
chamada
ilusão
referencial
induzindo
o
sujeito
a
acreditar
que
há
uma
relação
direta
entre
o
pensamento,
a
linguagem
e o
mundo
(ORLANDI,
2007).
Ao procedermos à fundamentação teórica para realização deste trabalho,
certamente,
teremos
de
explicitar
o
que
se
denomina
Formação
Discursiva
(FD),
pois
é
algo
impossível
de
dissociar
do
discurso.
Segundo
Pêcheux
(1997b),
a
formação
discursiva
compreende
tudo
aquilo
que
pode
ser
dito
no
âmbito
de
uma
formação
ideológica,
a
qual
compreende
o
conjunto
de
saberes
que
nos
determinam
como
sujeito.
Já
mencionamos
acima
que
toda
formação
discursiva
apresenta,
em
seu
interior,
a
presença
de
diferentes
discursos,
oriundos
de
diferentes
momentos
e
lugares
sociais.
Em
uma
determinada
formação
discursiva,
é
possível
detectar
elementos
oriundos
de
outras
formações
discursivas
que
podem
até
contradizer
alguns
saberes
que
a
constituem.
Focault (1995) destaca que todo discurso é marcado por enunciados que o
antecedem
e o
sucedem
integrantes
de
outros
discursos.
Isso
é
compreensível
pela
transitoriedade
do
ser
humano
e da
história,
que
não
são
engessados,
fechados,
o
que
ocasiona
a
formação
de
outros
cenários,
outros
grupos,
novas
ideologias.
Fernandes
afirma
que
o
“aspecto
histórico
decorre
da
interação
social
entre
sujeitos
como
um
movimento
ininterrupto
e
descontínuo
na
linha
do
tempo,
que
conduz
para
a
constituição
de
novos
sujeitos
e
novos
grupos
sociais
bem
como
para
a
formação
de
novos
discursos”
(2007,
p.52).
Uma dada formação discursiva refere-se a uma determinada época e espaço
social,
que
é
percebida
no
espaço
social
que
tem
lugar,
a
partir
de
condições
de
produção
específicas.
Dentro
do
conceito
de
formação
discursiva
são
percebidos,
também,
os
conceitos
de
unidade
e
dispersão,
pois
segundo
Foucault
(1995,
p.24)
“todo
discurso
resulta
de
um
já-dito
(não
sabido,
apagado)
e
esse
já
dito
é
sempre
um
jamais
dito”.
A
formação
discursiva
permite
“compreender
o
processo
de
produção
dos
sentidos,
a
sua
relação
com
a
ideologia”
(ORLANDI,
2007,
p.
47).
Sendo
assim,
é
preciso
observar
que
não
é na
essência
da
palavra
que
é
encontrada
a
ideologia,
nem
na
intenção
daquele
que
o
diz,
mas
na
discursividade,
além
das
palavras,
envolvendo
as
condições
sócio-históricas
determinantes
do
que
pode
e
deve
ser
dito.
O
discurso
está
relacionado
com
outros:
“dizeres
presentes
e
dizeres
que
se
alojam
na
memória”
(ORLANDI,
2007,
p.43).
Com isto, chegamos ao conceito de heterogeneidade discursiva que “designa
um
ser
constituído
de
elementos
diversificados”
(FERNANDES,
2007,
p.36).
A
heterogeneidade
discursiva
proporciona
cruzamentos
de
diversos
saberes,
como
no
presente
trabalho
em
que,
nas
propagandas,
encontramos
a
presença
de
saberes
do
discurso
religioso
cristão,
entrelaçados
com
outros,
tais
como
sedução,
desejo,
poder.
Authier-Revuz (1982) traz para a AD os conceitos de heterogeneidade mostrada
e
heterogeneidade
constitutiva.
A
primeira
é
aquela
que
nos
permite
detectar
a
presença
de
discursos
outros,
ao
longo
do
texto
e a
segunda
é
aquela
dominada
pelo
interdiscurso,
ou
seja,
mais
de
um
discurso,
um
conjunto
deles,
de
um
mesmo
campo
discursivo,
de
campos
discursivos
distintos,
de
épocas
também
distintas,
mesmo
que
existam
marcas
visíveis
de
citação,
alusão.
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