SEBO LITERÁRIO

 

 

Raymundo Salles Brasil

 

 
 
Poesias

Pág. 4 de  17 Pág.

 

 NO CAMPO
Raymundo Salles Brasil


No poleiro o galo canta,
O sol revela seus dons,
E a natureza seus tons;
Madrugada se levanta,
Lava seu rosto no orvalho
E vê chegar ao trabalho
O braço forte do obreiro,
Que vem buscar com alegria
O seu pão de cada dia
Na luta de um dia inteiro.
...............................................

No horizonte multicor
O crepúsculo ressoa,
Um bando de aves voa
Contemplando o sol se pôr,
E todos buscam nos lares
Os mais seguros lugares;
Dorme o campo e a cidade.
É hora das tristes sombras
Desenharem nas alfombras
Um poema de saudade.

Raymundo Salles Brasil

 
 

UM LUGAR ENCANTADOR
Raymundo Salles Brasil


Essas paisagens têm um belo santo,
Virgens parecem-me, parecem puras,
Aqui o homo sapiens, por enquanto,
Não quis usar as suas mãos impuras.

É tardezinha já, no seu quebranto
Um tom de nostalgia nas molduras,
E enquanto desce a noite, mais encanto
Nas meninas, nas moças, nas maduras.

O sol vai recolhendo a sua luz,
As farpas de ouro imensas que produz,
Que há pouco derramava sobre as ondas.

E esses rostos que passam são tão belos
Que inspirariam (se pudesse vê-los)
Ao Leonardo da Vinci outras Giocondas.

Raymundo Salles Brasil

 
 

TRICÓTOMO
Raymundo Salles Brasil


Vimos perto da estrada / o inusitado / par –
A flor e um pedregulho, / ambos contritos, / sós.
Ele – a feição cansada / e enfadado / ar;
Ela – cheia de orgulho / e os olhos fitos.../ Nós

Vimos o som marulho / e o ondulado / arfar
Da brisa bafejada... / sons e ritos, / voz
Das matas – o barulho / bem montado / – a voar
Cavalgando a lufada / – quais os mitos / veloz.

Fiquei meditativo / imaginando / Deus
Contemplando a beleza / e a perfeição / sem par
De toda a natureza – / a comunhão / no ar;

Mas vi Deus pensativo / contemplando / os céus,
Olhando triste, quedo / – em mil pedaços / loucos –
Quebrarem seu brinquedo. / Restam traços,/poucos.

Raymundo Salles Brasil

 

 

OLHANDO ESTRELAS
Raymundo Salles Brasil
À memória do poeta de OUVIR ESTRELAS


Falam tanto do poeta que ele é um louco
Porque conversa à noite com as estrelas!
Como Bilac o fez não faz tão pouco
E até chorou quando deixou de vê-las.

Esse amante do belo, esse treslouco,
Faz peripécias mil para entretê-las;
É como ficar cego e ficar mouco,
Deixar de ver, de ouvir, meu Deus perdê-las!

E aos insanos apelos todas elas
Vão piscando as frenéticas pupilas,
Cintilantes e extremamente belas.

Amai e auscultareis seus belos temas!
O coração somente pode ouvi-las
E entender-lhes os líricos poemas.

Raymundo Salles Brasil

 

MENINA
Raymundo Salles Brasil


Morena, tu queres
Ser magra, franzina
Como essas mulheres
E muitas meninas
Escravas da moda?
Tu queres morena
Perder teu corpinho
Tão belo? Que pena!
Deixá-lo igualzinho
Ao corpo da roda

Que pensa que a bela
Menina-beleza
Só existe naquela
Menina-magreza?
E esquece do charme
Dengoso, felino,
Formoso e perfeito
De um corpo menino
Redondo, bem feito,
Moldado na carne?

Te lembres menina
Que deves cuidar
Da alma que anima
Teu corpo, e zelar
Com muito mister.
Pois a alma, morena,
É que faz da menina,
Seja grande ou pequena
Seja gorda ou franzina,
Uma linda mulher.

Raymundo Salles Brasil