Sebo - Vilma Matos

 

PAPO LITERÁRIO \ VILMA MATOS \ ODISSEIA EM ULISSEIA

(click na imagem acima)

http://www.youtube.com/watch?v=WWdXw119zEk

   

Do virtual para o real

Os computadores fazem parte de minha vida mais de doze horas por dia, como instrumento de trabalho e lazer cultural. Em um palmo e meio de tela, as imagens me chegam constantemente, como se o mundo fosse, de fato, um pião na palma da minha mão. Faço amizade, troco textos literários, passo e recebo poesia, pesquiso, leio obras, notícias, estendo pontes. Isso mesmo, pontes. Onde escritores se correspondem, executam a várias mãos e cérebros, substanciosas produções literárias, entre os países de língua portuguesa e grupos lusófonos espalhados por várias partes do mundo.
Fazem, inclusive, livros impressos, antologias que motivam os encontros ao vivo para respectivos lançamentos e conhecimento dos integrantes da obra.
Hoje sei que encontrar os colegas virtuais é uma experiência curiosa na vida dos usuários da Internet. Principalmente pelo casamento da imagem real das pessoas com a imagem que desenhamos delas em nossa
mente.
Ouvir a voz, o riso, olhar nos olhos, sentir o cheiro, apertar a mão de quem só conhecíamos os “escritos”, parece um milagre do qual somos um pouco o autor. Pelo menos para mim, que ainda guardo traços da menina
interiorana. Vida difícil, onde a tevê já era tecnologia demais para a época.
Não pude evitar a empolgação ao participar de uma antologia poética que reuniu 67 autores dos países de língua portuguesa e que seria lançada em Portugal. Eram vários batismos aos quais eu seria submetida, ao mesmo tempo: o literário, o internacional, a viagem sozinha, a separação da família e voar pela primeira vez. A odisséia propriamente dita começou muito antes da viagem se concretizar na famosa chamada: - Senhores passageiros com destino a Lisboa, dirijam-se, por favor, ao portão de embarque e boa viagem.
Neste livro, relato alguns fatos que aconteceram antes, durante e depois da viagem a Portugal. Eram inúmeros os motivos que faziam minha expectativa aumentar. O fato de deixar de ser virtual para alguns amigos mexia comigo a ponto do meu organismo não reagir naturalmente e, durante algumas noites, não sentir sono. Planejei fazer algumas indagações interessantes aos amigos portugueses, principalmente ao Carlos Leite, que é historiador. Pretendia colher o máximo de informações para enriquecer meus conhecimentos histórico-culturais. A primeira abordagem eu considero de grande importância para quem deseja firmar boas amizades.
Essa era minha grande oportunidade de encontrar pessoas que, até então, só os conhecia através de fotos e dos trabalhos literários.
A crença numa Força Superior me dá ânimo para continuar buscando o que almejo realizar. Sem essa Força, jamais teria saído do Brasil. Acredito também no meu pensar, no meu querer, no meu agir... A soma de tudo possibilita o direcionamento das conquistas que eu quero obter, em minha vida. Sou apreciadora incondicional da natureza, da fauna e da flora, mas o comportamento humano me fascina, impulsiona-me a realizar pesquisas na tentativa de entender melhor a incógnita que é a mente humana.
Embriaga-me escrever e falar das necessidades que as pessoas têm de se conhecerem e se tocarem, firmando assim, laços afetivos. Confesso que alimentei a esperança de construir no “além mar” lindas arquiteturas, onde
seriam utilizados tijolos da amizade, para que nenhum terremoto da inveja ou da traição pudesse destruí-las. Foi exatamente isso que aconteceu. Hoje me sinto realizada por ter deixado, em Portugal, amigos como o Carlos, Manuela, Joana, Solange, Mônica, Charles e Paulo. Estes me receberam como devemos receber os nossos irmãos em Cristo. É, por conviver com essas e outras pessoas que compartilham desse sentimento de amor e de união que sempre tenho a sensação de estar sendo abraçada, acolhida, pelo velho e amado mundo.
No mais, caros leitores, vocês tomarão conhecimento lendo estes modestos escritos que ouso a chamar de obra e assim, possam também tirar suas próprias conclusões a respeito da mesma.

 

Rumo a Odisséia

Acordei com o sol batendo em minha cara, por certo sua posição tinha mudado, olhei o relógio, era exatamente seis horas da manhã. O que aconteceu com o despertador? Levantei apressada dei uma olhada nas malas próximas da cama e disse em voz alta; até que enfim chegou o esperado dia 11 de dezembro de 2003. A probabilidade que eu tinha de administrar minhas emoções era a mesma que alguém tem de controlar uma pessoa, em crise de histeria.
Naquele dia, chegando do trabalho, verifiquei a bagagem, para ver se tinha colocado tudo que ia precisar em Portugal. O que mais seria necessário, além de roupas, sapatos, agasalhos e objetos pessoais? A resposta foi espontânea e imediata, faltava organizar a bagagem mental, então reuni simpatia, simplicidade, coragem, inteligência emocional para que nas adversidades eu conseguisse administrar minhas ações e reações, complacência no agir (discernimento do bem e do mal), no falar, na educação, na humildade e por fim, ser bem sucedida na viagem. Tarefa concluída. Bem que a priori, o Paulo e a Wanessa iam comigo, nesta grande aventura ou loucura, ainda não sabia bem.
Paulo tentou confortar-me, patrocinando as passagens. Fiquei satisfeita com seu gesto, isso significava o seu total apoio logístico e moral.
Mesmo assim, não me livrei da estranha sensação de vazio, de abandono.
Não queria ir sozinha. Ainda tentei uma amiga que quisesse ir comigo, para dividirmos as despesas, as alegrias, as tristezas e os medos. Lembrei que a orientadora de monografia do meu Curso de Pós-Graduação estava fazendo Doutorado em Lisboa, então falei com ela, deixando-a empolgada com a viagem. Marcamos um encontro para esboçarmos nossos projetos e planos de ação. Cheguei ao local combinado, antes da hora, fiquei atenta observando as pessoas que passavam de um lado para o outro, pareciam fugir da morte. Lembrei que na cidade interiorana em que nasci as pessoas, independentemente de se conhecerem ou não, sempre saudavam uns aos outros, eu achava aquele gesto lindo e, por vezes, perguntava ao meu pai se ele os conhecia. Mas, por onde anda a professora que não chegou até esta hora? Desolada, triste fui embora. Certa de que ela entraria em contato comigo, para apresentar suas desculpas.
Esperei mais ou menos uns dois dias para ver se a professora se manifestava. Aquela atitude não era compatível com seu comportamento, por isso, apesar de seu silêncio, tomei a iniciativa de telefonar-lhe, queria
saber o que tinha ocorrido e se ainda estava firme, o que havíamos combinado. Depois de inúmeras tentativas, ouvi uma voz que mais parecia um sussurro: - “Minha querida, desculpe-me, mas não estou bem e o médico disse que pode ser uma virose”. Nem precisava mais ouvir o final de seu discurso, já sabia que, por ser véspera da viagem, não tinha mais nada a ser feito a não ser, encher-me de coragem e aproveitar a grande oportunidade de conhecer Portugal e quem sabe, vivenciar por lá, momentos culturais inesquecíveis.
Hora de sair de casa. Paulo pegou minha bagagem, colocou-a no automóvel e seguimos em direção à pracinha do Bairro Henrique Jorge, ali, fomos pegar uns cartões de visita que uma amiga tinha confeccionado para mim. Depois, passamos no Norte Shopping, era necessário que o celular fosse habilitado para chamadas internacionais, o que facilitaria a nossa comunicação, no “além mar”. Demorou muito tempo até eu ouvir a atendente dizer: - “Pronto. Essa é a última folha do contrato”. Observei que a moça estava imprimindo a lauda de nº 06 (seis). Sai da loja, extremamente aborrecida com a demora. Ao chegar no carro, os meus olhos estavam dançando nas lágrimas que insistiam em molhar minhas faces.
Paulo compreendeu a minha agitação, então, com paciência usou a velha estratégia de mudar de assunto.
Chegamos ao aeroporto com quase duas horas de antecedência.
Dirigi-me para o guichê da empresa de Aviação TAP. Fiz o check-in e, já era hora das despedidas. Recebi do Paulo e da Wanessa abraços e votos de muito sucesso. Foi esta a forma deles demonstrarem-me carinho e admiração. Estava na sala de embarque, quando me lembrei dos apontamentos para escrever as crônicas de viagem. Liguei para minha filha e pedi que os guardasse. A ausência desse material dificultaria a organização das idéias dentro da filosofia de trabalho que eu queria desenvolver.
Passados alguns minutos, mais calma, lembrei de umas folhinhas amarelas que eu havia guardado na bagagem de mão, elas eram o esboço de um outro projeto.
Imediatamente as retirei, de dentro da nécessaire e no verso, comecei a rabiscar minhas primeiras impressões.
O receio, o medo do novo, do desconhecido desperta numa pessoa, o sinal de alerta e, vem-lhe uma estranha sensação de que aconteça algo que não se sabe o quê. Este sentimento me deixou confusa.
A bagagem era minha companheira e a solidão o motivo para me refugiar na escrita. Uma avalanche de idéias me vinha à mente, mas, por serem rápidas, foi impossível transcrevê-las. Sei que, em minha mente, tinha uma verdadeira festa de imagens e cores. Essa fuga através dos pensamentos me aquietava, embora fosse aparente, pois na verdade, em minha cabeça estava tudo embaralhado e o que eu mais queria, era pôr em ordem aquela bagunça mental. No entanto, não sabia como. Estava realmente nervosa, talvez, por ser esta a minha primeira viagem ao exterior.
Ainda no salão de embarque, pensei no Paulo e na Wanessa, no que eles iriam fazer durante esses dez dias, sem mim. Bobagem, eles vão ficar bem, afinal, o tempo passa que a gente nem percebe.
Uma voz aguda me trouxe de volta à realidade, com o seguinte aviso: - “Senhoras e Senhores passageiros com destino a Lisboa, queiram, por favor, embarcar, portão B”. Eram vinte e uma horas e quarenta e cinco minutos. Sem demora, peguei minha bagagem e acompanhei os outros passageiros. No interior da aeronave, as pessoas se movimentavam em busca de se acomodarem em seus acentos, no meio àquela confusão, veio-me o receio, a curiosidade em saber o que me esperava do outro lado do Oceano Atlântico. Após alguns minutos, ouvi novamente o chamado, sendo que desta vez, o sotaque era bem diferente do nosso: - “Senhoras e senhores passageiros, gentileza apertarem os cintos de seguranças que estamos quase a levantar vôo”, estas palavras soaram estranhas aos meus ouvidos. A rapidez com que ele falava, dificultava minha compreensão acerca da mensagem transmitida. Instantes depois, o enorme pássaro sem alma, sem vida, mas com imenso poder de sobrevoar a terra, ultrapassava as nuvens em velocidade, jamais imaginada pelo homem da antiguidade. Há princípio quase todos os passageiros se mantiveram calados, aos poucos, foram soltando as amarras da taciturnidade, enquanto eu, por estar afônica me mantive durante quase toda a viagem, em silêncio para preservar minha voz. Estava receosa e, diante de tais circunstâncias, não tinha a menor condição de cumprir com minha programação de viagem.
Aos poucos fui relaxando e, iniciei um diálogo, nada melhor do que a conversa, mesmo que seja moderada, para afastar pensamentos aleatórios.
O restante da viagem eu já estava mais descontraída e menos afônica e, até foi propício falar de poesia...
Depois de oito horas de vôo, os passageiros foram instruídos a se prepararem para a aterrissagem da aeronave, no aeroporto da Portela de Sacavém (Lisboa).
Ao ouvir essas palavras, senti minhas pernas pesarem, não sabia bem se pela emoção ou pelos receios de, pela primeira vez, pisar em terras que tanto me fascinavam, não só por sua história, mas também, pelo fascínio
que esse povo exercia sobre meu senso curioso.
Naqueles instantes de incertezas, as batidas do meu coração pareciam tambores em dias de festividades. Contudo, estava muito satisfeita com a ousadia de desbravar mares, “nunca dantes navegados” por mim. É claro!
Enfrentar situações novas, ampliar a aprendizagem, conhecer e fazer novas amizades, era o que mais me atraia. Para tanto, era necessário continuar com a elaboração dos meus projetos, isso me servia de escudo para afastar certas negatividades. Reconhecia a oportunidade bendita de participar de dois eventos literários, internacionais. Nestes, tinham sido reservados dois momentos para que eu me apresentasse, fazendo performances poéticas.
Não era para menos e dava para justificar o nervosismo. A certeza de que, mesmo distante de casa, Deus sempre estaria comigo, nas horas difíceis, jamais eu ficaria sozinha, a fé me fortalecia. Sentia-me motivada pelas grandes expectativas. Agora, era só pegar a bagagem de mão e seguir os outros companheiros de vôo. Ao meu lado tinha uma moça que, apesar de bem agasalhada, não parava de se lamentar. O seu sotaque me chamou atenção, por isso, perguntei de onde ela era. A sua resposta me causou surpresa: - “Sou daqui, mas não consigo acostumar-me com esse frio horroroso (6°C)”. Imaginem essa temperatura para uma pessoa que nasceu em uma das cidades mais quentes do Nordeste do Brasil – Crateús. Apenas confirmei, dizendo: - estou quase congelando e entrei no ônibus que nos conduziu até a alfândega. Chegando lá, fiquei andando de um lado para o outro, como se fosse “uma cega num tiroteio”. Foi lamentável, que ali, não tivesse funcionários para orientar os passageiros na hora de pegarem suas bagagens. Depois de muito sacrifício, recuperei a mala e me retirei em busca de um toalete. Devido à baixa temperatura, faltava-me o fôlego e também agasalho. Lá, o aquecedor funcionava em perfeita ordem, o que me desencorajava a sair daquele cubículo. O frio era intenso e, por um longo tempo, não tive coragem de tomar por menor que fosse, qualquer a atitude, permanecia inerte. Em meu íntimo, lamentava, ter dispensado a gentileza da Manuela, em receber-me no aeroporto. Não queria incomodá-la, afinal, tínhamos combinado que ela e Joana iriam pegar o Carlos e também a mim, no Hotel Ibis que fica na Av. José Malhoa - Lote H, - Lisboa 1070-158 – Portugal, para um almoço. Eu soube que o nome dessa avenida era uma homenagem a um pintor que nasceu na cidade das Caldas da Rainha, em 1855 e morreu em 1933. Era autor de belos quadros de paisagens e quadros do gênero “O Imigrante”, “Seara Invadida”, “Descobrimento do Brasil”, “A Seta” e outros.
No banheiro, escolhi uma saia vermelha (tipo couro), um par de botas bege (couro de cabra) e, depois de pôr o sobretudo de cor azul-escuro fui verificar no espelho, apesar do sono e do cansaço, gostei do que via. Parecia um pouco mais jovem e isso me revigorava o ânimo. Depois de trinta minutos, saí do meu aconchegante refugio e fiz sinal para um taxista, neste ínterim, agradeci a Deus por ter chegado em paz, embora, continuasse com maus pressentimentos. Sou da opinião que, pior do que vencer barreiras construídas pelos outros é vencer às próprias.
Durante o percurso, do aeroporto ao Hotel Ibis, onde a Manuela Madeira havia feito reserva do dia 12 ao dia 18, o motorista procurou ser gentil, descrevendo os lugares por onde passávamos, dentre elas a residência oficial do Embaixador do Brasil em Portugal. E, por fim, com satisfação, o taxista me avisou: - “Ali começa a Avenida José Malhoa, onde fica o Hotel em que a Sra. vai se hospedar. Só mais alguns minutos... – “Pronto, chegamos.”
Agradeci-lhe a gentileza por ele ter descrito os lugares por onde passamos e perguntei quanto custava a corrida, ao que me respondeu:
- Custam apenas 15 Euros.
- Mas, como assim, se me falaram que não passaria de 10 Euros? Protestei.
- “Acontece, Senhora, que seriam 18 Euros, mas como a senhora é muito simpática, cobrei-lhe apenas 15 Euros.”
Em tom severo, disse-lhe:
- Pois então, cobre-me os 18 Euros e me forneça o recibo.
Observei a sua cara de espanto e lembrei-me da gentileza dele em descrever para mim os pontos interessantes por onde passávamos, enquanto conduzia-me ao Hotel. Pensei melhor e resolvi pagar-lhe os 15 Euros, sem exigir-lhe o recibo. Ele recebeu o dinheiro e sem fazer comentários entrou no carro e seguiu seu destino. Enquanto se distanciava, fiquei avaliando a complexidade do ser humano, como era difícil compreender essa criatura que, segundo a Bíblia foi criada a imagem e a semelhança de Deus e, mesmo assim, ainda consegue ser tão imperfeito.
Pensando bem, nem devia estranhar, afinal, Deus nos deu livre arbítrio e isso propicia ao ser humano esse e outros tipos de atitudes. Vivemos num mundo aonde cada pessoa tem um conceito do certo, do errado, do bom, do ruim e assim, por diante. Além do mais, bem antes da viagem, tinha sido avisada, que isso poderia acontecer. A partir daí, fiquei mais atenta e passei a ajustar os preços antes de contratar os serviços para evitar problemas futuros. Lembrei-me que o Paulo tinha me concedido uma soma em dinheiro que na minha ingenuidade, considerei razoável. Também, troquei por Euros os Reais que eram para a impressão do livro de poesias “Suspiros D'alma”. Contava com a cortesia de uma pequena viagem para o Algarve, aonde passaria três dias, uma tarde na companhia de amigas brasileiras e portuguesas, além de ter sido convidada por Manuela Madeira, bem antes que eu chegasse a Lisboa, para um passeio e almoço em sua companhia, da sua filha Joana e do Carlos. Segundo ela, o Hotel onde eu ficaria, localizava-se perto da Reboleira e próximo ao seu trabalho. Ao encerrar seu expediente pegaria a estrada de Benfica e chegaria lá “num ápice” e continuou com seus planos: - “É só ir buscar a Joana na escola e arrancar para o hotel. Antes preciso saber quantas pessoas irão ao almoço, não sei se o Carlos vem acompanhado de algum amigo do CEN, para eu reservar mesa no 'Pátio dos Leitões'. Sou amiga do povo do pátio, aquilo foi construído com apoio do Banco Montepio e desde a altura em que eu trabalhava no balcão de Alfragide que os conheço e eu gosto de lá comer, aquilo é bom. Os leitões são servidos à moda da Bairrada, tem produção própria, o equipamento do restaurante (fornos, máquinas de fritar batatas, congeladores, etc.) era tudo avançadíssimo e, preenchia todos os requisitos que a boa qualidade impõe.
Tem mais, para quem não gosta de leitão, também há outras opções.”
Fiquei por algum tempo parada em frente ao Hotel pensando no que tinha por vir, assustada, verifiquei se minha bagagem ainda estava no mesmo lugar. Aproximei-me da porta principal que dava acesso ao bar e também à recepção. Um friozinho percorreu a minha espinha dorsal, aquilo era a comprovação de que eu viveria fortes emoções, juntamente com os demais companheiros e companheiras das lides literárias. Sabia que, daquele lindo e histórico país, jamais sairia a mesma pessoa, o aprendizado era algo certo.
De três estrelas, o Hotel Ibis, não era dos mais luxuosos, mas esperava que atendesse, perfeitamente minhas expectativas, no sentido de ser confortável e oferecer bons serviços.
Identifiquei-me à recepcionista e, na mesma hora a moça confirmou que havia uma reserva para mim, feita pela senhora Manuela Madeira. Foi, quando avistei através da porta de vidro, um senhor que descontraído lia jornal. Aparentava uns 65 anos de idade, seus cabelos eram brancos, usava óculos de grau e vestia um casaco preto, certamente para proteger-se do frio. Andei lentamente em sua direção. Quando me aproximei um pouco mais, percebi que ele fixamente me olhava, na tentativa de identificar-me, afinal, eu não seria a única escritora a se encontrar com ele naquela manhã.
Esbocei-lhe um sorriso, que era para desfazer as nuvens que por hora, nublavam a minha aparência. Finalmente, fui reconhecida. Bem que à primeira vista era mesmo difícil, pois, só nos conhecíamos através de fotos e estas, por vezes, traem-nos. Ele, num gesto rápido largou o jornal em cima de uma mesinha e sorrindo se levantou para cumprimentar-me. Embora, ainda tivesse algumas dúvidas, se eu era ou não, a escritora que ele só conhecia, através de fotos e dos escritos. Depois das apresentações, ele retirou do bolso um pequeno gravador e foi logo me perguntando: - “Quais são suas primeiras impressões ao chegar aqui, em Portugal?” É de uma escritora que acredita, em seus projetos literários e sabe que, nesta magnífica cidade lhe será proporcionado a realização de todos, conduzindo-lhe à novas realizações. Posteriormente, fiquei sabendo que a entrevista não foi divulgada, por ter ocorrido uma avaria com a fita. De qualquer forma, a gravação foi feita. Na ocasião, tiramos fotos e falamos sobre assuntos diversificados.
Às onze horas, a nossa conversa foi pontuada para que pudéssemos ir à recepção fazer o “chek-in”, isso era norma do hotel. Ao receber a chave do apartamento 618, peguei a minha mala que estava no depósito (guarda bagagem) e acionei o botão do elevador. Mil pensamentos povoaram minha mente, talvez, devido ao cansaço, ainda estava um pouco atordoada, com a longa viagem. Subi imediatamente, despedindo-me do amigo português. A Manuela tinha feito reserva para ele, por ficar mais próximo do Palácio Galveias, onde se realizaria o evento literário que reuniria sessenta e sete escritores de língua portuguesa. Neste hotel se hospedaram alguns escritores que vieram das comunidades vizinhas e de outros países como Angola, Moçambique, dentre outros.
Para recuperar as forças, tomei um delicioso banho morno, escolhi uma roupa que fosse adequada para a ocasião, enquanto aguardava as novas amigas, Manuela e sua filha Joana procurei administrar a ansiedade.


 

 

 

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