Clamores Silentes

VIIª PARTE

 

Caminhando na fé

 

Hoje, 17 de junho de 1991, após mais um espaço de tempo sem escrever nada para este documento, torno a fazê-lo. São 10 horas e 18 minutos, volto a registrar mais alguns fatos acontecidos durante esse período. Por motivo de uma forte gripe, hoje não compareci ao trabalho na Ação Social. Foi então que resolvi aproveitar o tempo para continuar com estes relatos, os quais poderão servir para algumas reflexões e fortalecer o ideal de luta por dias melhores para todos. Depois de ter sido solicitada para desempenhar minhas funções na Assistência Social Municipal e Ação Social Paroquial, tudo se encaminha relativamente bem dentro dos meus próprios desejos, ou seja, servir. Foi perfeitamente possível conciliar esses trabalhos, além das tarefas de dona-de-casa, o que, por vezes, não deixou de ser um tanto angustiante, porque eram atividades bem diversificadas. Foi, sem dúvida, um grande desafio. As atividades que ficavam sob minhas responsabilidades eram formar novos grupos e acompanhá-los periodicamente, coordenar e ministrar cursinhos de costura, tricô, crochê, artesanatos em geral. Foram realizados vários cursos em convênio com o CESC, fazer parte da equipe de liturgia e conseqüentemente do Conselho Paroquial, além do atendimento geral a famílias carentes. Fiz parte do Projeto “Verde Vivo”, ajudando no plantio de árvores ornamentais e flores, e no cuidado das mesmas. Supervisionei o programa “Leite” que constava de distribuição gratuita da Prefeitura aos carentes. Aceitei o convite para ser correspondente do Jornal “O Santuário” da Diocese de Santa Maria, responsável pela transmissão do programa “Mensagem da Paróquia, às segundas-feiras, e outras atividades extraordinárias que sempre surgiam. Tudo isso me realizava bastante. Especialmente quando tinha a oportunidade de escrever poesias para o jornal e letras musicais para os festivais nativistas, tendo concorrido pela primeira vez no 3º Mutirão Abebeano de Nativismo realizado em São Sepé. Nessa ocasião, pude, com alegria, colocar no disco a letra “Evidências”, que foi musicada pelo Agnaldo Gazém. Posteriormente, concorri no maior festival Nativista em nível estadual e realizado também em São Sepé, o Sinuelo da Canção Nativa 7º Aparte. E mais uma vez tive a graça de colocar no disco duas composições: “Novos Quilombos” defendida por Maria Luísa Benites e “Lunar de Sepé” defendida por Neltom Brasil, ambas com músicas de Adriano Ribeiro. Quanto à última, fez jus ao tro féu de melhor composição popular e por ela ganhei o troféu “Tio Lautério”. Registro essas passagens porque foram momentos marcantes na minha vida não só pela brilhante participação, mas pelas mensagens que essas letras com temas sociais puderam transmitir.

 

 

Evidências

 

Consciência é o eco
Dos sinos dobrados
Do meu canto mudo
No mundo sofrido
De lobos e escravos
Matam culturas
Dizímam-se índios
Projeta-se a morte
Com o “Calha Norte”.
São desafios
Impasses gerados
Por famigerados
Homens da lei.
Não planta o homem
Porque não tem terra
Enquanto a terra tem
Tanto espaço vago.
E o capitalismo
Tanto bem desfez
Nas suas discrepâncias
Suas displicências
De um tempo fugaz!
Todas estas evidências
São sinais dos tempos
Pra que o véu dos templos
Não se rasguem mais.

 

Lunar de Sepé

Em tempos remotos
Em plagas perenes
A Igreja singela
Surgia serena
No chão de Sepé.
Os aradeiros
Semearam os louros
Rasgando as entranhas
Da terra de ouro.
E a farta seara
Transformou a trilha
Das verdes coxilhas
Em louros trigais.
E ainda se ouve
Num eco perdido
O canto guerreiro
Dos aradeiros
Seus ancestrais.
Emerge do seio
Do solo ferido
Searas e cantos
Corais sacrossantos
De bois em rodeios.
Nos vales encantam
Cigarras e anuros
Quais livres andante.
Em rimas tribais.
E se somando
A estas cantilenas
Cantam seriemas
Nos seus pedestais.
Hoje é primavera
Floresce o caeté
São as labaredas
Que apontam veredas
À terra de ouro,
Lunar de Sepé!

 

 

 

Novos Quilombos

Escuta a prece farrapa
Com centenária noção
A liberdade é impossível
Nesta falsa abolição.

Grita um silêncio ferido
Buscam anseios perdidos
Num processo de resgate
De valores culturais.

Ao pátrio berço distante
África negra e amante
Onde não retornam mais...

A pele de ébano
Nos grilhões pendia
Farrapos inglórios
De vis tiranias.

Entregues ao banzo
Nos sonhos desfeitos
Mortos os direitos
De libertação.

Negro! a liberdade
Será fruto da justiça
Quando a igualdade
Se fizer universal,
Sem sub-raça
Ou ter como desgraça
A tua negritude!

Negro! Teu grito de guerra
Contra a burguesia
Fará novos quilombos
As senzalas vazias!

 

 

Causas e conseqüências

 

  Acredito que aos muitos sentimentos que trazemos retidos no nosso íntimo devemos dar vazagem para a nossa própria libertação interior e transformá-los em mensagem que venham despertar consciência para uma visão mais lógica do que representa a nossa existência e o objetivo para o qual Deus nos criou . Penso que a vida que recebemos como gratuidade do Criador Universal deveria ser uma mensagem de gratidão e louvor a este mesmo Criador. Cada um agindo através de seus Dons, sem uniformidade, mas na unidade, como um coral de muitas vozes. No entanto, são muitas as obstâncias a amantelar os ideais de ações transformadoras que formariam a perfeita antífona da nossa parusia. Penso também que a vida ainda não foi avaliada precisamente em toda a sua dimensão, plenitude, grandeza, beleza, mistério e missão. O individualismo e o egocentrismo são como espermatozóides à procura de óvulo onde penetrar e se estabelecer, expandindo-se nas mais diversas formas e meios. Isso nos parece ser uma das maiores causas de desrespeito à vida que foi criada, certamente, para fins mais sublimes. Todos nós, indiscutivelmente, trazemos de berço muitos dons os quais chamamos de dons do Espírito que, com certeza, nos tornarão capazes de crescermos quando aplicados na vida, na sua plenitude. Infelizmente não sabemos até que ponto influências negativos desviam ou abafam o exercício destes mesmos dons, causando uma lacuna no projeto de vida que foi idealizado para cada um em particular para ser protagonista na sua missão de construir a história da humanidade. Quantos escritores, doutores, poetas, missionários e tantos outros poderiam enriquecer o mundo com suas ações transformadoras e, no entanto, ficaram esquecidos nas periferias, desde a mais tenra idade, sem sequer aprender a ler. E na pior das hipóteses, jogados ao descaso, na pobreza, na fome e na miséria total. Esses dons foram abafados, afogados, destruídos, recrudescidos, quando não revertidos em revolta, agressão e ódio. Muitos destes marginalizados se armam de violência na esperança de emergirem da miséria em que vivem e, conseqüentemente, afogam-se cada vez mais nos atoleiros da sociedade ou vão vegetar nas salas dos presídios. São, na verdade, pérolas embrutecidas, tornando-se areia nos sapatos dos demais. Então, fica claro que quanto mais nos alienamos das causas, facilmente condenamos as conseqüências. Condenamos com facilidade os infratores da lei, mas não criticamos e nem condenamos os infratores da justiça. É preciso se dar conta dessa realidade. Ter em mente que é preciso tomar consciência de que nenhum mal existe sem que para isso tenha se propiciado a sua fecundação.

 

 

 

Soli Deo

Dentro no nosso eu, egocêntrico núcleo
Há sempre uma centelha propulsora,
Bem no fundo do nosso mundo
há um raio de luz que nos conduz
Revigora, palpita e impulsiona...
É preciso expandir para não explodir.
Essa força impulsiva que os outros não vêem
Nos faz capazes de ir além do finito
Amar no infinito o comum , o erudito...
Nos faz valentes, nos faz crentes,
Insondáveis, inquebrantáveis...
Força total, nos rege, nos guia
E nos abandona pra sermos libertos...
É preciso abrir a boca, soltar a voz calada
Bem como os vulcões que pela incandescência
Emergem da terra, explodem em rugidos
De rubro esplendor!
Não devemos deter energias implícitas.
Ou se implode ou se explode
Tudo pode ser fatal ou mesmo letal
Se as válvulas de escape se fecham
E impedem a evasão das forças retidas
Por inconseqüência ou displicência
Ou por omissão do ser racional.
Essa força imensa que trazemos detida
Que busca saída pela boca e mão
Na ação e oração pela transformação!
Quem pode nos impulsionar?
Soli Deo...Soli Deo!...

 


Apelo

 

Acordem talentos
Sois tantos, sois santos
Mas ainda sois poucos
Que enfrentam os loucos
Que os querem calar!

Morram profetas,
Se assim for preciso.
Se a semente do fruto do reino
Se rega com sangue de justos e santos
E o pranto calado dos oprimidos.

Acordem talentos adormecidos
Profetas destemidos
Anúncio e denúncia são missão
Que dá aos ouvidos a conscientização
E as mentes doentes na alienação!

Não se calem profetas
Acordem talentos
A hora é agora
A luta é renhida e sofrida
Mas a liberdade é ressurreição!

  

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