EXÓTICO
(ou Os Pássaros Azuis)
ISABEL de ALMEIDA VASCONCELLOS CAETANO
Foi bem no final do verão que começaram a
aparecer os pássaros azuis.
Como em todo mistério, no começo, ninguém prestou atenção. Em meio à praia (já
deserta de turistas) eles eram apenas pequenos pontos escuros que se confundiam
com a poeira amarelada e com os restos do lixo de verão, que o vento levantava.
Até que um dia a praia ficou tão repleta daqueles pontos escuros que algum
curioso aventurou-se, sob os fortes ventos da tarde, a examiná-los mais de
perto.
Breve era o assunto em pauta na então calma e deserta cidade de veraneio: a
praia havia sido tomada pelos pássaros azuis.
E daí? Perguntaram os homens sérios, os mais ocupados.
No entanto, também estes acabaram por sucumbir à curiosidade geral.
Estranhas aves, silenciosas, estranhamente silenciosas, contrariando a lógica
das aves, naturalmente barulhentas, estridentes cantadoras.
Ninguém ousou aproximar-se muito.
O fotógrafo fartou-se de enquadrá-las em sua possante objetiva e retirou-se,
aflito, para o laboratório.
O turfista, desesperado, via correr de mão em mão o seu precioso binóculo.
O rádio-amador quis ser o primeiro a comunicar-se com a capital, procurando
repórteres, autoridades, ecologistas... Ninguém deu muita importância.
Enquanto isto, a Câmara Municipal agitava-se, em reunião de emergência. Afinal,
aquelas estranhas aves poderiam trazer dano à comunidade. Eram em número
espantoso e, a cada minuto, outras e outras aterrissavam.
O professor quis fazer um discurso, citando certo filme de Hitchcock, mas
ninguém ali havia assistido a tal película.
E mais e mais aves chegavam, como que atraídas pela multidão que também
crescia...
Alguns, estonteados pela silenciosa beleza das aves azuis, prenunciavam
catástrofe ou remissão universal. Por estes, o velho vigário tentou encontrar,
em sua modesta biblioteca, algum exemplo de migração de qualquer ave como
aquela.
Mas é fato que nenhum deles poderia dizer já ter visto pássaros tão belos. Nem
mesmo teriam visto, jamais, tanta beleza num vôo, tanto encanto e graça no bater
das longas asas, tanta suavidade nas formas. A dança dos pássaros azuis a todos
comoveu, enchendo de magia o ar.
Manhã seguinte a cidade perplexa reuniu-se, como se houvessem marcado o
encontro, na praça central. Mal amanhecera. Chegaram todos juntos e em bloco,
estranhamente silenciosos e graves, quase como os próprios pássaros. Não olharam
imediatamente para a praia, talvez por medo ou estranho respeito. Ou pelo
simples fato de ter distraída a sua atenção pelo fotógrafo, que passara a noite
no laboratório e chegara correndo e gritando, quase a chorar: todas as fotos,
todos os filmes, inexplicavelmente velados...
Então, alguém percebeu.
Nada se via na praia.
Correram todos para lá, alvoroçados, falando ao mesmo tempo, aos tropeços.
Inútil. Tão misteriosamente quantos haviam surgido, haviam também partido os
magníficos pássaros azuis.
Profunda tristeza baixou sobre a cidade.
Ninguém disse uma palavra.
Assim como ninguém, tampouco, arriscou-se jamais a interpretar a presença
daqueles belos espécimes.
Mas carregaram para sempre inexprimível saudade em seus corações.
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