O MANIFESTO BERINGUELE
ISABEL de ALMEIDA VASCONCELLOS CAETANO
O computador esclarece que a tradução da
maneira de expressar o pensamento (algo diferente da fala humana) empregado na
comunicação dos beríngueles, está longe de ser exata. Certas expressões
combinam-se de uma maneira inédita, jamais registrada antes em seus quase
infindos bancos de dados. Assim sendo, explica ele, para a interpretação do
texto tem-se que considerar a existência de um contexto imponderável, já que se
trata de outra raça, outro planeta, outro ambiente, outra evolução histórica,
outra forma de ser, pensar e existir deste Universo.
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Transcrição da mensagem inteligente transmitida por alguém de algum lugar
chamado "berínguele" (palavra o mais próximo possível semelhante ao som da
comunicação deste povo) na última terça feira, 3h30 AM, horário oficial da
Terra, pelo satélite periférico de comunicações Alfacis 327:
Nosso contato visual, revisto e analisado inúmeras vezes, analisado por todo o
nosso planeta, do servidor ao sábio dos sábios, conclui com certeza que o vírus
que ataca vorazmente o terceiro planeta em órbita da estrela amarela de nove
servos, no caminho branco das estrelas, deve sofrer algum tipo de interferência
construtiva.
O vírus está se reproduzindo a uma velocidade assustadora e há um sério risco de
que alguns deles possam escapar da crosta protetora que envolve o citado planeta
(e da qual eles próprios dependem para viver, mas que podem armazenar e carregar
consigo num sistema de encapsulamento quando escapam da crosta para o espaço
aberto do nosso céu) e, neste caso, virem se reproduzir aqui, em pleno Cosmos.
Como esta reprodução é rápida e acontece em progressão geométrica, os vírus que
infestam o terceiro planeta podem se constituir em séria ameaçada à Vida no
Universo.
Em apenas 200 voltas completas em torno de sua estrela, os vírus do Terceiro
Planeta multiplicaram-se a si mesmos e aos instrumentos de destruição. Eles
provocam cadeias terríveis de reações na Vida do planeta, exterminando outros
seres móveis como eles, e devastando seriamente a pele do planeta. Neste período
de tempo (200 voltas completas) as imagens aproximadas do planeta mostram o
extermínio de grandes partes verdes, a destruição de inúmeras populações
móveis-- em parte muito semelhantes aos seus próprios algozes e certamente
pertencentes a um outro elo da evolução deles próprios -- o que parece
extremamente incoerente com os princípios regentes da Vida.
Tudo, portanto indica a necessidade de uma intervenção nossa no sentido de, se
não exterminar completamente a causa, pelo menos deter a sua expansão e
reprodução.
Logo concluímos, porém que, por ser este vírus dotado de uma forma primitiva do
que chamamos de pensamento, enquanto os outros seres vivos do Terceiro Planeta
são apenas alma abstrata, não deveríamos, em nome do equilíbrio mental do
Universo, exterminá-lo de todo e, sim, tentar encontrar uma forma de interferir
positivamente, desviando o curso de sua evolução: da destruição para a
construção. O planeta ainda não foi totalmente devastado, embora muitas formas
de expressão da alma tenham sido definitivamente extintas e muito da pele do
planeta, roubada e destruída ou transformada. Se pudermos interferir
positivamente lá, livraremos a consciência Universal de mais uma dúvida quanto à
morte de seres destrutivos, mas que têm seu papel indubitavelmente nos elos da
corrente da Vida Mental em nosso Universo.
Resolvemos então que parte da nossa Mente Berínguela deverá se subdividir e
tomar forma de vírus isolados (que eles próprios chamam de "pessoas" ou "seres
humanos") completamente dotados de todas as características deles e repletos de
todas as informações pertinentes à vida e à história deles e, lá, inseridos os
nossos vírus no habitat dos vírus do Terceiro Planeta, tentar desviar o rumo que
eles têm agora e talvez salvá-los (e também às nossas consciências) do
extermínio.
Foi assim que, quando os Beríngueles chegaram à Terra e se misturaram entre nós,
algumas autoridades do planeta estavam alertas para detectá-los e
identificá-los. Mas desconfiavam que os próprios beríngueles soubessem disso,
pois não poderia ser casual a transmissão de sinais codificados (traduzidos pelo
computador) com uma mensagem tão ecologicamente correta.
Assim, foram tomadas as primeiras providências para começar a caça e a matança
dos possíveis beríngueles que estivessem entre nós.
ISABEL
de ALMEIDA VASCONCELLOS CAETANO
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