UM ESTUPRO

 

UM ESTUPRO

ISABEL de ALMEIDA VASCONCELLOS CAETANO

 
Joana Tereza tinha 13 anos quando foi estuprada numa rua escura, dentro de uma construção abandonada, ao voltar da escola. O homem que a violentou, na semana seguinte, matou uma mulher das imediações, com requintes de crueldade suficientes para que o crime merecesse destaque em certa parte da imprensa. A vítima era uma senhora pobre, idosa e solitária, sem ter quem se importasse com ela e por isso --apesar do dia de agitação e glória para o bairro, que fora, então, invadido pelos coloridos carros das rádios e TVs-- todos se esqueceram rapidamente do caso.
Tempos depois, veio à intimação para que os pais de Joana prestassem depoimento sobre o caso. Joana reconhecera o assassino pela foto do jornal e agora deveria reconhecê-lo oficialmente e para tanto teria que comparecer devidamente acompanhada por uma autoridade do juizado de menores, ao xadrez onde ele estava preso aguardando o inquérito.
 Joana Tereza tinha medo de rever o homem, embora o visse em sonhos todas as noites desde o dia do estupro. Amava-o.
Joana era uma menina esperta: em muitas brincadeiras com as outras crianças do bairro já tivera preliminares suficientes para poder conhecer o pleno prazer do corpo quando viesse a ter sua primeira experiência e, apesar do medo e das circunstâncias, ou até mesmo por causa deles, gostara e muito do episódio. O homem a atemorizara e repugnara e ela havia lutado com ele. Acabara, porém, por sucumbir às intensas sensações que seu corpo vivia através do corpo dele e --isto a intrigava-- o medo, o terror, estranhamente, faziam parte do prazer incontrolável que sentira. Portanto não pudera compreender a extensão do horror de sua mãe e da revolta de seu pai quando estes a encontraram sob os andaimes da obra. Havia muito que ele partira e ela se deixara ficar ali, estática, sentada sobre a saia manchada de sangue, seminua, sentindo um resto de dor a queimar-lhe o ventre e desejando, sem desejar, que ele voltasse e a transportasse novamente para o delírio recém-descoberto.
-- Não tem importância, não, mãe -- tentara dizer ante a indignação de D. Maria Tereza. A mãe fuzilou-a com um olhar raivoso, uma expressão dramática no rosto, onde Joana leu surpresa, repulsa e horror. Instantaneamente percebeu, então que jamais deveria falar sobre aquilo que sentira, percebeu a vergonha de sentir, de desejar... Foi como se a mãe lhe transmitisse todas as suas verdades sexuais, as que sempre se negara a discutir, embora ela tentasse várias vezes tocar no assunto. Joana tinha amigas na escola cujas mães falavam no assunto. Chegara mesmo a frequentar um curso na igreja, uma série de palestras para adolescentes, ministradas por uma moça tão simpática... Mas a mãe calara suas dúvidas com um tapa na boca, dizendo que teria ainda muito tempo para descobrir que o seu destino de mulher era de dor e sofrimento.
-- Os homens são muito estúpidos, são sempre estúpidos --dissera.
Então Maria Tereza.
Agora Joana acreditava que as mulheres amassem a estupidez e por
Isso então temessem o tal do destino-de-sofredoras.
Quando a intimação chegou houve novas cenas dramáticas na modesta casa e novas lamentações às quais Joana suportava calada. Sabia há muito tempo ser o silêncio a única atitude possível diante das crises de nervos de sua mãe. Se reagisse, aumentaria o tempo de duração do martírio. Recebeu impávida as instruções dos pais: deveria se perguntada por alguma autoridade, dizer fora atacada, sim, por aquele homem, mas que gritara e se defendera e logo fora socorrida pelos pais que, por sorte, voltavam juntos da cidade, tendo vindo do trabalho no mesmo ônibus. Não acontecera nada --diziam eles-- nada, entendeu? Nada, só a tentativa... Não queriam a filha falada pelo bairro, sem a chance de um casamento, de uma vida limpa e decente. Joana, contrariando a si mesma, ensaiara um tímido protesto. Afinal, ele fora bom para ela.
Aí, deixara a mãe ainda mais histérica. Bom? Como pode achar que um monstro foi bom? Ele quase arruína a sua vida, na verdade tinha mesmo arruinado... como é que ela explicaria ao homem que  viesse a amar? Tinha que pensar em levá-la a um médico, conseguir um atestado, inventar um acidente, um tombo com as pernas abertas, sabe Deus o que mais, ou poderia conseguir uma dessas operações plásticas... que vergonha minha Nossa Senhora!
Joana não compreendia porque deveria ser considerada maldita ou doente apenas por causa do que lhe acontecera. Conhecia mesmo algumas meninas na escola que andavam louquinhas para ter a experiência e, se soubessem do que lhe acontecera, teriam inveja.
Mas pensava principalmente nele e arriscara-se a perguntar aos pais o que aconteceria a ele agora.
A mãe, que estava começando a se acalmar, voltara a explodir.
Dissera, aos berros, que, caso estivessem num país decente certamente ele seria enforcado ou cozido em óleo fervendo ou cortado em pedacinhos e os seus pedaços seriam espalhados pela cidade para desencorajar outros homens a se deixarem dominar por seus mais baixos instintos; mas que, como estavam no Brasil, ele provavelmente apenas iria para a cadeia pelo resto de seus dias. Joana sentiu a última frase de sua mãe como um soco no estômago. Sabia o que significava aquela sentença, estava cansada de ver histórias na TV sobre a prisão e reportagens de motins sangrentos e greves de fome nas cadeias. Era tudo muito pior que a morte, julgava ela. Homens amontoados e cheirando mal, comendo mal, vivendo muito mal... Então seus olhos de menina se encheram     d'água ao pensar nele, o das mãos tão macias e sábias nas carícias, passando o resto de seus dias numa cela imunda com outros homens imundos, com as mãos endurecendo...
 A mãe continuava com a cantilena. O pai há muito se refugiara diante da televisão.
-- Um assassino é o que ele é -- gritava agora Maria Tereza.
Joana ergueu os olhos para a mãe. Então ele era um assassino, poderia tê-la matado e só Deus sabe por que não o fizera. A mãe continuava a gritar e Joana pensou que ela própria sabia, além de Deus, porque o homem não a matara depois, como fizera à outra mulher. E não era apenas porque a outra era uma pobre velha e ela, uma menina nada feia, mas era porque ela, Joana, realmente o amara e ainda o amava, embora soubesse que não deveria sentir tal coisa por um assassino; e pensou ainda que até então só pensara no amor como uma coisa boa e clara, mas sabia, agora, que o amor tinha outro lado escuro e ruim e nem por isso se tornava pior. Aceitava aquele amor como aceitava tudo em sua vida, com objetividade, sem maiores questionamentos, sem contestação. Tinha apenas 13 anos, mas já tinha suas regras no sobreviver.
 Imaginou se poderia ir vê-lo quando ele estivesse na cadeia; levar-lhe coisas gostosas para comer ou cigarros finos, ou caixas de bombons, caso ele não fumasse. Teria que armar um plano para isso. Seus pais jamais permitiriam que fosse ver o homem na     prisão. E ela nem sabia ao certo onde ficava a prisão. Mas descobriria. Foi dormir acalentada pela ideia da aventura, ou travessura. Sonhava com o momento de ir vê-lo na prisão. Sonhou. Meio sonho, meio pesadelo.  Caminhava sozinha por um corredor de pedras (que, na verdade era o corredor de uma masmorra inglesa antiga que vira num filme da TV sobre as mulheres de Henrique VIII). Havia homens horríveis e maltrapilhos ao longo dos corredores, homens empilhados como a montanha de cadáveres que vira num outro filme de TV, este sobre a Segunda Guerra Mundial. Encontrou-o, por fim, no fundo de uma cela vazia, sem nenhuma espécie de móveis, sem ninguém além dele que lhe sorria e abrira o pacote onde ela lhe trouxera um maravilhoso bolo coberto de creme, mas de dentro do pacote saíam aranhas e mais aranhas, minúscula, e ele começara a rir, a rir, a rir. Depois a tombara no chão da cela e a amara.
Joana acordou sorrindo e com as calcinhas ensopadas, como quando era criança.
 Se ela sentia-se bem e excitada com a certeza de vê-lo, a mãe estava um trapo. Muito pintada, o rosto numa máscara de sofrimento, tentando conter as lágrimas com um lenço amarfanhado, limpando o canto dos olhos para que a pintura não lhe derretesse rosto abaixo. Foram de táxi. Um luxo reservado para ocasiões muito especiais. Joana achou certo: afinal aquele era um dia muito especial. Tinha posto um vestido bonito, embora um pouco quente demais para o dia ensolarado de primavera. Mas a mãe dissera que era o traje adequado e ela não queria dar à Maria Tereza um pretexto para mais uma cantilena histérica. O dia era lindo, pelas janelas do carro. O táxi fazia um caminho bem diferente do ônibus. Ia pelas largas avenidas que margeavam o poluído e malcheiroso Tietê, mas Joana Tereza tinha narinas acostumadas aos cheiros mais estranhos e desagradáveis. Todo o seu bairro cheirava a química, estavam por demais próximos das fábricas. Ela se deliciava com a velocidade que o motorista imprimia ao veículo e via, espantada, que havia carros que andavam ainda mais depressa que eles. Era um estonteante espetáculo de cores móveis. Mas durou pouco. Logo saíram da avenida do rio e entraram no trânsito congestionado do centro da cidade e voltaram a andar devagar como os ônibus. Maria Tereza torcia o lenço nas mãos, o braço direito enganchado no braço da filha. Sentia-se horrivelmente deprimida com tudo aquilo e o ambiente das dependências da polícia não contribuiria em nada para melhorar este estado de espírito. Quanto à Joana, parecia absorver parte da ansiedade que transpirava de sua mãe, mas tinha outros motivos para aquele ardor na boca do estômago, aquele coração descompassado. Ia vê-lo. E seu corpo tremia na expectativa do encontro.
Ao chegarem, vaguearam as duas por algumas salas não muito limpas onde havia todo tipo de gente. Homens de terno conversavam pelos cantos, pessoas jaziam nos grandes bancos de madeira junto às paredes, pessoas que pareciam ter estado sempre ali, imaginou Joana, que caminhava meio arrastada pela energia de sua mãe, intimação na mão, marchando à procura da sala certa. Afinal, encontraram a moça do juizado. Foram as três para outra sala, onde um homem fizera perguntas a ela enquanto outro homem escrevia. Joana respondia às perguntas com desenvoltura, fornecendo detalhes. Gostava de falar nele e o fazia com prazer. O homem a escutava com uma expressão de espanto crescente no rosto. Perguntou-lhe se ela se importaria em vê-lo por alguns instantes e explicou-lhe que ele não poderia vê-la, pois o vidro, do outro lado, não era transparente. Ela entendeu logo, já havia visto cenas de identificação policial na TV. E tremia quando a pequena janela na parede foi aberta. A princípio ficou confusa. O que via era uma fileira de homens e, de algum modo estranho, todos eles se pareciam um pouco um com o outro. Depois de alguns segundos o viu. Reparou que ele perdera um dos dentes da frente e o cabelo tinha sido cortado. Sim, era ele, ela e seu coração não podiam ter nenhuma dúvida.
 A pequena janela foi fechada e ela desabou na cadeira ao lado, suando frio, trêmula de emoção. Era amor. Mas os adultos teimavam em acreditar que fosse terror. Quase achou graça da moça do juizado tentando distraí-la com uma conversa mole. A moça estava sendo delicada e carinhosa, falando com ela, mas a atenção de Joana estava voltada para o homem da polícia, ali adiante que dava algumas explicações à sua mãe, acompanhadas de gentis tapinhas nas costas que empurravam Maria Tereza delicadamente em direção à saída. Joana ouviu claramente, pois eles se aproximavam, quando o homem disse: -- o fato é que ele nega e chegou a dizer que sua filha, por ser ...ãhn...desprovida de atrativos, inventou a história toda para chamar a atenção...Bom, de qualquer forma, vamos pegá-lo pelo assassinato, o que já não é pouco.
 Foram embora, mãe e filha, com as expressões invertidas daquelas que tinham ao chegar: a mãe viera arrasada e saía feliz sabendo que, embora doloroso, poderiam colocar uma pedra sobre o assunto, já que o diabo do homem seria condenado de qualquer maneira e poderiam retirar a queixa, poupando assim a filha de novas visitas a ambientes como aquele que estavam deixando atrás de si.
Joana, que chegara cheia de amor e de expectativa, saía cheia de decepção. Então ele negava-se a admitir que a tivesse amado e desejado! Negava-se a admitir que ela o tivesse atraído! Era horrível! E ele o amava tanto, mesmo sabendo-o um assassino (no íntimo, Joana tentava acreditar que a morte de uma mulher velha).
(Inútil como aquela que ela matara não fosse um crime assim tão importante...).
Voltaram de ônibus para casa e durante a hora e meia que durou o percurso da volta Joana apenas pensou e pensou. Por que ele a negara? Ou julgaria realmente sem atrativos? Mas então por que naquele dia...? Ou estaria bêbado naquele momento e, como o tio Aristides, simplesmente esquecia as coisas que fazia quando estava de cara cheia? Como poderia ela agora ir visitá-lo na cadeia sem ao menos saber se ele se recordaria dela? Lembrou-se, de repente, de que nada fizera no sentido de descobrir onde ele ficaria preso... Mas descobriria! Como, ainda não sabia. Mas haveria de descobrir, ah, se descobriria... e iria vê-lo e levar- lhe coisas, mesmo que ele não soubesse quem era ela, mesmo que a odiasse e a julgasse totalmente desprovida de atrativos, ela iria, iria sim, pois ela o amava e este era simplesmente o seu dever.


ISABEL de ALMEIDA VASCONCELLOS CAETANO 

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