Clamores Silentes
Nossa casa era freqüentada por muitas pessoas amigas que nos faziam constantes visitas. Na maioria, eram pobres que habitavam os arredores, muitas das quais eu nunca me esqueci, pois eram indivíduos que nos chamavam a atenção, em especial pelo seu modo de ser diferente das demais pessoas. Entre elas, procurarei citar algumas que se destacaram mais como estranhos na sua maneira de enfrentar a vida e por isso ficaram marcadas na minha memória. Mesmo não me sendo peculiar memorizar acontecimentos ou fatos que se perderam no decorrer dos anos. Tentarei, no entanto desobstruir as idéias retrocedendo ao tempo no afã de reviver momentos que me deixaram marcas, talvez pelo ineditismo desses fatos. muitos dos quais, talvez, aos olhos de alguns, poderão parecer sem maior importância, mas devido às diferentes sensibilidades, poderão se apresentar com o algo que deixaram marcas irreversíveis as quais carregamos através dos tempos, sem que, mesmo querendo, possamos apagá-las da memória. A descrição que faço sobre a vida de algumas pessoas, suas características, citando inclusive seus nomes, suas identidades, tem, por objetivo principal, mostrar o testemunho de vida que tais criaturas puderam transmitir a nós através do seu heroísmo, de sua filosofia de vida, ou por suas figuras estranhas. Talvez pelo realismo com que encaravam a vida na sua mais pura essência.
Pedro Mosquito, cuja imagem guardo bem viva na memória, era um idoso que gostava de beber cana e cantar. Quase que diariamente montava seu magro cavalo tordilho e ia até o boliche comprar sua pinga. Tomava até cair do matungo e onde caía ficava até o outro dia. Passava as noites conversando sozinho e intercalava as cantigas com conversas como esta: “Sou Pedro José de nada, valho muito e não valho nada”. Daí seguia uma trova enfadonha e triste que durava horas. Pedro Mosquito morava sozinho num ranchinho no meio da mata. Eu era muito jovem quando ele faleceu.
Bita Costa, velho tropeiro de cabelos branquinhos pelo rigor dos anos. Seu Bita gloriava-se de conhecer, segundo ele, o Brasil de norte a sul até a Patagônia, porém sabíamos que nunca havia chegado além das fronteiras do Rio Grande do Sul. Gostava de contar histórias e era muito desconfiado. Éramos criança e quando seu Bita ia almoçar em nossa casa, era um sofrimento para nós, quando ao vê-lo mastigar com tanta destreza (rapidez), apesar de não possuir nenhum dente, e deixar o talher cair constantemente, coçava a cabeça e batia sobre a mesa, gesticulando muito com a mão de dedos encolhidos, devido a um defeito físico que não sabíamos a origem. Nós éramos proibidos pelos nossos pais de rir devido a sua desconfiança. Puxa, era terrí vel, de minuto em minuto, jogávamo-nos embaixo da mesa para soltar o riso incontrolável e reprimido por nossos pais. Era uma verdadeira agonia todo o período do almoço, naquelas ocasiões.
Sinhá Luísa (Siá Luísa): negra, velha e muito pobre que morava perto da nossa casa. Sempre foi muito apreciada pela vizinhança. Sai Luisa foi doméstica dos antigos fazendeiros ali existentes. Muito encurvada, possuía um único dente no maxilar inferior o qual era voltado para fora da boca. Mesmo com essa figura meio esquisita, era de uma sabedoria muito grande; uma espécie de Mamãe-Dolores, sempre pronta a acolher, a conversar com as pessoas e a ajudar em tudo o que fosse necessário. Apesar de sua idade bastante adiantada, com mais de 90 anos de idade, era possuidora de uma ótima memória. Contava muitos fatos e histórias de seu passado e da família rica com quem morava. Recordava a fartura e o esbanjamento, a q ue seus patrões se davam ao luxo. Porém, como quase sempre acontece, ela morreu muito pobre num rancho de torrão, coberto de capim e fogo no chão.
Biá (José Daniel). Este era neto do maior fazendeiro da região. Segundo familiares, era criado com o avô que lhe fazia todas as vontades. Seguidamente, por ocasião das marcações, era-lhe marcada uma vaca. Biá, no entanto, não foi de muita sorte. Contam que certa vez, ao subir num pé de coco- gerivá, teve uma queda e ficou com problemas físicos. Seu corpo era trêmulo, e estava constantemente colocando a língua para fora da boca e arregalando os olhos. Seu braço e mão direita estavam sempre a balançar como se estivesse cumprimentando as pessoas. Usava a calça à meia canela. Quando ganhava alguma calça comprida, cortava-a para que ficasse naquele estilo. Biá entendia tudo e conversava com nexo. Era casado com Luísa Pelintra e tiveram 12 filhos. Morava num ranchinho no meio do mato, em extrema pobreza, sendo obrigado a sair diariamente para pedir comida. Apesar de tudo, divertia-nos fazendo bois de argila para brincarmos. Quando ia a nossa casa pedir, ganhava de tudo. Nós, crianças, anjos terríveis, só para divertimento, dávamos a ele, quando nossos pais não estavam juntos, pêssegos bichados, os quais comia com casca , bichos e tudo. Era nojento de ver isso. Certa vez, perguntei-lhe se não sentia nojo de comer aqueles bichos, ao que me respondeu: “É sempre assim, o maior engole o menor”; frase filosófica e profética essa.
Orlando Costa: Orlando da Costa e Silva era irmão de meu pai. Nasceu em 1905, no município de São Sepé. Os amigos colocaram nele o alcunha de Orlando Louco. Era um homem muito popular cuja característica principal era um apurado senso de humor, sempre pronto a fazer rir quem se aproximasse dele. Em qualquer lugar que se encontrasse, ali estava ele cercado de pessoas as quais não as deixava quietas. Extremamente brincalhão... um eterno menino grande era, por vezes, irreverente nas suas piadas ou brincadeiras. Tio Orlando gostava muito de uma pescaria, quando aprontava para os companheiros. Foi ele um vulto que deixou saudades no coraç o de muitos. Faleceu em 1980, aos 75 anos de idade.
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Vida de camponesa
Aqui volto a relatar, em pequenas sínteses, o que foi a nossa vida de camponeses, isolados do convívio das cidades. Meu pai era filho do fazendeiro José Mervilo da Silva e minha avó chamava-se Maria Jovelina da Costa e Silva. Tiveram treze filhos, o que explica o meu pai ser um homem de classe média. Minha mãe é filha de Virginio Santana e Maria Eugênia Pereira Santana (ambos falecidos) e que tiveram oito filhos, sendo um de criação. Era uma família pobre, minha mãe fora criada pelos tios João Thomas e Antônia Amélia Pereira Brites, os quais possuíam um filho legítimo chamado Gentil e que era casado com Maria Emília. Antônia Amélia, vovó Nica como a chamávamos, nasceu em 11 de agosto de 1881 e faleceu aos 101 anos de idade. Viveu no tempo da escravatura e, com toda a lucidez, contava as hist órias de sua época, os sofrimentos dos escravos. Uma dessas escravas chamada Ponciana. Vovó Nica contava que essa era o retrato vivo da exploração, injustiça e degradação do ser humano. Andava quase despida e passava fome, chegando a comer trigo cru nas lavouras da fazenda para saciar sua fome. Vovó contava que, certa vez, uma escrava, tomada pela revolta, cozinhou uma cobra na chaleira que serviria o chimarrão para o seu Senhor. Descoberto o fato, ela pagou com a vida. Era costume dos senhores da época mandar matar o escravo que se atrevesse a qualquer atitude agressiva. Vovó Nica morou em nossa casa por muito tempo. Era viúva e nesse tempo em que ficava conosco nos proporcionou muitos conhecimentos e transmitiu lições de vida muito interessantes. Não esquecia os amargos e apreensivos da revol ução de 1935, quando as escoltas dos guerrilheiros atacavam as casas, matavam os chefes de família, estupravam as moças e muitas vezes levavam-nas com eles. Vovó Nica foi uma pessoa caridosa, sempre pronta a ajudar os outros, a fazer um chá, sempre que alguém se queixava de alguma dor. Lembro, certa vez, eu estava acamada por uma forte gripe e minha avó entrou no quarto com uma xícara de chá, uma bomba de chimarrão, a boca da xícara estava coberta por um guardanapo e ela ria tanto que desconfiei e me recusei a tomar o chá. Só depois descobri que aquele chá era feito de esterco fresco, de vaca preta o qual, segundo a crença dos mais velhos, era ótimo para o peito. Meu tempo de menina camponesa foi, de certo modo, alegre. Brincávamos muito, de tudo um pouco: mangueiras e gado de sabugo, bonecas de rama de mandioca que enfeitávamos com palha de milho ou aveia Andávamos pelos morros dos locais vizinhos e pelas matas c om as outras meninas. A amiga com quem mais brinquei foi a Lígia Vidal, uma negrinha muito humilde e querida. Esta fazia bonecas de pano para mim e concordava em tudo comigo, talvez por isso nossa amizade tenha sido tão sólida, pois sempre exerci uma certa liderança na turma. Em tudo o que fazíamos, eu gostava do destaque, de ser a figura principal da brincadeira. Nunca dava certo quando tinha que me submeter à obediência ou à Liderança de outras criaças Agir como subordinada não fazia o meu gênero. Sempre sonhava em ser Santa. Lembro-me de que em certa ocasião inventamos uma brincadeira em que eu seria a Santa e as outras teriam a obrigação de ornamentarem o meu altar feito de caixotes, com flores do campo e deveriam prostrarem-se ajoelhadas na minha fr ente. A princípio me senti realizada, mas logo abandonei a idéia a partir do momento em que o grupo determinou que a Santa não poderia falar, teria que aceitar tudo calada, mesmo alguma provocação. O desafio foi maior que minhas possibilidades de aceitar ser venerada como as imagens que criaram para os verdadeiros santos da Igreja. E assim, entre brincadeiras, sonhos e risos, foram passando os anos. Bem cedo chegou a mocidade. Ser jovem, cheia de vida, com mil esperanças. Utopias da reminiscência latentes impulsionando as ações para galgar os degraus de um mundo cheio de esperanças e muitas realizações. Estudar era o meu objetivo principal... ser alguém útil aos demais. Muitos desses sonhos foram frustrados pelas dificuldades existentes, entre elas, o de morar no interior onde só havia Escolas para alfabetizar. Tínhamos professores particulares para nos alfabetizar e só mais tarde, aos treze anos, consegui, com o incentivo da nossa vizinha Maria Stella Kielling e sua irmã Nilza Kielling (a Dija), parar no internato do Colégio Beata Júlia, de São Sepé onde cursei até o 5º ano primário. No Colégio, fui uma boa aluna, tirava quase sempre os primeiros lugares nas notas. Porém, tinha o hábito de falar muito, o que me custou alguns castigos (conforme o costume da época) No internato, comecei a sentir um desejo enorme de ser freira. Mas meus pais não aceitavam a idéia, por isso, com alguma dor no coração, não insisti mais. Logo ao ter concluído o 5º ano primário, tive que deixar os estudos, pois meu pai tinha que dar um pouco de estudo aos meus irmãos e a situação financeira não permitia tantas despesas. Ao regressar para casa, continuei a estudar o que podia. Geografia, história, religião eram as matérias de que eu mais gostava. Foi então que resolvi alfabetizar uma turminha de crianças (quatorze crianças). Lembro-me de que com o ensino, faturava no final do mês a quantia de quarenta cruzeiros e era tão pouco que não dava para comprar um par de sapatos. Mesmo assim gostava muito de dar aulas, especialmente de religião. Sabia de cor o livro da história sagrada e transmitia aos meus alunos catequizandos o medo do pecado, colocava a imagem de Deus como um ser bom e ao mesmo tempo castigador, extremamente severo. Foi o que eu aprendi no Colégio e na preparação para a primeira comunhão.
Sempre gostei de cantar e escrever poesias. Nos dias tristes e melancólicos daquele isolado campestre, as horas eram longas e monótonas e para ocupar o tempo eu lia tudo o que caía em minhas mãos e por vezes escrevia poemas. Escrevi muitos poemas, alguns pobres, outros com alguma profundidade, mas todos eles evidenciando uma característica: a espiritualidade latente no meu íntimo. Sempre enfocando, de modo especial, as coisas do alto, as coisas de Deus. Não poderia negar que fui uma grande sonhadora e , por vezes, ainda continuo sendo. A utopia de Deus, o transcendental a me empolgar. A grandiosidade do poder divino, a perfeição da natureza, o roteiro astral, o mistério da vida , a incomparável e misteriosa grandeza e beleza do ser humano . Creio profundamente que a fé e a confiança em Cristo são capazes de remover montanhas e disso dou testemunho, como creio que a falta de fé é que nos faz soçobrar no mar da vida.
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No mar da vida
Ia Pedro seguro sobre as águas
Acionado pela divina energia
E o poder da confiança em Deus...
E eis que nesse mar da Galiléia
Vão surgindo os ventos adversos,
Quebrando do mar toda a bonança
E toda a beleza no andar de Pedro
Mas o vento redobra a violência
E lhe toca de perto a incerteza
Pedro achou que essa fortaleza
Era maior que o poder de Cristo...
E nisto, ao chumbo destes pensamentos
Foi-se indo as asas da confiança
E seus pés soçobrando lentamente.
Mas a tempo chega a voz clemente
Que repreende de Pedro a desconfiança
Qual oscilante fé dos pigmeus,
No andar vacilante dos ateus
Que impedem as maravilhas Dei
Realizável pela fé e a confiança
No poder de Cristo e sua lei!
Posso dizer que fui um tanto indecisa em descobrir minha verdadeira vocação: o sonho de ser freira me atraia, talvez porque achava que assim estaria mais próxima de Deus, atraia-me o hábito (veste) e a vida de clausura; ao mesmo tempo, idealizava casar e ter alguns filhos. Namorei vagamente alguns rapazes, um namoro bem da época, só de olhares e bailes. Em 1960, fiquei noiva e casei em 17 de setembro do mesmo ano. Esse noivo e hoje esposo chama-se Volmir Neves Martins, filho de Idalécio Costa Martins e Gelsa Neves Martins cujo casal teve mais 5 filhos: Elzira, Idalécio , Ana Rita, Volmar e Gilson Roberto. O dia do meu casamento ficou para sempre marcado na minha memória, devido à intensa tempest ade que caía sobre a região. A chuva iniciou três dias antes do casamento, era torrencial, parecia que o mar se precipitava do alto. A Capela fora ornamentada para a cerimônia que lá não pôde se realizar, pois a estrada que dava acesso ficou intransitável. Uma sanga que atravessava o caminho até a Capela transbordava com a enchente, não cedendo passagem. Pe. Otávio Ferrari e o escrivão Adão Silveira chegaram a nossa casa quase por milagre e porque eram conduzidos por Jeep. Já se pensava que o casamento seria por procuração, pois faltava o noivo e todos comentavam que seria impossível a sua chegada. Mas no final tudo deu certo. O noivo chegou. Alguns carros eram puxados por tratores, e a cerimônia finalmente aconteceu na residência de meus pais. Desde então, deixei de morar no belo Tupanci e fui residir na fazenda das Figueiras,na localidade de Cambay, então distrito de São Sepé.
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