SEBO LITERÁRIO

 

 

Isabel Cristina Silva Vargas

 

 

 
TRABALHO DIDÁCTICO
ARTIGO MONOGRÁFICO
ANÁLISE DO DISCURSO

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Fundamentação Teórica


  A Análise do Discurso (AD) como disciplina e como objeto de estudo surgiu na década de 60, na França, sendo consagrada em 1969 com a publicação da revista denominada Langages, em seu número 13, intitulado “A análise do Discurso” e tendo como precursor Michel Pêcheux.
  A construção teórica caracteriza-se por revisões e mudanças que se expressam em três épocas distintas que caracterizam a Escola Francesa da Análise do Discurso. Na primeira delas, o processo discursivo era visto como uma máquina estrutural discursiva automática, fechada sobre si mesma e dominada por condições de produção estáveis e homogêneas envolvendo, pois, sujeitos assujeitados. O discurso, nesta fase inicial, era resultado de condições de produção estáveis e homogêneas. Em uma segunda fase, em que aparece a noção de formação discursiva, extraída da obra de Foucault, cai por terra a noção inicial de maquinaria fechada e prevalece, então, a noção de formação discursiva formada de outras formações discursivas, de elementos exteriores que Pêcheux denomina de pré-construído. É nesta fase da AD que também aparece a noção de interdiscurso para designar o exterior de uma formação discursiva e que surge a noção de sujeito discursivo como assujeitado à formação discursiva com a qual se identifica. A terceira fase, por sua vez, apresenta as mudanças mais expressivas em que são levadas a termo noções como maquinaria discursiva estrutural, homogeneidade e estabilidade. É, pois, nesta fase que aparece o discurso-outro, questionamentos sobre o sujeito do discurso, espaço de memória e até mesmo questionamentos sobre como a AD vem sendo utilizada como procedimento de análise. A AD apresenta um caráter interdisciplinar, pois além da Lingüística, encontramos estreita e inevitável ligação com a História, com a Sociologia, com a Psicanálise.
  O objeto de estudo da AD é o discurso, que não é pronunciamento político ou retórica, mas palavra em movimento, prática de linguagem, conforme definido por Orlandi (2007, p.15). Seguindo essa mesma linha, Fernandes (2007, p.10) diz que “o discurso implica uma exterioridade à língua, cuja compreensão coloca em evidência aspectos ideológicos e históricos próprios à existência do discurso nos diferentes contextos sociais”. É preciso ressaltar que o objeto da AD não se restringe ao estudo da língua (gem) no aspecto gramatical, sintático, mas vai muito além procurando apurar o sentido que não se esgota em uma análise. O discurso encontra-se no social onde é possível se perceber a ideologia, a história, que são determinantes para a consideração do discurso como não fixo, passível de transformação. Segundo Fernandes (2007, p.10) “analisar o discurso implica interpretar os sujeitos falando, tendo a produção de sentidos como parte integrante de suas atividades sociais”.
  Ao abordarmos o discurso, a AD trabalha com duas noções fundamentais, propostas por Pêcheux (1997), quais sejam o interdiscurso e o intradiscurso, cujo cruzamento é responsável para a constituição do sentido. O primeiro, também chamado de memória discursiva, compreende o conjunto de saberes que antecedem o sujeito e que emergem no discurso e o segundo compreende a formulação, ou seja, a materialidade lingüística.
  Em Análise de Discurso, ao abordarmos a produção de sentido, trabalhamos com a noção de que os sentidos não são fixos, não são aqueles que se encontram no dicionário, mas “são produzidos face aos lugares ocupados pelos sujeitos em interlocução” (FERNANDES, 2007, p.21). Sendo assim, o sujeito para a AD não é, então, o sujeito individual, isolado, mas um “ser social, apreendido em um espaço coletivo” (FERNANDES, 2007, p.33). Ao considerá-lo em um espaço coletivo, o mesmo está sendo considerado em um espaço social, num dado tempo, influenciado por uma formação ideológica, o que certamente expressará não só sua voz individual e/ou individualizada, mas “um conjunto de outras vozes integrantes de dada realidade social; de sua voz ecoam as vozes constitutivas e/ou integrantes desse lugar sócio-histórico” (FERNANDES, 2007, p.34).
  O discurso é território inesgotável e, assim sendo, a análise não é única e não se esgota em apenas uma abordagem, levando em conta o sujeito, o tempo, o espaço a ideologia, o momento histórico, a memória discursiva, bem como as formações discursivas que vão se apresentar em cada discurso, visto que o sujeito não é homogêneo, mas constituído por diferentes vozes. Dessa forma, é inevitável o aparecimento de noções de heterogeneidade.
  É óbvio, então que ao ser feita uma análise de discurso, o que será realizado não será uma análise lingüística, mas a apreensão dos efeitos de sentido (que não é o significado da palavra) que “são produzidos em decorrência da ideologia dos sujeitos em questão, da forma como os sujeitos compreendem a realidade política e social na qual estão inseridos” (FERNANDES, 2007, p.20).
  Convém ainda definirmos, para melhor compreensão do assunto, o que é sujeito. Assim sendo, como observamos na obra de Cleudemar Fernandes, o sujeito, dentro da AD considerado sujeito discursivo, é considerado um ser social, apreendido dentro de um espaço coletivo, portanto, um sujeito que tem existência dentro de um espaço social e ideológico, constituído por diferentes vozes sociais. Para fins de clareza, é importante distinguir sujeito falante de sujeito falando. O primeiro é o eu individualizado, empírico que adquire e usa a língua de acordo com o contexto social no qual se insere. O outro, o sujeito falando, é aquele que é considerado pela AD, ou seja, é o “sujeito inserido em uma conjuntura sócio-histórica- de vozes sociais” (FERNANDES, 2007, p.34).
  Segundo Orlandi (2007, p.35), “o sujeito é lingüístico, histórico, constituído pelo esquecimento e pela ideologia”. No que diz respeito ao esquecimento, é importante lembrar que, segundo Pêcheux (1997), o sujeito é afetado por dois tipos de esquecimento, o de número um e o de número dois. O esquecimento número um ou esquecimento ideológico, que é da ordem do inconsciente, é aquele em que temos a ilusão de ser a origem do que dizemos, quando, na realidade, retomamos sentidos pré-existentes. “O sujeito tem a ilusão de ser o centro de seu dizer, pensa exercer o controle dos sentidos do que fala, mas desconhece que a exterioridade está no interior do sujeito, em seu discurso está o outro compreendido como exterioridade social” (FERNANDES, 2007, p.41). O esquecimento número dois, que é da ordem da enunciação, é aquele em que o sujeito pensa ser dono de seu dizer. Diz Orlandi (2007, p.35) que “ao falarmos, o fazemos de uma maneira e não de outra, e, ao longo de nosso dizer, formam-se famílias parafrásticas que indicam que o dizer sempre podia ser outro”. O sujeito tem a idéia de que o que é dito só poderia ser feito daquela maneira, com aquelas palavras e não outras, estabelecendo uma relação “natural” entre a palavra e a coisa. Este esquecimento produz no sujeito a impressão de realidade do pensamento. É a chamada ilusão referencial induzindo o sujeito a acreditar que há uma relação direta entre o pensamento, a linguagem e o mundo (ORLANDI, 2007).
  Ao procedermos à fundamentação teórica para realização deste trabalho, certamente, teremos de explicitar o que se denomina Formação Discursiva (FD), pois é algo impossível de dissociar do discurso. Segundo Pêcheux (1997b), a formação discursiva compreende tudo aquilo que pode ser dito no âmbito de uma formação ideológica, a qual compreende o conjunto de saberes que nos determinam como sujeito. Já mencionamos acima que toda formação discursiva apresenta, em seu interior, a presença de diferentes discursos, oriundos de diferentes momentos e lugares sociais. Em uma determinada formação discursiva, é possível detectar elementos oriundos de outras formações discursivas que podem até contradizer alguns saberes que a constituem.
  Focault (1995) destaca que todo discurso é marcado por enunciados que o antecedem e o sucedem integrantes de outros discursos. Isso é compreensível pela transitoriedade do ser humano e da história, que não são engessados, fechados, o que ocasiona a formação de outros cenários, outros grupos, novas ideologias. Fernandes afirma que o “aspecto histórico decorre da interação social entre sujeitos como um movimento ininterrupto e descontínuo na linha do tempo, que conduz para a constituição de novos sujeitos e novos grupos sociais bem como para a formação de novos discursos” (2007, p.52).
  Uma dada formação discursiva refere-se a uma determinada época e espaço social, que é percebida no espaço social que tem lugar, a partir de condições de produção específicas. Dentro do conceito de formação discursiva são percebidos, também, os conceitos de unidade e dispersão, pois segundo Foucault (1995, p.24) “todo discurso resulta de um já-dito (não sabido, apagado) e esse já dito é sempre um jamais dito”. A formação discursiva permite “compreender o processo de produção dos sentidos, a sua relação com a ideologia” (ORLANDI, 2007, p. 47). Sendo assim, é preciso observar que não é na essência da palavra que é encontrada a ideologia, nem na intenção daquele que o diz, mas na discursividade, além das palavras, envolvendo as condições sócio-históricas determinantes do que pode e deve ser dito. O discurso está relacionado com outros: “dizeres presentes e dizeres que se alojam na memória” (ORLANDI, 2007, p.43).
  Com isto, chegamos ao conceito de heterogeneidade discursiva que “designa um ser constituído de elementos diversificados” (FERNANDES, 2007, p.36). A heterogeneidade discursiva proporciona cruzamentos de diversos saberes, como no presente trabalho em que, nas propagandas, encontramos a presença de saberes do discurso religioso cristão, entrelaçados com outros, tais como sedução, desejo, poder.
  Authier-Revuz (1982) traz para a AD os conceitos de heterogeneidade mostrada e heterogeneidade constitutiva. A primeira é aquela que nos permite detectar a presença de discursos outros, ao longo do texto e a segunda é aquela dominada pelo interdiscurso, ou seja, mais de um discurso, um conjunto deles, de um mesmo campo discursivo, de campos discursivos distintos, de épocas também distintas, mesmo que existam marcas visíveis de citação, alusão.
 

 

Livro de Visitas

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