Sebo - Vilma Matos

Odisséia em Ulisséia

Encontro com o Astro Rei

No sétimo dia, o céu estava claro, pude apreciá-lo melhor, através da janela do meu quarto. O sol estava convidativo, isso me despertou o desejo intenso de conhecer um pouco mais a linda cidade milenar, berço de muitas histórias antigas, incluindo também a nossa.
Acordei com a mente iluminada por mil idéias acalentadoras, pela primeira vez, depois de ter recebido o trote me sentia mais segura, mais confiante. Teria que aproveitar essa onda, então, fui até o armário, escolhi uma saia e um casaco azul com detalhes branco, combinando com as botas.
Peguei minha bolsa, óculos escuros e desci para me entregar ao mundo da curiosidade. O sol parecia estar quente; mas logo constatei que não era o bastante para amenizar o frio, pois a temperatura estava a 7ºC. Fiquei decepcionada com o Astro Rei. Contudo não desisti, andei sem destino, em companhia do amigo sol. Durante horas permaneci perdida em meus devaneios. Já me sentia esgotada e o cansaço tomava conta do meu “amigo
corpo”. Certa que ia retornar ao hotel, quando ao longe avistei uma arquitetura de estilo moderno. Era o teatro aberto. Meus olhos se alegraram, queriam ver mais, afinal, ali era palco para grandes apresentações artísticas, isso muito me agrada. Naquela ocasião, não pude adentrá-lo, porque estava fechado ao público. Mesmo assim, gostei de ter conhecido sua parte externa, por isso, pedi a uma senhora que ia passando para tirar algumas fotos minhas, em frente ao teatro.

 

Visita ao Museu de Artes

Logo na entrada, fui abordada por um senhor que trabalhava no local, o mesmo, resumidamente me falou sobre o que estava sendo exposto e, se justificando, retirou-se, deixando-me totalmente à vontade para transitar pelas dependências do museu. Tinha um salão enorme, local reservado para exposição das obras de artes. No entanto, não tinha uma só pessoa que fizesse a demonstração das peças e falasse um pouco sobre os artistas.
Estranhei também a ausência de visitantes. “Não tinha uma viva alma!” Saindo dali, fui comprar alguns livros, na livraria que ficava dentro do próprio museu.
Envolvida com a leitura, as explanações dos vendedores e as conversas com os clientes, não percebi o tempo passar. Faminta, o “relógio biológico” me avisava que era hora do almoço, ao verificar no relógio de pulso, passava das treze horas. No museu ainda tinha muitas atrações a serem visitadas, deixei para outra oportunidade. Saindo dali, fui ao restaurante mais próximo e pedi um “a moda da casa”. Na livraria, alimentei meu espírito, agora teria que alimentar o corpo material. Depois do almoço fui a uma feira, onde os vendedores ambulantes sabiam seduzir os clientes e, com grande habilidade faziam demonstrações dos produtos. Pareceram-me bem treinados e, facilmente convenciam os clientes a gastarem seus Euros.
Voltei ao hotel às dezesseis horas e devido ao cansaço, dormi o restante da tarde. Acordei, somente às dezenove horas, achando que era outro dia. Sorri da minha confusão, tomei um banho para melhor acordar e fui ao restaurante do hotel tomar uma deliciosa “sopa de pedra” é o mesmo que chamamos aqui no Brasil “sopa de feijão”. Ao terminar, fui ao salão do hotel, onde alguns hospedes conversando e tomando drink's. Por não gostar de bebidas, procurei isolar-me, entregando-me à leitura do jornal do dia. Este trazia Igualmente os jornais brasileiros, em suas manchetes notícias trágicas e deprimentes. Cansei-me logo daquela leitura e resolvi voltar para o quarto, onde iniciei a leitura do livro “Uma Semana no Rio de Janeiro” de autoria do Carlos Leite Ribeiro. Uma obra escrita por uma pessoa que nunca tinha ido ao Rio de Janeiro, apenas o conhecia através de fotos e pesquisas na internet.

 

Rompimento

A mente temia
O descompasso do coração.
E tudo por conta
De uma confusão.
No peito
O pesar.
A alma em pranto soluçava
E gemia
Não aceitava o fato...
Quanta covardia!
No íntimo
A razão dizia:
Não tem mais jeito
É mesmo o fim
O vinculo acabou
O elo se partiu.

Visita ao Palácio

Acordei às sete horas, não tinha dormido bem, sentia uma forte dor de cabeça, parecia que tudo girava ao meu redor. Na hora do almoço, não sentia fome e me sentia febril. O dia anterior tinha sido muito proveitoso e até havia planejado uma visita ao palácio Galveias, para recordar os momentos de convívio, com os colaboradores CEN e demais convidados.
Rapidamente me vesti e “No estalar de dedos” eu já estava em frente ao Palácio. Alguém tocou delicadamente em meu ombro; olhei para o lado direito e depois para o esquerdo para me certificar de quem se tratava. Não vi ninguém. Arrepiei-me. Talvez fosse por causa do frio. Fiquei parada em frente ao palácio, mantendo certa distância. Queria vê-lo por um melhor ângulo. Acontece que, sem as luzes e o brilho da noite de 12 de dezembro, o local se tornava escuro e triste. Permaneci o tempo suficiente para fotografar a fachada. Entrando em seguida, pela porta principal e, mais uma vez, senti a presença de alguém. Será que eu estava sendo seguida? Quando eu olhava para os lados não via ninguém. Mas, quem estaria me seguindo e por quê? De qualquer forma não tinha importância, pois aquela presença me fazia bem, transmitia-me uma sensação de leveza e segurança. Não estava ficando louca, aquilo era real, apenas não tinha como visualizar a pessoa.
Confiante, entrei no palácio, falei com um rapaz que estava na recepção. Pedi-lhe permissão para fazer algumas fotos. Obtive seu consentimento, apenas me pediu para não ligar o flash, nem fazer barulho, por ser uma biblioteca (pública) e naquela hora tinha muita gente pesquisando. Meus olhos se depararam no busto, digo, estátua de D. João VI e comecei por fotografá-lo, em seguida olhei para minha direita e vi uma cadeira, parecia majestosa e convidativa. Posicionei minha câmara fotográfica para tirar uma foto. Lembro-me de ter regulado a maquina apenas uma vez, mas ao verificar o marcador vi que tinham sido duas, não entendi bem aquele fato. Ao entrar no salão, onde funcionava a biblioteca e local reservado para realização de eventos literários, confesso que fiquei um pouco sem jeito, temia fazer barulho. Hesitei e silenciosamente percorri com os olhos todo o ambiente e me afastei.
Ao sair do prédio, recebi das mãos do funcionário, a revista cultural de Lisboa e nela constava o evento que motivou minha ida a Portugal.
Agradeci a gentileza e me retirei. Já nas proximidades do restaurante japonês, novamente a sensação de estar sendo vigiada. Pensei: se eu fosse uma pessoa medrosa voltaria imediatamente para o hotel e me trancaria!
Hora do almoço, deveria ser breve, precisava retornar ao hotel, para descansar, mais tarde ia ao culto da Congregação Cristã em Portugal. Tratava-se de uma promessa que tinha feito ao Paulo e a Wanessa.
Era um restaurante chinês e apesar de ser tarde, ainda estava superlotado. Fui recepcionada pela proprietária, pelo menos foi o que me pareceu. Ela me conduziu a uma mesa próxima ao balcão, com lugares para duas pessoas, e perguntou:- “O que vocês desejam para entrada”? Embora tenha achado estranho o “vocês” lhe respondi: - pão passado ao alho. Então ela se virou para a outra cadeira e indagou: - E o senhor? Apressei-me para esclarecer a confusão. - Senhora, a quem pensa está se referindo? - Ao seu companheiro. É claro. - Que companheiro? Vim sozinha. Ela esboçou um "sorriso amarelo" e disse: - Desculpe-me, senhora, pensei que o cavalheiro estivesse consigo! Arregalei os olhos, não acreditava no que acabara de ouvir e insisti: - Senhora, por favor, não brinque comigo eu não sei de quem a senhora está falando. Ela mais uma vez me pediu desculpas e se retirou.
Busquei através das faculdades mediúnicas, identificar o amigo espiritual que há algum tempo vinha me acompanhando, pena que não consegui visualizá-lo. Após o almoço tomei um táxi e segui para o hotel. Estava tarde e ainda teria que aprontar-me para ir à igreja que ficava no Alto do Pina.

Alto do Pina

Com o passar do tempo, as antigas quintas do senhor Pina transformaram-se.
Agora, restam as lembranças das hortas e dos espaços abertos de outrora, ficou a Alameda D.Afonso Henriques da Fonte Luminosa.
O Alto do Pina era formado por um conjunto de quintas, outrora os grandes jardins da Capital. Verdadeiros exemplares da harmonia entre o Homem e a Natureza, propriedades das famílias abastadas de Lisboa, era nestes espaços privilegiados que trabalhava grande parte da população que residia na encosta Santa Apolónia. A maioria ganhava o seu sustento nas terras altas, as quais eram atravessadas por grandes artérias que ligavam a cidade ao interior. Eram propriedades do senhor Pina, uma família de Pina Manique, Intendente da polícia nos tempos de Marquês de Pombal e da rainha D. Maria l. Assim, o nome deste bairro deve-se, essencialmente, à população que baptizou as terras altas, por Alto do Pina. Esta era a zona escolhida para o lazer dos habitantes, nos dias de festas, domingos e feriados, que aproveitando a sombra das árvores, cantavam fados e modinhas, acompanhados à viola e à guitarra. Ao longo dos caminhos, ficavam os 'famosos retiros', locais de boémia, de apreciadores da 'boa mesa', da Literatura e do Fado. Estes eram tão apreciados pelo povo como pelos fidalgos residentes no Areeiro. Actualmente, este bairro representa grande parte da freguesia de São João e vai até à do Beato. Hoje, o Alto do Pina é um bairro de contrastes, onde se misturam arquitecturas da Lisboa de outros tempos com as deste fim de século, como por exemplo, as Olarias e a Fonte Monumental da Alameda D. Afonso Henriques.
Este lugar, ainda hoje é preferido pelos mais novos para brincarem e jogarem bola, e também pelos mais idosos que aproveitam a sombra para descansarem e jogarem cartas.

 

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