Clamores Silentes
IIª PARTE
Reflexões I
Nossa vida caminha passo a passo, nunca recua, nem estaciona a fim de descontar depois. É inexorável o avanço para o dia final; daí a importância de cada momento, de cada minuto vivido. Embora ficando a esmo, estáticos, mesmo assim inertes o nosso tempo está andando. Não sabemos se caminhamos para o cume, para o meio do caminho, se estamos na ida ou na contagem regressiva para o ápice que é o último momento terreno de espírito encarnado que nos possibilita agir concreta e deliberadamente no plano humanizado. Só temos esse tempo para sermos e realizarmos o que o espírito nos exige para nossa própria purificação e resgate dos valores para a felicidade em plenitude, isto é, o merecimento do convívio no plano espiritual, integrados ao corpo místico do Pai, na completa liberdade do transcendental. É possível dizer que muita dor existe porque desconhecemos os valores latentes que estão em nós mesmos ou a nosso alcance, esperando apenas que os busquemos e os coloquemos na prática. Por vezes, nossa sensibilidade se deixa abafar por conceitos e preconceitos que inibem e amordaçam o nosso agir. Deus nos mostra o caminho, mas não nos obriga a andar por ele. Deus criou o bem, e o mal brotou como joio entre o trigal, não por vontade Dele, mas pelo pecado do homem que abusou da liberdade recebida. Deus, porém, não se acomoda diante do pecado, fruto da liberdade por Ele concedida, e a prova é de que homens inspirados pelo mesmo Deus se fazem profetas no meio da human idade perdida buscando resgatar os valores perdidos e denunciar ações menos importantes que tornou muitos homens excêntricos e implícitos na sua maneira de pensar e agir. Analisando, percebe-se que enquanto alguns se fecham em seus egocentrismos, outros vão criando ídolos que em seus mais rudimentares anseios venham satisfazê-los, alimentando-se na fuga do compromisso de libertação a que fomos incumbidos no resgate pelo sangue do próprio Filho de Deus. E com isso, cria-se uma distorção na proposta de Deus que nos pede um intercâmbio de ações dentro de uma caridade libertadora de uns para com os outros. E se entroniza o slogan: “Cada um cuida de si e Deus cuidará de todos”); transferindo assim para Deus, aquilo que é obrigação nossa. Isso frustra o plano do Criador que nos interpela e nos solicita para que todos sejamos “um” na igualdade universal. Nem sempre o homem, escravo de si mesmo, numa mentalidade egocêntrica busca uma posição de Rei a serviço, mas para se auto-afirmar usa todos os meios de dominação, tornando-se opressor e dominador através dos ídolos: “Ter”, “Poder” e “Prazer”. No início da história humana, que germinou o embrião da sociedade que hoje temos. Divisões, desigualdades e extremismos foram se sucedendo. Enquanto alguns ingressam no rol dos poderosos, outros formam o grupo dos que se imolam irremediavelmente escravos por sobrevivência, contribuindo para que seus opressores se tornem mais poderosos ainda. Dois males assolam a humanidade, os extremismos: os muito ricos e os miseráveis. O que sobra aos primeiros falta aos outros. As leis do sistema consolidam e protegem as exigências da burguesia, abafando a vez e a voz dos mais fracos. O povo é educado para enquadrar -se nos moldes existentes. A força incontrolável da ganância faz com que diminua em número, mas cresça em poder a classe da burguesia, enquanto a outra parte, em número cresce assustadoramente e gradativamente baixa em nível de dignidade humana. Isso faz com que a humanidade se escravize automaticamente... os poderosos escravos da riqueza e do poder.... os pequenos escravos da situação de miséria que a burguesia lhes impôs. E é aí que entra em ação a voz profética daqueles que, iluminados pelo espírito de justiça, erguem seus clamores em nome dos emudecidos dos que foram jogados na miséria pelo processo burguês da organização da sociedade que hoje temos. Para que eu possa alcançar o objetivo a qu e me proponho aqui, relato acontecimentos e conclusões de muitas reflexões. Parece-me que, antes de tudo, devo formular o texto, embasando-o no próprio contexto.
O contexto aqui é o retrato do submundo dos marginalizados, é a experiência que obtive convivendo com os mais pobres durante alguns anos. Esse tempo tem sido suficiente para levar-me a fazer reflexões mais profundas sobre o mistério da vida e a nossa participação no projeto de Deus para com a humanidade. Busquei o ponto fundamental para estas reflexões a partir de três interrogações: Por que vivemos?... O que fazemos?... Para onde vamos?... E a resposta a esses questionamentos nós mesmos podemos dar a partir da auto-análise que cada um poderá fazer de si mesmo. Conscientes de que não fomos criados por acaso e nem para vivermos a esmo, e que ao sermos gerados, estamos fazendo parte da criação de Deus e, mais ainda, criados a sua semelhança. Tornamo-nos seus filhos e Ele tem um projeto de vida para nós. E nesse projeto Ele quer indispensavelmente a nossa p articipação. Portanto, na fé de que o sonho de Deus é para nós uma utopia realizável, só precisamos como se diz na gíria: “Vontade e pé na mola” mesmo porque nossa fé sem obras é morta, conforme reza o livro sagrado da Bíblia.
Deus presenteou à sua humanidade com três encantamentos:
- O canto dos pássaros, sinfonia da natureza...
- O desabrochar das flores, ofertório e beleza...
- O olhar de uma criança, ternura e pureza, a nos revelar os mistérios Divino na suas profundezas!
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Seu teto é uma ponte na fonte defronte
O castelo frondoso, pomposo contraste
Com faces sofridas, vencidas.....
Quem passa, passando apressado se vai...
Não esquece, mas fenece,
A marca na mente da gente
Da dor, do amor do Redentor.
Na desgraça , no banco da praça,
Se aninha e definha...
Nasceu, desceu, não viveu,
Sofreu e morreu...
Quem tem culpa?...Quem tem culpa?...
Quem estava defronte da ponte,
Quem passou apressado e sumiu...
Não assumiu o desafio.
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Voltei ao passado,
Retrocedi.
Desci ao tronco
Fui a raiz
De minha árvore.
Queria saber:
De onde vim?
Para que vim?
E o que sou ?
Para onde vou?
Serei o galho?
Serei o fruto?
Serei a flor?
Mas que importa?
Importa apenas saber
Que sendo o galho
Darei a sombra
Ao peregrino
Se for o fruto
Alimentarei.
Se for a flor
Desabrocharei
Para o Senhor!
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Memórias I
Nasci numa casa ao pé de um pequeno morro, na localidade denominada Tupanci, 5º distrito do município de São Sepé, Estado do Rio Grande do Sul. Meu pai chamava-se Abílio da Costa e Silva, minha mãe ainda existe e chama-se Julieta Pereira da Silva os quais tiveram l0 filhos legítimos e 1 de criação, sendo eu a segunda da prole. Nossa casa, toda em alvenaria, era considerada grande. Havia, junto a mesma, um galpão onde costumávamos tomar chimarrão ao pé do fogo de chão. Aos fundos, na parte sul havia um arvoredo grande que, além das diversas qualidades de frutos, era o coro da passarada que ali gorjeava desde o clarear do dia até a noite. Do lado esquerdo, uma mangueira de pranchas de madeira. Ao lado direito, havia uma cacimba de água puríssima, com a qual abastecíamos a casa e servia de remédio para muitas pessoas que diziam ser aquela água tão boa que curava como se fosse remédio de farmácia. Bem em frente, a uns quinhentos metros, um grande cemitério onde meu pai costumava fazer a sua visita quase ao escurecer do dia. Ali rezava pelos mortos. Lembro-me de que na época se falava muito em assombração e até diziam que a nossa casa era mal-assombrada porque fora reduto, hoje em ruínas, da maior fazenda do distrito. Meu pai, porém, não acreditava em assombros e para provar isso andava pelo morro, cruzava
picadas e até ia ao cemitério à noitinha. Porém, sempre ouvia os outros dizerem, ao se referirem ao assunto, “Não acredito, mas, também não duvido”. Outros ainda diziam: “Não acredito, mas que há, há!” Como eu era ainda muito jovem isso me fazia criar certa confusão no pensamento, chegando quase morrer asfixiada com a coberta na hora de dormir. E aí me ocorria o pensamento da possibilidade de me aparecer algum morto sem cabeça ou um cadáver estático no meu aposento.
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Casa branca
Casa branca na beira do morro
Já foi lar de risos e cantos
De pureza e de mocidade
No gorjeio da passarada
Se enfeitava a natureza.
Hoje é abrigo de Quomotins
De aranhas e pica-paus
Tão só na beira do morro
Abrigas a solidão
Das taperas que foram moradas
De quimeras e sonhos de então.
Casa branca na beira do morro
De pedras e grandes figueiras
De mangueiras de taboas pesadas
Que abrigava as vacas leiteiras.
Cinturão de laranjais
A cacimba da aroeira
O tanque na velha picada
E a ramada de palha de arroz
Era teto do tosco pilão
Dos brinquedos da gurizada
Sobre o solo batido do chão.
Lembro ainda das serenatas
Da gaita do seu Carmélio
Quebrando o silêncio da noite
Nos açoites da chimarrita
Galpão velho de fogo no chão
Chimarrão nas madrugadas
Enquanto na trempe de ferro
A chaleira preta chiava
O patrão e a peonada
Planejavam as lidas campeiras.
Casa branca na beira do morro
Foi estância e hoje é tapera
Relicário de tantas quimeras
Na esfera de um lindo passado
Se tivesses sentimentos
Quanto terias chorado
No abandono sem lamentos
Choram por ti as corujas
Despejando soluços ao vento
Como a indagar do destino,
Por que é que te abandonaram?
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