Clamores Silentes
 VI ª PARTE


  
Desse modo, mexeram com os poderosos acostumados a se aproveitarem da mão de obra barata e outros meios de exploração, depois indo a Igreja para justificar a sua religiosidade. Essa equipe deu incentivo ao nosso trabalho junto aos pobres. Foi nesse período que se reforçou a formação dos grupos de Ação Social.

Inflames

 

Da gavela o pão

Se faz presente

Quando a mão transforma

A semente.

E pela instância

As alforrias

Em liberdade

Pois a maldade

É irreversível

E o coração sensível

Busca a verdade

Contesta a realidade

Na revassa insana

E a afluir na paz

Que irmana,

Implode:

A morte da ganância,

Os muros de Berlim

Os guetos, os tronos,

O capitalismo...

Transformação,

Liberdade enfim!

 

 

Perseguidos

 

                                                                       Olhem esses olhos marejados

Dos caluniados e entristecidos

São corações feridos...amordaçados...

Como descrever ou entender

O autor dessa dor?

O mentor que consolida e extrapola

Seu poder.

São muitos...inumeráveis...

Erguendo seus tronos sobre cabeças,

Em nome da moral.

E toda a sombra que ameaça

Seu imaginado brilho

É rejeitada, afugentada...

Mas os perseguidos

Serão baluartes na graça do Pai.

Não dobraram os joelhos...

Para os maus conselhos,

E se vão sem morrer...

Porque Deus preencheu seus espaços,

E no seu regaço, no seu abraço

Tiveram maior brilho

E se eternizarão.

E na parusia  as alegrias renasceram

E nela eternamente viverão!

 

 

Altos e baixos

 

Nosso município fica numa região agropecuária muito rica, composta por campos férteis, com um solo com ouro, carvão e outros minérios. Nem por isso deixa de haver um certo desnível acentuado entre as camadas sociais.  A cidade é pequena, mas já está rodeada por um cinturão de pobreza. Nosso trabalho no setor de Ação Social precisava se ampliar, porém, acabava se restringindo a pequenos atendimentos, ora por falta de material humano, ora por falta de apoio e incentivo por parte das autoridades competentes.. Estava tudo quase no anonimato.     “Por volta dos anos oitenta, aconteceu uma grande enchente que levou o município a estado de calamidade pública”. As cas as que beiravam o arroio do Engenho foram arrastadas pelas águas e as famílias foram recolhidas aos salões de festas da Capela São Francisco e da Igreja Matriz até que se reconstruíssem suas casas.    Com isso, criou-se a Vila do Matadouro (hoje Cristo Rei) a leste da cidade.   Formou-se, então, uma vila de barracos improvisados.  Muitos destes em precária situação.   A coordenação da Ação Social voltou, então, as suas atenções para esta população e, com poucos recursos , iniciou um trabalho de Evangelização e de auxílios paliativos. Fomos observando a vida daquela gente, e entre elas a de uma senhora que estava na trina marginalização por ser pobre, idosa e negra. Ela tem por apelido “Tida”. Observando-a, inspirei-me para a poesia que segue:


 

 

Lágrimas de Tidas

 

E num barraco à beira da estrada

Uma coruja canta toda a madrugada

E quando a aurora borda o horizonte

Se espelha na fonte a estrela boreal!

 

 

E a negra Tida, pobre, velha e preta

Na trina margem cala o ideal.

As mãos maltratadas por tantas geadas

São como a patena a ofertar o pão!

 

E a natureza nos seus alvores

Se fere em dores, sem a solução

No corpo cansado traz a alma leve

De quem certo escreve

As lições da vida

 

E a noite desce

Nas famintas bocas

Despejando em gota Lágrimas de Tidas!

 

 

Como os primeiros cristãos

 

Hoje, depois de uma pausa de mais de dois anos sem escrever nada para este documentário, retorno a fazê-lo. É precisamente 10h45, do dia 3 de setembro de 1990. Encontro-me junto ao birô na sala da primeira dama do município, Sra. Tânia de Davi Leão. É uma manhã fria, o céu acinzentado, o sol aparece por alguns segundos e logo é encoberto por intensa nublação. No período em que parei de escrever para este documentário, houve mudanças relevantes na comunidade e no meu trabalho.  Alguns sofrimentos, contradições, indecisões e angústias vieram abalar o meu entusiasmo pela causa dos mais pobres sem, no entanto, faze-me retroceder na maneira de pensar e questionar as realidades.  Por muitas vezes,  senti-me uma pessoa feliz e muito sonhadora. Minha família também era feliz.   Por isso, talvez, sempre quis retribuir a Deus esta graça tão grande. Logo pensei ser uma das melhores formas de gratidão levar o evangelho a toda a criatura e servir no que puder a Igreja, a toda a criatura especialmente os empobrecidos.  Meu trabalho na Ação Social sofreu mudanças, conseqüência da troca de Párocos com linhas de ação um tanto diferentes. Em um determinado momento, o então novo pároco Pe. Joselino Serafini e vigário Pe. Enio José Rigo pediram-me a sala, junto à Paróquia onde funcionava a sede da Ação Social, alegando a falta de rendimento monetário para a paróquia a qual, segundo eles,  encontrava-se em crise. Reformamos a antiga salinha desconfortável, ao lado da Igreja, e ali realizamos um trabalho centralizado para facilitar o acesso das pessoas de todos os bairros e vilas. Junto, funcionava e continua até hoje um balcão de empregos e ponto de recepção e distribuição dos donativos  feitos através da entidade.  Ali, por vários momentos, tivemos que fazer as vezes de médicos, psicólogos e até mesmo de padres, ouvindo as queixas, conciliando brigas familiares, receitando remédios caseiros, pois fazíamos um atendimento à saúde com os conhecimentos adquiridos através de cursinhos de saúde comunitária, pois estávamos capacitadas, pelo conhecimento, para o uso das ervas medicinais,  ensinando a aproveitarem folhas, frutas, talos, sementes e cascas, sobras que comumente jogamos fora. Também ensinávamos os primeiros socorros nos casos de acidentes ou problemas urgentes de saúde, encaminhamentos e outros. Aos poucos, fomos incentivando o atendimento diretamente nas vilas e bairros.  Começamos reunindo as famílias primeiramente para rezar o terço, depois para encontros periódicos para refletir sobre nossa realidade e a leitura da bíblia.   Formamos novos grupos de mães que semanalmente se reuniam para rezar, ler a bíblia e fazer trabalhos manuais, tais como acolchoados de panos, colchas de retalhos, tapetes de tiras, guardanapos, almofadas, roupas de criança, sabão, pão e outros. Todo o lucro adquirido era repartido entre as componentes de cada grupo. E com isso aprender que é possível, com a venda, viver em fraternidade, partilhando o que se tem, como faziam os primeiros cristãos.

 

 

 

Metamorfose

 

Quisera ser a larva no casulo.

Entre fios de seda adormecer

Ou poder meditar tão meramente:

A vida...o ser...o não ser...

Uma vez sendo

De onde vim? quem sou? para onde vou?

E então assim crisálida intocável...

Poder sentir de forma inusitada,

A força trina, anseio metamórfico

No amor profético,

Crismada regalia, impulsionando

As fibras do casulo,

Até romper-se e libélula

Ocupar um novo espaço,

Todo liberdade!

 

 

Utopias do Pampa

 

Como uma promessa
Como um vago alento
Novos sentimentos
Podem renascer,
Das raízes índias
Vindas de outros tempos
Que brotam em eventos
Para um florescer...


Como a chuva fresca
Faz viver a planta
Toda a crença adianta
Um raiar de sol.
E sobre a terra seca
Dos abandonados
Vem soprar alado
Um vento de paz...

Então teremos
Sem os preconceitos
Muitos eleitos
Para um mutirão.
Pois tantos valores
Que foram perdidos
Serão ressarcidos
Se nos irmanar.


VISÃO DE POETA

 

Desde criança ouvi atenta as homilias

O  padre dizia: “foi assim naquele tempo”

Pensei que o tempo de então tivesse fim

Mas a história se repete a cada dia

Muitos espinhos entre as flores do jardim.

 

A vida é sempre um eterno encantamento

Bastam os campos em floridas primaveras

Com seus odores para todos deleitar...

Vede a rolinha, mesmo só num matagal

Sem um coral nunca deixa de cantar.

 

Como as estrelas se espelham num riacho

Para o encanto de um simples pescador

Os coachos dos anuros  nos banhados

Faz um agrado ao poeta e pensador,

Que vê riqueza no seu pobre coachar.

 

Se este tempo é semelhante aos tempos idos,

Haverá sempre um poeta sofredor

Esperando, talvez, um vento alado

Que o reponte para um campo mais florido

Que é devido,por justiça a um sonhador!

 

 

Quero

 

Quero a imensa recompensa

Do teu amor,

Pela dor sofrida.

Pois minha vida

Em tua vida

Se traduz,

Meu Deus e Senhor

 

Eu quero amor,

Quero a luz,

Quero esperança.

Pois sou fé,

Sou vida eternecida

E em Ti  tenho confiança!