QUEM PLANTA
VENTO COLHE TEMPESTADE, QUEM PLANTA AMOR COLHE SAUDADE
Eu tenho três namoradas, embora sem compromisso sério com
nenhuma delas, ainda. A Paloma lá em Alto Paraíso, em
Rondônia. A gente se fala por telefone e de vez em quando
ela vem ao Rio de Janeiro e nós ficamos juntos. Se um dia
juntarmos os trapos – nesse, os trapos são meus, porque ela
é muito rica, filha de donos de um baita fazendão de criação
de gado –, eu vou ter que deixar a vida de caminhoneiro e
ficar por lá, pela fazenda.
A Paixão, Maria da Paixão, lá na Bahia. Com essa sou mais
assíduo, porque está menos distante. E a Mary, que eu queria
encontrar naquela ocasião. Embora as outras sejam mais
jovens, ela é uma mulher linda, e eu estava morrendo de
vontade de ter aquele corpo perfeito ao alcance das minhas
mãos novamente. Naquele momento, eu me dei conta de que
estava muito ansioso para encontrá-la. Havia algum tempo que
eu não conseguia contato com ela. Tentei ligar várias vezes
para o seu celular, mas as ligações não completaram e ela
também deixou de me ligar inesperadamente.
Eu fui contratado por uma empresa para fazer transporte
entre as filiais do Rio e de Goiânia, e na primeira folga
que eu tive fui à pousada em que passamos uma noite de amor.
Perguntei ao Capitichana, o índio carajá dono da pousada, se
ela tinha aparecido por lá durante as idas e vindas da Ilha
do Bananal, onde trabalha junto aos índios. Disse-lhe que
estava preocupado, pensando que tinha acontecido alguma
coisa com ela, a Mafledupiqui. É assim que eles chamam a
minha linda flor do cerrado, por causa de um namorado
francês que a chamava de ma fleur de pequi.
– Eu acho que não aconteceu nada de ruim, não, seu Rui. Às
vezes, ela passa meses sem aparecer por aqui, mas veio no
mês passado, dormiu, e no outro dia saiu cedinho. Ela é
mesmo muito ocupada com a ONG que cuida. Veio sozinha,
aliás, como sempre – Notei a preocupação dele em dizer que
ela ficava sempre sozinha, talvez para me agradar – Eu tenho
o telefone dela aqui na gaveta, deixa eu pegar pro senhor.
Quando ele me entregou o caderninho onde estava anotado o
número dela, vi que era o mesmo que eu tinha.
– É pra esse mesmo que eu tenho ligado sem sucesso. Eu posso
ficar aqui esta noite? Amanhã, vou tentar encontrá-la.
Talvez vá até a Ilha do Bananal, pra ver se ela está lá.
– Eu até estava precisando ir à Ilha também pra ver a minha
irmã, mas amanhã não posso porque a pousada está com muito
movimento, senão iria com o senhor. Mas, se precisar ficar
por lá, pode usar a minha casa – ele disse.
– Não se preocupe meu amigo! Eu me arranjo. Muito obrigado.
No dia seguinte, peguei a balsa e fui à ilha procurar por
ela. Mais uma vez fiquei encantado com o cenário da cidade
de Aruanã, cheia de acampamentos às margens do Araguaia e de
seus afluentes que abrigam turistas de todos os tipos. Na
ilha, fui à casa da irmã do Capitichana e, para meu azar, a
primeira pessoa que eu encontrei foi Iriqui, a filha dela. A
indiazinha que quase me meteu numa baita confusão na outra
vez em que eu estive por lá, porque queria que eu fosse o
homem dela de qualquer jeito, mas felizmente eu consegui
contornar a situação e não me envolvi, senão teria dor de
cabeça na certa. Eu perguntei pela Mary, e ela fingiu que
não entendeu. Então eu falei: “Mafledupiqui.” Ela virou as
costas e disse que não sabia, mas a mãe dela ouviu e veio à
porta.
– Bom dia, a senhora está bem? – eu perguntei. – Seu irmão,
o Capitichana, me disse pra vir aqui pra ver se alguém sabe
da Mary, Mafledupiqui.
– Ela veio aqui, semana passada. Parece que está lá pros
lados de Itacajá. Foi cuidar dos craôs .
“Pelo menos eu sei que ela está viva” – pensei.
– Obrigado, eu vou voltar pra pousada do seu irmão pra ver
se ela aparece por lá.
Iriqui virou-se e me olhou com o mesmo olhar cobiçoso que
usava na outra vez em que estive na ilha e tentou me
seduzir. “Não vou ficar aqui esperando que ela me meta em
confusão novamente. O que essa indiazinha viu em mim pra
aprontar daquela maneira, tentando me conquistar? E agora
ainda demonstra ciúme...” – pensei, enquanto me afastava
dela. Na primeira curva do caminho, eu olhei para a casa, e
ela estava na janela me observando.
Quando cheguei à pousada, Capitichana veio logo falar comigo
com um sorriso largo – era bem simpático aquele índio.
– Seu Rui, eu soube que ela está lá em Goiás Velho,para as
Folias de Reis.
– Goiás Velho? A sua irmã falou que ela tinha ido pros lados
de Itacajá, cuidar dos índios craôs...
– Pois é, mas depois ela foi pra Goiás. Quem me disse foi
Mariano, que é líder craô. Ela esteve na aldeia dele.
Não pensei duas vezes. Peguei algumas peças de roupa no
quarto, agradeci ao Capitichana e subi na boleia do
caminhão.
– Diga-lhe que eu mandei lembranças, com todo respeito – ele
me disse, acenando com a mão.
– Claro, meu amigo. Até breve! – eu disse, sorrindo.
Parti para Goiás. “Eu vim até aqui para encontrar com ela e
agora eu vou até o fim” – pensei.
Quando me dei conta, a hora já ia adiantada no dia e a
barriga já estava reclamando muito no momento em que cheguei
ao meu destino. Entrei numa lanchonete e senti um cheirinho
delicioso. Perguntei que comida tentadora era aquela que
atraía pelo cheiro.
– É empadão goiano – disse a moça simpática do outro lado do
balcão. Vai querer um?– perguntou.
– É feito de quê? – Eu perguntei só por perguntar, porque a
fome aliada ao cheiro delicioso do empadão já tinham me
empurrado para a mesa, e na realidade nem me interessava
saber quais eram os ingredientes da iguaria.
– É uma empada grande com carne de frango, de vaca, linguiça
de porco, guariroba, milho...
Foi até onde eu ouvi a moça falar, porque outra coisa tinha
desviado minha atenção. Um cartaz com a programação da Folia
de Reis da região, e uma das festas seria naquele dia.
– Desculpe-me! Eu lhe deixei falando sozinha, não foi? Como
eu faço pra ir a uma festa de Folia de Reis como essas que
estão ali no cartaz? – perguntei à moça quando ela veio
trazer o empadão à mesa que eu estava sentado.
– As pessoas estão comentando muito sobre a de hoje, que vai
ser numa fazenda grande, saindo um pouco da cidade, mas não
é longe.
– Mas eu posso chegar lá e ir entrando? Não tenho que pagar
nada?
– Não, vai gente de todos os lados quando sabem onde vai
pousar a folia. Uns de carro, outros de bicicleta, moto, a
cavalo e até a pé mesmo, porque gente da roça não se
incomoda com lonjura. As pessoas vizinhas da casa ou da
fazenda que vão receber a folia geralmente colaboram, e
sempre há fartura de comida e nunca falta macarrão com ovo
cozido, almônica...
– O quê?
– Almônica... Algumas pessoas falam armonca, é uma pelotinha
feita com carne moída.
– Então deve ser o que conheço como almôndega. Eu gosto
muito.
– É, acho que é isso, sim. Eles também matam muitos
bezerros, galinhas e porcos. É uma coisa de louco. As
mulheres se unem em mutirão pra cozinhar. Depois ainda tem
as sobremesas: doce de mamão, figo, abóbora com coco, tudo
feito em casa mesmo. Pode ir, que vai gostar. Nem precisa se
incomodar, porque ninguém vai reparar no senhor, isto é, tem
tanta gente conhecida e desconhecida que ninguém liga. O
objetivo da festa é homenagear os três reis magos. O bando
de gente vai cantando e tocando instrumentos: violão, viola,
triângulo, sanfona e outros que eu não sei o nome.
– Então eu vou pra lá é agora! Assim que terminar de comer
esse empadão goiano, que é mesmo uma delícia como o cheiro
andou me dizendo.
Quando terminei de comer e ia saindo da lanchonete a moça me
deu até logo e disse:
– Tomara que o senhor goste e se divirta. É só pegar a
estrada saindo da cidade e seguir em frente até onde está
indicando ali no cartaz.
– Obrigado pelas informações e parabéns pelo empadão, estava
muito bom mesmo.
Quando cheguei à fazenda, tinha muito mais gente do que eu
imaginava. Como ela havia dito, ninguém se incomodou comigo,
e fui entrando. As pessoas estavam comendo em pratos
plásticos, algumas sentadas e outras em pé, bebida e
cantoria rolando soltos.
Eu resolvi subir alguns degraus que davam acesso a uma
varanda enorme e à entrada da casa. Foi quando a avistei.
Ela estava sentada a uma mesa perto de um homem. Bateu um
ciúme tão grande que eu fiquei estático, sem saber o que
fazer. Aquela voz que a gente tem dentro da cachola - acho
que é o ego – perguntando: “O que é que eu estou fazendo
aqui???!!!”, tão cheia de interrogações e exclamações que
ficou ribombando, ecoando e ricocheteando entre o coração,
que àquela altura batia descontrolado, e a cabeça totalmente
confusa. Girei 180 graus nos calcanhares e já estava
descendo os degraus quando senti a mão de alguém no meu
ombro. Eu olhei para trás, e uma senhora me disse:
– Moço, aquela moça está pedindo para o senhor esperar –
apontou para o patamar da escada, onde ela estava parecendo
uma rainha num pedestal.
– Obrigado, senhora – eu respondi e continuei a descer a
escada, mas outra mão segurou o meu ombro. Quando me virei,
não tive tempo de falar, pois ela tapou a minha boca com um
beijo e me prendeu com os seus lábios deliciosos por pelo
menos dez minutos. Eu correspondi ao beijo, claro, para
aproveitar o momento. Depois que ela me largou, tinha uma
turma em volta da gente aplaudindo e assobiando.
Ela disse para todos:
– Pessoal, este é o meu namorado, e eu estou morrendo de
saudade dele, daí, não resisti.
E virou-se para mim:
– Rui, você ia embora, ou foi impressão minha?
– Eu ia embora mesmo.
– Posso saber por quê?
– Não queria atrapalhar.
– Atrapalhar o quê?
– Você estava sentada à mesa junto daquele homem, e parece
que estavam se divertindo...
– Eu estava sentada à mesma mesa que aquele homem, mas não
estava sentada junto dele. Ele é o dono da fazenda e me
convidou para vir aqui porque... Aliás, se faz alguma
diferença, ele é casado, e muito bem casado. Letícia, a
esposa dele, é minha amiga desde os tempos do colégio. Ela
tinha levantado naquele instante para resolver um assunto lá
na cozinha. Vamos lá, que eu vou te apresentar a eles.
Naquele momento, quando ela me pegou pela mão e voltou a
subir as escadas me puxando, eu já havia desistido de ir
embora, bem convencido da honestidade dela. Também não era
para menos, depois do show na frente de todo mundo.
O casal - donos da casa - estava no topo da escada, ambos
com um sorriso largo estampado no rosto.
– Letícia, Rubens, este é o Rui. Tive que correr atrás dele
porque é muito envergonhado e turrão– ela disse ao casal, me
apresentando.
Eles foram muito atenciosos e me convidaram para entrar e
acompanhá-los à mesa em que estavam sentados quando cheguei.
Logo depois, chegou mais gente. Vinham cantando ao som de
violas e sanfonas. Ela se levantou, puxou-me pela mão para,
junto com Rubens e Letícia, receber os visitantes,
acompanhando, animada, as cantigas que sabia de cor:
“Ô de casa, ô de fora,
Maria, vai ver quem é.
São os cantador de Reis,
quem mandou foi São José.
Cantar Reis não é pecado,
São José também cantou.
São José também cantou,
neste dia de alegria,
mas depois de muito tempo
São José também chorou
porque viu seu filho moço
pregado numa cruz por tanto amor...” |
A lua já estava alta quando deixamos a fazenda. Fomos
caminhando pela estradinha até onde estava o meu caminhão.
– Rui, já é muito tarde para irmos para Aruanã. Que tal
ficarmos num camping aqui por perto? Você tem barraca no
caminhão, não tem?
– Não, eu durmo na caminha que tem na boleia. Se ficarmos
lá, você vai ter que dormir em cima de mim. Apesar de
agradável, não vai ser nada confortável. Quando eu pernoito
em algum camping, eu alugo uma barraca, eles sempre têm
algumas disponíveis.
– Então vamos, meu amor, eu tô que tô de saudade de você.
Nós passamos aquela noite num camping, à beira do Rio
Bagagem.
Já era bem tarde, e havíamos dado vazão aos anseios
provocados pela saudade e estávamos deitados fora da
barraca, olhando a imensidão de estrelas e ouvindo os sons
da noite e a conversa do rio com as pedras quando ela
interrompeu o silêncio e disse:
– Rui, depois que eu me divorciei, só um homem viu e tocou o
meu corpo nu e só a ele eu dou o meu amor. Embora eu nem
imagine quantas outras ele satisfaz, é a ele que eu quero e
só com ele me sinto bem quando se trata de amor e sexo.
Portanto, você não precisa desconfiar de mim e ter ciúme
como teve hoje. Eu te amo e sou tua quando e enquanto você
me quiser. Não penso e não preciso de outro homem para ficar
comigo e quero que você acredite nisso.
Eu não sabia o que dizer. Naquele momento, surgiu um enxame
de vaga-lumes piscando suas luzinhas sobre nós.
– Quando eu era menino, a gente pegava os vaga---lumes e
riscava a camisa com eles, escrevia o nome de uma garota...
ficava um tempão brilhando...
– Você fazia isso com os pobres dos insetinhos??!! Matava os
bichinhos só por brincadeira??!! Eu não lhe perdoo por isso.
– Naquela época, eu não tinha noção dessas coisas, agora eu
não mato nem formiga. Eu só queria dizer que hoje é o seu
nome que está escrito no meu coração.
Ela subiu em cima de mim, e nos beijamos com paixão. Quando
se deitou novamente ao meu lado, ela disse:
– Rui, os índios craôs, da aldeia de onde eu vim hoje,
consideram que o amor entre um homem e uma mulher é
determinado pela posição das estrelas no exato nascimento de
cada um dos dois. Mesmo que um índio bem velho venha
desposar uma adolescente, prática comum entre eles, a sua
estrela já determinava posição condizente com a ocupada na
ocasião do nascimento da jovem esposa...
...Quando um índio não consegue encontrar a mulher que
compartilharia a vida com ele, os craôs costumam dizer que
foi por causa da errância das estrelas na imensidão do céu.
Isso porque – explicam – as estrelas que migram ou
simplesmente se apagam, como as estrelas cadentes, deixam de
existir e são transformadas em faíscas, que são sopradas por
Tupã quando é noite alta no firmamento...
...Já os casais para quem o amor dura toda a vida, também
devem às estrelas a permanência da união. Nesses casos, os
astros permanecem em fixa e imutável posição e nem os mais
poderosos ventos conseguem mover tais estrelas...
...A elas devem os casais de velhinhos que, na aldeia,
inseparáveis, também costumam morrer juntos, não
sobrevivendo muito na falta do parceiro que faleceu...
...As crianças, os jovens e os velhos sorriem muito, são
felizes, livres, nada é proibido. Todos nadam nus no rio,
gritam e sorriem muito. A água é sagrada, não podem
contaminá-la. Eles vivem livres e sem pressa na natureza e
entendem que fazem parte dela em harmonia, apesar dos
costumes ditos civilizados, que ameaçam a sua conjuntura.
São apaixonados pela vida. Como seria bom se todos pensassem
como eles!
Um montão de pirilampos ajudando a enfeitar a noite
estrelada do nosso reencontro e o vento cantando uma canção
de amor só para nós dois nos incitaram a amar, amar e amar
como se existisse somente nós dois neste mundo.
Pela manhã, fui acordado por uma brisa fresquinha ouriçando
o meu peito. Ela estava com uma das pernas em cima de mim.
Ainda bem que era muito cedo, e só os passarinhos estavam
acordados, porque ela estava só de calcinha e eu, de cueca.
Puxei o lençol para nos cobrir e fiquei acariciando o seu
corpo, feliz da vida.
Ela é uma mulher linda. A natureza lhe favoreceu muito, e eu
tive a sorte de encontrá-la e poder estar ali naquele
momento, acariciando o seu corpo que, segundo ela, me
pertencia. Quando vi pela primeira vez a sua foto naquela
revista que tinha uma matéria sobre a ONG dela, na sala de
espera do consultório de uma médica, jamais pensaria que um
dia eu seria seu namorado e estaríamos ali deitados juntos,
seminus.
Ela acordou quando eu rocei meus lábios nos dela.
– Rui, estamos pelados fora da barraca, que vergonha! E se
alguém nos vê assim? – ela falou.
– Ninguém viu você pelada além dos pássaros e eu, mas eu
acho que eles ficaram felizes, porque devem ter pensado que
você é uma deusa e cantaram mais e mais, para festejar.
Pulamos para dentro da barraca, e vestimos as roupas e fomos
nos banhar e tomar café. Depois decidimos caminhar beirando
o rio e encontramos um local em que havia uma placa de
madeira onde estava escrito “rally-boia”. Ficamos curiosos e
fomos ver o que era. Então conhecemos mais uma atividade
turística, resultado da criatividade do brasileiro. As
pessoas descem o rio deitadas de barriga para baixo numa
câmara de ar de caminhão, para perder a forma de círculo e
ganhar a do número oito ou de um pequeno bote de borracha.
Cada pessoa desce levada pela correnteza em uma boia. A
descida é feita geralmente em grupos, mas estes são sempre
orientados por um guia. Resolvemos arriscar e descemos o Rio
Bagagem numa boia. Essa atividade nos deu muito prazer, por
estarmos num rio de águas cristalinas com corredeiras, que
apesar de pequenas, dão muita emoção; e nós só tínhamos que
desviar das pedras e dos galhos batendo com as mãos na água.
Também pudemos apreciar a flora e a fauna das margens do rio
em trechos vagarosos. Mary, durante o trajeto, quando a boia
deslizava mais rápido, gritava e sorria feliz da vida. Eu
confesso que não gostei muito, porque sou supermedroso para
essas coisas. Não gosto de me arriscar, principalmente em
alguns pontos de água mais profundos, apesar de estar usando
colete salva-vidas e capacete. O guia nos informou que o
trecho que nós fizemos não oferecia grande perigo, era
indicado até para crianças, mas existem locais em que a
prática é mais perigosa porque inclui corredeiras velozes e
quedas d’água com pedras no caminho, que exigem muita
prática.
– É adrenalina pura. Já existe até campeonato de rally-boia!
– ele disse entusiasmado.
Tivemos que voltar para o camping a pé e caminhamos por mais
de uma hora. Quando chegamos, estávamos exaustos. Depois do
almoço, fomos para Aruanã no meu caminhão porque ela tinha
ido para Itacajá num carro da ONG, e a pessoa que estava com
ela voltou para Goiânia depois de deixá-la na fazenda, onde
aconteceu a Folia de Reis.
– Rui, eu estou adorando a experiência de ser mulher de
caminhoneiro. Acho que vou ficar contigo pra sempre na
estrada. O que você acha? – ela perguntou depois de ter
tirado uma soneca.
O clima estava muito quente, favorecendo o sono para quem
não está acostumado.
– Se você acha que aguenta, é tudo que eu quero. Mas será
que você não ficaria entediada, passando tanto tempo numa
boleia de caminhão, como se fosse a sua casa?
– Eu estava brincando... Não posso fazer isso! Tenho meus
filhos, e a Bebel ainda é adolescente, não posso deixá-la o
tempo todo com a minha mãe. Eu sou a mãe dela, e cabe a mim
orientá-la. O meu filho também não é maior de idade, por
isso acho que preciso estar presente pelo menos por mais
alguns anos.
– Eu sei disso e também te acho muito responsável. Além do
mais, não dá pra ficar o tempo todo na estrada.
– Tá faltando uma musiquinha sertaneja pra ficar bem no
clima. Você gosta desse tipo de música? – ela perguntou.
– Eu fui criado no Rio de Janeiro e acho que por isso
prefiro MPB e bossa nova. Tem um monte de CD aí no
porta-luvas. Também gosto da autêntica country music
americana. Não gosto muito de música sertaneja, mas, se você
quiser ouvir, não me importo. Por estes lados, o pessoal
gosta muito, não é? Lá pra cima, no Nordeste também. Tem
rádio que só toca isso.
Ela ligou o rádio e ficou cantarolado. Parecia muito feliz.
Quando chegamos à pousada, Capitichana veio nos receber na
entrada.
– Boa tarde, seu Rui. Dona Mary, como vai a senhora? Estou
vendo que conseguiu encontrá-la. O senhor é decidido mesmo,
hein, seu Rui!?
– É, meu amigo. Esta mulher me faria rodar o mundo, se fosse
preciso.
Ela me abraçou carinhosamente e me beijou.
– Desta vez, vocês vão ficar na mesma suíte, não é?
– Claro! – eu disse – Mas nós só vamos ficar até amanhã,
porque eu tenho que voltar para o Rio, e ela, para os seus
afazeres na ONG.
Quando nós entramos no quarto, ela abriu a torneira da
banheira e disse que iria preparar um banho para nós dois
tomarmos juntos. Quando estávamos abraçados, sentados na
banheira, ela, com as costas no meu peito, perguntou:
– Rui, você viria morar comigo aqui, em Goiânia? Não
precisaria deixar de ser caminhoneiro. Apesar de ter dito
que você foi o único homem que me viu nua e com quem eu
estive na cama depois que me divorciei, eu me sinto muito
sozinha e tenho muita saudade de você. Com ciúme, também,
sem saber por onde você anda, se está com alguém, quando vai
voltar e se vai voltar.
Apertei mais os meus braços em torno do corpo dela. Depois,
demos um longo beijo, e eu disse:
– Prometo que vou pensar.
Enquanto estive trabalhando entre o Rio e Goiânia, nós nos
encontramos muitas vezes e passamos bons momentos juntos.
Ela me apresentou aos filhos, e estávamos consolidando a
relação. Mas a empresa fechou a filial de Goiânia, e eu
passei a fazer transporte para a do interior de São Paulo, e
não pude mais ficar.
No dia em que fui me despedir, ela perguntou se poderia me
acompanhar. Queria experimentar a vida de caminhoneira.
Disse que tinha conversado com a filha e, segundo ela, Bebel
não gostou muito da ideia. Primeiro porque não achava legal
a mãe sair por aí numa boleia de caminhão com um homem só
por amor, apesar de ela ter dito que eu parecia ser um cara
legal. E também porque ela e o irmão ficariam apreensivos e
com saudade. Mas ela respondeu que me amava o suficiente e
não duvidava da minha honestidade, e queria ficar comigo só
mais um pouquinho, como se fosse em lua de mel, e é claro
que voltaria em pouco tempo.
“Mamãe, você é maluca mesmo! Fica o tempo todo se arriscando
pelo mato, metida com índios de toda espécie, e agora vai se
aventurar pelas estradas com o amor da sua vida. Mas eu não
posso te julgar, ainda sou muito nova e não sei se vou agir
da mesma forma na busca dos meus ideais. Eu lhe admiro
muito, principalmente pela coragem que você tem, e quero que
você seja muito feliz... Assim nós, eu e o meu irmão,
seremos também.” – Isso foi o que a Bebel disse.
Ela ficou comigo por alguns dias, viajando entre São José
dos Campos e Rio de Janeiro, e nós vivíamos como
recém-casados. Mas não demorou muito, e o meu contrato
acabou. Como eu não posso parar, liguei para o sindicato, e
um amigo que trabalha lá logo me indicou para fazer um
serviço de transporte de carga para o porto de Vitória, no
Espírito Santo. Ela chegou a ir para Vitória comigo e, num
fim de semana, fizemos turismo, porque ela queria conhecer
algumas cidades sobre as quais tinha ouvido falar: Cachoeiro
de Itapemirim, Tiradentes, Vila Velha, Marataízes e,
principalmente Guarapari. Mas sentiu falta de não fazer
nada, do seu trabalho na ONG junto aos índios e, também, dos
filhos; então disse que estava na hora de voltar.
Na noite anterior à sua partida, nós passeamos pela orla do
Rio, jantamos no Leblon e depois fomos a um motel onde
ficamos até o dia seguinte. Foi uma noite de amor
incomparável. Nada como estar na cama com alguém que a gente
ama de verdade. Basta deixar o desejo se expressar para
levar à satisfação plena; e foi o que aconteceu.
Eu a levei ao aeroporto e depois voltei para casa a fim de
me preparar para retornar à labuta sozinho. Quando fui me
deitar e puxei a colcha da cama, encontrei sobre o
travesseiro que ela havia utilizado para dormir um bilhete
em que ela escreveu: “Meu amor, caminhoneiro, cigano, se eu
ficasse, continuaríamos nos devorando e amando loucamente.
Todo o meu corpo pede por você, sempre, mas há um véu entre
o real e o lúdico. Na verdade, viver essa vida ao seu lado é
uma fantasia, louca e linda, concordo. Porém, tenho que
cuidar dos meus índios, me sentir útil, porque sou assim.
Minha bisavó era índia, e minha avó também, é o sangue que
corre em mim. Te amo como nunca amei e aguardo com ansiedade
sua próxima parada em meus braços. Vá me ver, quando estiver
com muita saudade. Eu também, quando puder, virei te
encontrar. Eu só queria pedir para você fazer o possível
para não me trair. Eu jamais serei de outro. Você sabe que
estarei sempre lhe esperando, até que um dia possamos ficar
juntos para sempre.”