CONVERSA DE ABELHA
ISABEL de ALMEIDA VASCONCELLOS CAETANO
"Em dez mil anos de história, não houve um só dia de paz na terra”. *
J. A. Gaiarsa, médico psiquiatra no programa de televisão Condição de Mulher, em
29 agosto 1995.
"Na colmeia, depois do ato nupcial os zangões são simplesmente mortos".
“Pelas rainhas”
-- O problema é o seguinte, mamãe: eu realmente acredito que deveríamos dar uma
oportunidade aos homens! -- explodiu por fim Carlota, cansada de tentar dizer a
dura verdade através de metáforas e simbolismos que sua mãe teimava em fingir
que não entendia.
A mãe estancou por um segundo, como que atingida fisicamente pela rispidez da
menina. Respirou fundo antes de responder, procurando uma tranqüilidade que
estava longe de sentir:
-- Minha filha, na sua idade é muito normal desejar que os homens possam viver
conosco. Afinal, parece muito injusto que vivam assim confinados e condenados a
uma existência breve. No entanto, se você tivesse tido a oportunidade de visitar
um depósito de homens, nem sonharia com esta possibilidade. Os homens são uma
espécie inviável, você sabe muito bem que eles trazem no seu código genético o
componente violento da agressividade. Isto os torna incompatíveis com a vida
civilizada. -- e aqui Thereza amenizou um pouco a voz: -- Deve estar escrito em
nosso código genético que teremos de ser sonhadoras na adolescência...
-- Droga, mãe! -- quase gritou Carlota. -- Eu não sou mais criança. Não venha
querer me enganar. Eu sei muito bem que os homens eram iguais a nós, na
Antigüidade. E tem mesmo quem diga... -- Carlota engasgou ante o olhar de
perplexidade lançado por Thereza, mas engoliu em seco e continuou, em tom mais
baixo, já sem coragem de olhar para a mãe:
-- Há quem diga que os homens, em tempos muito antigos, é que mandavam no
mundo... E até mesmo em mulheres.
-- Ah, Carlota, não me venha agora com estas bobas fantasias de igualdade. Olhe
a sapiência da mãe natureza: criou os homens apenas com a função reprodutiva.
Eles não têm absolutamente nenhuma capacidade criativa. Só sabem brigar e só se
importam em cultuar o físico e o seu aparelho reprodutor. Desde muito pequenos
já lançam olhares lascivos às mulheres e fazem sexo uns com os outros antes de
atingirem a plena maturidade reprodutiva. É natural, portanto que eles vivam
apenas até completarem a sua contribuição ao banco de esperma; tão natural que o
mesmo acontece na natureza com outras espécies. Agora me diga o que você anda
lendo, quem foi que enfiou estas idéias subversivas na sua cabeça?
-- Você vai negar que os homens viviam até a morte natural, como as mulheres,
antigamente?
-- Ninguém nega que nos tempos primitivos era assim. Mas, graças à boa deusa, a
humanidade evoluiu e as mulheres, naturalmente superiores, foram aprendendo a
controlar a bestealidade do ser humano através da restrição adequada aos seres
agressivos e violentos. Você não pode se esquecer que nos tempos primitivos
jamais houve um só dia de paz na Terra.* Em algum lugar, ou em muitos lugares ao
mesmo tempo, havia sempre guerra. Por quê? Porque neste tempos havia a
influência masculina na humanidade. Machos não foram criados para influir na
humanidade. Eles são apenas o fator reprodutivo...
Carlota fechara a cara. Seus sentimentos estavam em conflito. Arriscou:
-- Mas nós não poderíamos, então, usar os homens adultos, em serviços públicos,
como o preparo de alimentos e o cuidado com as crianças?
-- Ah... -- suspirou Thereza-- a juventude é um tempo de sonhos... Carlota
entenda de uma vez por todas: os homens são uma espécie violenta. Passaram
séculos em guerra, morrem facilmente de doenças que têm a sua origem nas tensões
nervosas. Poucos chegariam à idade adulta. E para que? Para disseminar a
violência em nosso mundo?
-- Até parece que vivemos em paz.
-- É claro que vivemos em paz, Carlota.
-- E a guerra com as africanas?
-- O que há entre a Federação dos Reinos e a Africaoriente são apenas diferenças
ideológicas, Carlota. Nada parecido com uma guerra.
Por causa desta conversa, Thereza resolvera pedir permissão ao escritório da
Madre Magister do Reino para levar sua filha ao matadouro de homens antes que
Carlota atingisse a idade adequada para tal. Isto só seria possível com uma
autorização especial. No entanto também não seria difícil obter permissão. As
meninas desta geração estavam sendo vítimas de uma campanha (talvez insuflada
pelas africanas) que pregava maior tolerância para com os homens.
A maioria dava de ombros a esta campanha e às suas ainda tímidas repercussões na
mídia. Deixar os machos viverem livremente ou não era questão sem importância,
uma discussão realmente fútil.
Havia, no entanto, quem fosse ainda mais longe e propusesse que se deixasse
viver TODOS os homens e não apenas os que apresentassem uma melhor herança
genética. É bem verdade, refletia Thereza, que eram poucos os espécimes
masculinos gerados no Grande Ventre Federal, órgão responsável pelo
abastecimento de machos e seleção e congelamento de sêmen.
Thereza lembrava-se de sua visita, na adolescência, ao Grande Ventre. Tivera a
oportunidade de ver pequenos machos engatinhando nos seus alojamentos
apropriados e, na tenra idade, eles podiam até se passar por meninas, tão meigos
e bonitinhos.
"Mas não se iludam! -- advertiam as guias que levavam as adolescentes -- dentro
de muito pouco tempo começa a manifestação de sua agressividade natural, começam
os genes a falar mais alto! E esta doce aparência feminina desaparece sob a
máscara de uma sexualidade perniciosa e de uma violência atávica."
Sim, Thereza sabia que precisava levar Carlota o quanto antes ao Grande Ventre e
aos Depósitos de Homens para que a menina visse com seus próprios olhos a
baixeza e a promiscuidade daqueles seres cuja única função era a de dar origem a
novos espécimes e que, por isso, não haviam sido dotados, pela natureza, de
outros atributos criativos. Homens, refletia ela, são a essência da força
reprodutiva. Por isso mesmo não existem para criar sabedoria, filosofia,
ciência. Existe em estado bruto, de violência latente, essência do Caos. Pobre
Carlota, adolescente e iludida com fantasias de igualdade. Esta é, sempre foi e
sempre será a condição humana.
ISABEL de ALMEIDA VASCONCELLOS CAETANO
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