UM SONHO

ISABEL de ALMEIDA VASCONCELLOS CAETANO



Beth 3 pensava numa velha lenda de família enquanto fitava a paisagem do espaço cósmico, pela escotilha de sua cabine. Na verdade, uma constelação que parecera a ela a mesa da Santa Ceia Cristã, despertara-lhe a lembrança. Lá estava a constelação, diante de seus olhos. Ficava difícil, agora, não pensar na intrigante e antiga lenda familiar.
Por um período de três anos consecutivos – rezava a lenda – durante a década de oitenta no século vinte, trinta e três pessoas, antepassados da capitã Beth 3, tiveram o mesmo sonho. É verdade que naquela época não haveria como saber se o sonho fora exatamente o mesmo, com as mesmas imagens, mas fora seguramente o mesmo em forma e conteúdo.
Sua tetravó Maria Beth também sonhara. E a história dos 33 sonhos iguais, na família, passou de geração a geração. Hoje em dia – pensa Beth 3 – poderíamos ter a imagem dos sonhos, recuperada eletronicamente dos impulsos elétricos da memória de quem sonhou... A capitã sorri à imagem mental que ela própria criou da história dos sonhos. Gostaria de partilhar da imagem real. Mas esta, infelizmente, perdera-se pela falta de recursos do século vinte. Deve ter sido muito belo este sonho para quem o sonhou, suspira a capitã Beth 3.
Segundo a lenda, o Sonho era descrito como um filme de cinema (o equivalente aos atuais teatros virtuais, mas em apenas duas dimensões), em cenas, planos e sequências.
Começava para o sonhador com a visão de um estranho céu de um azul profundo, como os céus das tardes de outono na Terra, mas, apesar da luz intensa do dia e do céu claro, era possível ver todas as estrelas... O céu porém mostrava outras estrelas, outras galáxias, diferentes do nosso céu da Terra. No centro deste novo céu, uma constelação se destacava. As estrelas desenhavam uma grande mesa e, em torno dela, os comensais, claramente visíveis, todos eles antepassados e entes queridos dos sonhadores. 33 sonhos. 33 visões de 33 comensais feitos em estrelas em torno de uma grande mesa que lembrava a Ceia de Cristo.
No momento seguinte, os sonhadores encontravam-se com a terra onde estavam. Toda a vegetação era – em vez de predominantemente verde – predominante cor de rosa. O marrom do solo era azulado.
Não havia ruído algum, embora a folhagem se movesse sob um vento inaudível, mas sensível. E todos os sonhadores, diante da beleza de um jardim cor-de-rosa, sentiam uma indescritível (e pelo jeito inesquecível – pensa Beth 3) felicidade. Plenitude, dizia a mãe da capitã, quando contava a história.
Agora, quase trezentos anos depois, ali estava uma constelação que lembrava uma mesa posta para 33 pessoas.
O choque de Beth 3, ao ver a constelação pela escotilha, fizera com que ela abrisse uma pequena exceção em seu comportamento rigidamente ditado pela disciplina necessária às viagens siderais. Dispensara o pessoal em torno e estivera já há mais de cinco minutos perdida nos sonhos do Sonho da lenda familiar. Hora de voltar à ativa.
Toda a situação profissional veio-lhe à mente, num relâmpago. Sua nave estava agora orbitando o terceiro planeta do décimo primeiro sistema solar da área galáctica de Nova Colonização. Era uma missão de rotina para uma equipe exploratória o reconhecimento de planetas classe m (capazes de abrigar vida humana). Beth 3 já tinha cento e dois anos de experiência em missões interplanetárias e seria difícil encontrar paisagem ou ambiente, no céu ou em qualquer terra, que trouxesse maiores novidades. A constelação semelhante à do sonho emocionara a capitã. Sozinha ainda na cabine, ela temia dar a ordem para que se projetasse holograficamente a imagem do ambiente do planeta abaixo. Temia que fosse um jardim de folhas rosadas...
Carl Sagan, no século vinte, já sabia que as plantas de clorofila vermelha eram as mais evoluídas... Pensou, surpreendendo-se com o próprio pensamento.
Deu a ordem. E viu a confirmação do que intuía: lá estava a paisagem do Sonho de seus antepassados. O céu claro, mas deixando ver a luz das estrelas, os jardins de folhagens cor de rosa e flores de todas as cores... tudo ali, na pequena holografia que flutuava diante dela. E, adiante, pela escotilha, a constelação do Sonho.
Por que, pensava Beth 3, tamanha emoção? Afinal, não havia nada de estranho no fato de realmente existir um lugar igual ao Sonho de seus antepassados. Todas as paisagens do Universo, todos os instantes da história de todos os povos da galáxia, tudo pode ser acessível à mente humana. Quando o homem saiu da terra para o espaço, encontrou novas formas e novos desenhos nas naturezas de outros mundos que já vira estampadas em obras de arte abstrata na terra ou em desenhos primitivos, em estampas étnicas...Por algum estranho caminho mental (que a confiança de Beth 3 na ciência sabia que acabaria sendo explicado) seus antepassados sonharam com aquele distante planeta que ela agora orbitava.
Saiu da cabine, refeita das emoções e disposta a tele transportar-se ao planeta. Avisou a tripulação e transportou-se para a paisagem do antigo Sonho.
Quando se materializou lá Betth 3 imediatamente sentiu, com a violência de um soco no peito, uma felicidade plena e indescritível a invadir lhe a alma e percebeu que, na verdade, estava sonhando: sonhara que vira uma constelação que a lembrara do Sonho e sonhara que saíra da nave e estava sonhando agora com o que, de fato, sempre sonhara: poder sonhar o sonho. Olhou para o céu: lá estavam eles, estrelas ao redor da mesa de 33 lugares.
.........
O imediato estranhava: afinal havia mais de 10 minutos que a capitã Beth 3 se isolara na cabine de comando. Não respondia à comunicação extra ambiental, nem pessoal. Muito estranho.
Acabou resolvendo-se: pediu abertura de emergência e invadiu a cabine. Afinal a capitã ordenara modo de isolamento, ele não tinha acesso nem à monitoração dos sinais vitais dela.
Não se arrependeu da decisão. Instalado de maneira confortável na poltrona de comando, estava o corpo de Beth 3. Sua expressão era calma, suave... Plena, definiria mais tarde o imediato. Seus olhos abertos pareciam fitar as estrelas pela escotilha, à esquerda. Lágrimas vieram aos olhos do imediato. Ele seria o capitão agora, mas sentiria muita falta de sua mestra.


ISABEL de ALMEIDA VASCONCELLOS CAETANO 

para Abafada