Clamores Silentes

IVª PARTE

 


  Nasceram minhas três filhas: Maristela, Marilene e Ana Cláudia.  Não gostava muito daquele lugar, sentia-me só, na maior parte do tempo. Pensava mil coisas, tantos sonhos a realizar: estudar, fazer alguma coisa pelos pobres, participar de cursos e das celebrações religiosas. Era tanta coisa que sonhava realizar e me sentia tolhida, amarrada. Eram muitas as barreiras naquele fim de mundo.  Tinha que me contentar em fazer a limpeza da casa, cozinhar, cuidar das crianças e dos animais domésticos. Sempre senti que não tinha vocação para aquele tipo de vida. Assim, naquela rotina mista de solidão foram passando os anos. E para quem não tem vocação para a vida solitária, a esmo, foi muito angustiante, mas valeu pelo temp o propício, aproveitado para reflexões mais profundas sobre os verdadeiros valores da vida.


 Fé e vida

 

 Chegava o ano de 1972, e as duas filhas mais velhas já com idade escolar. Começamos a pensar em morar na cidade, pois as razões e as necessidades se evidenciavam à medida que as filhas cresciam. Foi um desafio, pois eram poucas as condições de comprar uma casa. Mas nunca desanimei. Rezava e confiava que Deus haveria de atender os meus anseios. Apeguei-me, com muita confiança, á passagem bíblica: “Tudo o que pedires ao Pai, em meu nome, Ele vos dará” e juntava a jaculatória “Jesus, eu confio em ti”. Meu esposo tinha preferência por morar em São Gabriel, mas eu preferia São Sepé, onde nasci e fui criada. Eu rezava muito para que uma luz nos mostrasse uma saída. Certo dia, decidi ir a São Sepé para informar-me sobre terrenos que estivessem à venda. Rezava para encontrar um terreno que fosse perto do Colégio e da Igreja. Eu já havia desenhado a p lanta para a tão sonhada casa. Qual não foi minha surpresa ao chegar em São Sepé, parando na casa de minha irmã mais velha, falei do meu sonho e ela logo apontou para uma pequena casa  que estava sendo construída e que seria vendida tão logo ficasse pronta.  Era na mesma quadra de sua casa, ficando à meia quadra do Colégio e a duas quadras da Igreja. Fomos até a referida construção e novamente a surpresa: a referida casa tinha exatamente a planta que eu havia desenhado. Na ocasião, a dona do imóvel se fazia   presente, logo fomos direto ao assunto e lhe pedi preferência na compra do mesmo. Mas tudo dependia de conseguir o dinheiro. Tínhamos alguns bois para vender, mas não havia comprador. Foi um dilema... Voltei a São Sepé por três vezes para tratar do assunto e cada vez que eu contatava com a referida senhora ela subia o preço do imóvel. Tornava-se cada vez mais difícil realizar o sonho. Por fim a dita senhora deu-nos apenas alguns dias para realizar a compra ou não haveria mais negócio. Redobrei minha fé na frase de Jesus “Tudo o que pedires ao Pai, em meu nome, Ele vo-lo dará”. Ao faltarem apenas três dias para expirar o prazo dado por ela, um amigo, chegando a nossa casa no interior, passei-lhe a contar o fato. Ele tendo escutado o meu relato com muita atenção, respondeu-nos: Eu tenho este dinheiro e posso emprestar até que possam vender os referidos bois. Compramos a casa e foi aí que mais uma vez pude constatar uma verdade bíblica: a fé é, de fato, capaz de remover montanhas! Depois de realizada a compra da casa viemos morar na cidade, isto no mês de março de 1973. Porém, nem tudo foi rosas. Eu teria que morar apenas com as crianças, pois o esposo deveria ficar na casa de campo, aproximadamente 75 Km de distância da cidade,  onde de veria cuidar dos bens da mãe, dos irmãos e nossos.  Foi uma separação difícil, uma vez que ao longo dos doze anos de casada nunca havíamos nos separado a não ser por algumas horas apenas. Depois de superadas as primeiras dificuldades, comecei a estudar e a fazer alguns cursinhos, chegando ao segundo grau.

 

 

Reflexões II

 

Sempre fui levada a questionar sobre o sentido de nossa existência. Por que nascemos? Por que vivemos? Quem somos? Para onde iremos?  Nossos questionamento acabam, pelo menos, em algumas conclusões  que nos ajudam a ter uma visão clara das realidades e encontrar soluções em muitos casos.

 

 

    AUTO INQUIRIÇÃO

 

Homo Sapiens...! Quem és?

Outorgado de direitos e poderes,

Por si mesmos legados ou por leis impostas.

Quem és afinal?

Sem razões aparentes.... viandante do ser e do não ser...

Que se confunde entre as alegrias ceifadas e

Destroços de ideais caçados entre

A opulência desmedida e o poder obsoleto.

Bocas e braços de imperador...

Grande e pequeno... forte e frágil.

Ora pisa a terra firme, ora o pântano dos fracos.

Quem és afinal?

Tua mente não mente... por vezes te confunde.

As opções se oferecem... tu as fazes...

Podes se assim quiser vestir a regila

Na obra do Criador, no seu esplendor

E doar teu próprio ser contemplativo...

Ou ativo, curvado em adoração,

A pedir perdão por ti mesmo.

Ou vestir-te de cordeiro sob toda essa perfídia

E degredo...

Dor e suor são redenção...

Os carrascos escondem sua pedra e o que medra

Arde e vara os tempos,

Como as flechas que voam a luz do dia...

Homem rei... homem escravo...

Extremos se digladiam!

Que todos se levantem do flagelo numa apologética...

Aquela mesma do Sermão do Monte

Guerra a distanásia subjacente

Que plasma a terra em todo o seu sial...

Veras então, por certo, a pátria prometida

Não como Moisés que apenas a pode contemplar,

Mas usufruir de seus licores

Na mais pura essência de seus odores,

Quando então, no teu próprio juízo saberás

Quem és, Homo Sapiens!

 

O preço

 

Neste mundo de reis e de servos
Foi tudo gerado e tudo criado
Perfeito e feito a serviço do homem
Centro e rei dos demais
E os demais a serviço do rei...
 
Mas o rei mata os servos...
Os verdes descampados
Os campos queimados, Rios atulhados...
 
Foi o rei que a terra explorou
Foi o rei quem matou
Estações definidas
Natureza agredida
Se vingou...se vingou...
 
E o rei, sem visão descuidou
Dos ares tão puros
Erguendo o muro da privação
As feras se vão
E as aves também
Os verdes secaram...
Os homens então
Mataram os reis
E a terra nua...como a lua,
A vagar...a vagar...
Sem nada e ninguém !
 

 

Translação, matéria e espírito, homem divino e humano. Busca da perfeição, chegar até Deus.

Ser com Ele união e comunhão.

 

 

Translação

 

Somos partículas

Somos libertos

Saímos do todo,

Giramos em torno

Do centro,

Do núcleo perfeito.

 

Giramos libertos,

Somos agentes

Do imortal

 

Partículas que giram,

Se encontram

Se comunicam,

Se entrosam.

E unidas retornam

Ao núcleo perfeito,

Tornando-se Sol!

 

 

Inquirição

 

Quem é esse Jesus Nazareno,

Cuja história persiste por milênios

Discordou de saduceus e herodianos

E reconheceu a sabedoria dos pequenos?

 

Quem é esse Jesus Nazareno,

Cujo nome no mundo projetou,

E todo o bem que dele procedeu,

Dizia vir do Pai que o enviou?

 

Quem é esse Jesus Nazareno

Que simplesmente afirmou:

Eu sou aquele que sou,

Sou o caminho, a verdade e a vida

Sou o começo, sou o fim!

 

 

Desejo

 

Que feliz, meu Cristo, tu serias

E eu seria também, se nós pudéssemos

Dar o pão a cada pobre que passasse,

Enxugar a lágrima dolorida,

Recompor a flor pisoteada,

Beijar a criança entristecida

E acariciar-lhe a face angelical!

Que feliz meu Cristo, tu serias

E eu seria também, se nós pudéssemos

Jorrar água na terra ressequida,

Sedenta de amores,

De paz enfraquecida.

De árvores sem frutos,

De galhos sem flores!

 

 

 

Cowboy fora da lei

 

 

“Mamãe não quero ser perfeito,

Pode ser que eu seja eleito,

E alguém pode querer me assassinar...

Deus me livre... eu tenho medo,

Morrer dependurado numa cruz...”

 

 

Essa música de Raul Seixas não é apenas uma realidade de ontem, mas do amanhã talvez. Ser perfeito sob as condições humanas é, sem dúvida, quase impossível. Mas é perfeitamente possível tentar-se a perfeição gradualmente, num processo lento de conversão através da reflexão, da oração e da ação em permanente contacto com o Supremo Criador, através da escuta de sua palavra e da predisposição de colocá-la na prática, no dia-a-dia.  Deus é verdade, amor e justiça. É um ser perfeito.  A manifestação desse Deus em nós se faz presente quando optamos por estas três virtudes essenciais em relação ao nosso próximo. O nosso próximo são, evidentemente, aqueles ou aquelas que estão mais próximos de nós. Cada um tem o seu próximo e assim sucessivamente formamos uma grande massa humana, como um grande átomo, cujas moléculas vivas e atuantes somos nós mesmos e cujo centro é o próprio Espírito de Deus criador que nos revela a importância da fraternidade, da unidade e da igualdade  entre os humanos. Somos chamados a ser perfeitos, segundo os apelos evangélicos. O ser perfeito é um compromisso que pode nos assustar.  Assumir o evangelho se torna perigoso para a carne.  O bem e o mal caminham lado a lado e o martírio dos justos já não se tem a conta. O próprio Cristo nos deu esse testemunho. A realidade de hoje nos aponta nitidamente um certo medo e apreensão, por parte de muitos e especialmente da juventude atual, em assumir uma caminhada  no compromisso de transformação de uma sociedade piramidal em uma sociedade igualitária. É inegável que muitos estão se c omovendo por essa grande massa humana sem chances, sem voz e sem vez. Esses seres de olhos perdidos no horizonte da vida, como a suplicar, no seu aparente mutismo, por uma migalha de pão, por um lugar ao sol, por uma solução; muitas vezes, indagando, nos olhos de seus opressores, esperando uma resposta ao seu pedido de misericórdia.  Persiste, no entanto, um olhar de esperança naqueles que ainda ousam tomar uma posição em favor dos mais fracos, ajudando-os a emergirem desse submundo desnivelado socialmente.  Esse medo de ser perfeito hoje está acontecendo, de maneira indiscutível e quase generalizada, como um fenômeno entristecedor. Percebe-se que as pessoas hesitam em ser honestas porque podem  estar fora do tempo. Tal virtude parece não caber mais na sociedade atual, tão manipulada por interesses capitalistas.   Porém, ao mesmo tempo, há um grito que ressoa exigindo mudanças na ordem social, dando origem as lutas de classes.