O ELIXIR DA FELICIDADE
ISABEL de ALMEIDA VASCONCELLOS CAETANO
Na Árvore da Felicidade, o macho cresce à
sombra da fêmea.
Ela, esplêndida, bem maior do que ele, espalha seus galhos numa explosão de
folhas
Num tom de verde delicado e vibrante.
Ele é pequeno, troncudo, muito forte e coeso, num verde austero e escuro,
Mas nem por isso menos belo.
É uma planta bonita e intrigante, a árvore da felicidade.
Delicada, porém sólida e forte.
Cresce tranquilamente dentro das casas, em vasos profundos,
E chega aos dois metros de altura.
De perto, exala um perfume leve e muito seu.
Era uma tarde fria e úmida de sábado, tipicamente paulistana, ideal para se
deixar ficar em casa, debaixo de cobertores, lendo, vendo TV ou tomando chá.
Augusta sabia muito bem que o clima da tarde era propício ao que decidira fazer,
e preparava o espírito para a empreitada. Escolhera Helena, sua neta favorita,
então com quatorze anos e uma bonita aparência atlética, condizente com a sua
condição de garota bem-de-vida dos anos oitenta. Era a ela, a esta sua
descendente, esportiva e saudável, que passaria o delicado e feminino segredo da
família. Helena era, -pensava Augusta- entre os seus netos, a mais inteligente;
viva, perspicaz e (por que não?) oportunista o suficiente. Os traços de sua
personalidade eram nítidos e transparentes como haviam sido sempre, desde a
infância. E, agora, ela parecia não estar vivendo a adolescência, como se
tivesse passado direto ao pensamento adulto.
Augusta não escondia sua satisfação diante disso: Helena era a continuação dela
própria, legítima herdeira de seu caráter e de seu modo de vida. Um modo de vida
determinado pela força, pela persistência e pela certeza de vencer sempre.
Helena haveria de ser -- Augusta tinha certeza-- uma extensão de sua alma, o
capítulo seguinte de uma mesma história. Não fora à toa que jamais contara o
delicado segredo de família a nenhuma de suas filhas; valera a pena, refletia,
ter esperado por uma neta como Helena, capaz de absorver toda a extensão de tal
delicadeza.
Estavam as duas, avó e neta, preguiçosamente instaladas em confortáveis
poltronas de chintz e tinham, vinte andares abaixo, a cidade de São Paulo,
estranhamente silenciosa nesta tarde de sábado. O cenário, lá fora, para além
das imensas janelas de vidro (que Augusta fazia questão de manter com as
cortinas recolhidas), era cinzento, frio. Aqui, uma cápsula de conforto e
aconchego.
Helena esperava um ar divertido no rosto jovem. Sabia que a avó não faria com
que ela viesse a sua casa num sábado apenas para tratarem banalidades.
-- Helena, vou contar-lhe um segredo -- disse finalmente Augusta. -- Você sabe
guardar segredos?
-- Se vai me contar, vovó, é porque você sabe que eu sei...
Augusta riu e então retirou de uma caixa de joias, a mesinha ao seu lado, um
pequeno frasco, ricamente trabalhado e com um lacre que parecia ser muito
antigo. Continha um líquido espesso, cor de ouro.
-- Este é muito mais velho do que se possa imaginar, --disse, passando o frasco
à Helena -- veio com nossos avós, quando imigraram, e estes o herdaram dos avós
dos avós deles, talvez.
-- É muito bonito. -- Helena rolava o frasco entre os dedos, erguendo-o contra a
luz, observando.
-- Como você pode ver -- continuou Augusta -- ninguém nunca precisou fazer uso
dele. Está intacto. É uma velha poção, preparada por pessoas muito sábias,
antigos alquimistas, e está com a nossa família há muitos séculos, sempre em
mãos das mulheres. Ao menos é o que diz a tradição. Trata-se de um Elixir da
Felicidade.
Helena olhou para a avó com uma expressão divertida e incrédula nos grandes
olhos escuros:
-- Ora, vovó, e eu que pensei que fosse o da juventude!...
Uma expressão grave de censura nublou o rosto de Augusta e Helena, prevendo uma
crítica, tratou de ir mudando de assunto:
-- Alquimistas não eram aqueles charlatães da Idade Média, os magos que acabaram
abrindo caminho para a química? -- perguntou.
-- Não sei o que você anda lendo, minha filha, ou o que pensam estes professores
de hoje em dia, mas o que eu posso dizer deles é que os alquimistas foram, e o
são até hoje, os grandes amantes da matéria; talvez tão sábios e seguramente
mais profundos do que nossos cientistas contemporâneos. Os alquimistas são
discretos e as suas pesquisas, que consistem em longa e persistente manipulação
da matéria, visam transformá-los a si próprios muito mais do que à matéria. Por
isso escondem-se e não é necessário que se revelem a olhos menos sérios...
-- Como uma maçonaria? --perguntou Helena.
-- Sim, mais ou menos... -- respondeu uma Augusta surpresa.
-- E o que, exatamente, faz este elixir da felicidade? -- quis saber a menina.
-- Ora, simplesmente proporciona a felicidade. Bastam algumas gotas para que
tudo se torne fácil para quem o ingere: todos os caminhos se abrem, todas as
oportunidades surgem...
-- Ninguém usou? Você não o usou? -- perguntou Helena -- Você sempre me parece
feliz...
Augusta deu um longo suspiro e teve um voo rápido por sobre dezenas de anos
vividos. Sorriu ao responder:
-- Talvez nunca tenha necessitado.
-- Mas você foi feliz sempre? -- provocou Helena.
-- Não exatamente. Pois ao contrário do que parece, ser feliz não é
imprescindível todo o tempo.
Augusta não se abalou ante o escândalo que viu estampar-se na face da neta.
Continuou: quando minha mãe revelou-me o segredo, foi num dia assim cinzento
como o de hoje, eu não me julgava feliz. Sabia que era privilegiada, tinha
estudos, falava línguas, era bonita. O mundo me esperava! E eu estava decidida a
provar ao mundo e a mim mesma que a felicidade é alguma coisa que se pode
conquistar sem a ajuda de artifícios. Eu queria merecer minha própria
felicidade, construí-la...
-- E conseguiu?
-- Acabei conseguindo. É verdade que a sorte me ajudou. Mas sorte nada mais é do
que o pensamento construtivo e positivo...
-- Mesmo assim --interrompeu Helena -- você deve ter tido momentos difíceis ou
tristes na vida. Por mais que pensasse de uma maneira positiva há acontecimentos
infelizes que não dependem da vontade...
-- Você vai descobrir que não há quase nada independente de nossa vontade. Mas
também tive momentos infelizes em que me julguei vítima dos acontecimentos.
Nestes, eu procurava então acreditar que, se tudo fosse felicidade, nada mais
seria felicidade. Para saber-se feliz é preciso conhecer a infelicidade, não
acha? É como lhe digo: felicidade não é imprescindível todo o tempo...
-- E então --interrompeu novamente Helena -- você nunca encontrou um motivo para
tomar o elixir!
Augusta pensou outra vez na surpreendente maturidade de Helena, que erguia
novamente o frasco contra a luz:
-- Isto é um segredo então? -- perguntou.
-- Sim.
-- Nunca contou a mais ninguém, só a mim agora? Por que? Por que não a alguém
mais velho do que eu, se você tem tantos filhos e netos?
-- Por que para se ter um segredo é necessário merecê-lo e você o merece.
-- Sou a mais parecida com você, não é? Pelo menos é o que a minha mãe sempre
diz...
Augusta sorriu.
Uma sombra passou pelo rosto de Helena quando perguntou:
-- Você não está doente, está?
-- Não seja impertinente! -- enfureceu-se Augusta-- Tenho apenas, apenas, está
ouvindo?-- sessenta e poucos anos. Ainda frequento os restaurantes que
interessam, viajo na temporada e cumpro minhas obrigações na fábrica... Ora,
para todos vocês, jovens, todos os mais velhos são muito velhos...
Imediatamente, como se arrependida da própria rispidez, fez um carinho
desajeitado no ombro direito da neta, como quem limpa um cisco imaginário da
malha.
Helena voltara a erguer o frasco contra a luz:
-- Nenhuma gotinha... Como você pode estar certa de que funcionará? E se estiver
estragado, contaminado... Poderia matar, envenenar...
-- Nossa família o recebeu de mãos corretas. Tenho plena confiança na tradição.
Quanto a fazer mal... Você acha que a felicidade pode fazer mal? A felicidade de
uns pode ser a infelicidade de outros.
-- Como você pode ter certeza de que ninguém nunca o tomou? Nem umas poucas
gotinhas?
-- O lacre parece muito antigo --disse Augusta, tomando o vidro das mãos da neta
-- mas é possível. Algumas gotas não fariam diferença no volume... -- respondeu,
ela também a girar o frasco contra a luz. Empertigou-se na poltrona:
-- Agora ele é seu e quando chegar o momento você saberá o que fazer dele.
E ficaram uns instantes calados, a observar a tarde pelas janelas. Depois,
Helena levantou-se, deu um longo e mal disfarçado bocejo e explicou:
-- Tenho que ir agora, vovó. Minha mãe quer o chofer às seis e meia.
Augusta fechou a porta e foi guardar o frasco (que agora era de Helena) antes de
vestir-se para o jantar, atividade na qual consumiria as próximas duas horas.
Seria um compromisso social de rotina, agradável, porém, com um de seus velhos
sócios.
Estava tranquila. Sentiu saudades do marido morto há quatro anos e soube-o,
naquele momento, muito próximo. Tinha certeza, pensou enquanto acomodava o
precioso e delicado vidrinho no macio forro da caixa de joias, que, dali para
frente, Helena tentaria com todas as forças, ser feliz.
Afinal, passara para a sua mais querida neta o segredo do elixir da felicidade.
ISABEL
de ALMEIDA VASCONCELLOS CAETANO
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