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SEBO LITERÁRIO
autor

O denominado babaçu
verdadeiro (Orbignyaphalerata Martius) é uma das mais
importantes palmeiras oleaginosas do extrativismo vegetal
brasileiro, e uma das mais adaptadas às condições ecológicas
da Amazônia Oriental e de alguns Estados do Norte e Nordeste
do Brasil - particularmente, Maranhão, Piauí, Tocantins e
Pará. Nessas terras, encontram-se, também, outras espécies
de babaçu - a piaçava alta (Orbignya Teixerana Bondar), e a
piaçava baixa (Orbignya Eichleri Drude) - que possuem
utilidade idêntica ao chamado babaçu verdadeiro. Essas
palmeiras se desenvolvem, melhor, em terras de várzeas,
pequenas colinas e elevações, e em espaços próximos aos
vales dos rios. Os indígenas atribuíram alguns nomes
específicos, ao babaçu, tais como: aguaçu, uauçu,
coco-de-macaco e coco-pindoba.
Segundo Cascudo (1954), o frei capuchinho francês Claude D’Abbeville,
no início do século XVII, já ressaltava a importância, dos
frutos daquela palmeira, na alimentação dos índios
nordestinos, que os chamavam de uauaçu (em língua tupi). O
frei ficou tão encantado com a beleza e a diversidade da
fora maranhense que, em sua obra - História da missão dos
padres capuchinhos na ilha do Maranhão- comparou os
babaçuais com o próprio paraíso terrestre.
De maneira geral, os primeiros visitantes europeus ficaram
maravilhados com a exuberante fora nativa do país e, em
notas de viagens, cartas, relatos e iconografias,
registraram seu fascínio.
O babaçu representa o principal produto do extrativismo
vegetal do Maranhão. No Estado, uma quarta parte do
território encontra-se coberta por babaçuais. Cada palmeira
pode produzir, até, seis cachos de cocos, por safra, sendo
responsável por 80% da produção nacional de amêndoas. O
babaçu fornece cerca de setenta subprodutos e, dele, tudo se
aproveita. Suas folhas arqueadas chegam a medir oito metros
de comprimento e, nas zonas rurais, são utilizadas como
telhado das casas.
Com a palha seca trançada e a casca do coco são produzidos
diversos objetos artesanais, decorativos e utilitários:
cestas, esteiras, chapéus, peneiras, brincos, pulseiras,
colares, prendedores de cabelo, janelas, portas, bandejas,
gaiolas, armadilhas, abanos, bolsas, toalhas, caminhos de
mesa, jogos americanos, sandálias, bonés, porta canetas,
embalagens. Estes produtos são comercializados em feiras,
mercados e lojas de artesanatos e, ainda, exportados,
representando uma valiosa fonte de renda para a
população.Cabe registrar o importante apoio do Serviço de
Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE), desde 1999, em
relação aos projetos de Desenvolvimento Local Integrado e
Sustentável (DLIS), que incentiva os pequenos negócios
artesanais para a geração de renda, junto às Associações de
Mulheres, além de atividades de extração e beneficiamento
das amêndoas de babaçu, para a obtenção de óleo.
O mesocarpo da palmeira é usado em mingaus de crianças e, o
caule, aproveitado na estrutura de construções e marcenaria
rústica. A casca da amêndoa pode se transformar em um
eficiente carvão para uso doméstico e, quando é queimada,
produz uma fumaça que atua como um eficaz repelente de
insetos. Ainda da casca, outros produtos são gerados para
aplicação industrial, tais como metanol, coque, carvão
reativado, gases combustíveis e alcatrão. Durante os longos
períodos de seca, na ausência de outra fonte de alimentação,
os animais comem as cascas das amêndoas.
Se a palmeira do babaçu for jovem, é possível se extrair um
palmito de boa qualidade. As amêndoas verdes, segundo
pesquisas do Instituto de Recursos Naturais do Maranhão,
quando recém extraídas, raladas, espremidas com um pouco de
água, e coadas através de um pano fino, fornecem um leite
com propriedades nutritivas semelhantes às do leite humano,
que é utilizado na culinária local. Em substituição ao leite
de coco, esse leite é usado para molhar o cuscuz - seja ele
de milho, de arroz, ou seja de farinha de mandioca - no
tempero de peixes, carnes de caça e bolos, ou bebido in
natura, como alternativa ao leite de vaca. Quando está
madura, a parte externa do fruto é comestível. Do pedúnculo
do cacho cortado, os índios extraem um líquido que,
fermentado, se transforma em uma apreciada bebida alcoólica.
As amêndoas do babaçu representam duas terças partes do
total de seu peso e, assim como as do dendê e do buriti,
possuem um elevado teor de matérias graxas. Neste sentido,
seu principal destino são as indústrias de esmagamento. O
óleo é obtido através de extração mecânica a quente, ou
usando-se solventes. Este último processo, porém, embora se
apresente mais eficiente, é mais dispendioso. O óleo
comestível possui odor e sabor suaves, e uma cor que varia
da branca à amarelada, em função da temperatura usada em sua
extração. Com ele, fabricam-se margarina e ração animal. Há
um grande interesse, por parte das indústrias, em conhecer o
comportamento reológico dos alimentos. Uma vez que o azeite
do coco do babaçu pode competir com outros óleos
combustíveis, tornou-se relevante estudar a sua viscosidade,
porque ela está relacionada, diretamente, com a qualidade
dos produtos (CASTRO; BRAGA, et alii, 2002). Dentre os óleos
vegetais de uso industrial, o de babaçu apresenta o índice
mais elevado de saponificação, e o mais baixo teor de iodo e
refração. Tais fatores são importantes para alimentar o
mercado de óleos láuricos (produtos de higiene, limpeza e
cosméticos). A Gessy Lever, a Nestlé e a Braswey estão entre
as maiores empresas consumidoras de óleos e gorduras
láuricas. O óleo de babaçu também representa um ingrediente
relevante, no preparo de pomadas cremosas e sabonetes
naturais, que funcionam como excelentes hidratantes, e cuja
embalagem é trançada com a própria fibra da palmeira. Além
disso, a Medicina Natural utiliza esse óleo como
antiinfamatório, em massagens nas partes doloridas do corpo.
Com ele são fabricados, inclusive, lubrificantes,
combustível e glicerina.
Milhares de mulheres, auxiliadas por crianças, trabalham nos
babaçuais do Maranhão, do Piauí, de Tocantins e do Pará. Nas
comunidades que vivem do extrativismo, costumam-se dizer: se
alguma mulher ainda não foi “quebradeira” de coco, um dia
virá a sê-lo. Essa atividade é feminina, por tradição, e
executada de modo artesanal. As mulheres sustentam um
machado, preso sob uma das pernas, com a parte cortante
voltada para cima, onde apóiam o coco, batendo nele com um
pedaço de madeira, até parti-lo. Feito isso, retiram a
amêndoa e colocam-na em um cesto de palha de babaçu (caçuá).
Neste procedimento rudimentar, algumas amêndoas saem
machucadas, e podem fermentar e se deteriorar durante as
longas viagens até as indústrias, representando um prejuízo
econômico para quem vive da extração. De acordo com
estimativas, há cerca de 400 mil pessoas, quase todas
mulheres, que sobrevivem do extrativismo, da
industrialização do óleo, e de outros produtos do babaçu.Uma
pesquisa realizada no norte de Tocantins salientou que “1
quilo de amêndoa é comprado por um preço entre R$ 0,50 e R$
0,60, enquanto 1 litro de óleo de babaçu (que é obtido com 2
quilos de amêndoas) chega a ser vendido por R$ 5,00. Uma
quebradeira de coco extrai, em média, 5 quilos de amêndoas
por dia” (CAMPOS, 2006). E, de cem quilos de cocos
quebrados, são extraídos, no máximo, oito a dez quilos de
amêndoas.No Maranhão, o auge da economia babaçueira teve
lugar entre as décadas de 1960 e 1980, período em que
funcionavam, no Estado, cinqüenta e duas empresas de médio e
grande porte, produzindo óleo bruto e óleo refinado para
abastecer as indústrias alimentícias e de higiene e limpeza,
seja no mercado nacional, ou seja no internacional.
Entretanto, com o avanço da produção de soja, e com os
preços competitivos do óleo do sudeste asiático, que
concorrem com os preços brasileiros, muitas indústrias
faliram.Grande parte das dificuldades das quebradeiras de
coco tem suas raízes no processo agrário, que o Maranhão
viveu a partir de 1969, quando foi aprovada a Lei de Terras.
Esta Lei impulsionou a formação de grandes propriedades, e a
apropriação privada de extensas áreas públicas. A atividade
extrativista foi proibida, as cercas proliferaram, e as
florestas foram substituídas por pastagens e plantações. Em
1997, porém, aprovou-se a Lei do Babaçu Livre, visando a
assegurar aos extrativistas o acesso às palmeiras, mesmo
quando elas se encontrassem em propriedades privadas. E
impôs restrições à derrubada, ou à queimada, de babaçuais.
Por outro lado, em 2003, um Projeto de Lei estendeu a Lei do
Babaçu Livre a todos os babaçuais do país, colocando, na
agenda política nacional, o debate sobre o assunto (CAMPOS,
2006).No Maranhão, no Pará, em Tocantins e no Piauí, duas
entidades vêm atuando junto à população feminina - a
Associação de Mulheres Trabalhadoras Rurais (AMTR), e o
Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB),
de caráter regional e interregional, respectivamente, para
garantir os direitos e, em especial, para assegurar o livre
acesso aos babaçuais. É importante registrar que, a despeito
de todos os esforços, a Lei do Babaçu Livre jamais garantiu
a integridade física das quebradeiras de coco. Em nome da
geração de áreas de pasto, para a pecuária, os babaçuais têm
sido alvos de grandes devastações. Sendo assim, o deputado
Domingos Dutra (PT/MA) - filho de uma quebradeira de coco do
Maranhão – elaborou o Projeto de Lei 231/2007, que foi
aprovado, por unanimidade, pela Comissão de Meio Ambiente da
Câmara, e que proíbe a derrubada de palmeiras de babaçu nos
Estados do Maranhão, do Piauí, de Tocantins, do Pará, de
Goiás e de Mato Grosso. As únicas exceções, apenas, dizem
respeito àquelas áreas destinadas a determinadas obras, aos
serviços de utilidade pública, ou ao interesse social. A
competência para a execução e fiscalização da Lei ficou a
cargo do Ministério do Meio Ambiente. Espera-se, neste
sentido, que esse Órgão consiga cumprir as determinações do
Código Florestal Brasileiro.
A exploração do babaçu contribui para a absorção de mão de
obra e a fixação da população no campo, ao passo que o
desmatamento indiscriminado acarreta em expulsão e
empobrecimento das pessoas que ocupam aquelas áreas. Apesar
das grandes queimadas, percebe-se que o babaçu é bastante
resistente, e se regenera com rapidez. Isto é possibilitado
pelo surgimento de pindovas, as mudas da palmeira que
parecem ser imunes, também, aos predadores de sementes.
Calcula-se que os babaçuais ocupem 18 milhões de hectares,
principalmente, no Maranhão. De acordo com o Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), depois da
madeira, o principal produto florestal brasileiro foi o coco
do babaçu, que representou 19,4% da produção extrativista no
ano 2005.
Alguns Estados brasileiros desenvolvem estudos, com várias
plantas, voltados para a produção energética. Combustíveis
alternativos ao óleo diesel, e menos poluentes, são
pesquisados, também, objetivando a melhor conservação do
meio ambiente e a diminuição do efeito estufa. É possível se
produzir biodiesel a partir do babaçu. No entanto, as
quebradeiras de coco temem ficar prejudicadas com as
mudanças que surgiriam, com a implementação de uma produção
mecanizada, em escala industrial.
No Maranhão, em particular, professores e membros do Grupo
de Combustível Alternativo (GCA) trabalham para formar
parcerias com Instituições de Governos e Organizações Não
Governamentais (ONGs), visando à implementar o biodiesel a
partir do óleo de babaçu. O Programa Biodiesel desenvolve
seus projetos tomando as plantas oleaginosas, de cada
Estado, como ponto de partida. No Pará, por exemplo, é o
dendê; no Piauí, no Ceará e no Rio Grande do Norte, a
mamona; e, no Sul e no Sudeste, a soja. A partir de 2008, os
carros da Fórmula 1 deverão utilizar 5,75% de combustíveis
renováveis, já que os ônibus e os carros vêm utilizando
etanol e biodiesel há alguns anos. A título de
experimentação, a companhia aérea Virgin Atlantic,
de propriedade de Richard Branson, divulgou ter abastecido
um dos quatro motores de seu Boeing 747 com uma
mistura de combustível normal (o querosene de aviação) e 20%
de óleo de babaçu. Isto foi feito em um dos motores,
somente, a título de experimentação, e em um vôo sem
passageiros, para garantir que, se aquele motor viesse a
falhar, os outros compensariam a perda de potência,
evitando-se, assim, a queda da aeronave. Sem apresentar
problemas, o Boeing saiu de Londres, na Inglaterra,
e pousou em Amsterdã, capital da Holanda.
O óleo de babaçu ainda não foi utilizado, sozinho, em todos
os motores, porque os cientistas estão pesquisando uma
maneira de ele não congelar em grandes altitudes (O
BOEING..., 2008).
Os babaçuais estão localizados nas áreas onde predominam as maiores desigualdades socioeconômicas do Brasil. A despeito desse fato, as mulheres quebradeiras de coco consideram aquelas palmeiras uma verdadeira mina de ouro vegetal. Paradoxalmente, ou não, sem as palmeiras, elas iriam viver em uma situação ainda pior.
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