CONVERSA DE PLANETA
ISABEL de ALMEIDA VASCONCELLOS CAETANO
Diz a Terra à Marte:
- Você vê, meu querido, esta infecção que me devasta parece agora ter conseguido
um veículo para expandir-se até você. Sugiro que você invente logo um anticorpo
pra exterminar com qualquer exemplar deste vírus que, por essa via, venha a
atingi-lo.
Marte boceja.
- Imagine, cara amiga. O ambiente que me cerca não é propício à vida deste tipo
de vírus...
- Mas eles acabarão dando um jeito.
Está certo que nem incomodam tanto, embora pensem que incomodam, pois devastam
apenas uma pequena camada de minha pele. Mas isto me torna um pouco feia,
desfigurada. Embora, é claro, toda a energia que importa esteja bem guardada e
protegida no centro do meu ser.
- Viver em mim -- retruca Marte, com ares de pouco caso--
seria para este vírus como viver no seu interior.
- Nunca! Em meu interior eles seriam destruídos instantaneamente. Na sua pele,
pode proliferar, se desenvolverem os mecanismos adequados para isso. Não se
esqueça que alguns deles chegaram mesmo ao meu satélite, embora não tenham
proliferando sobre a pele da coitadinha da minha menina...
A Terra tornou-se subitamente melancólica e suspirou:
- Ah, às vezes posso entender os pensamentos deles... Por isso, os castigos, mas
não posso destruí-los... Eles pensam... E eu chego quase a amá-los por isso...
Marte fez sério:
- Bom você poderia destruir a maior parte deles e conservar alguns, para
preservar-lhes o pensamento.
- Não dá. Eles têm uma singularidade absoluta. Cada um é absolutamente diferente
do outro e assim o seu pensamento. Destruir esta singularidade seria contra as
leis cósmicas.
- O que você vai fazer então? -- pergunta Marte.
- Eu? Conformar-me. Afinal, como disse um deles certa vez, “é preciso que eu
suporte duas ou três larvas se quiser conhecer as borboletas".
- Mas será que eles evoluirão tanto assim a ponto de assimilarem-se a um ser tão
nobre quanto a borboleta?
Talvez -- suspirou a Terra -- Talvez...
ISABEL
de ALMEIDA VASCONCELLOS CAETANO