
O Desespero é inimigo da Solução
Chegando ao hotel, recebi
um telefonema de uma escritora que
conheci através da internet. Ela, empolgada com o final de
semana que
passaríamos em Algarves, não percebia que eu estava exausta e
que, naquela
hora não era possível contagiar-me, nem mesmo apresentando-me a
sua
requintada programação. Como interrompê-la, sem ser
desagradável? Ela
falava compulsivamente, não parava, nem mesmo para respirar. O
jeito foi
silenciar-me, para esperar que ela concluísse seu discurso. Até
que enfim,
pedi-lhe desculpas e expliquei que estava muito cansada e
precisava
repousar um pouco antes de ir para o evento. Quanto ao passeio,
depois
combinaríamos os detalhes.
Lembrei da falta de sorte, com as chamadas para minha casa.
Repetidas vezes tentei ligar, mas, no visor do celular, aparecia
a mensagem:
“Sem comunicação”. Isto era inadmissível, principalmente, depois
do
tempo que perdi e dos aborrecimentos que passei na loja da
operadora.
Chateada e com os nervos abalados, só me restava manter a calma
e
aguardar até segunda-feira. Com certeza, seria mais viável, os
correios
estariam abertos, então mandaria um telegrama.
Levantei por volta das dezessete horas, ainda sonolenta. Fui
abrir a
mala, percebi que a chave não girava, insisti, encontrei
dificuldade. Parei um
pouco para respirar, continuei com “a peleja” até perceber que a
chave tinha
quebrado, dentro do cadeado. Era uma situação inusitada! E
agora? O que
fazer? Não sabia. Em gesto de desespero, elevei as mãos à cabeça
e comecei
a chorar. Os soluços eram altos, a ponto de quem passasse por
perto escutar.
Alguém bateu na porta, uma, duas, não sei quantas vezes. Para
mim, tudo
tinha perdido o sentido. Do que teria adiantado o esforço de ter
ido sozinha
a Portugal, se eu não poderia ir ao evento, o principal motivo
da minha
viagem? Como comparecer a um lugar desses, vestida com a roupa
que
passei o dia? Lamentei o quanto pude, aos poucos fui me
acalmando e,
sentada no chão, olhando para coisa alguma, de repente, num
impulso,
verifiquei a hora. Eram dezessete horas e cinqüenta minutos. Não
posso
desistir, ainda há tempo. Embora chegue atrasada, o importante é
chegar.
Fui ao telefone, mas, antes mesmo de completar a ligação,
bateram na porta.
Quando ia pegando na maçaneta, ela se abriu. Era o serviço de
quarto. Que
coisa estranha! O moço trazia algumas ferramentas, em suas mãos.
Queria
saber o que estava acontecendo no quarto 618. Apesar de não
compreender
o motivo pelo qual ele veio ao meu socorro, preferi não perder
tempo com
indagações e esfregando os olhos com as costas das mãos, tratei
logo de
relatar minha desventura e pedi-lhe que, por gentileza, abrisse
a mala. Ele,
em silêncio, olhou em direção da mala, em seguida, para mim,
como se
dissesse, “não acredito que todo este alarido tenha sido por
conta de um
motivo tão banal quanto este!” O que é desesperador para uma
pessoa, para
outra pode não causar nenhuma comoção. Resumindo, em questão de
segundos, ele me entregou o cadeado e a chave. Foi tudo tão
rápido que nem
tive tempo de recompensar-lhe. Graças a Deus que este problema
estava
resolvido. Esperava que não acontecesse mais nenhum outro
imprevisto.
“Doce ilusão”, ainda vieram outros e mais outros contratempos.
Como se não bastasse, o vestido azul da cor do mar não se
ajustava, de
forma alguma, em meu corpo. Sobrava pano por todos os lados.
Olhava-me
no espelho, o vestido era parecido com um lindo saco bordado!
Não era
implicância. A esta altura, nem me lembrava que a câmera
fotográfica estava
posicionada para bater algumas fotos, enquanto me vestia.
Pronta,
acreditava que fosse ficar bem apresentável, porém o espelho me
mostrou o
contrário. Tinha que escolher outra roupa que me caísse bem e
melhorasse
meu momentâneo mau humor. De súbito, arranquei o vestido do
corpo.
Lamentavelmente não me servia. Escolhi outro de cor preta que
delineava
meu corpo. Tinha um decote generoso e deixava as costas
totalmente à
mostra! Ah, este sim “me cai como uma luva” realçava minhas
formas,
valorizando o colo e a pele bronzeada pelo sol das belas praias
de Fortaleza.
O xale preto e o sobretudo azul, deu um toque especial e ainda
me protegeu
da baixa temperatura de Lisboa. Recolhi os cabelos cacheados
para trás, fiz
uma maquiagem em leve tom. Estava pronta para o grande e
esperado
acontecimento. Olhei-me no espelho e sorrindo disse: Agora sim,
estou
satisfeita!
Conferi a hora, passavam das dezoito e trinta horas. Saí do
quarto (no
6º andar), apertei o botão do elevador, logo a porta se abriu,
mas, para meu
desespero em todos os andares, ele parava. Na recepção estava um
casal de
amigos, eles me aguardavam ansiosos e preocupados com a minha
demora,
quanto aos demais, já tinham seguido para o local do evento.
Mais
confiante, sorri tentando disfarçar os aborrecimentos anteriores
e a
vergonha do momento.
Chegamos ao Palácio Galveias às dezenove horas, por estarmos
atrasados, todos os lugares já se encontravam ocupados. O evento
começou, exatamente, na hora marcada, às dezoito horas. Foi uma
situação
constrangedora. Na recepção, ainda falei com algumas pessoas e,
logo em
seguida, entrei no salão.
Foi lamentável, perder boa parte da festa. Não é que, o europeu
tem
mesmo o habito de cumprir com o horário, bem diferente da gente
que, em
geral, mesmo quando não acontecem imprevistos, os eventos
somente
acontecem depois do horário marcado. Deixemos os nossos hábitos
e
voltemos ao relato sobre a grande festa literária. Envergonhada
e sem uma
cadeira para me sentar, fiquei quieta bem perto da porta.
Decidida, enfrentei
o temor e deixei que minha vista percorresse a multidão, ao
visualizar meu
ilustre convidado, senti que meu olhar congelava. Ele ocupava um
lugar na
mesa de honra. Confesso que não imaginava que o Senhor
Embaixador
Paes de Andrade, com todos os compromissos políticos e sociais,
que deve
ter um diplomata, obtivesse uma vaga em sua agenda para atender
ao meu
convite. Fiquei estática, sem saber o que fazer, quando,
imediatamente, fui
convidada a ocupar uma cadeira, juntamente com os demais
convidados
ilustres e autoridades culturais lisbonense.
Aproximei-me da mesa a passos lentos, como se fosse movida pelo
ritmo de marcha nupcial. Dirigi-me ao Dr. Antônio Paes de
Andrade e ele,
gentilmente, levantou-se para abraçar-me, mesmo em meio da
solenidade.
Para mim, esse gesto teve grande importância, os presentes
puderam
comprovar que o Ceará tem em seu berço, pessoas ousadas, que
aportaram
no “Além-Mar” e, prestigiam seus conterrâneos quando por lá
chegam,
como no meu caso, com a finalidade de participar de intercâmbio
cultural
entre escritores dos países de língua portuguesa. Em seguida,
fui anunciada,
já com o apresentador pronunciando a primeira estrofe do poema
Travesseiro. Conclui a declamação e o dediquei à Zildinha
Andrade, mulher
do Embaixador. E foi naquele evento que surgiu a primeira idéia
de
realizarmos no Brasil um encontro de escritores. Seria em
Fortaleza (Ceará),
por toda estrutura turístico cultural que oferecia.

Travesseiro
Conheça a extensão...
O poder dos beijos.
Admire a mulher
Esqueça seus defeitos.
Deite em seu peito,
Libere a emoção,
Mas não se afogue
No mar da ilusão.
Ponha a cabeça no lugar
Pode ser no travesseiro
Ele não vai reclamar
Por não ter sido o primeiro.

Quando surgiu a Idéia do
primeiro
Encontro de Escritores do Portal CEN
O
entusiasmo tomou conta de nós naquela noite e foi aumentando e
delineando a proposta do encontro realizado pouco tempo depois.
Foi um
evento histórico de grande repercussão nacional e internacional.
Naquela
ocasião, o Carlos e eu articulamos a possibilidade de realizar
no Ceará o I
Encontro dos Escritores do Portal CEN. Seis meses depois,
Fortaleza era
um palco iluminado por astros e estrelas da cultura brasileira e
portuguesa.
O Encontro aconteceu nos dias 28, 29 e 30 de maio de 2004 e
contou com o
apoio do Centro Cultural OBOÉ para abertura do evento, graças ao
empenho do publicitário Tarcisio Tavares. Todos os participantes
(exceto
os de Fortaleza), hospedaram-se no hotel Praia Centro, onde
também
aconteceu a parte técnica do evento. Momentos de muito brilho
foram
proporcionados pela apresentação do Coral da Luzes, da Companhia
Energética do Ceará – COELCE, do cantor romântico Francisco
William
Alcântara e do trio português “O Seu Contrário – Música &
Jograis”. O
Grupo Dias Branco abriu as portas do elegante restaurante do seu
Moinho,
na pessoa de seu Presidente – Dr. Ivens Dias Branco para
recepcionar com
um almoço a letrada comitiva Luso-Brasileira. A excelente
cobertura
jornalística proporcionada pelos veículos de comunicação
notadamente
TV Verdes Mares Canal 10, programa “Bom dia Ceará”, TV Cidade
Canal
08, TV Ceará Canal 05, as duas últimas, coordenadas pela
jornalista Mônica
Serra Silveira, deu-nos o incentivo de agendar novas
oportunidades para
intercambio cultural em outros estados brasileiros. Importantes
apoios
vieram ainda, de empresas comprometidas com o desenvolvimento da
cultura, do turismo e das artes, entre as quais citamos: Gráfica
e Editora
Nacional, cortesia de todo o material gráfico, Pirulitos Tu e
Eu, Portelada
Produções e Eventos Culturais, Associações Comunitária de
Proteção a
Mulher e a Criança – ACOPROMATI, Academia de Letras dos
Municípios
do Estado do Ceará - ALMECE, Academia Feminina de Letras do
Estado
do Ceará – AFELCE.

Tertúlia Orpheu
Mas voltando ao evento português, vale salientar que, ao
terminar a
solenidade realizada no Palácio Galveias, sucederam as
apresentações entre
os autores da obra, na ocasião, foram feitas algumas
fotografias. A
receptividade por parte dos convidados e autores me surpreendeu,
deixando-me totalmente a vontade, como se já nos conhecêssemos
de
muito tempo. O sorriso em meus lábios era sinal de satisfação em
fazer
parte daquele momento cultural. Alguns dos autores se conheciam
do
virtual, o que possibilitou maior interação entre os mesmos. Não
tinha mais
quase ninguém quando sai do Palácio Galveias. Outra vez, os
amigos
estavam me esperando no exterior do Palácio, inclusive, com os
exemplares
que eu tinha direito, na qualidade de autora. Agradeci e se
dependesse de
mim, os livros teriam ficado... e, tudo isso, por conta da magia
do momento.
Seguimos para o restaurante, a Casa Regional do Ribatejo, aonde
seria
servido o jantar convívio e aconteceria a festa denominada
"Tertúlia
Orpheu".
Chegando ao local indicado no convite, fomos recebidos pela
mesma
senhora que havia nos recepcionado no Palácio Galveias, ela nos
conduziu
até a mesa, em que estavam alguns escritores do CEN. Todos os
outros
lugares estavam ocupados. Pensei, é, só para variar, mais uma
vez estou
chegando atrasada! Depois de ter sido acomodada, numa cadeira
que ficava
na cabeceira da mesa, comecei a notar olhares e flash's em nossa
direção.
Era um local estratégico, dava para visualizar os companheiros
das lides
literárias e simpatizantes que povoavam o recinto. Na mesa,
estava a Dra.Alice Tomé (professora da Universidade de Lisboa), Rosélia
Martins e seu
esposo Celestino Martins, a filha Elizete e a jovem Tipikita. Em
frente,
estava o casal Santa (Margarida e o Humberto), Von Trina e seu
pai, o poeta
Hélio Proença, o Dr. Júlio Roberto (Filosofo), também a cantora
e poetisa
Cristina Estrompa, dona de uma voz capaz de ser confundida com o
gorjeio
dos pássaros. Era por isso que seus amigos a chamavam de
"Rouxinol".
Para mim, foi uma noite inesquecível, embora nem tudo tenha
ocorrido da forma como eu imaginei, pois acreditava que a festa
fosse
"rolar" até o sol nascer. Ás vinte e três horas, quase não tinha
mais ninguém
no local. No entanto, parece que deu para cumprir a programação.
Participei, declamando de minha autoria "Néctar da Flor" e um
outro
poema de autoria do poeta português, Ângelo Rodrigues.

Néctar de Flor
Podes encontrar numa
flor
De pétalas amareladas...
Envelhecida
Fora de tempo, desgastada
Uma poderosa porção de néctar
Capaz de deter o zangão
Que zumbindo...
Vem em busca de pão.
Correndo risco de morrer,
Jamais de matar.
O zangão busca nas profundezas...
O sustento, a vida.
Não gostando de botões
Por não conterem néctar
E ainda dispensa
Aquelas flores que são exploradas
Por insetos que vivem a vagar.
O zangão cansado de voar,
Já passou por belos campos
E jardins floridos.
Acostumado a apreciar
Botões em flor
E outros que aguardam
Apenas, a hora do desabrochar.
Claro que "todas as flores contêm espinhos",
Mais também perfumes,
Podendo ser agradáveis ou desagradáveis.
Quanto aos espinhos
Espetam, causam queixumes
A quem maltratar uma rosa
Sem apreciar seu perfume.
Existem os que colhem
Pelo simples prazer
E colocando-as em vasos frios
Para depois, vê-las morrerem.
Deixe-as no jardim
Para que cumpram missão
E alimentem o zangão.
