
O Bang
Eram dezesseis horas de domingo, quando
retornei ao hotel,
cansada, nostálgica e ainda preocupada pela falta de contato com
o Brasil.
Percebi certa expectativa no semblante das pessoas; logo que me
avistaram,
alguém mais distante falou: - A brasileira, ela está de volta!
Olhei para os lados, talvez alguma visita inesperada estivesse
me
aguardando... foi quando a jovem funcionária do Hotel, tomou
coragem e
disse-me: - Senhora, ligaram de sua residência. Tenho uma
notícia muito grave para lhe
dar. Alguns segundos se passaram no mais completo silêncio, como
se fosse
possível parar tudo, pular aquela parte. A moça me olhava
piedosa e
assustada, temerosa do momento seguinte. Queria poupar-me, eu
também
queria ser poupada; mas existem coisas, das quais não se pode
fugir, delegar,
deixar para depois. Neste momento, ninguém está suficientemente
preparado; nem o filho de Deus o estava, ou então não teria
dito: - Pai, afasta
de mim esse cálice.
- Senhora, continuou a jovem, ligaram de sua residência
Ligaram para avisar, que sua filha morreu.
Foi se formando a minha volta um círculo de pessoas atônitas.
Ninguém sabia o que dizer ou fazer, minha dor devia estar
irradiando uma
espécie de energia paralisante; tive a impressão de que até o
meu coração
havia parado. Todos os motivos que me levaram a Portugal
passaram pela
minha mente naquele instante, dos devaneios de pisar no Primeiro
Mundo
ao sacrifício das economias. A vaidade de poder falar agora de
outras
culturas, nas rodas de amigos; mostrar meus modestos escritos a
um
público realmente especializado; cada roupa que comprei ou
ganhei e
desfilei orgulhosa para o espelho, chamando aquela “sensação de
felicidade”. Como me senti uma estrela no dia evento! Motivo de
minha
viagem. E a beleza, a história que passou pelos meus olhos e
mãos, naquele
exato e nefasto dia? Tudo virara uma insignificância só. Quem
era eu
naquele momento? Nada. Um grão de areia, talvez.
Sentada, amparada como uma invalida, eu tentava o mais simples
dos
gestos e não conseguia: beber um gole d'água. Não havia lágrimas
em meus
olhos, nem som em minha garganta. A extraordinária máquina
humana é
incrivelmente vulnerável, bastam duas ou três palavras e pára.
Prestígio,
bens, vaidade, jóias, viagens, luxo, poder: coisas essas pelas
quais, quase toda
humanidade briga, não valem a etiqueta com o preço. Toda
impotência
humana me foi revelada na simbologia do mar. Todos sempre temos
como
desafio na vida, um oceano para atravessar, mas “não se sabe com
que asas,
não se sabe”. A sabedoria dói... Deve ser por isso que Cristo
não sorria.
Ainda sem controle dos meus próprios movimentos, olhei
instintivamente para a minha direita e vi um ponto de luz, era
tão pequeno e
fraco como um vaga-lume no nevoeiro. Lembrei-me de Fátima, a
mensagem velada: - Está tudo bem, está tudo bem. Uma calma
inesperada
foi tomando conta de mim, um leve calor me fazia sentir que o
fluxo
sangüíneo voltara ao seu curso normal; meu maxilar já obedecia a
articulação das palavras e pude pedir um telefone, alguém me
ajudou a
discar, conseguimos! Do outro lado uma voz jovial respondeu:
- Mãe, aqui todos estavam muito preocupados com o sumiço da
senhora; meu pai
até passou mal. Por que a senhora não nos ligou? Onde estava? O
que aconteceu? Mãe,
fala...! Ao ouvir meus soluços, minha filhinha mudou de tom e
suavemente
concluiu:
- Mãe, está tudo bem?
- Sim, meu amor, graças a Deus e a Senhora de Fátima, está tudo
bem,
tudo bem, tudo bem. Voltei-me para o pequeno aglomerado de
pessoas
que, preocupados ainda me olhavam e os tranqüilizei:
- Foi apenas um trote, está tudo bem, tudo bem!

O dia seguinte, na Embaixada
À noite que antecedeu a
entrevista na embaixada do Brasil em
Portugal, não foi das mais tranqüilas. Uma sensação de perda
dava-me certa
apatia que, misturada ao fuso horário europeu, ainda não
absorvido
organicamente, deixava-me um pouco à deriva, naquela terra
estranha e
gelada.
O dia amanheceu sem que o sol aparecesse, olhei-me no espelho, a
minha aparência não era das melhores e a cabeça doía bastante,
no entanto
tinha que sair, o compromisso me esperava e conhecendo a
pontualidade
dos portugueses, teria que me apressar. No horário e local
combinado, lá
estava o Carlos, disposto e pronto para realizar mais uma tarefa
jornalística,
o que para ele, não seria difícil, pois é jornalista de
profissão. Sorte minha,
por ter acertado com o Embaixador, na noite em que se deu o
lançamento
da antologia “Poiesis”, que na terça-feira dia 16, sem hora
marcada, nós dois
realizaríamos a entrevista, na sede da embaixada do Brasil.
Carlos é uma pessoa atenta, principalmente se o assunto envolver
escritores filiados ao Portal CEN, estes, ele os conheci muito
bem através de
suas produções literárias. Afinal, “conhece-se o autor pela
obra”.
Eu, por minha vez, esperava de todo meu coração ter uma manhã
bastante agradável, para compensar o vexame do dia anterior.
Estava sendo
muito difícil recompor-me psicologicamente. Sentia algo assim,
como se eu
tivesse sido anestesiada, para posteriormente iniciar um
processo de
reconstrução pós-terremoto. O Carlos, logo percebeu a nuvem de
tristeza
que nublava minha alma, talvez, por isso, sua preocupação em
descontrair-me
e falando em tom de brincadeira: - Será que a mocinha está com
medo de
enfrentar a entrevista com Ilustríssimo Embaixador? Por não
querer falar do
assunto que tanto me entristecera, achei melhor, em mesmo tom e
com um
leve sorriso nos lábios, confirmar-lhe sua suposição. Mudamos de
assunto e
tocamos a campainha. Antes de abrir o portão, ouvimos alguém
perguntar
se eu era a escritora Vilma Matos. Somente, após minha
confirmação é que
o portão se abriu e um senhor, educadamente nos recebeu dizendo:
- O
Embaixador está a vossa espera. Indicou-nos uma escada, estilo
antigo, que nos
levava à secretaria. Aguardamos mais alguns segundos até a
senhora Joana,
secretária do Embaixador, receber-nos. Identifiquei-me e
apresentei o
Carlos Leite. Ela, gentilmente nos convidou a entrar,
indicou-nos uma
poltrona e pedindo licença se retirou para comunicar ao
Embaixador que
havíamos chegado.
Neste ínterim, verifiquei com o olhar todo o ambiente que,
apesar de
pouca claridade me pareceu agradável e bem aconchegante.
Sobrou-me
tempo para viajar pelo mundo ilusório criado pela minha
imaginação, ora
harmonizada, ora conturbada, por conta de fatos reais, ocorridos
nos
últimos dias. Ainda divagando, ouvi alguém dizer: - Vamos, sua
Excelência, o
Embaixador os aguarda.
Embora com a agenda bastante sobrecarregada, o Embaixador
atendeu-nos, em seu gabinete, tendo o cuidado de nos avisar que
dentro de
alguns minutos presidiária uma evocação ao “Dia do Marinheiro”,
em que
seria galhardeado o I Secretário da Embaixada, Sr. Marcelo.
Encontrava-se
também na sala o Almirante Max Justo Guedes e uma moça que a
identificamos como sua secretária. A conversa se desenvolveu a
cerca de
alguns episódios da História do Brasil.
Durante o tempo em que permanecemos na Embaixada, tivemos a
oportunidade de dialogar sobre assuntos variados, sendo que
estes, sempre
eram direcionados para os temas que envolviam personalidades
históricas
que dentro do contexto político contribuíram na construção do
Brasil e,
conseqüentemente para formação de sua História. Para quem sabe
apreciar,
esse era um tema bastante atraente e se não fosse outros
compromissos de
ambas as partes, ficaríamos o restante do dia ouvindo e falando
sobre a
formação do nosso povo e a Constituição do Brasil. Comentaram
também
sobre fatos relacionados com a Guerra do Paraguai, Inconfidência
Mineira,
D. Pedro I do Brasil (IV de Portugal), D. Pedro II entre outros.
Em seguida
entraram no recinto o Cônsul Geral do Brasil Dr. Sérgio Palazzo
acompanhado do Adido Militar, Almirante Girlano Santiago
Freitas.
Enquanto era aguardado o inicio da solenidade nos era servido um
requintado banquete histórico. Minutos depois, fomos conduzidos
até o
salão nobre, onde nos juntamos aos outros diplomatas e
convidados. Fiquei
atenta às conversas e movimentos. Algo me chamou a atenção,
todos eram
brasileiros, menos o Carlos.
Durante a solenidade houve tempo para evocar os nomes de Sérgio
Vieira de Mello - o brasileiro que era alto comissário para os
Direitos
Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU) e principal
representante da organização no Iraque do pós-guerra, em missão
diplomática, foi uma das vítimas da explosão que atingiu a sede
da ONU em
Bagdá, em 19 de agosto de 2003. Ele tinha 55 anos e era
considerado o
maior nome do Brasil na ONU, conhecido e respeitado
internacionalmente,
por seu trabalho em benefício das vítimas de conflitos violentos
em todas as
partes da terra. Foi também citado, o nome do presidente da
República do
Brasil – Luiz Inácio Lula da Silva. Na ocasião ouvimos a famosa
frase que
faz reverência ao parlamento brasileiro: “Como a própria
História do meu
País tem um compromisso inalterável com a paz, a guerra está
proibida na
Constituição do Brasil. Este princípio é uma constante da nossa
História. A
paz é um compromisso da Humanidade. Sua violação, no mais remoto
dos
territórios, afeta a todos os povos”. Outra frase citada,
naquela ocasião, foi a
do célebre Camões, um perene idealista atormentado: “Sim, o que
é
necessário combater hoje é o medo e o silêncio, juntamente com a
separação dos espíritos e das almas que eles acarretam. O que é
preciso
defender, é o diálogo e a comunicação universal dos homens uns
com os
outros. A servidão, a injustiça e a mentira são flagelos que
rompem essa
comunicação e, interdita esse diálogo. Por tudo isso, deve-se
repeli-los”.
No final da comemoração, voltamos ao gabinete do Embaixador,
onde nos concedeu mais alguns minutos para conclusão de nosso
trabalho e
sessão de fotos.
Quase todos os Embaixadores do Brasil em Lisboa, têm sido
pessoas muito
simpáticas, mas este, o Embaixador Antônio Paes de Andrade,
entrou no coração dos
portugueses. (Declaração – Jornalista português, Carlos Leite
Ribeiro).
Para finalizar este capítulo, registramos aqui os nossos
agradecimentos ao Dr. Antônio Paes de Andrade por sua
participação no
editorial “Fortaleza em Notícia”, a Senhora, Zildinha Andrade
que, no dia
13 de dezembro de 2003, honrou-nos com sua presença no Palácio
Galveias.
E assim, aconteceu, no dia 16 de dezembro de 2003, por volta das
dez
horas mais um encontro entre dois cearenses que, ousaram aportar
no
“Além Mar” para acrescentar mais um capítulo do livro de suas
vidas.
Ao retornar ao Brasil – Fortaleza – Ce, a TV Cidade Canal 08,
por
intermédia da Jornalista Mônica Serra Silveira realizou uma
entrevista, para
que eu falasse sobre a Virtualidade e sua Importância na
Literatura
Contemporânea. Enquanto que o jornal “O Povo,” (coluna Sônia
Pinheiro)
noticiou:
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