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A
Sedução
Um
dos
fatores
que
nos
chamou
a
atenção
nas
propagandas
da
Duloren
foi
a
repetição
de
campanhas
com
apelos
relacionados
à
formação
discursiva
religiosa,
mais
especificamente
a
cristã,
ligadas
à
sedução,
ao
desejo
e ao
sexo,
o
que
para
nós
constituiu-se
num
estranhamento.
Na
doutrina
cristã,
o
papel
da
mulher
é de
alguém
recatada,
submissa,
cumprindo
no
sexo
o
papel
essencialmente
reprodutivo.
Como,
então,
o
apelo
à
sedução?
Baudrillard
fala
que
a
liberação
sexual
assim
como
a
liberação
das
forças
produtivas
é
potencialmente
sem
limites.
Na
sociedade,
tudo
é
sexualizado
à
maneira
feminina,
os
objetos,
os
bens,
os
serviços,
as
relações
de
todos
os
gêneros.
Na
publicidade,
o
efeito
é
“conferir
ao
objeto
essa
qualidade
imaginária
do
feminino
de
estar
disponível,
à
mercê,
nunca
retrátil,
nunca
aleatório”
(2006,
p.42).
A
sedução
retira
alguma
coisa
da
ordem
do
visível,
o
que
difere
muito
a
religião
cujos
princípios
são
da
ordem
do
não
visível.
Por
outro
lado,
a
religião
tem
toda
uma
simbologia
própria,
e a
“sedução
também
opera
à
maneira
de
uma
articulação
simbólica,
de
uma
afinidade
dual
com
a
estrutura
do
outro”
(BAUDRILLARD,
2006,
p.51).
Ainda
segundo
o
filósofo
em
questão,
na
nossa
cultura
o
sexual
triunfou
sobre
a
sedução
e
anexou-a
como
forma
subalterna.
Na
ordem
simbólica,
é a
sedução
quem
está
primeiro.
As
lógicas
de
sedução
e
desafio
prevalecem
sobre
as
lógicas
econômicas
e do
sexo.
Isso
porque
“o
sexo
é
uma
forma
desencantada
da
sedução.
“É
pelo
feminino
que
se
opera
a
inversão
do
valor
/sexo
em
lógica
sedutora
e
agonística”
(BAUDRILLARD,
2006,
p.55).
É
por
meio
da
sedução
que
a
mulher
assume
uma
posição
de
poder,
quando
antes
era
apenas
objeto.
Baudrillard
diz
ser
o
poder
uma
figura
da
anti-sedução
por
excelência,
entretanto
“o
poder
seduz”.
Segundo
ele,
“a
sedução
não
é da
ordem
do
real.
Nunca
é da
ordem
da
força
nem
da
relação
de
forças.
Mas
precisamente
por
isso
é
que
envolve
todo
o
processo
real
do
poder
assim
como
toda
ordem
real
da
produção”
(BAUDRILLARD,
2006,
p.56).
A
sedução
é
aquilo
que
desloca
o
sentido
do
discurso
e o
desvia
de
sua
verdade.
“A
sedução
é um
processo
circular,
reversível,
de
desafio”
(BAUDRILLARD,
2006,
p.58).
Ela
pode
ser
considerada
o
inverso
da
distinção
psicanalítica
entre
discurso
manifesto
e
discurso
latente,
pois
o
discurso
latente
desvia
o
discurso
manifesto
não
da
sua
verdade,
mas
para
sua
verdade.
Na
sedução,
ao
contrário,
é o
manifesto,
o
discurso
no
que
tem
de
mais
“superficial”
que
se
volta
sobre
a
organização
profunda
para
anulá-la
e
substituir
seu
encanto
e a
armadilha
das
aparências.
A
aparência
é o
lugar
onde
ocorre
o
jogo,
a
aposta,
a
paixão
pelo
desvio.
“Seduzir
os
próprios
signos
é
mais
importante
que
a
emergência
de
qualquer
verdade
que
a
interpretação
negligencia
e
destrói
na
sua
busca
de
um
sentido
oculto”
(BAUDRILLARD,
2006,
p.62).
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