MARIA JOÃO BRITO DE SOUSA

SEBO LITERÁRIO

 ARTE E POESIA

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Mulher Em Molho De Luar

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O LEITO DE UM RIO POR DENTRO DAS HORAS

Maria João Brito de Sousa

 

É por dentro das horas que desfio
O rosário das queixas que não faço
E esta fome de sol, que por cá passo,
Que me apodrece a vida e me faz frio
 
Sou abismo cavado em cada rio
Que rompe a terra mãe no seu abraço
E, do meu mais profundo, o puro traço
De quem, deixando-se ir, não desistiu
 
Mas, cada vez mais frio, dentro das horas
Que passam desmentindo outras demoras
Que o ciclo natural sempre despreza,
 
Se o leito do meu rio sabe que existe…
[se eu conquisto o direito de estar triste,
renego a minha afável natureza…]
  
Maria João Brito de Sousa – 26.10.2011 - 15.20h
In PEQUENAS UTOPIAS – Corpos Editora 2012

 

 

 

 

 

 

 

O LEITO FICCIONAL

Maria João Brito de Sousa

 

Longínquo fado, o destes mansos dedos
Sobre essa aresta instável do sentir
Onde luto por dar - ou conseguir? -
Bem mais doces volúpias, sem folguedos...
 
Antecâmara alada do meu espanto
Que me devolve à vida e, no retorno,
Me oferece a nitidez de outro contorno
Depois de adormecido o breve encanto…
 
Não mais serei mulher… serei poeta!
Luzam-me os olhos de outras tentações
Enquanto as mãos se afogam nas palavras
 
E aspire unicamente à estranha meta
Que me desdobra em versos- sensações
Num leito ficcional de etéreas lavras!

Maria João Brito de Sousa – Maio 2009

 

 

 

 

 

 

 

O MAR DENTRO DE NÓS

Maria João Brito de Sousa

 

Por dentro de mim corre um longo rio
De seiva, ao por do sol de um campo arado,
Que a Ceifeira, num raro desvario,
Se esqueceu de ceifar, deixou de lado…

Talvez volte amanhã, se fizer frio,
Ou se o vento, ao soprar, tiver lembrado
O limbo das razões que nele desfio
Na seiva em que o descrevo humanizado…

Entretanto, outras foices de ceifeiras,
Passaram pelo rio de outras maneiras
Mas nunca desaguaram nessa foz

Que, a jusante de mim, beija as ribeiras
Quando elas se lhe oferecem, sempre inteiras,
E recomeça um mar dentro de nós…

Maria João Brito de Sousa – 14.01.2011 – 22.00h

 

 

 

 

 

O SONETO QUE SE APAIXONOU POR UMA GUITARRA PORTUGUESA

Maria João Brito de Sousa

 

Nasceu-me, hoje, um soneto descuidado,
Fazendo ouvidos moucos à razão,
E todos vão pensar que veio em vão
Pois jamais gostará do nosso Fado
 
Mas o que aconteceu foi que, o estouvado,
Não sabendo fingir, nem dizer “não”,
Mal ouve os mil acordes da canção
Corre a abraçar-se a ela, alvoroçado…
 
Coitado do soneto… apaixonou-se
Por um fado qualquer que então passava
Nos lábios de um fadista, nas vielas,
 
E nem sabe dizer quem foi que o trouxe,
Que guitarra, trinando, assim chamava,
Que estranhas vibrações foram aquelas…
 
Maria João Brito de Sousa – 21.01.2011 – 19.01h
1º Prémio - Poesia Em Rede 2011

 

 

 

 

 

 

OLHAR PARA TRÁS, SEGUINDO EM FRENTE

Maria João Brito de Sousa

 

Olhei-te e, nesse olhar que vem de dentro,
Descobri forças e fragilidades,
Amores, desilusões, cumplicidades,
Nas mil nuances desse humor cinzento…
 
É nesse teu olhar que agora enfrento,
Que eu, que não sei dizer senão verdades,
Descubro o intruso gérmen das saudades
Desabrochando em verbo e sofrimento…
 
Mas o tempo passou. Cristalizado,
Foi ficando p`ra trás esse passado
Em que lançava à terra outra semente
 
E quero lá saber que o resultado
Me possa até magoar! Maior pecado
Seria andar p`ra trás, olhando em frente!
 
Maria João Brito de Sousa – Abril 2010

 

 

 

 

 

 

 

PINTURALTERNATIVA

Maria João Brito de Sousa

 

A pena já me dói… que pena tenho
Que a pena, por doer, me perca assim…
E desperta o poema aceso em mim
Assim que pouso a pena e me detenho…

Por cada verso escrito, outro desenho,
E, assim que o terminar, todo um jardim
Como se esse poema fosse, enfim,
A tela que, magoada, então desdenho…

Cada palavra, um plástico murmúrio
A desenhar-se em flor num belo antúrio
Da cor que eu decidir nesse momento

Porque a gestualidade, embora presa,
Não desdenha outras formas de beleza
Nem me acusa afirmando que nem tento…

Maria João Brito de Sousa – 23.07.2012 – 18.49h

 

 

 

 

 

 

PASSA POR LÁ UM RIO…

Maria João Brito de Sousa

Passa por lá um rio feito de anseios,
De águas mansas, serenas, cristalinas,
Visitado por aves que, em gorjeios,
Vêm beijar as flores mais pequeninas,

Um córrego onde posso, sem receios,
Banhar-me como todas as meninas…
Minh`alma, pouco dada a devaneios,
É nele que encontra aspirações divinas…

Passaram tantos rios e só naquele
Soube o que era sentir, à flor da pele,
A estranha glória de não ter idade

O rio passou e eu já passei com ele
Mas nunca o esquecerei porque foi nele
Que achei, purinha, a minha identidade...

Maria João Brito de Sousa – 05.08.2011 – 15.13h

 

 

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