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O
discurso
publicitário
e
suas
estratégias
A publicidade exerce um papel tão importante como formadora de opinião
que
autores
dizem
que
a
mesma
atua
em
esferas
antes
específicas
dos
meios
educacionais,
jurídicos,
religiosos,
mudando
conceitos,
regras,
interferindo
nos
costumes
e
comportamentos
outrora
tidos
como
tradicionais.
É
eficaz
na
sua
tarefa
além
de
ser
detentora
de
muita
credibilidade
face
ao
poderio
conquistado
pelo
império
midiático.
A
estratégia
do
discurso
publicitário
visa
persuadir
e
seduzir
o
cliente,
o
que
faz
através
de
peças
publicitárias
que
levam
em
conta
as
especificidades
dos
destinatários
virtuais,
suas
crenças
e
valores
sociais.
Diz
Aldrighi
(1995,
p.54)
que
“a
propaganda
trabalha
com
arte,
criatividade,
raciocínio,
moda,
cultura,
psicologia,
tecnologia,
enfim,
um
complicado
conjunto
de
valores
e
manifestações
da
capacidade
humana”.
Ao abordar o discurso midiático, Pauliukonis postula que “Os textos publicitários
são
reconhecidos
hoje
como
um
processo
de
produção
de
formas
culturais
e
viabilizadoras
das
representações
de
identidades
sociais.
(...)
o
significado
das
relações
interpessoais
é,
em
grande
parte,
construído
pelo
discurso
midiático”
(2003,
p.117).
Compõem-se
de
elementos
lingüísticos
e
extras
lingüísticos
que
fortalecem
a
imagem
do
produto,
propiciam
sua
reconstrução
e
fortalecimento
da
forma
argumentativa,
de
modo
a
atingir
de
maneira
mais
eficaz
o
destinatário
virtual,
cujo
raciocínio
é
habilmente
direcionado
para
um
fim
específico.
Argumentar,
com
base
em
AD,
significa
“incutir,
no
interlocutor,
uma
determinada
formação
discursiva
ou,
então
reforçá-la
caso
esse
interlocutor
já
compartilhe
dessa
mesma
FD”
(LIMA,
2002,
p.61).
Explica
ainda
a
autora
que
a
argumentação
funda-se
na
interdiscursividade,
e
que
para
obter
a
adesão
do
interlocutor,
o
sujeito
discursivo
emprega
argumentos
convincentes
que
envolvem
processos
conscientes
e
inconscientes,
sendo
os
primeiros
aqueles
que
envolvem
os
saberes
próprios
da
formação
discursiva
do
sujeito
e o
segundo
trata-se
do
processo
pelo
qual
o
sujeito
traça,
antecipadamente,
seus
objetivos
com
o
intuito
de
persuadir
o
interlocutor.
Para atingir o público alvo, o sujeito discursivo faz uso das formações
imaginarias
(PÊCHEUX,
1997b,
p.82),
o
que
significa
que
“estabelece
os
lugares
ideológicos
ocupados
por
ele
e
pelo
seu
interlocutor,
determinando
o
que
convém
ser
dito
ou
não,
antecipando
o
resultando
de
seus
argumentos
no
interlocutor”.
O discurso publicitário se atém aos imaginários culturais, ao sistema de
valores
sociais,
aos
estereótipos
consagrados,
àqueles
já
aludidos
por
Aristóteles
que
se
constituem
em
um
conjunto
de
crenças
socialmente
aceitas
que
aflora
com
os
anúncios
persuadindo
o
sujeito
interpretante
a se
tornar
um
consumidor
seduzido
pelas
estratégias
argumentativas.
Neste
jogo
de
interesses,
que
é a
publicidade,
o
sujeito
discursivo
é
fruto
de
uma
associação
da
empresa
fabricante
ou
de
comerciantes
com
uma
agência
de
comunicação,
divulgação,
marketing
que
não
pode
obrigar
ninguém
(sujeito
destinatário)
a
comprar
determinado
produto;
resta,
então,
as
técnicas
de
persuasão
e a
sedução.
No
jogo
do
discurso
publicitário,
o
sujeito
discursivo
procura
esconder
a
face
puramente
comercial,
mascarando-se
ou
como
“benfeitor”
ao
mesmo
tempo
em
que
prevê
uma
imagem
do
interlocutor.
Monnerat
(2003)
atesta
que
“o
sujeito
comunicante
vai
tentar
dissolver
a
identidade
de
vendedor
e a
do
interlocutor,
como
mero
consumidor,
em
favor
de
identidade
dos
seres
discursivos”.
A
relação
muda
de
sentido,
tendo
um
caráter
não
comercial,
mas
de
“benfeitor-beneficiário”.
Desse
modo,
conforme
Pauliukonis
(2003,
p.
119),
“o
produto
é o
instrumento,
ou
ferramenta,
capaz
de
preencher
a
carência
desse
público
alvo”.
No processo de persuasão, os argumentos do texto publicitário “ajudam a
evocar
o
produto
como
benfeitor
de
um
destinatário
idealizado,
cuja
carência
será
preenchida
por
seus
notórios
benefícios,
incorporando
assim,
a
fonte
para
os
argumentos
e a
base
para
sua
credibilidade”
(PAULIUKONIS,
2003,
p.120).
Recorremos aos elementos da psicanálise para explicar essa carência, no
que
diz
respeito
ao
desejo,
pois
este
remonta
à
época
do
nascimento
do
sujeito
com
a
ruptura
da
situação
ideal,
confortável
e
prazerosa
do
indivíduo
no
útero
materno.
Ao
longo
da
vida,
este
indivíduo
buscará,
quer
nas
relações
pessoais
como
nas
relações
de
consumo,
suprir
as
suas
carências,
advindas
da
ruptura
sofrida,
e da
sensação
de
castração
que
carrega,
de
maneira
inconsciente,
perseguindo
um
estado
de
satisfação,
de
prazer
e
conforto.
Este
sujeito
é um
sujeito
em
permanente
conflito.
Ele
tenta
satisfazer
seus
desejos,
pois
é um
eterno
insatisfeito
pelas
razões
já
expostas
acima,
através
do
consumo,
que
poderá
ser
regulado
ou
desenfreado,
configurando,
nesta
última
situação,
casos
patológicos
que
necessitarão
de
atendimento
especializado.
Convém
observarmos
que,
uma
vez
satisfeito,
o
desejo
dá
lugar
a
outro
numa
incessante
busca.
O
sujeito
tende
a
uma
satisfação
superficial
e
imediata
de
seus
conflitos
interiores
que
se
apresentam
sintomaticamente
através
do
consumismo.
O discurso se constrói com uma finalidade, dirigindo-se para alguém e é
considerado
também
uma
forma
de
ação,
possuindo,
então
uma
força
capaz
de
conduzir
o
interlocutor
a
fazer
aquilo
para
o
qual
é
induzido.
Nas condições de produção do discurso publicitário, precisamos levar em
conta
conceitos
próprios
da
AD
como
relação
de
sentidos,
mecanismo
de
antecipação
e
relação
de
forças.
O
primeiro,
isto
é, a
relação
de
sentidos
diz
respeito
à
relação
entre
os
discursos,
pois
segundo
esta
noção
“não
há
discurso
que
não
se
relacione
com
outro”
fazendo
com
que
o
sentido
do
discurso
seja
dado
por
estas
relações.
Como
vários
discursos
tomam
um
dado
discurso,
este
“é
considerado
dentro
de
um
processo
mais
amplo,
sem
começo
nem
fim”
(ORLANDI,
2007,
p.39).
Já,
pelo
mecanismo
de
antecipação,
é
possível
o
sujeito
colocar-se
no
lugar
do
outro
e
sentir
como
o
outro
sentiria,
ouviria
ou
entenderia
suas
palavras
antecipando-se,
desta
forma
ao
seu
interlocutor
e ao
sentido
produzido
por
suas
palavras,
visando
à
adesão
do
interlocutor.
O
processo
argumentativo
visa
os
efeitos
sobre
o
interlocutor,
variando
quando
prevê
um
interlocutor
cúmplice
a um
interlocutor
adversário.
Por
fim,
a
relação
de
forças,
por
sua
vez,
refere-se
à
noção
de
“que
o
lugar
a
partir
do
qual
fala
o
sujeito
é
constitutivo
do
que
ele
diz”
(ORLANDI,
2007,
p.39).
As
palavras
proferidas
pelo
professor
significam
diferente
daquelas
proferidas
pelo
aluno,
assim
como
as
palavras
do
padre
aos
fiéis,
do
pai
para
o
filho,
do
médico
para
o
paciente,
pois
estão
investidas
da
autoridade
posto
que
a
“sociedade
é
constituída
por
relações
hierarquizadas,
são
relações
de
força,
sustentadas
no
poder
desses
diferentes
lugares”
(ORLANDI,
2007,
p.
40).
O discurso publicitário pode se apresentar como ameaça à face positiva do
sujeito
discursivo
e do
interlocutor,
pois
em
todo
anúncio
publicitário
está
implícito
o
envolvimento
financeiro,
a
solicitação
de
dinheiro.
Segundo
Maingueneau
(2008,
p.40)
“criar
um
anúncio
que
seja
sedutor,
isto
é
que
agrade
ao
destinatário,
significa
anular
imaginariamente
essa
ameaça
às
faces,
que
é
constitutiva
da
enunciação
publicitária”.
Tanto
o
sujeito,
quanto
o
interlocutor
possuem
duas
faces,
a
positiva
e a
negativa,
o
que
faz
com
que
estejam
sempre
envolvidas
quatro
faces
numa
interação.
A
noção
das
faces
foi
introduzida
por
Goffman
(1974)
que
opõe
face
a
território.
“Com
Brown
e
Levinson
é
que
se
passa
à
noção
das
duas
faces
indissociáveis
do
indivíduo”
(MAINGUENEAU,
2008,
p.38),
a
face
negativa
é o
território
de
cada
um,
envolve
corpo,
roupas,
bens
próximos,
cônjuge,
espaços
privados
em
torno
do
corpo,
da
casa,
as
informações
íntimas,
a
sua
fala.
É o
indivíduo
e
suas
circunstâncias.
A
face
positiva,
“a
fachada”,
é,
por
sua
vez,
a
imagem
positiva
que
todo
indivíduo
se
esforça
para
exibir.
Ameaçar
as
faces
de
outrem
pode
ameaçar
nossas
faces,
daí
a
necessidade
das
regras
básicas
de
polidez
e a
necessidade
de
negociação
constante.
Um
anúncio
que
atinja
negativamente
a
face
do
interlocutor
vai
ferir
também
a do
sujeito
discursivo.
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