O SONHO DO TEMPO
ISABEL de ALMEIDA VASCONCELLOS CAETANO
O mais grave e importante no desejo do Tempo
era a destruição das máquinas humanas chamadas relógios.
Ou, mais que isso, a destruição da sua própria medida e confinamento.
São uns demônios estes humanos, dizia o Tempo, pois encontraram uma maneira de
confinar um Deus, como eu, num reles parâmetro!
Há muitas maneiras de confinar um Deus, respondia sua mulher (a porção feminina
do Tempo), pergunte ao Zeus e ele lhe dirá. As razões do coração e do
encantamento e até mesmo o próprio Amor, que tem garras e dentes fortes. Não
será destruindo os corações que você eliminará o Amor. Sendo assim - continuava
ela com o bom senso característico das fêmeas - de nada adiantará destruir os
relógios.
Tempo argumentava que, com a destruição física dos relógios, os humanos
achariam outro tipo de orientação e abandonariam esta ilusão a que chamam
passagem do tempo.
Imagine se eu, um Deus, pode "passar"!
Mas podia sonhar.
E sonhava com relógios.
ISABEL
de ALMEIDA VASCONCELLOS CAETANO
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