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SEBO LITERÁRIO
autor

Cavalo-marinho
Chega mais pra diante,
Faz uma mesura
Pra toda essa gente,
Cavalo-marinho,
Já pode chegar,
Que a dona da casa
Mandou te chamar.
O bumba-meu-boi é uma das representações folclóricas mais
importantes do Nordeste do Brasil. Uns afirmam que ele
surgiu no Maranhão, nos últimos anos do século XVIII; e,
outros, dizem que ele teve o seu início no final do século
XVII, durante a colonização do Piauí. O auto de Natal, que
deu origem ao pastoril, começou como um drama religioso, que
representava o nascimento de Jesus Cristo, através de cantos
e bailados especiais, em uma significativa e dinâmica
evocação. Ao que parece, a primeira apresentação teatral da
cena do nascimento de Jesus deve-se a São Francisco de
Assis, na terceira década do século XIII, em Grecio. Era uma
espécie de prelúdio dos Pastoris, Presépios e Lapinhas. A
rigor, a Lapinha representa a cena estática da Natividade.
Pastoril e Presépio, a forma dramática, teatral, dinâmica.
Pastoril e Presépio foram os dois ramos em que,
dramaticamente, desdobrou-se a representação da Natividade
(Valente, 1979, p. 25).
Tudo leva a crer, porém, que o bumba-meu-boi originou-se
durante o século XVI, por ocasião do ciclo econômico do
gado, ou seja, das atividades relacionadas à pecuária.
Naquela época, por volta do ano 1534, Ana Pimentel, esposa
do donatário Martim Afonso de Sousa, se encarregou de trazer
as primeiras cabeças para a Capitania do seu marido. Na
época, além de fornecer sustento alimentar, através da carne
e do leite, o gado prestava um grande trabalho nos engenhos
de açúcar. E a trilha do gado, nas fazendas e currais, deu
início à formação de várias povoações que, hoje, representam
importantes municípios nordestinos. O bumba-meu-boi pode ter
se originado no Maranhão, através de simples brincadeiras
dos escravos africanos, nos engenhos e fazendas.
Muito embora seja possível perceber a influência europeia,
essa manifestação folclórica possui estrutura, música e
personagens, essencialmente, brasileiros. É considerado um
auto, ou drama pastoril, relacionado à forma de teatro
hierático das festas de Natal e Reis. O auto, no presente,
guarda, ainda, os traços de sua antiga religiosidade.
Segundo Borba Filho (1982), o espetáculo, que pode durar até
oito horas, surgiu de uma aglutinação de reisados em torno
do reisado principal que teria como motivo a vida e a morte
do Boi.
Tudo indica, portanto, que a expressão bumba-meu-boi nasceu
do ‘estribilho’ cantado quando o boi, figura principal do
auto, dança: ‘Eh! Bumba!’ com pancadas no zabumba, o que
equivale a dizer: ‘Zabumba, meu boi’, isto é, ‘o zabumba
está te acompanhando, boi’. Apesar de não possuir origem
africana, é um espetáculo em que há predominância de negros:
eles se mostram conformados com sua inferioridade social, e
transformam a dor que sentem em cenas hilariantes.
A história do bumba-meu-boi é bem simples: um homem branco,
proprietário de um boi, presencia quando um homem negro
rouba-lhe o animal e, dele, retira a língua. O motivo do
roubo se deve ao fato de a esposa do negro, por estar
grávida, apresentar o desejo de comer língua de boi. Porém,
ao ter sua língua retirada, o boi morre. E esse boi, em
particular, era o predileto do proprietário. Vê-se armada,
então, uma grande confusão, e um pajé é chamado para tentar
ressuscitar o boi morto. Ao mesmo tempo, os integrantes do
bumba-meu-boi cantam o seguinte verso popular:
O meu boi morreu
Que será de mim?
Manda buscar outro
Ô maninha, lá no Piauí.
Borba Filho ressalta que, no espetáculo,
não há personagens do sexo feminino, as mulheres são tratadas
como seres inferiores, e todos os papéis femininos são
interpretados por travestis. A única exceção ocorre com a figura
da Pastorinha, que é representada por uma menina ou adolescente.
É possível se observar, nitidamente, como as desigualdades de
gênero estão incrustadas na sociedade nordestina.
Isso vem corroborar com a imagem que a sociedade patriarcal
possui a respeito da mulher: trata-se de um ser inferior em
espírito, mais fraco, fisicamente, submisso, dependente da
inteligência e da capacidade do homem para sobreviver, e cujo
campo de atividade principal está restrito ao espaço doméstico.
O homem, por outro lado, é um ser superior, mais forte,
cultural, que transcende os limites naturais, e que deve ser o
provedor e controlador dos demais seres humanos, dono exclusivo
do espaço público e regulador do espaço privado (Buarque;
Vainsencher, 2002)
Bastante representado no Nordeste brasileiro, o bumba-meu-boi
possui denominações distintas, segundo os Estados. É chamado
Boi-de-Reis, no Maranhão; Boi-Calemba, no Rio Grande do Norte;
Boi-Surubi, no Ceará; Rancho-de-Boi, na Bahia; Bumba-meu-Boi, em
Pernambuco e Alagoas; e Cavalo-Marinho, na Paraíba. O folguedo é
chamado Boi-Bumbá, no Amazonas; Bumba-de-Reis, no Espírito
Santo; Reisde-Boi, no Rio de Janeiro; Boi-de-Mamão, em Santa
Catarina; Boizinho, no Rio Grande do Sul; e Boi-de-Jaca, em São
Paulo.
Em Alagoas, o espetáculo começa com uma abertura de porta e com
um desfile de animais e personagens, que dançam ao som de uma
música característica, cantada pelo coro. O primeiro personagem
a aparecer é a Burrinha e, em seguida surge o Cavalo-Marinho
(que possui uma armação como a do boi, mas que apresenta uma
cabeça de cavalo, pintada). Vários personagens vêm dançar,
tentando espantar o Mateus, a Catirina, e amedrontar as crianças
ingênuas. São eles, entre outros: o Mané do Rosário, o Pantasma
(Fantasma), o Morto-e-Vivo, o Foiará (Folharal), a Margarida, o
Mandú, o Jaraguá, as Caiporinhas, as Sereias, o Pastor, a Sinhá
Filipa (um homem vestido de mulher, com uma máscara), o
Lobisomem, o Cego e o Doutor. No Maranhão, o bumba é
representado, principalmente, em São Luís e nos municípios de
Cururupu e Guimarães (municípios situados na zona litorânea).
Um aspecto a ser destacado no bumba-meu-boi é a grande
interação entre personagens e plateia, ou seja, esta última
não se comporta como um agente passivo. Dessa interação,
surgem improvisações jocosas e inesperadas, fazendo com que
as pessoas participem, e o espetáculo se torne mais animado.
Em tempos passados, por tradição, o bumba-meu-boi era
exibido, somente, por ocasião do Natal. Praticado em uma
arena (representando o terreiro de uma fazenda), com o
público, em pé, assistindo ao folguedo, em volta dos
personagens, o bumba, no presente, é exibido até mesmo
durante o carnaval.
De acordo com Valente (1979) pode-se dizer que o
bumba-meu-boi é: uma forma de teatro que se caracteriza pela
pancadaria, pela sátira, pelo ridículo, pelo grotesco, muito
do gosto do povo. Um teatro popular muito mais comunicativo,
muito mais atuante que o erudito, permitindo interferências
da plateia – geralmente constituída pela população humilde
da comunidade onde tem sede o bumba-meu-boi – que age com
estimulantes provocações, levando os personagens a respostas
prontas e improvisadas, engraçadas e às vezes um tanto
licenciosas, sempre recebidas com risadaria e gritos dos
assistentes.
Em Pernambuco, o folguedo é mais representado nas Zonas da
Mata, no Agreste e no Sertão. Ele apresenta inúmeros
personagens que podem ser humanos, animais ou fantásticos,
além de uma série de acontecimentos inspirados no boi. O
personagem mais importante de todos é o Capitão Boca Mole: o
proprietário das terras, dono do boi e aquele que comanda a
festa. Vale ressaltar que, nesse auto, o sentido de
propriedade é muito forte. No começo, o Capitão Boca Mole
surge a pé, mas, a seguir, aparece montado no
Cavalo-Marinho. Mateus e Bastião - os vaqueiros e heróis
negros - são os dois empregados do Capitão. Ele pede que,
cada participante, exponha os seus problemas. Após as
discussões, o Capitão e seus auxiliares chegam à solução
final, porém, não sem buscar uma série de personagens
secundários: a Catirina (companheira de Mateus, e sempre
representada por um travesti - que deseja comer um pedaço da
língua do boi e induz o Vaqueiro a matá-lo); o Morto
carregando o Vivo, o Babau, o Jaraguá e o Caipora - seres
que assustam os próprios personagens e a plateia; o Doutor
Penico Branco (aquele que vem medicar o boi - que levou uma
grande pancada e está desmaiado - aplicando-lhe um clister e
uma injeção); a Polícia e o Padre - que vêm celebrar o
casamento do Mateus e da Catirina, ressuscitar o boi e
resolver o problema do Morto carregando o Vivo; a Pastorinha
- um personagem que o Capitão tenta seduzir; o Arlequim - um
ajudante do Cavalo-Marinho; Manuel das Batatas - um simples
camponês; a Burrinha - um camponês montado em uma burra; o
Sacristão - o ajudante do Padre; a Ema e o Urubu -
personagens atraídos pelo cheiro de decomposição do boi
morto; o Doutor Engenheiro - o encarregado de medir as
terras do Capitão; além de outros personagens que ajudam a
resolver as dificuldades expostas. Sem prejuízo para a
apreciação do folguedo, certos personagens secundários podem
ser suprimidos, em caso da ausência de participantes, ou de
alguma danificação da armação.
Por fim, o auto do bumba finaliza com a
morte e a ressurreição do boi. Em outras palavras, no final
do espetáculo, o boi sempre ressuscita. Os participantes
costumam usar máscaras (para poder representar outros
personagens e, assim, reduzir o número de integrantes do
espetáculo), ou utilizam uma maquiagem bastante carregada de
carvão, e/ou de farinha de trigo. Por sua vez, portam
armações de madeiras leves, recobertas com tecidos coloridos
e vestimentas peculiares. O Capitão, por exemplo, se veste
com uma farda cheia de divisas e adereços dourados; o
Mateus, o Bastião e a Catirina se apresentam com roupas
muito sujas e pobres; o Padre usa uma batina velha e carrega
um livro, uma cruz e um rosário; o Cavalo-Marinho e a
Burrinha portam armações e aparentam estar montados em
animais; a Caipora a Ema, o Urubu e o Boi surgem em armações
que escondem o seu condutor, e apresentam a caveira e os
chifres de um boi verdadeiro. Alguns personagens carregam
bexigas de boi, cheias de ar, para dar uma surra nos colegas
de espetáculo e membros da plateia. A orquestra do auto é
composta por zabumbas, tambores, apitos, chocalhos,
pandeiros e matracas; e uma Cantadeira entoa uma série de
loas e toadas.
Não tem muita importância se, hoje, o bumba-meu-boi é
considerado um auto, um folguedo popular, uma dança
dramática ou um mega espetáculo. Não importa, também, que
ele varie de Estado para Estado, de nome, ou de Região para
Região.
Independentemente, de todos esses fatores, o bumba-meu-boi é
um dos produtos mais antigos, expressivos e ricos em
improvisação, do folclore brasileiro. Ele é fruto da própria
formação histórica do Brasil: representa um elemento
híbrido, originário da Região Nordeste, mas, que foi
difundido para todas as Regiões do país.
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