Clamores Silentes

Vª PARTE

 

 

 São dois lados a se confrontarem: os que primam pela justiça e pela paz e,  por essas causas, oferecem-se em holocaustos; e há os que imbuídos por uma mente doentia e atrelados a interesses vulneráveis, querem e vão à luta para se sobreporem a tudo e a todos mas, com isso, não chegam a se realizar como seres sociáveis e, na fuga de sua própria insatisfação, vão forjando ideais infundados, desalicerçados, portanto, sem firmeza. Passam a odiar o lado oposto, vendo nele um inimigo que parece estar constantemente a lhes apontar falhas.   Um fato concreto dessa situação é o que se vê hoje, muito comumente, entre os políticos em relação a Igreja, entre as classes sociais em conflitos permanentes em razão dos desníveis existentes, ou seja, os que  muito têm e os que nada tem. É só observar a caminhada dos sem-terra e a acomodação dos latifundiários para compará-la com a caminhada do povo de Deus no deserto em busca de libertação.   A caminhada do povo de Deus começou no Antigo Testamento e continua ainda hoje. A pergunta que devemos fazer a nós mesmos é: “O que fizemos nestes mais de dois mil anos de evangelização?” Olhando o contexto da realidade de cada país,   quase sempre nos deparamos com uma verdade: se houvesse mais honestidade nas mentes humanas, com certeza, haveria mais alegria a irradiar nos corações, pois esta só pode brotar nas mentes puras e nas consciências tranqüilas.   Em alguns países árabes, mais especificamente na Síria, onde minha filha Marilene e seu esposo Nabil, nascido lá, mais um casal de amigos passaram um mês com familiares e observaram, como é natural, uma grande diferença de cultura. Contam eles que lá se pode deixar o carro aberto, em qualquer lugar, com objetos de valor que ninguém rouba nada; se uma casa é abandonada, ninguém a invade. A cidade de Mazra, onde passaram mais tempo, é uma cidade pobre e não existe uma preocupação maior com o trabalho, mas as mesas são fartas de frutas e hortaliças; o solo é pedregoso e a terra para o plantio sai das pedras moídas ou dos vales onde são fertilíssimas. O povo vive em aldeias e se respeita.  Lá, com certeza, os valores morais são baseados na honestidade de cada um.  Talvez porque lá não se fala de Mídia ou coisa semelhante. É de se refletir... No passado e até hoje repercute ainda a afirmação de Rui Barbosa, a qual soou como uma profecia: “Virão tempos em que as pessoas terão vergonha de ser honestas.” E o poeta estava certo!  Hoje há pessoas que têm receio de confessar a própria fé, de dizer que rezam ou que vão à missa dominical etc...  Por outro lado, vemos que a desonestidade já não afeta muito. Logo que acontece, a maioria se escandaliza e depois cai no esquecimento. Os corruptos são eleitos novamente para ocupar cargos que representam, segundo a lei, a opinião do povo em geral. E a contestação dos honestos parece não ter influência suficiente para uma revanche ou uma luta que bem poderíamos chamar de guerra Santa   para reverter tal situação. A inversão de valores se estabelece de maneira tão natural que, aos poucos, vai formando as mentalidades, especialmente da juventude, de que tudo é válido, tudo é normal, é a chamada modernidade. E quem não pensar assim é considerado um retrógrado ou primitivo, pois, como diz D. Itamar Vian: “As manchetes são reservadas para os escândalos; a honestidade se contenta com o anonimato e o silêncio.” No campo político, social e religioso, o “Anunciar e Denunciar” fica nestes parâmetros: os  Silentes são as vítimas do próprio mutismo, os pregadores da justiça são os Mártires, enquanto os desonestos estão na “Crista da Onda” e já não se abalam, pois para eles é tudo normal... porque sempre há alguém  para gritar: “Soltem Barrabás!”  Por tudo isso, era bom que se pensasse mais no juízo final!

 

 

Solidário

 

Quando no ser humano entrevejo

No silêncio da dor dos oprimidos

Quando o coração fala aos sentidos

No peito amargo sofrimento

Por frustrar-me todos os desejos

Em apagar as cicatrizes dos tormentos

Dos injustiçados e sofridos

 

Não basta murmurar, não basta, não!

É preciso falar, gritar ao mundo

Não apenas em vago gemido

Nem mesmo pelo ser sofrido

È preciso, talvez ferir o coração

Num grito uníssono de união,

Liberdade!...liberdade!

 

Falar a esmo, a todos os horizontes,

Buscando arrancar da própria fonte

Que gera a dor e o sofrimento

A conversão, o comprometimento

Com a verdade, com a liberdade.

 

Liberdade para o outro ser,

Talvez tentar à ele devolver

O que lhe foi tirado ou negado.

 

 

E assim seremos resgatados

Como um novo homem e um novo mundo,

Mais profundo... mais feliz

Onde reina a fraternidade

Na igualdade e na liberdade!

 

 

Prece

 

Marca o tempo uma insana porfia

Na mente medra impúdico sofisma

E da finitude a dons e carismas

Na guerra fria que é também letal!

 

Vens de mansinho me buscar pra perto

Pra cantar contigo estas profecias

Em claras notas que irão por certo

Compor um salmo para a redenção!

 

Role teus dedos nas cordas da lira

E vais guiado pelo teu ouvido

Fale teus lábios pelos mais sofridos

Que a voz calaram sob a opressão!

 

Olhem estes olhos que razeiam d’agua

Ergue esse olhar em longa visão

E veras que o mundo é por demais pequeno

E qualquer descaso pode ser fatal!

 

E se a poesia também for um meio

De denunciar toda a escravidão

Fazei-me escriba no papel do tempo

Compondo versos de libertação!

                                                                                                                     

 

Remissão

 

Fiz vigias no tempo,

Pra ver dos meus sonhos

A parte concreta

Nas taboas da lei.

Neste tempo bonito

Um ser erudito

Num monte Sinai

Fez-me paciente

Eu esperei. Na espera e escuta

Razões de permuta

Dos meus ideais!

 

E num desafio

Bebi nessa taça

Todas as graças

Pra ser perfeição

E no entanto

Troquei o grandioso

Pelo ocioso

E na fuga da lei

Meu sonho, bem sei

Perdeu seu encanto

Por dar preferência

A vil omissão!

 

 

Recusei a taça,

Porém na desgraça

De não ser alguém

Que tudo recebe

E percebe que tem

O dever de doar

E se faz detentor!

 

Hoje sou penitente

Curvo meu dorso

Por ser consciente

Dessa inversão

 

Me faço mendigo

Dá-me um sorriso

Empresta-me a sorte

Vende-me a morte

Pra todo o egoísmo!

 

Pra que eu possa ainda

Ver os meus sonhos

Sem taboas partidas

Na grande descida

De onde esperei!

 

E num holocausto

Ofertório dos livres

Entrego o meu ser

Pecado e perdão!

 

 

Memórias II

 

         Sempre é bom recordar o iniciar de uma caminhada.   Bem no início, quando ainda não se sabia no que resultaria um desafio assumido sem muita segurança, porém com muita boa vontade. Era o mês de novembro de 1979, quando recebemos do Monsenhor Hernesto Bottom o convite para organizarmos a Ação Social Paroquial. Até então fazíamos algum trabalho assistencial isoladamente.  Passados alguns dias, a Senhora Zeila Souto Figueiredo e sua irmã Serilene chegaram até minha casa e pediram-me que coordenasse os trabalhos de Ação Social.  Na ocasião confesso que senti uma certa insegurança,  pois  </ span>não sabia sequer como iniciar essas atividades, visto que desconhecia bastante as exigências da caminhada da Igreja na atualidade. Nesse sentido, apenas fazíamos alguns paliativos.  A princípio, aceitei o desafio como experiência por apenas três meses, isso em reunião acontecida conforme a Ata de fundação.  Juntamente com as duas senhoras, conseguimos fazer algumas visitas e convidar mais pessoas para participarem desses trabalhos.  Logo em seguida, Monsenhor Bottom providenciou uma peça ligada junto à Igreja Matriz para que ali pudéssemos atender uma vez por semana a população carente. Constava esse atendimento de distribuição de alimentos doados pela comunidade bem  como roupas, calçados e outras ajudas.  Por vezes, íamos para as vilas.  Nosso trabalho, no entanto, era pouco libertador.  Não entendíamos muito sobre a caridade libertadora. Assim, passaram-se mais ou menos cinco anos. Chegava o ano de 1984, quando houve uma mudança de pároco.  Vieram, então, para São Sepé uma equipe pertencente a outra diocese e que , acolhida pela Diocese de Santa Maria, foi-lhes solicitado que se instalassem em São Sepé. Eram eles: Pe. Ireneu Stertz, Pe. Carlos Ivo Menegais, Pe. Hermetto Mengarda, Ir. Terezinha Offmenn e a leiga Lori Junges.  Foi num misto de alegria, e apreensão que os recebemos. Alegria porque sabíamos de antemão que se tratava de uma equipe muito dinâmica e voltada especialmente para os problemas sociais; apreensão porque se antecipava um zum-zum de que eram comunistas radicais e que estavam saindo de Santiago, onde residiam, corridos pelos latifundiários que não aceitavam as suas pregações em favor dos mais pobres.    Logo que aqui chegaram, apresentei-me como coordenadora da Ação Social Paroquial e os levei a par dos trabalhos que estavam sendo realizados. Solicitei que revissem os mesmos, colocando o meu cargo disponível para as mudanças que julgassem necessárias.

O Pároco, Pe. Ireneu, então me pediu para que permanecesse no cargo até que fosse vendo onde precisaria mexer. Pe. Carlos, muito alegre e espontâneo logo cativava a todos que dele se aproximavam. Sempre brincalhão, tinha um carinho especial por cada um em particular.  Pe. Hermeto, inteligente e atencioso, mostrava muita bondade.  Este ficou pouco tempo entre nós, tendo logo sido enviado ao Piauí para lá exercer suas funções sacerdotais na Diocese de Picos.  Pe. Ireneu, inteligente e com uma sensibilidade que cativava, atencioso e bondoso, assumiu, por determinação do Sr. Bispo, a tarefa de Pároco.  Ir. Terezinha Hoffemann, simpática e acolhedora, e Ana Lori, uma pessoa muito alegre, dificilmente fa lava de si mesma. Gostava, de modo particular, de conviver com os mais pobres.  Vivíamos em permanente convívio fraterno, éramos como irmãos verdadeiros no amor, na fé, na ajuda mútua. A característica que mais marcou essa equipe foi a simplicidade, a inteligência, a fidelidade ao evangelho, o amor e a fraternidade.

    Durante os três anos que esta equipe permaneceu entre nós, aconteceu uma profunda e brusca mudança na caminhada de nossa Igreja, acostumada ao tradicional..   De fato, pregavam e vivenciavam coerentemente o evangelho de Jesus Cristo. As homilias eram verdadeiros momentos de anúncio e denúncia. Questionavam, corajosa e severamente, todas as formas de injustiças sociais, o sistema político, a espoliação e a marginalização das classes mais pobres. Não tardou a formar-se um clima de suspeita e medo por parte dos fazendeiros e pessoas que, mesmo pobres, possuíam uma mentalidade alienada e, portanto,  coniventes com o sistema capitalista vigente. Não tardou e os ataques começaram.  Foram tachados , por alguns, de comunistas, ameaçados e injustiçados, nem por isso se acomodaram.  Semearam, naqueles três anos, a semente da libertação entre ambas as classes. Desenvolveram a consciência crítica diante dos fatos e das situações.