ABAFADA
ISABEL de ALMEIDA VASCONCELLOS CAETANO
Aquela fora uma noite excepcionalmente fria
sobre a cidade de São Paulo. O relógio do Itaú, no Conjunto Nacional, marcava
ora 3ºC, ora às três horas da madrugada, madrugada que ela queria esquecer.
Caminhava a passos rápidos por uma Avenida Paulista não totalmente deserta. Quem
se importaria com uma jovem a caminhar pela Paulista naquela gélida madrugada de
1977?
Sentia-se triste, só, abandonada, numa cidade tão grande, tão cheia de janelas
apagadas. Não mora ninguém nesta avenida? Só há bancos e bancos e escritórios e
algumas poucas mansões esquecidas de tudo?
Uma recordação que não era sua passeou por sua mente. A avenida, em década
áurea, passado não tão distante, apenas mansões e automóveis chiquérrimos de
onde desciam deslumbrantes melindrosas e seus pares, homens empertigados, dinner
jackets e luvas. Mansão iluminada, uma festa na Paulista de outrora.
Por que, sorriu ao pensamento, uma esquerdista maldita e subversiva como eu,
tenho delírios ricaços nesta avenida dos ricos, nesta pobre e sofrida metrópole?
Talvez muito fumo, muito uísque...
Deixara o Riviera de todas as noites na companhia daquele rapaz magro, cansado,
estranho. Lembrava-se dele dos tempos de colégio. Era um líder estudantil em
1968, o Grande Ano da década. Paris. E periferia. Mais velho que ela, a imagem
romântica que guardava dele sucumbira à sua rudeza na cama. Por que tinha ido
pra cama com ele? Só porque, em seus sonhos de adolescente, nos sonhos que a
década enterrara, o admirara, julgara-o como um ser humano mais completo e
melhor do que ela própria, que tanto se debatera entre a sua mesquinha origem
burguesa de classe média alta e sua pretensa luta política?
Apressou o passo na noite gelada. Bom casaco este, pensou, agradecida
mentalmente à sagacidade da mãe que, depois do jantar, descera as escadas da
casa trazendo o casaco pra que o vestisse.
-- Se você vai sair de novo hoje, melhor levar isto --dissera a velha senhora,
objetiva, mal disfarçando o desencanto por aquela filha querida que saía todas
as noites para o Riviera, sempre o Riviera, gastando seu salário em uísque
nacional.
Ah, que angústia, meu Deus! Todas as noites naquele bar, intermináveis conversas
sobre os destinos deste Brasil sufocado pela mão pesada da ditadura, boatos
sussurrados sobre "a queda" deste ou daquele amigo ou conhecido, porres
homéricos, uma juventude perdida entre livros, teorias, sonhos, ideais e letras
de música. John Lennon estava certo, há quanto tempo sabia ele que o sonho
acabara? Só aquele bando de idiotas, seus amigos, continuava, noite após noite,
a imaginar que o sol nasceria em alguma manhã, que o povo tomaria o poder, que
isto, que aquilo.
Justiça social... distribuição de renda...que saco, que angústia, que bela e
fedorenta merda. Uma merda, todos eles (ela inclusive) chafurdando na própria
impotência.
E tinha ido dormir com aquele mastodonte.
Não. Estou sendo injusta, ponderou. Ele mal saiu daquele presídio, foi
torturado, ele mesmo contou... Salas brancas, caixas pretas, afogamento, pau de
arara, o grupo de solidariedade, não falar, não contar, não entregar,
resistir...
Um arrepio percorreu-lhe a espinha. E se ele estivesse doente? E se ele tivesse
transmitido alguma horrível doença venérea a ela? Seria um preço muito alto a
pagar por uma noite de amor com um ex-líder estudantil. E se tivesse sarna?
Dizem que há muita sarna nas prisões... Ai...
Encolheu-se, sentindo outro arrepio, mais de horror do que de frio.
Olhou para o céu, procurando estrelas. Havia algumas, no céu limpo de inverno.
Mas as luzes da cidade escondiam a exuberância do firmamento. Apressou ainda
mais o passo, ansiando por seu automóvel, sua casa, sua cama, o carinho burguês
dos pais que sempre acordavam quando ela finalmente chegava. Todas as noites.
No egoísmo típico da juventude, o sono mal dormido dos pais nada mais era do que
a simples obrigação deles, porque a amavam e porque eram seus pais.
Lera Sartre aos 15 anos, para a revolta do padre católico que freqüentava-lhe a
casa. Tinha orgulho de sua formação intelectual, que não servia, aliás, pra
muita coisa, já que gastava seus dias redigindo matérias idiotas num jornaleco
comercial de terceira categoria e as noites vomitando teorias impotentes numa
mesa do Riviera.
Um carro aproximava-se devagar (ela ouvia a marcha lenta do motor). Outro
arrepio. São eles. É a maldita polícia da ditadura.
Apressou novamente o passo e, instintivamente, pôs-se a balançar a chave do
carro na mão pra que "eles" sacassem que ela não era qualquer uma. Por sorte,
estava bem vestida, com aquele casaco de lã inglesa por cima das roupas
deselegantes, jeans e camisa de flanela, mocassins. O carro passou devagar. Não
eram "eles", afinal. Apenas alguém dirigindo devagar na madrugada paulistana.
Chegou finalmente. Aquele calhorda, embora fosse um ex-líder estudantil, deveria
ter tido a decência de acompanha-la até o seu automóvel.
Chave na porta, chave na ignição, partida no fusquinha, rápido, correndo, pelo
Uma fita de Chico Buarque no som, baixinho, pra não acordar a vizinhança. Uma
última dose de uísque, depois de beijar os pais, na cama onde, agora, dormiriam
mais tranquilos.
"Pai afasta de mim este cálice"
Feijoada completa. Chico Buarque lançava discos, a censura proibia-lhe as
músicas e ele produzia, produzia, produzia. A censura era burra. Chico, que
conseguira superar até o exílio, cantava, cantava, dizia tudo, a poesia
denunciando a burrice da censura, tanta burrice no poder, tanta falta de
dignidade na pretensa prosperidade dos anos setenta.
Não. Ela não. Ela era apenas uma maldita subversiva, cuja inteligência não seria
colocada a serviço daquele estado de coisas. Ela se contentava com sua humilde
posição num jornal obscuro e consumia seu horrível salário nas noites do Riviera
e outros bares menos recomendáveis da cidade.
Um dia, ela sabia, aquele pesadelo terminaria.
Não haveria mais mortes nos porões da ditadura. Não haveria mais censura à
imprensa. Ninguém mais seria preso ou desprezado por manifestar opiniões
humanitárias. Um dia, meu Deus, tudo aquilo terminaria. As crianças poderiam de
novo estudar História nas escolas, uma História crítica, uma História do Brasil
cujo currículo passasse do ciclo da cana de açúcar e chegasse até este século.
Um dia, voltaria a Inteligência, o senso crítico... Não. A ditadura não poderia
durar para sempre, com seus horrores, sua violência, sua estupidez, sua
insensibilidade.
Quando isto acontecesse, um dia, no futuro, ela poderia usar tudo o que
aprendera. Poderia devolver à sociedade todos os privilégios que tivera na vida
e sei lá mais o que. Poderia trabalhar numa empresa decente, cumprir o seu papel
social, fosse qual fosse, poderia contribuir para a construção de um mundo
melhor e mais justo. Por enquanto seria isto: noites bêbadas de uísque e de fumo
na impotência coletiva dos jovens do Riviera, sob os cuidados paternalistas do
velho garçom, seo Zé. Por enquanto seria isto: noites de sexo mal feito com
ex-líderes estudantis que tiveram a sorte de sair do inferno.
No som, Chico Buarque cantava: "Eu tenho tanta alegria guardada, abafada, quem
dera gritar. Tô me guardando pra quando o carnaval chegar".
ISABEL
de ALMEIDA VASCONCELLOS CAETANO
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