SE UM DIA DE MIM SENTIR SAUDADE, É PORQUE FUI UM POUQUINHO
DA TUA FELICIDADE
Há pouco tempo, fiz um serviço para uns camaradas lá na Ilha
do Bananal. Um grupo de empresários que gosta de fazer
excursões para lugares remotos até no exterior. Um deles me
ofereceu um contrato para trabalhar com uma empresa do setor
de energia elétrica, fazendo transporte entre Fortaleza e
Juazeiro do Norte.
No caminho para lá, lógico que eu consegui uma carga pra
aproveitar a viagem, vi muitos caminhões com a faixa do
Programa na Mão Certa. É um programa da ONG criada pela
rainha Sílvia, da Suécia, aqui no Brasil, com a intenção de
acabar com a exploração sexual de crianças e adolescentes
nas estradas, principalmente no Nordeste. Os caminhoneiros
são os alvos preferidos dessa gente criminosa que se
aproveita das crianças, oferecendo-as em troca de dinheiro.
Eu nunca tinha ido ao Cariri e acabei ficando por aquelas
bandas cerca de seis meses, quase não volto. Num sábado de
uma manhã ensolarada, estava em Juazeiro e fui passear pela
cidade, era dia 24 de fevereiro. Mais tarde, soube que era
dia do aniversário dela. Acho até que foi nesse dia que
nasceram as estrelas. Juazeiro do Norte é uma cidade linda,
um oásis verde em pleno Nordeste. A cidade dos milagres,
para quem acredita neles, lógico. Tem até uma casa onde são
guardados e expostos à visitação os agradecimentos e objetos
deixados pelos fiéis representativos de graças alcançadas.
Visitei a estátua do Padre Cícero, imensa, com 27 metros de
altura, e o Memorial do “Padim Ciço”, como o povo de lá o
chama. É como se ainda estivesse vivo. Vi também outras
estátuas menores, de tamanho natural, inclusive uma em que
ele está descansando na rede, na Igreja do Socorro, onde
está o seu túmulo. Passei em frente a uma igreja que, depois
eu soube, era de Nossa Senhora das Candeias, mas isso não
importa muito... Ela estava saindo de lá de dentro. Pensei
até que fosse um milagre, embora eu seja ateu: a santa
estava saindo da igreja. Quando desceu o último degrau e
tirou o véu da cabeça, todos os raios do sol se dirigiram
para ela e eu pude ver que seus olhos eram azuis como o céu
de Juazeiro.
A visão esplêndida daquela mulher linda me fez ouvir,
trazida pelo vento ou de dentro de mim mesmo, nem sei,
aquela música tema do filme A Dama de Vermelho: I Just
called to say I love you. E eu logo a associei à estonteante
Kelly Lebrock, divina, olhuda, bocuda, pernuda... E a imagem
de santa deu lugar àquela vestida de estrela, roubando toda
a minha atenção.
A cidade estava calma naquele dia, já tinha acontecido a
primeira romaria do ano. No início do mês, são quatro ao
todo. Vem gente de todos os lados, uma concentração enorme
de romeiros de todos os tipos, mais de 200 mil pessoas. Um
grande cordão se estende pelas ruas, iluminado por
candeeiros acesos com querosene que os fiéis levam nas mãos,
contou Sebastião, que trabalha lá na Prefeitura. Nem sei o
que ele faz lá, mas me disse que é guia turístico e estuda o
folclore brasileiro. O fato é que fiquei impressionado com a
beleza daquela mulher, poesia ambulante, música divina. A
associação com a igreja da qual ela saiu ficou na minha
cabeça, e eu quis saber mais sobre o lugar. Foi ele,
Sebastião, quem me indicou os locais para visitar e contou
sobre as tradições locais: as romarias, as festas juninas, a
história de Padre Cícero e da Nossa Senhora das Candeias,
correspondente na liturgia católica de Iemanjá, que recebe
diversos nomes de acordo com cada região que a cultua:
“Ela pode ser Sereia do Mar, Princesa do Mar, Rainha do Mar,
Janaína e também Nossa Senhora dos Navegantes, Nossa Senhora
da Piedade, etc. Ela apresenta um tipo inconfundível de
beleza e é festejada por todo o Brasil em diversas datas. No
seu reinado, o fascínio é tão grande como o seu poder.
Padroeira dos amores, dos casamentos e das soluções
amorosas, protetora dos marinheiros e dos pescadores e
garantidora de boa pesca; deusa propiciadora do bom ano novo
para os brasileiros e deusa da compaixão, do perdão e do
amor incondicional, mãe e essência da mulher protetora e
mantenedora dos seus filhos”. Assim ele me disse.
Em outro sábado, eu tinha voltado de Fortaleza e a vi
novamente. Ela estava saindo de um teatro - na verdade, um
cine arte -, e dei um jeito de me aproximar quando ela foi a
uma cafeteria. Tinha que fazer contato imediato de qualquer
grau. A oportunidade de abordá-la surgiu quando vi sob a
cadeira em que ela estava sentada um chaveiro que continha a
seguinte frase: Farmácias São Pedro, a chave da saúde.
Peguei as chaves e perguntei se eram delas. Ela abanou a
cabeça negando e me olhando desconfiada.
– Então, vou entregar no balcão, pode ser que o dono dê
falta delas e volte aqui.
Aproveitei para estender a conversa.
– Uma vez, perdi a chave de casa, foi um desespero. Cheguei
cheio de pressa, enfiei a mão no bolso e vi que estava
vazio. Tive que procurar um chaveiro, mas o mais próximo não
era perto, era longe pra burro. Demorei quase duas horas pra
poder entrar em casa. O chaveiro falou que seria melhor
trocar logo o segredo, já que eu não tinha ideia de onde as
chaves estavam. Aí não me preocupei mais com elas. Depois eu
as encontrei, não me lembro onde, acho que foi no caminhão.
– Não me lembro de ter perdido chaves – por incrível que
pareça, ela estava falando.
O meu coração chegou a dar uma acelerada, consegui fazer
contato. A primeira vez a gente nunca esquece, e eu
realmente nunca me esqueci da voz dela falando: “Não me
lembro de ter perdido chaves.” Aquela voz era algo assim
muito peculiar, só dela, não sei explicar como é. Cada vez
achava mais interessante. Santa nem deve ter chave! Àquela
altura, eu estava quase babando. Quem diria! Uma chave
perdida por alguém abriu a oportunidade de falar com ela.
Agora só tinha que sustentar a conversa.
– A propósito, você é daqui? – falei você e não percebi
qualquer reação contrária.
– Sou, por quê?
Eu tenho um amigo que é psicólogo, embora tenha essa teoria
desde que era rapaz, que diz que é fácil perceber se a
garota vai permitir a você estabelecer uma conversa com ela
pela primeira resposta que ela dá. Por exemplo, se você está
num ônibus e ela está sentada ao seu lado e, aproveitando
que a janela está fechada, pergunta a ela: “Você se incomoda
que eu abra a janela?”... Se ela responder simplesmente
“não”ou “à vontade” ou algo assim, as perspectivas não são
boas. Mas se, ao contrário, ela disser: “Claro que não, eu
também não gosto de viajar com as janelas fechadas”... Pode
continuar com o seu projeto que certamente vai dar certo.
Sempre utilizei a dica dele e nunca falhou. Se ela tivesse
dito simplesmente “sou”, eu tiraria meu cavalinho da chuva,
mas quando ela perguntou “por quê?”, me autorizou a
continuar.
– Porque nunca tinha vindo aqui e achei a cidade muito
interessante. O Sebastião, lá da Prefeitura, já me falou
sobre as romarias e me explicou tudo sobre Nossa Senhora das
Candeias. Mas é só isso? Romaria o tempo todo?
– Não, nós aqui somos muito ligados à cultura, e não se
limita a romarias e ao Padre Cícero. Eu agora mesmo saí do
cinema. E também tem as festas juninas que já vão começar.
– Você trabalha nessa área, de cultura?
– Eu nem estou trabalhando agora, só estudando para concurso
público. Não é o meu forte trabalhar na iniciativa
privada... E você faz o que?
– Eu trabalho por conta própria. Na verdade, eu faço
transportes – estava com medo da reação dela se eu dissesse
que era caminhoneiro.
– Como assim?
“Ah! Quer saber? Como diria César: alea jacta est “ -
pensei.
– Eu tenho um caminhão e ando pelo Brasil afora. Sou
caminhoneiro.
– É mesmo?
– Por que o espanto?
– Então foi mesmo no caminhão que você esqueceu a chave.
Pensei que não tivesse entendido direito. Mas você não tem
cara nem tipo de caminhoneiro.
– Cara de caminhoneiro? – Eu já tinha até me esquecido da
chave.
– É... igual aqueles que aparecem na televisão. Dão a
impressão de serem grosseiros. Você não parece caminhoneiro.
– É, mas eu sou. Apesar de tudo, tem muita vantagem:
controlo a minha vida, o meu horário, para onde eu vou, se
quero ou não quero, e ainda conheço muita gente em todo o
Brasil, praticamente.
– É... Pensando bem, deve ser legal. Você gosta?
– Gosto, e muito. Apesar de atrapalhar algumas vezes...
– Em quê, por exemplo?
– Por causa disso sou divorciado.
– Como é que você se chama?
– Rui Barbosa.
– Sabe Rui Barbosa, tem gente que é divorciada e não é
caminhoneiro.
– Sabe que você tem razão? Eu não havia pensado por esse
ângulo... Mas não lamento, eu sou feliz. E você, é
divorciada?
– Não, nem casei ainda.
– E nome, você tem um?
– Ué! Claro que tenho! Juliana.
– Qual é o filme que você foi ver?
– Foi um filme antigo, cult, Mulher Nota Mil, já viu?
Coincidentemente, lá estava ela de novo, Kelly Lebrock. E a
música me veio novamente à cabeça, só que a musa estava
agora bem pertinho e era estonteantemente linda.
– Claro! Vi mais de uma vez, esse e o outro, A Dama de
Vermelho.
– Você é o primeiro Rui que eu conheço. Barbosa é o seu
sobrenome?
– Não, é Rui Barbosa mesmo, mas eu prefiro só Rui, você deve
saber a razão.
– O pessoal me chama de Ju.
– Ju Estrela... – eu disse baixinho.
– O quê? – ela perguntou.
– Nada, não, foi só uma lembrança de quando eu te vi pela
primeira vez.
– Você me viu onde?
– Saindo da igreja, foi no dia 24 de fevereiro, me lembro
bem da data. Pensei que era milagre: a santa estava saindo
da igreja...
– Eu, hein! Então, foi de propósito?
– O quê?
– As chaves.
– Não, elas não são minhas, é verdade. Mas foi uma
oportunidade de me aproximar.
– Pra quê?
– Nada melhor do que unir o útil ao agradável.
– Você é de onde, Rui Barbosa?
– Do Rio de Janeiro.
– Ah! Agora está explicado.
– O quê?
– A cara de pau.
– Então me desculpe, se você quiser eu vou embora.
– Não, fique. Eu estou gostando de conversar com você. Tem
um bom papo. Todos os caminhoneiros são assim ou todos os
cariocas?
– Não sei. Obrigado, eu também estou gostando muito.
– Você gosta de ler?
– Gosto muito.
– Sabe Rui Barbosa – ela estava me chamando de Rui Barbosa,
acho que era pra me provocar –, que contrariando o que muita
gente pensa, a maioria das festas locais tem embasamento
cultural e em Juazeiro tem um dos maiores centros culturais
do país? Tem teatro gratuito todo sábado, escolinha de
circo, circuito poético e outras coisas.
– Eu tenho um amigo que é poeta.
– A cidade agora está em clima de início das festas juninas.
Você sabe sobre as festas juninas que rolam aqui no Cariri?
– Não, não sei nada,.Tem muita festa por aqui?
– Só tem festa, de Santo Antônio a São Pedro, mas o bom
mesmo é no dia de São João. Fazem fogueiras nas ruas, soltam
traques de salão e tem muito arrasta-pé. Muita quadrilha nas
ruas e nos terreiros das casas. Tem até campeonato de
quadrilha. Por falar nisso, hoje vai ter uma festa, por que
você não vai lá pra ver como é?
– Acho que vou, sim Não estou fazendo nada mesmo... Vou
aproveitar porque tenho de ir a Fortaleza amanhã e só volto
na sexta-feira.
Ela se levantou e disse que não dava mais para ficar
conversando, já estava atrasada.
– Gostei muito de lhe conhecer. Será que você pode me
acompanhar qualquer dia desses para fazer um tour cultural?
– Acho que sim. A gente se encontra outra hora que você me
vir saindo da igreja...
Senti o tom malicioso.
– Então tá, até mais!
– Tchau!
À noite eu fui ao local da festa e, para minha surpresa, ela
estava lá com três crianças. Tentei falar com ela, porém
esquivou-se todas as vezes em que me aproximei. A festa
estava muito alegre, mas eu não tinha motivos para ficar ali
vendo o pessoal dançar a quadrilha e participar das
brincadeiras. Eu estava gostando dela, e foi por sua causa
que tinha ido até lá. Como ela não estava demonstrando
interesse, me senti deslocado, mas, para fazer charme,
esperei que olhasse para mim quando ela estava junto a uma
barraquinha de milho verde com as crianças e abanei a mão
dando adeus. Ela, timidamente, procurando disfarçar,
retribuiu.
Naquela noite, não dormi direito. Ela tinha me conquistado,
mas se mantinha muito distante, o que me deixava sem
argumentos. No dia seguinte, fui para Fortaleza e não a vi.
Voltei na sexta-feira seguinte e, no sábado, logo cedo, fui
para o meu ponto estratégico, a cafeteria.
Como esperava, ela saiu da igreja e, quando me viu, veio
falar comigo.
– Bom dia, Rui Barbosa! Já está de volta?
– É. Já estou aqui de novo. A propósito, você falou no outro
dia que poderia me acompanhar pra fazer um tour cultural.
Pode ser hoje?
– Hoje, não vai dar, tenho que resolver umas coisas à tarde.
Mas vai ter outra festa junina logo mais. Você gostou da
outra?
– Pra ser sincero, me senti deslocado e não tinha motivos
para estar lá. Melhor, motivo eu tinha, mas ela estava dando
atenção pra outras pessoas.
– Então, você já tem alguém aqui? Você não perde tempo,
hein!?
– Eu pretendo ter, mas está difícil. Quem eram as três
crianças que estavam contigo?
– São meus sobrinhos... Então, você vai à festa?
– Só se você quiser ir comigo.
– Mas eu vou ter que levar os meus sobrinhos de novo.
– Por mim não tem importância. Você não tem namorado?
– Tinha, mas agora não tenho, e já que você não conhece
ninguém por aqui, se quiser, pode dançar comigo. Ninguém vai
entender nada se eu aparecer de repente com um homem
desconhecido caindo na folia, mas vai ser bem divertido...
– Mas eu não sei nadica de nada de dança caipira...
– Não se preocupe! Na hora, digo como é, e eu te levo. Além
do mais, a gente vai ver as quadrilhas dos que vão dançar
antes, não é nada difícil, mas muito engraçado.
– Eu acho que não vou, não, maior mico...
– Se você não quiser, senhor Rui Barbosa, adeus, tchau e
bênção. Nunca mais fale comigo. Nunca me viu mais gorda e
nem lhe conheço.
– Espere aí! Eu não disse que não iria dançar. Só tenho medo
de passar vergonha. Mas se você está pondo as coisas nesse
pé, vou fazer o possível para não te decepcionar. Só que não
tenho roupa de caipira...
– Você vai, então? Eu tinha certeza de que você não ia dar o
fora assim tão fácil. Não se preocupe com a roupa. Você tem
uma calça jeans? Vamos ali numa loja onde trabalha uma amiga
minha pra comprar uma camisa xadrez, isto é, se você não
tiver nenhuma. Ah! E um chapéu de palha e um lenço, também,
pra pôr no pescoço...
– Não sei, Juliana! Eu fiquei muito feliz, estava com medo
de que você me desse o fora, afinal, você nem me conhece
direito...
– Você parece um cara legal, e a minha intuição está
apontando para isso...
– Então, tá. Vamos lá à loja da sua amiga. Mas eu te digo
uma coisa, pode não parecer, mas sou muito envergonhado. Vou
ter que tomar umas antes, pra me soltar.
– Então, vamos, é logo ali adiante.
Ela me puxou pela mão para sair da cafeteria, mas logo
soltou, me deixando mais aliviado. Eu não iria me sentir bem
caminhando pela cidade de mãos dadas com ela. Fomos até à
loja da amiga dela e compramos a camisa, o lenço para pôr no
pescoço e o chapéu de palha. Ela estava toda alegre.
Apresentou-me à colega dizendo que eu era um amigo do Rio de
Janeiro. A amiga olhou para ela e deu um sorrisinho maroto.
– Que é isso Ju? Amigo do Rio! Você nunca me falou que
conhecia alguém de lá... – disse a amiga.
– Depois eu explico. Mostra pra gente uma camisa
quadriculada pro Rui e ele vai querer este chapéu de palha –
pôs um chapéu na minha cabeça – Ah! E um lenço pra prender
no pescoço. Até que você fica bem de roceiro hein, Rui
Barbosa! Ele vai ser meu par hoje à noite, você vai com o
Mauro, Alice?
Ela confirmou com a cabeça e não disse nada. Depois, abanou
a cabeça e disse:
– Mas você não toma jeito mesmo, né, Juliana?
Ela se limitou a rir e saímos da loja.
– Agora vamos lá onde você mora pra gente pegar a tua calça.
Eu vou levar pra pôr uns remendos e depois, perto da hora da
festa, eu trago prontinha.
Até que foi bem divertida a noite. Nós dançamos a quadrilha,
eu cometi alguns erros e rimos muito. Àquela altura, nós já
estávamos bem amigos. Apesar de ela só ter vinte e cinco
anos, disse, com o hálito mais gostoso do mundo, que tinha
contado uma mentirinha e que também já era divorciada e que
os três sobrinhos eram, na verdade, filhos dela. Uma menina
e dois meninos.
Depois nós fomos ver as brincadeiras, nós cinco: a corrida
com sacos, com ovo na colher, e outras. As crianças
brincaram, e nós ficamos torcendo. A essa altura, elas
estavam me olhando ressabiadas. Então, ela quis fazer as
simpatias de praxe. São práticas repassadas ao longo das
gerações que resistem ao tempo e às modernidades. Ela fez,
eu não. Em uma delas a moça tem que pôr numa bacia branca
com água dois punhados de carvão em brasa, um para ela e
outro dedicado ao pretendido. Se a moça tiver de casar, o
seu carvão corre na frente do outro quando mexer na água. Se
isso não acontecer, nada de casamento. Quando ela disse que
iria se casar de novo, eu soube qual foi o resultado.
– Lá em casa tem uma bananeira, e eu vou fazer a da faca só
pra conferir. Você sabe como é? – ela perguntou.
– Não. Como é que se faz?
– É assim: eu enfio uma faca na bananeira agora, quando
chegar. Amanhã, eu retiro, e vão estar escrito pela nódoa da
bananeira, no aço da faca, as iniciais do meu futuro marido.
Naquela noite, eu fui dormir realizado, e aquela música
ficou cantando nos meus ouvidos e ela dançando nos meus
pensamentos: “São João está dormindo, não acorda não...
Acordai, acordai, acordai João...”.
No dia seguinte, ela me encontrou logo cedo, apesar de não
termos marcado nada. Fui para a cafeteria na esperança de
vê-la. Não demorou muito, ela apareceu, disse que tinha ido
à igreja.
– Bom dia, moço! Vai me levar pra dançar de novo, hoje?
– Se você quiser perder as unhas dançando comigo, eu vou. Só
tenho a ganhar.
– Você não perde a oportunidade, não é, Rui Barbosa? Quer
saber o resultado da simpatia da faca? – perguntou, tirando
a faca da bolsa.
– Deixe-me ver – eu disse.
– Então, me diga o que você vê. Quero ver se bate com o que
eu vejo – ela falou, pondo a faca sobre a mesa.
– Parece que está escrito Rui Barbosa.
– Mas você é muito bobo mesmo! Não sai o nome todo escrito,
só as iniciais, e eu acho que está parecendo mais com as do
meu ex.
Eu fiz cara de deboche e perguntei:
– Vamos pra festa hoje de novo?
– Se você quiser, nós vamos.
– A gente se encontra lá, então?
– Combinado.
Eu escrevi algo para ela, mostrando que estava feliz, e
apesar de não ter esse dom (e nem sei se o que saiu é
poesia), eu estava empolgado com a minha quase conquista e
queria deixar registrado aquele momento. Encontramo-nos
novamente à noite, e finalmente ela estava sozinha.
– Onde estão as crianças? – eu perguntei.
– Estão com a minha mãe, na casa dela, não quiseram vir.
Divertimo-nos novamente a valer. Mais tarde, fui levá-la
para casa, e quando íamos nos despedir eu a beijei. Ela não
resistiu, e eu fiquei aliviado. Então, falei que havia feito
uma coisa para ela e entreguei o papel em que estava
escrito:
|
FORRÓ DANADO DI BÃO
Naquele dia que nós fomu festejá
pra modi comemorá o São João,
aquela muié bunita quinem a santa
mi arrastô toda afoita pro meio do salão.
Deixei um par de vala lá na terra
qui não era pra modi plantá semente não,
foi meus dois pé de sapato que riscaro assim o chão.
Ieu, fingindo qui num quiria,
mas impurrava o corpo im frente
prela num disistí e mi deixa quinem bobão.
Meu coração estava aos pulu
mas acho qui era pra modi dá conta da emoção.
Tirava o chapéu da cabeça
pra ocupá a minha mão
mas botava lá dinovo
a outra logo tamem pegava, pra num ficá vazia, não.
Quando os meus braço incabuladu
si inchero de valentia
e abraçaro todo aquele corpão
num quiria era largá mais não.
Nem ouvia as música acabá,
tava lá garrado quinem erva di passarim,
apesá dos pulu qui ela dava,
qui eu pensava qui era seu jeitin di varsá,
tava mais é saino fora
dos meu pisão no seu dedão.
Até qui a moça rependida do seu feito,
foi logo dano o seu jeito
de pará de dançá
e fomu lá pras simpatia
pra mó di sabê
se nosso caso era di amô mermo,
o se era enredo passagero.
|
Enquanto ela lia, eu ia vendo as suas lindas expressões.
Parecia que estava muito feliz. Quando terminou, me abraçou
e nos beijamos longamente.
– Eu estou gostando muito de você, Juliana – eu disse,
abraçando-a e insinuando que queria mais do que um beijo.
– Eu também, Rui Barbosa.
Ela se afastou de mim um pouco e começou a levantar a blusa
para tirá-la, devagar e sedutoramente, olhando-me nos olhos,
igualzinho à Charlotte no filme, com os braços cruzados
sobre a barriga, levantando a barra da blusa. Eu fiquei
olhando, embevecido, que nem o Ted. A blusa dela já estava
quase na altura dos seios. Então, ela parou.
– Não, Rui, não vamos fazer isso. Não vamos começar algo
impossível. Depois você vai embora e eu vou ficar me
sentindo muito mal, como se você tivesse se aproveitado da
situação, e ficar achando que é um cafajeste. Estou gostando
muito de você, mas posso me apaixonar e sofrer muito se você
estiver longe de mim. E isso eu não quero pra nenhum de nós.
Eu fiquei em silêncio, olhando para aquela mulher linda. Eu
sabia que ela tinha razão.
Pedi o papel e completei:
ou mi trocá por outro cabra
na isperança di não vivê in sofrimento. |
Ela leu o que eu escrevi. Olhou pra mim. Sorriu, abanando a
cabeça, riscou o meu complemento e escreveu:
Discubriu que era muito amô,
mas impussive di vivê. |
Beijou-me mais uma vez e disse:
– Adeus, Rui Barbosa, meu amor impossível. Eu te amo.
Na segunda-feira fui para Fortaleza e ainda não voltei a
Juazeiro do Norte.