O DESAPARECIMENTO DE MÁRIO LUCAS
ISABEL
de ALMEIDA VASCONCELLOS CAETANO
Eram três horas de uma tarde azul e quente, não muito
comum aos invernos paulistanos, quando Sandra e Mário chegaram a uma loja de
materiais elétricos na Avenida João Dias, que estava deserta na tranquilidade do
sábado de periferia. Mário estacionou o carro diante da loja, deu um beijo no
rosto da mulher (a quem amava sinceramente) e desceu para comprar cabos de som.
Nunca mais voltou.
As três e quinze Sandra acendeu um cigarro, mexeu-se um pouco mudando de posição
no banco escuro e quente do automóvel parado sob o sol.
Pensou calmamente que Mário era de fato meticuloso. Deveria estar estudando a
espessura exata dos cabos para que suportassem bem, nas caixas de som, a
potência do amplificador. Deteve-se um pouco, tentando colocar em ordem seus
precários conhecimentos de eletrônica e, enquanto pensava na decadência do
ensino médio no Brasil dos últimos vinte anos, correu os olhos pelo o que podia
avistar do interior da loja, procurando a figura do marido.
As três e vinte e cinco pensou que Mário era realmente um sujeito muito
simpático e sociável e que, na certa, teria entabulado uma conversa casual com o
dono da loja e estaria agora se deliciando com um papo furado.
As três e trinta acendeu outro cigarro, sentindo-se desconfortável naquele carro
abafado e quente. Abriu a porta e desceu.
As três e trinta e três, tendo já explorado a pequena área em torno do
automóvel, já constatada a presença de três orelhões próximos, duas padarias
fechadas, um ponto de ônibus e cinco semáforos, resolveu entrar na loja. Tirou a
chave do contato, jogou-a na bolsa e entrou, procurando Mário.
A loja estava calma, vazia mesmo. Não era muito grande.
Um vendedor, solícito, aproximou-se:
-- Pois não...
Sandra armou um sorriso:
-- Não é nada, obrigada. Vim encontrar meu marido.
-- Oh, sim senhora. Se quiser sentar-se e esperar que ele chegue...
Sandra continuou caminhando:
-- Ele está aqui há meia hora, obrigada.
Chegou ao fundo da loja, onde um senhor de cabelos brancos estava inclinado
sobre um jornal estendido no balcão de embrulhos. Não viu Mário.
Talvez tenha ido ao banheiro, pensou.
-- Por favor...
O senhor, que lia jornal, levantou a cabeça:
-- Pois não.
-- Estou procurando pelo meu marido...
Cada maluca que me aparece! - pensou ele.
-- Sim... Seu marido?
-- É. Ele está aqui, não está?
-- Não sei, minha senhora. Como vê, aqui só estamos eu e o meu empregado.
-- Não... Isto é... É que eu estava lá fora, no carro, esperando por ele...
-- Sim. E o que a faz pensar que ele esteja aqui?
-- Escute, o senhor não está entendendo. Ele estacionou o carro, aquele ali
fora, está vendo? E entrou aqui para comprar uns fios de som...
-- Minha senhora, não entrou ninguém nesta loja hoje, para a minha infelicidade.
E estamos abertos desde as oito horas da manhã.
-- Mas eu o vi entrar aqui!
-- Sinto muito, senhora. Talvez na loja ao lado...
-- Não há nenhuma loja ao lado! -- respondeu ela, quase gritando.
-- E quem me garante que haja algum marido? -- zombou o velho. E voltou ao
jornal.
As nove e cinquenta e cinco da noite Sandra para o carro de Mário em frente ao
prédio onde mora. Ou será que nunca morou neste prédio? Para a sua tranquilidade,
o porteiro aproxima-se gentil:
-- Boa noite. Devo guardar o carro, D. Sandra? Ou a senhora ainda vai sair hoje?
Sandra começa a chorar.
-- A senhora sente-se bem?
Resmunga alguma coisa, entrega o carro e dirige-se à portaria. Quase corre. Uma
esperança cruza-lhe a mente. Sim, Mário deve estar em casa, deve ter voltado
tudo não passara de um simples desencontro... Mas --racionaliza-- mesmo que ele
tivesse ido a pé a outra loja próxima, por que não voltara para onde estava
estacionado o carro? Bem, talvez ela tivesse se precipitado indo embora e ele
então, não a encontrando, viesse tranquilamente para casa...
-- Não vai subir?
Sandra percebe que estancou diante do elevador e que o porteiro espera que ela
entre, enquanto segura gentilmente a porta.
-- Ah, sim, obrigada.
Deve estar bêbada, pensa o porteiro. Será que apertou o botão certo?
Os números luminosos indicam a subida.
Sandra, entre as estreitas paredes do elevador, tenta se animar. Sim, Mário só
pode estar em casa. Ela é que fora precipitada, não o esperara na loja, nem se
lembrara de telefonar para casa... Claro, não passava de uma estúpida! -
censurou-se - Coitado do Mário, imagine a aflição dele sem saber o que fora
feito do carro e de sua mulher... E ela a armar toda esta confusão!
Alguma coisa, porém, dentro dela, afirma que está errada. Mesmo que toda aquela
tarde absurda, as humilhações pelas quais passara, a descrença nos olhos das
pessoas, as zombarias dos policiais que a atenderam como se ela fosse uma maluca
qualquer...mesmo que tudo isso não fosse mais que um pesadelo...
Coloca a chave na fechadura com uma fúria, uma alegria... Ah, claro que ele só
pode estar ali, esperando por ela, meio bravo... E poderá ela atirar-se no
abraço dele e chorar... chorar até esquecer...Na confusão de sua ansiedade a
chave lhe escapa, cai. Neste exato momento a luz automática do corredor do
edifício se apaga. Sandra sente que vai desfalecer. Recomeça a chorar.
-- Meu Deus estará enlouquecendo? - pensa. A lembrança do absurdo daquela tarde
turra-lhe o raciocínio.
Saíra da loja, ofendida e preocupada. Afinal, onde se metera o Mário? Caminhara
um pouco por ali, perguntando às raras pessoas que encontrara na calma do
sábado. Ninguém vira um homem alto, de óculos, moreno, usando uma calça jeans e
uma camisa de tênis meio manchada no ombro esquerdo.
Caminhou bem uma meia hora. Voltou ao carro. E recomeçou a procurar, no sentido
oposto ao que viera.
Não se atreveu a entrar novamente na tal loja, embora notasse o arzinho de riso
do funcionário a observá-la da porta.
A decisão foi repentina. Correu de volta ao carro, entrou e partiu. Para onde?
Voltou. Estacionou no mesmo lugar. E falou com o empregado da loja, tentando
ignorar sua expressão de zombaria. Descreveu o marido, disse que ia à polícia,
pediu que, se Mário afinal aparecesse, fosse avisado. O moço ouvia tudo, com ar
entre imbecil e gozador.
O mesmo ar que encontraria em quase todos os rostos das pessoas a quem pediu
ajuda naquela tarde.
Tudo fora ridículo, ridículo! E ridícula sentia-se agora, quase deitada, no
escuro, à porta de seu próprio apartamento.
Levantou-se, acendeu a luz do corredor, ajeitou o vestido, limpou as lágrimas,
pôs a chave na porta, abriu.
-- Mário?
Silêncio.
O telefone tocou. Na polícia, depois de todas as humilhações passadas, tinham-na
mandado para casa. Telefonariam. Embora, oficialmente, tivessem que aguardar
vinte e quatro horas para considerar alguém desaparecido, o investigador mais
moço e simpático (o único que parecia acreditar nela) prometera fazer alguma
coisa.
Correu para o aparelho. Eram eles, tinha certeza, eles teriam alguma notícia.
Aí então me levarão a sério -- pensa enquanto voa até o telefone.
-- Alô! Alô!
Apenas o ruído da linha sendo desligada.
Sandra suspira. E sai pelo apartamento abrindo e fechando portas, ciente da
continuidade do pesadelo. Para à porta do armário do quarto de vestir. Ofegante.
Apoia a cabeça contra a porta de madeira e tenta colocar em ordem os
pensamentos. Calma, vão encontrá-lo, repete para si mesma, o telefone vai tocar.
Ele pode estar num hospital, pode estar morto... Não. Sente que Mário está vivo.
Mas onde? Como? Por quê?
Então, pela primeira vez, ocorre a ela que as insinuações e risadinhas que ouviu
durante toda aquela tarde talvez tivessem sua razão de ser. Talvez Mário tenha
simplesmente resolvido abandoná-la... Mas às três horas da tarde e numa loja de
material elétrico? Absurdo. Ou não?
Num impulso, abre o armário. Está vazio. Nem os cabides...
Sandra não compreende. Mas sente então que a sensação de irrealidade e a
angústia das últimas horas vão abandonando seu corpo, seus pensamentos... Está
perplexa, mas aliviada. Certo, tudo estava certo e era muito simples: fora
abandonada! Apenas isto, meu Deus! Mas... Ele me amava, pensa.
Corre lentamente seus grandes olhos pelo quarto. E percebe que o único vestígio
da presença dele é o livro que ele estivera lendo e largara aberto sobre a
mesinha da cabeceira.
Sai caminhando pelo apartamento. Os cachimbos? Não estavam. Os seus uísques
queridos? Nem sinal. Porta retrato com foto da lua de mel? Sumira.
Nada poderia, de fato, denunciar a presença dele naquela casa.
Talvez ele nunca tivesse, realmente, estado ali... Pensa Sandra, antes de
perceber que a irrealidade da tarde a influenciava.
O espelho do banheiro revela uma Sandra decomposta.
Abre o chuveiro. Toma um banho furioso, esfregando as sensações.
Vinte minutos depois, profundamente triste, os cabelos metidos numa toalha
enrolada, o corpo descansando em um roupão de banho, os pés em confortáveis
chinelos, Sandra -- uma dose de uísque e um cigarro -- comunica-se com a
portaria do prédio.
-- Seu Aloísio?
-- Pois não, dona Sandra.
-- Será que um dos porteiros poderia me informar a que horas o meu marido saiu?
-- Seu marido?...
-- Sim, o Mário.
--...
-- Seu Aloísio?
-- Dona Sandra, a senhora me desculpe, mas eu não estou lembrado do seu
marido...
-- Seu Aloísio! O senhor bebeu ou está brincando comigo?
Quem bebeu foi a senhora -- pensa o porteiro, que a viu chegar há pouco.
Toca o telefone. Sandra desliga da portaria para atender. Passa uma eternidade
até que um homem se identifique como o investigador moço e simpático que a
atendera à tarde. Ela pode sentir o seu coração pulsando forte contra os
músculos do peito.
-- Eu sinto muito -- diz o homem ao telefone -- não pude encontrar nada, nenhum
registro, nada. Para nós, oficialmente, a pessoa que a senhora diz chamar-se
Mário Lucas não existe.
Para a polícia Mário Lucas poderia não existir. Mas casara com ela. Lá estavam a
certidão, as assinaturas, mesmo as das testemunhas desconhecidas arranjadas pelo
cartório (fora um casamento discreto).
E agora? --pensa Sandra-- deveria procurar amigos ou conhecidos que pudessem
afirmar à polícia a existência de Mário?
Ora... isto aqui está parecendo um filme... Deveria ela tentar reunir provas da
existência de Mário para que a polícia pudesse agir? E de que adiantaria a ação
da polícia? Estavam em São Paulo, Brasil, 1977. As pessoas desapareciam. Aos
montes. Era rotina. Por que se importariam com a história dela?
Sandra procura afastar o terror da sensação de irrealidade que volta a
angustiá-la... Quem seriam as suas testemunhas? Poucos meses de casada, poucas
semanas morando em São Paulo, um único casal de amigos comuns que, por ironia,
estava na Europa... Não conhecia a família dele. Nem ele, a dela. Havia apenas
cartas e nomes e datas. As fotos da lua de mel, as fotos de ambos juntos também
haviam sumido dos álbuns...
Lembra-se então de um rapaz simpático e sorridente que sempre atende ao Mário na
seção de importados do supermercado... Ou o homem do posto de gasolina, ali ao
lado... Todos hão de lembrar- se do Mário. Ainda mais o Mário, tão galante e
simpático.
O porteiro... O porteiro não se lembrava...
Ora, mas amanhã é domingo e depois é segunda feira e existe um escritório de
advocacia, recém-inaugurado, que pertence ao Mário, que é onde ele trabalha e lá
existem pessoas, funcionários e clientes e... Um mundo de gente para trazê-la de
volta à realidade!
Mesmo que a realidade fosse a triste ausência de Mário, fosse o abandono.
Mário Lucas existia.
Mas ninguém se lembrava.
Nenhum dado oficial.
O porteiro do prédio só sabia de eventuais companheiros da dona Sandra, não de
um marido.
No prédio de escritórios jamais houvera --juravam todos-- um advogado com este
nome. Mudara o homem do posto de gasolina e não existiam funcionários na seção
de importados do supermercado.
Foi um longo trabalho, o do esquecimento.
Alguém o conhecera? Estava nos arquivos? Nos jornais? Na lembrança das pessoas?
Quem sabia dele?
Aparentemente, ninguém.
Pensou que fosse enlouquecer.
Depois pensou que tivera enlouquecido, antes. E que agora é que estava com a
razão.
Mas esqueceu.
Não pensou mais.
Aceitou.
Varreu cada vestígio dele, lentamente. Tirou-o do corpo, a pele se esqueceu, o
rosto dele foi se apagando, a figura confundiu-se em sua memória a muitas outras
já vistas, diluiu-se no cotidiano.
Esqueceu.
Fazia já muito tempo, alguns bons anos, quando, numa tarde, quase esbarrou nele,
ao atravessar a Avenida Paulista, num semáforo de pedestres. Estava fazendo frio
e as pessoas andavam depressa, meio encolhidas. Olhou para ele e o reconheceu.
Foi atrás dele, rompendo a multidão, o coração aos pulos. Era ele! Ele! Estava
ali, a poucos passos, ao seu alcance, afinal! Mas como, se ele nunca existira?
Acabaram se apresentando um ao outro, no saguão do hotel onde ele entrara e ela
o seguira. Tudo muito casual, mas pareciam ambos saber que não era casual. Ela
notou as pequenas linhas que o tempo imprimira no rosto dele, os fios grisalhos
nos cabelos... Falaram sobre política, sobre a campanha das diretas, sobre a
frente fria, sobre o trânsito de São Paulo.
Jantaram juntos. E, se alguém estivesse disposto a observá-los, saberia que eram
amantes, essa privilegiada classe de seres humanos que se diferenciam dos demais
por um leve brilho de estrela nos olhos, uma certa patetice nos gestos e um ar
arrogante de quem enxerga para além do horizonte.
ISABEL
de ALMEIDA VASCONCELLOS CAETANO
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