Ulisses

 Grego e Guerreiro

 

Trabalho e pesquisa de

 Carlos Leite Ribeiro

Setembro/2006

 

Ulisses (em grego Odusseus), personagem grego, rei lendário de Ítaca, filho de Laerte, pai de Telémaco e esposo de Penélope, um dos principais heróis do cerco de Tróia, onde se distinguiu pela sua prudência e sagacidade. O regresso de Ulisses à pátria constitui o trama de Odisseia.

 

Segundo uma lenda, Ulisses, nas suas viagens veio ao território ibérico do litoral Atlântico e fundou no Tejo uma cidade Ulissipo, hoje Lisboa.

 

“Lisboa ! Velha e nobre Ulisseia de um país tão pequeno e tão grande, simultaneamente !Das tuas sete colinas fala a história inteira. E sempre que em ti penso, vêm-me à lembrança os versos heróicos de um poeta quase desconhecido nos dias de hoje mas que no seu tempo foi muito grande: refiro-me a Gabriel Pereira de Castro, o autor de um glorioso poema épico, intitulado “Ulisseia ou Lisboa Edificada” (1955) que começa assim:

 

 

As armas e o varão que os mal seguros

Campos cortou do Egeu e do Oceano

Que por perigos e trabalhos duros

Eternizou seu nome soberano.

 

A Grã Lisboa e seus primeiros muros

(Da Europa e largo Império Lusitano

Auto cabeça) se eu pudesse tanto

A Pátria, ao Mundo, à Eternidade canto

 

Lembra-me, musa, as cousas e me inspira

Como por tantos mares o prudente

Grego, vencendo de Neptuno a ira

Chegou ao Tejo à túmida corrente;

 

Ouvirá o som da lusitana lira

O negro acaso e lúcido oriente

Se tu dás a ser a meu sujeito falto

Para que caiba em mim furor tão alto !

 

Aparece na Ilíada como diplomata e guerreiro lúcido, tão prudente quanto Aquiles e violento e arrebatado. É o autor do estratagema do cavalo de madeira, que marca toda a interpretação de sua figura de homem “dos mil ardis”. A Odisseia o mostra sob múltiplas luzes, Sófocles fez dele um cínico (Filoctete), Eurípides um demagogo (Hécuba o Ciclope), Platão o protótipo do mentiroso (Hípias menor), Shakespeare o modelo do político (Troilo e Créssida) e Giraudoux o ancestral de todos os embaixadores cépticos e indeferentes (A guerra de Tróia não acontecerá). Dante fê-lo chegar ao XXVl círculo do Inferno como ao termo de uma busca do desconhecido e do absoluto que ele teria compreendido durante toda sua vida.

 

Estima-se que a Ilíada (de Ílion, Tróia) e a Odisseia tenham aparecido, a primeira ao redor dos anos 750-725 a .C.; a segunda entre os anos de 743-713 a. C., ambas escritas pelo poeta cego Homero (que viveu no século 8 a.C.). Era uma história que transitava oralmente de geração em geração e preservada pelos aedos dos tempos arcaicos, até que finalmente mereceu a conversão à escrita. Enquanto uma, a Ilíada, celebra a guerra, a outra, a Odisseia, é um poema do mar, um grande épico sobre os assombros enfrentados pelos marinheiros gregos, sintetizados no mitológico Ulisses, em suas peripécias pelo mundo salgado. A Ilíada com 15.693 versos abrigados em 24 cantos, e a Odisseia com 12.110 contidos em 24 rapsódias, formam o mais extenso poema épico da língua ocidental e, além de educarem por séculos os gregos, foram o ponto referencial de toda a literatura ocidental que se seguiu deste então.

A Volta de Ulisses
Após vinte longos anos longe de casa, Ulisses emociona-se ao pisar novamente o solo de Ítaca. Um jovem pastor acolhe-o. Na verdade, sob esse disfarce oculta-se a deusa Atena, sua amiga, que lhe explica estar reinando muita desordem em toda a ilha.
Os habitantes acreditam que Ulisses morreu, e um grupo de jovens pôs na cabeça que é preciso substituí-lo no trono. Instalados no palácio de Ulisses como se estivessem em casa, acham que a rainha Penélope deve casar-se com um deles. Querem que Penélope escolha, mas, já há alguns anos, ela inventou um estratagema para evitar esse matrimónio. Prometeu tomar sua decisão quando completasse a tapeçaria que estava tecendo. Mas a cada noite, escondida, a rainha desmancha o que teceu durante o dia.
A deusa também conta a Ulisses que Telémaco, o filho do herói, partiu à procura do pai.
Depois, ela transforma Ulisses num velho mendigo, irreconhecível, e leva-o à casa de Eumeu, o guardador de porcos. Ulisses hospeda-se lá durante alguns dias, enquanto Atena procura Telémaco e o traz para junto do pai. É um momento de muita emoção para Ulisses, que deixou um bebé e reencontra um homem. Pai e filho abraçam-se e traçam um plano. Telémaco então volta ao palácio.
Na manhã seguinte, Ulisses, disfarçado em seus trajes de mendigo apresenta-se no palácio. Um velho cachorro que está deitado no pátio levanta-se e fareja Ulisses quando este se aproxima. O cheiro lhe é familiar, embora pouco distinto. De repente, o cão Argos reconhece Ulisses, o bondoso dono que não vê há tanto tempo. É alegria demais para o pobre animal: ele cai morto ali mesmo.
Ulisses enxuga uma lágrima e entra no palácio. Lá, os pretendentes bebem e banqueteiam-se. Acolhem o mendigo com zombarias e injúrias. Mesmo depois de receber uma pancada, Ulisses refreia sua cólera. Sofre em silêncio os insultos que lhe são dirigidos em sua própria casa. Euricléia, uma criada que foi sua ama-de-leite, aproxima-se dele para lavar-lhe os pés, como mandam as leis da hospitalidade. Graças a uma velha cicatriz, logo reconhece seu rei e está a ponto de dirigir-lhe a palavra, mas ele faz um sinal para que a criada se cale.
Ao amanhecer, Ulisses é despertado por barulhos estranhos: um choro no quarto de Penélope e gritos na sala em que os pretendentes, embriagados, planejam assassinar Telémaco.

 

 

 

 

Descobriram a artimanha de Penélope e resolveram obrigá-la a escolher um marido.
Fazem uma grande reunião na sala do trono. Altivamente, Penélope declara que só poderia casar-se com um homem tão valoroso quanto Ulisses. Ela propõe uma prova: ficará com aquele que for capaz de retesar o arco do herói e de fazer pontaria com tanta exactidão que a flecha atravesse os orifícios de doze lâminas de machado alinhadas. Os pretendentes precipitam-se, mas a prova é muito difícil. Nenhum deles consegue sequer retesar o arco.
Então, o repugnante mendigo pede que o deixem participar do concurso. É uma gargalhada só... Todo mundo ri das pretensões do pobre vagabundo. Imperturbável, Ulisses pega o arco, ajusta a flecha, retesa a sem esforço e atira. A flecha atravessa os doze círculos.
Ninguém mais acha graça.
Na mesma hora, Ulisses joga longe o disfarce e recupera a aparência normal. Telémaco e Eumeu aproximam-se, armados com dardo. Uma imensa tempestade abate-se sobre Ítaca bem no momento em que Ulisses, ajudado pelo filho, abate a flechadas todos os pretendente.
Penélope ainda hesita. Não consegue reconhecer seu marido, que ela não vê há vinte anos. Então, pede às criadas que preparem no sal de banquetes o leito de Ulisses, para ali dormir aquele que, a seu olhos, não passa de um mendigo.
Ulisses fica furioso. Construiu aquela cama com suas próprias mãos, e ninguém pode desmontá-la.
– Aliás – diz ele –, não há como tirá-la do lugar, pois uma das suas colunas é uma oliveira viva...
Por causa desse detalhe, do qual só ela e o marido sabiam, Penélope finalmente reconhece Ulisses. O herói está contentíssimo com a fidelidade da mulher e a valentia do filho. Depois de saborear alguns momentos de repouso ao lado deles, retoma seus encargos soberano. Devolve a calma e a prosperidade a Ítaca. Dali em diante se os deuses quiserem, Ulisses, Penélope e Telémaco viverão felizes e tranquilos.
Fonte: QUESNEL, Alain. A Grécia. Mitos e lendas.

 

A figura de Ulisses transcendeu o âmbito da mitologia grega e se converteu em símbolo da capacidade do homem para superar as adversidades. Segundo a versão tradicional, Ulisses (em grego, Odisseu) nasceu na ilha de Ítaca, filho do rei Laerte, que lhe legou o reino, e Anticléia. O jovem foi educado, como outros nobres, pelo Centauro Quirão e passou pelas provas iniciáticas para tornar-se rei. A vida de Ulisses é relatada nas duas epopeias homéricas, a Ilíada, em cuja estrutura coral ocupa lugar importante, e a Odisseia, da qual é o protagonista, bem como no vasto ciclo de lendas originadoras dessas obras. Depois de pretender sem sucesso a mão de Helena, cujo posterior rapto pelo tebano Páris desencadeou a guerra de Tróia, Ulisses casou-se com Penélope. A princípio resistiu a participar da expedição dos aqueus contra Tróia, mas acabou por empreender a viagem e se distinguiu no desenrolar da contenda pela valentia e prudência. A ele deveu-se, segundo relatos posteriores à Ilíada, o ardil do cavalo de madeira que permitiu aos gregos penetrar em Tróia e obter a vitória. Terminado o conflito, Ulisses iniciou o regresso a Ítaca, mas um temporal afastou-o com suas naves da frota. Começaram assim os vinte anos de aventuras pelo Mediterrâneo que constitui o argumento da Odisseia. Durante esse tempo, protegido por Atena e perseguido por Poséidon, cujo filho, o Ciclope Polifemo, o herói havia cegado, conheceu incontáveis lugares e personagens: a terra dos lotófagos, na África setentrional, e a dos lestrigões, no sul da Itália; as ilhas de Éolo; a feiticeira Circe; e o próprio Hades ou reino dos mortos. Ulisses perdeu todos os companheiros e sobreviveu graças a sua sagacidade. Retido vários anos pela ninfa Calipso, o herói pôde enfim retornar a Ítaca disfarçado de mendigo. Revelou sua identidade ao filho Telémaco e, depois de matar os pretendentes à mão de Penélope, recuperou o reino, momento em que conclui a Odisseia. Narrações posteriores fazem de Ulisses fundador de diversas cidades e relatam notícias contraditórias acerca de sua morte. No contexto da mitologia helénica, Ulisses corresponde ao modelo de marujo e comerciante do século VII a.C. Esse homem devia adaptar-se, pela astúcia e o bom senso, a um mundo cada vez mais complexo e em contínua mutação. A literatura ocidental perpetuou, como símbolo universal da honradez feminina, a fidelidade de Penélope ao marido, assim como achou em Ulisses e suas viagens inesgotável fonte de inspiração.

 

Neste trabalho falámos de:

 

 

Centauros

Na mitologia grega, os centauros eram a personificação das forças naturais desenfreadas, da devassidão e embriaguez. Centauro era um animal fabuloso, metade homem e metade cavalo, que habitavam as planícies da Arcádia e da Tessália. Seu mito foi, possivelmente, inspirado nas tribos semi-selvagens que viviam nas zonas mais agrestes da Grécia. Segundo a lenda, era filho de Ixíon, rei dos lápitas, e de Nefele, deusa das nuvens, ou então de Apolo e Hebe. Em ambos os casos parece clara a alusão às águas torrenciais e aos bosques. A história mitológica dos centauros está quase sempre associada a episódios de barbárie. Convidados para o casamento de Pirítoo, rei dos lápitas, os centauros, enlouquecidos pelo vinho, tentaram raptar a noiva, desencadeando-se ali uma terrível batalha. O episódio está retratado nos frisos do Pártenon e foi um motivo frequente nas obras de arte pagãs e renascentistas. Os centauros também teriam lutado contra Hércules, que os teria expulsado do cabo Mália. Nem todos os centauros apareciam caracterizados como seres selvagens. Um deles, Quirão, foi instrutor e professor de Aquiles, Heráclito, Jasão e outros heróis, entre os quais Esculápio. Entretanto, enquanto grupo, foram notórias personificações da violência, como se vê em Sófocles. Nos tempos helénicos se relacionavam frequentemente com Eros e Dionísio. As representações primitivas dos centauros os mostram como homens aos quais se acrescentava a metade posterior de um cavalo. Mais tarde, talvez para realçar seu carácter bestial, só o busto era humano. Foi esta a imagem que se transmitiu ao Renascimento.

 

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ILÍADA
A cólera de Aquiles, como se anuncia desde o primeiro verso, é o motivo central da Ilíada, epopeia do poeta grego Homero, que inicia a literatura narrativa ocidental. Relato de um dos episódios da guerra de Tróia, travada entre gregos e troianos, a acção da Ilíada se situa no nono ano depois do começo da guerra, a qual duraria um ano mais, e abarca no conjunto cerca de 51 dias. O título deriva de Ílion, nome grego de Tróia. O poema é constituído por 15.693 versos, em 24 cantos de extensão variável. A divisão em cantos foi feita pelos filólogos de Alexandria. A Ilíada narra um drama humano, o do herói Aquiles, filho da deusa Tétis e do mortal Peleu, rei de Ftia, na Tessália, em torno do fim da guerra dos gregos contra Tróia. Segundo a lenda, a guerra foi motivada pelo rapto de Helena, esposa do rei de Esparta, Menelau, por Páris, filho do rei Príamo, de Tróia. Agamenon, chefe dos exércitos gregos, arrebatara a Aquiles, o mais valoroso dos guerreiros gregos, sua cativa Briseide. Em protesto, Aquiles retirou-se para o acampamento com seus guerreiros, e recusou-se a entrar em combate. É nesse momento que tem início a Ilíada, com o verso "Canto, ó deusa, a cólera de Aquiles". Para apaziguar Aquiles, Agamenon envia-lhe mensageiros, com o pedido de que entre na luta. Aquiles recusa-se e Agamenon com seus homens entram no combate. Os troianos tomam de assalto as muralhas gregas e chegam até os navios. Aquiles concorda em emprestar a armadura a seu amigo Pátroclo, que repele os troianos mas é morto por Heitor. Cheio de dor pela morte do amigo, Aquiles esquece a divergência com os gregos e investe contra os troianos, vestido com uma armadura feita por Hefesto, deus das forjas. Consegue fazer recuar para dentro dos muros da cidade todos os troianos, menos Heitor, que o enfrenta, mas aterrorizado pela fúria de Aquiles, tenta fugir. Aquiles o persegue e finalmente atravessa-lhe com a lança a garganta, única parte descoberta de seu corpo. Agonizante, Heitor pede-lhe que não entregue seu cadáver aos cães e às aves de rapina, mas Aquiles nega piedade, e depois de atravessar sua garganta mais uma vez com a lança, ata-o pelos pés a seu carro e arrasta o cadáver em volta do túmulo de Pátroclo. Somente com a intervenção de Zeus, Aquiles aceita devolver o cadáver a Príamo, rei de Tróia e pai de Heitor. O poema termina com os funerais do herói troiano. Alguns dos personagens da Ilíada, em particular Aquiles, encarnam o ideal heróico grego: a busca da honra ao preço do sacrifício, se necessário; o valor altruísta; a força descomunal mas não monstruosa; o patriotismo de Heitor; a fiel amizade de Pátroclo; a compaixão de Aquiles por Príamo, que o levou a restituir o cadáver de seu filho Heitor. Nesse sentido, os heróis constituem um modelo, mas o poema mostra também suas fraquezas - paixões, egoísmo, orgulho, ódio desmedido. Toda a mitologia helénica, todo o Olimpo grego, com seus deuses, semideuses e deidades auxiliares, estão maravilhosamente descritos. Os deuses, que mostram vícios e virtudes humanas, intervêm constantemente no desenvolvimento da acção, alguns em favor dos aqueus, outros em apoio aos troianos. Zeus, o deus supremo do Olimpo, imparcial, intervém apenas quando o herói ultrapassa os limites, ao proporcionar o tenebroso espectáculo de passear à volta de Tróia arrastando o cadáver mutilado de Heitor. O poema encerra grande volume de dados e pormenores geográficos, históricos, folclóricos e filosóficos, e descreve com perfeição os modelos de conduta e os valores morais da sociedade do tempo em que foi escrita a obra. Uma questão muito discutida é o fundo histórico do ciclo da guerra de Tróia. Possivelmente, sua origem remonta a reminiscências da luta, travada antes da invasão dória, no século XII a.C., entre povos de cultura micénica, como os aqueus, e um estado da Anatólia, o de Tróia. É historicamente comprovada a existência de estabelecimentos micénicos na Anatólia, sem que se conheçam as causas possíveis da guerra. O mundo helénico a que se refere a Ilíada não parece circunscrever-se ao de uma época cronológica determinada. É muito provável que as lendas foram incorporando elementos de diferentes etapas da civilização, no curso de sua transmissão oral e até textual. Aponta-se, por exemplo, a descrição de armamentos e técnicas militares, e até rituais, correspondentes a diferentes períodos históricos, desde o micénico a aproximadamente meados do século VIII a.C. Salvo alguns prováveis acréscimos atenienses, nenhum dado ultrapassa esse período, o que reforça a tese de que o poema foi redigido nesse último período. A língua e o estilo homéricos foram em grande medida herdados da tradição épica. Por esse motivo, a língua, basicamente o dialeto jónico, com numerosos elementos eólios, é um tanto artificial e arcaizante, e não corresponde a nenhuma modalidade falada normalmente. A métrica empregada é o hexâmetro, verso tradicional na épica grega.

 

 

 

 

ODISSÉIA
Além de constituir, ao lado da Ilíada, obra iniciadora da literatura grega escrita, a Odisseia, de Homero, expressa com força e beleza a grandiosidade da remota civilização grega. A Odisseia data provavelmente do século VIII a.C., quando os gregos, depois de um longo período sem dispor de um sistema de escrita, adoptaram o alfabeto fenício. Na Odisseia ressoa ainda o eco da guerra de Tróia, narrada parcialmente na Ilíada. O título do poema provém do nome do protagonista, o grego Ulisses (Odisseu). Filho e sucessor de Laerte, rei de Ítaca e marido de Penélope, Ulisses é um dos heróis favoritos de Homero e já aparece na Ilíada como um homem perspicaz, bom conselheiro e bravo guerreiro. A Odisseia narra as viagens e aventuras de Ulisses em duas etapas: a primeira compreende os acontecimentos que, em nove episódios sucessivos, afastam o herói de casa, forçado pelas dificuldades criadas pelo deus Poséidon. A segunda consta de mais nove episódios, que descrevem sua volta ao lar sob a protecção da deusa Atena. É também desenvolvido um tema secundário, o da vida na casa de Ulisses durante sua ausência, e o esforço da família para trazê-lo de volta a Ítaca. A Odisseia compõe-se de 24 cantos em verso hexâmetro (seis sílabas), e a acção se inicia dez anos depois da guerra de Tróia, em que Ulisses lutara ao lado dos gregos. A ordem da narrativa é inversa: tem início pelo desfecho, a assembleia dos deuses, em que Zeus decide a volta de Ulisses ao lar. O relato é feito, de forma indirecta e em retrospectiva, pelo próprio herói aos feaces - povo mítico grego que habitava a ilha de Esquéria. Hábeis marinheiros, são eles que conduzem Ulisses a Ítaca. O poema estrutura-se em quatro partes: na primeira (cantos I a IV), intitulada "Assembleia dos deuses", Atena vai a Ítaca animar Telémaco, filho de Ulisses, na luta contra os pretendentes à mão de Penélope, sua mãe, que decide enviá-lo a Pilos e a Esparta em busca do pai. O herói porém encontra-se na ilha de Ogígia, prisioneiro da deusa Calipso. Na segunda parte, "Nova assembleia dos deuses", Calipso liberta Ulisses, por ordem de Zeus, que atendeu aos pedidos de Atena e enviou Hermes com a missão de comunicar a ordem. Livre do jugo de Calipso, que durou sete anos, Ulisses constrói uma jangada e parte, mas uma tempestade desencadeada por Poséidon lança-o na ilha dos feaces (canto V), onde é descoberto por Nausícaa, filha do rei Alcínoo. Bem recebido pelo rei (cantos VI a VIII), Ulisses mostra sua força e destreza em competições desportivas que se seguem a um banquete. Na terceira parte, "Narração de Ulisses" (cantos IX a XII), o herói passa a contar a Alcínoo as aventuras que viveu desde a saída de Tróia: sua estada no país dos Cícones, dos Lotófagos e dos Ciclopes; a luta com o ciclope Polifemo; o episódio na ilha de Éolo, rei dos ventos, onde seus companheiros provocam uma violenta tempestade, que os arroja ao país dos canibais, ao abrirem os odres em que estão presos todos os ventos; o encontro com a feiticeira Circe, que transforma os companheiros em porcos; sua passagem pelo país dos mortos, onde reencontra a mãe e personagens da guerra de Tróia. Na quarta parte, "Viagem de retorno", o herói volta à Ítaca, reconduzido pelos feaces (canto XIII). Apesar do disfarce de mendigo, dado por Atena, Ulisses é reconhecido pelo filho, Telêmaco, e por sua fiel ama Euricléia, que, ao lavar-lhe os pés, o identifica por uma cicatriz. Assediada por inúmeros pretendentes, Penélope promete desposar aquele que conseguir retesar o arco de Ulisses, de maneira que a flecha atravesse 12 machados. Só Ulisses o consegue. O herói despoja-se em seguida dos andrajos e faz-se reconhecer por Penélope e Laerte. Segue-se a vingança de Ulisses (cantos XIV a XXIV): as almas dos pretendentes são arrastadas aos infernos por Hermes e a história termina quando Atena impõe uma plena reconciliação durante o combate entre Ulisses e os familiares dos mortos. A concepção do poema é predominantemente dramática e o carácter de Ulisses, marcado por obstinação, lealdade e perseverança em seus propósitos, funciona como elemento de unificação que permeia toda a obra. Aí aparecem fundidas ou combinadas uma série de lendas pertencentes a uma antiquíssima tradição oral com fundo histórico. Há forte crença de que a Odisseia reúna temas oriundos da época em que os gregos exploravam e colonizavam o Mediterrâneo ocidental, daí a presença de mitos com seres monstruosos no Ocidente, para eles ainda misterioso. Pela extrema perfeição de seu todo, esse poema tem encantado o homem de todas as épocas e lugares. É consenso na era moderna que a Odisseia completa a Ilíada como retrato da civilização grega, e as duas juntas testemunham o génio de Homero e estão entre os pontos mais altos atingidos pela poesia universal.

 

 

TRÓIA
A Ilíada, um dos épicos de Homero, narra a guerra que causou a destruição da Tróia lendária. A Tróia histórica constitui um dos mais ricos e extensos sítios arqueológicos do mundo antigo. Tróia é uma cidade proto-histórica, actualmente identificada com uma das nove cidades superpostas descobertas na colina Hissarlik, na Turquia. Foi erguida por colonos gregos, por volta do ano 700 a.C., no estreito de Dardanelos, no extremo noroeste da Anatólia, um local que já havia sido ocupado por sucessivas populações pré-helénicas. A lenda do conflito entre aqueus e troianos pela posse da cidade forneceu o argumento da Ilíada e obras posteriores. Entre 1870 e 1890, Heinrich Schliemann identificou o local da antiga Tróia na colina de Hissarlik, e ali descobriu sete cidades superpostas, destruídas por guerras ou catástrofes. Wilhelm Dörpfeld, que o auxiliava desde 1882, prosseguiu as escavações e identificou restos de mais duas cidades. Os estudos que o americano Carl William Blegen realizou entre 1932 e 1938 confirmaram a existência das nove cidades. Tróia I, o estrato mais antigo, data de 3000 a 2600 a.C., primeira fase do bronze antigo. É um pequeno recinto fortificado com menos de cinqüenta metros na parte mais larga. Tróia II, ainda bem pequena e fortificada, tinha cem metros de extensão máxima. Seria mais um castelo simples, porém rico, destruído pelo fogo por volta de 2300 a.C. Nesse estrato descobriu-se jóias e objectos preciosos que Schliemann, acreditando que se tratava da Tróia homérica, denominou tesouro de Príamo. Tróia III, IV e V foram cidades de importância local que existiram no período de 2300 a 1900 a.C., quando terminou o bronze antigo. Tróia VI, bem mais importante e rica, surgiu pouco antes de 1725 a.C. e foi destruída por um terremoto em aproximadamente 1275 a.C. De suas ruínas ergueu-se Tróia VII-  a verdadeira Tróia épica, destruída por volta de 1200 a.C. Tróia VIII é da época clássica da Grécia e Tróia IX pertence ao período helenístico-romano, quando Alexandre nela fez um sacrifício dedicado a Aquiles, de quem julgava descendente. No século IV d.C., desapareceram completamente os vestígios históricos da cidade. Páris, filho do rei Príamo de Tróia, raptara Helena, esposa de Menelau, rei de Esparta e famosa por sua beleza. Para se vingar, Menelau formou um poderoso exército comandado por Agamenon e no qual se destacaram Aquiles e Ulisses. O cerco de Tróia, de dez anos, foi marcado por feitos heróicos de ambos os lados, até que, sob inspiração de Ulisses, os gregos construíram um gigantesco cavalo de madeira e o abandonaram perto das portas de Tróia, fingindo uma retirada. Apesar dos presságios de Cassandra, os troianos levaram para dentro da cidade o cavalo, que trazia em seu interior os guerreiros de Ulisses. Abertas as portas, os gregos saquearam e destruíram Tróia. O herói troiano Enéias, filho de Vénus, escapou com alguns partidários e, depois de muitas aventuras, se instalou no Lácio. Os descendentes desse grupo deram origem ao povo romano. É quase certo que a lenda tenha um núcleo de verdade, mas é impossível provar-lhe a historicidade. Uma interpretação de documentos hititas, feita em 1957, favoreceu a hipótese de que os aqueus fossem um povo pré-helénico originário da Europa. Na época de Tróia VI, os aqueus, a partir da região, teriam se espalhado pelo Egeu e formado colónias de micenianos, de onde mais tarde saíram conquistadores de Tróia VII-a. As frequentes migrações de povos nessa época, no entanto, não permitem comprovar a hipótese.

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ATENA
Embora a mitologia lhe reservasse várias atribuições, em todas elas Atena personificava a serenidade e a sabedoria características do espírito grego. Zeus, segundo a Mitologia Grega, para evitar o cumprimento de uma profecia, engoliu sua amante grávida, a Oceânide Métis. Depois ordenou a Hefesto que lhe abrisse a cabeça com um golpe de machado e dela nasceu Atena, já armada. Acredita-se que ela era originalmente a deusa-serpente cretense, protectora do lar. Adoptada pelos micénicos belicosos, seu carácter tutelar completou-se com o de guerreira. Finalmente, transformou-se na deusa protectora de Atenas e outras cidades da Ática. Como todos os deuses do Olimpo, Atena tinha um carácter dual: simbolizava a guerra justa e possuía uma disposição pacífica, representando a preponderância da razão e do espírito sobre o impulso irracional. Em Atena residia a alma da cidade e a garantia de sua protecção. Na tragédia Euménides, Ésquilo deu expressão acabada à figura sábia e prudente de Atena, atribuindo-lhe a fundação do Areópago, conselho de Atenas. O mito afirma que Atena inventou a roda do oleiro e o esquadro empregado por carpinteiros e pedreiros. As artes metalúrgicas e os trabalhos femininos estavam sob sua protecção; o culto a Atena se baseava no amor ao trabalho e à cidade. Seu principal templo, o Pártenon, ficava em Atenas, onde anualmente celebravam-se em sua honra as Panatenéias e davam-lhe o nome de Atena Partênia. Foi representada por Fídias na célebre estátua do Pártenon, de que se conserva uma cópia romana do século II da era cristã. Os relevos desse templo apresentam sua imagem guerreira, com capacete, lança, escudo e couraça. Os romanos assimilaram-na à deusa Minerva (que, com Juno e Júpiter, compunha a tríade capitolina) e acentuaram ainda mais seu carácter espiritual, como símbolo da justiça, trabalho e inteligência.

 

 

POSÉIDON
As tempestades que, segundo Homero, Poséidon provocou para evitar que Ulisses (Odisseu), que o ofendera, retornasse à pátria, são um exemplo característico do temperamento irado que a Mitologia Grega atribuía a esse deus. Poséidon (ou Posídon), deus grego dos mares, era filho de Cronos, deus do tempo, e Réia, deusa da fertilidade. Eram seus irmãos Zeus, o principal deus do panteão grego, e Hades, deus dos infernos. Quando os três irmãos depuseram o pai e partilharam entre si o mundo, coube a Poséidon o reino das águas. Seu palácio situava-se no fundo do Mar Egeu e sua arma era o tridente, com que provocava maremotos, tremores de terra e fazia brotar água do solo. Pai de Pégaso, o cavalo alado gerado por Medusa, esteve sempre associado aos equinos e por isso se admite que tenha chegado à Grécia como deus dos antigos helenos, que também levaram à região os primeiros cavalos. O temperamento impetuoso de Poséidon, cuja esposa era Anfitrite, conduziu-o a numerosos amores. Como pai de Pélias e Nereu, gerados pela princesa Tiro, era o ancestral divino das casas reais de Tessália e Messénia. Seus outros filhos eram, na maioria, seres gigantescos e de natureza selvagem, como Órion, Anteu e o Ciclope Polifemo. Embora tenha perdido uma disputa com Atena pela soberania da Ática, foi também cultivado ali. Em sua honra celebravam-se os Jogos Ístmicos, constituídos de competições atléticas e torneios de música e poesia, realizados a cada dois anos no istmo de Corinto. Os artistas plásticos acentuaram a ligação de Poséidon com o mar e representaram-no como um homem forte, de barbas brancas, com um tridente na mão e acompanhado de golfinhos e outros animais marinhos. A Mitologia Romana identificou-o com o deus Neptuno.

 

 

 

 

CICLOPES
A construção das colossais muralhas das antigas cidades micénicas foi uma das muitas façanhas atribuídas aos ciclopes pela mitologia grega. Segundo as lendas e obras épicas da antiga Grécia, os ciclopes eram gigantes monstruosos, de força descomunal, que possuíam apenas um olho no meio da testa. Para Hesíodo os ciclopes eram três, filhos de Urano, o céu, e de Gaia, a terra. Chamados Brontes, Estéropes e Arges, forjaram os raios para Zeus e o ajudaram a derrotar seu pai, Cronos. Homero os descreveu na Odisseia como filhos de Poséidon, deus das águas, pertencentes a uma raça de pastores selvagens que habitavam a longínqua ilha de Trinacria, provavelmente a Sicília. Para escapar com vida da fúria dos monstros, Ulisses cegou seu chefe, Polifemo. Outros autores, inspirados em Hesíodo, relatam que os ciclopes trabalharam como ferreiros para Hefesto. Habitavam o monte Etna e as profundezas vulcânicas e realizaram importantes trabalhos para os deuses, como o capacete de Hades e o tridente de Poséidon. Também se atribuía a eles o controle dos fenómenos atmosféricos, a erupção dos vulcões e a edificação de construções gigantescas irrealizáveis por homens comuns. Segundo uma das lendas, foram todos mortos por Apolo. São frequentes as representações desses personagens míticos nos vasos e baixos-relevos antigos; nas pinturas de Pompeia, são representados com os raios próprios dos deuses.

 

 

 

ÉOLO
A mitologia grega apresenta três personagens com o mesmo nome de Éolo, cujas tradições se confundem, o que acarreta certa confusão para essa figura. Um dos heróis com o nome de Éolo é o rei mítico da Magnésia, na Tessália, filho de Helena e pai de Sísifo. Foi o ancestral dos eólios e deu nome à terra em que viviam, a Eólia, na costa oeste da Anatólia. Seus filhos Cânace e Macareu cometeram incesto e depois se suicidaram. A história deles serviu de tema à tragédia Éolo, de Eurípides, que se perdeu. O segundo personagem de nome Éolo é neto do mesmo rei da Magnésia e filho do deus Poséidon com Melanipe. Quando esta deu à luz gêmeos, seu pai mandou cegá-la, prendeu-a num calabouço e expôs as crianças à intempérie. Teano, esposa do rei da Icária, ameaçada de abandono pelo marido por não conceber, acolheu os dois, mas pouco depois deu também à luz gêmeos. Mais tarde, sugeriu aos filhos legítimos que matassem Éolo e Beoto, mas como estes eram filhos de um deus, levaram a melhor e mataram os filhos de Teano. O rei, que preferia os adoptivos, soube da verdadeira história, mandou matar Teano e casou-se com Melanipe. Homero, na Odisseia, fala de um Éolo, filho de Poséidon. Rei dos ventos, acolheu Ulisses em sua ilha e deu-lhe um odre, em que guardava os ventos adversos. Em liberdade ficou apenas Zéfiro, que soprava suavemente sobre as velas das naus. Enquanto Ulisses dormia, seus companheiros, à procura de vinho e de ouro, abriram o odre e desencadearam uma tormenta que acabou por devolvê-los à Eólia. Esse episódio levou Éolo a pensar que os deuses perseguiam Ulisses e seus companheiros e, por isso, negara-lhes ajuda para prosseguir viagem.

 

 

 

 

HADES
As escassas referências a Hades nas lendas gregas, em comparação com os outros grandes deuses, revelam o temor que essa divindade infundia ao povo. Hades era filho de Cronos e de Réia, irmão de Zeus e de Poseidon. Destronado Cronos, coube a Hades o mundo subterrâneo, na partilha que os três irmãos fizeram entre si. Reinava, em companhia de sua esposa Perséfone, sobre as forças infernais e sobre os mortos, no que frequentemente se denominava "a morada de Hades" ou apenas Hades. Embora supervisionasse o julgamento e a punição dos condenados após a morte, Hades não era um dos juízes nem torturava pessoalmente os culpados, tarefa que cabia às Erínias. Era descrito como austero e impiedoso, insensível a preces ou sacrifícios, intimidativo e distante. Invocava-se Hades geralmente por meio de eufemismos, como Clímeno (o Ilustre) ou Eubuleu (o que dá bons conselhos). Seu nome significa, em grego, "o invisível", e era geralmente representado com o capacete que lhe dava essa faculdade. O nome Plutão ("o rico" ou "o distribuidor de riqueza"), que se tornou corrente na religião romana, era também empregado pelos gregos.

 

 

 

 

Helena de Tróia

Na mitologia grega, Helena de Tróia era filha de Zeus e de Leda, irmã gémea da rainha Clitemnestra, irmã de Castor e Pólux, esposa do rei Menelau, com a reputação de mulher mais bela do mundo. O seu rapto feito pelo príncipe troiano Páris desencadeou uma guerra. Após este acontecimento, foi perdoada pelo marido, e levada de volta para Argos, seu reino. Após a morte de Melenau, foi expulsa do reino pelo seu própio filho, Nicostrato. Foi morar com a rainha Polixo, uma amiga. Certa vez, após tomar banho, foi morta enforcada pela serva da rainha, que estava com ódio mortal de Helena, pois havia perdido seu marido na guerra.

Helena era filha de Zeus e Leda. Helena casou com Menelau, rei de Esparta, e na época que Páris veio visitá-los tinham uma filha, Hermíone. Menelau recebeu Páris muito bem em sua casa, mas Páris pagou esta hospitalidade raptando Helena e fugindo com ela de volta a Tróia. A participação de Helena nesta situação é explicada de várias maneiras: foi raptada contra a sua vontade, ou Afrodite deixou-a louca de desejo por Páris ou, a mais elaborada de todas, nunca foi para Tróia, e foi por causa de um fantasma que os gregos gastaram dez longos anos em guerra.
Menelau, marido de Helena convocou todos que podia para ajudá-lo a montar uma expedição contra Tróia, de modo a recobrar sua esposa. O líder da força grega era Agamenon, rei de Micenas e irmão mais velho de Menelau. Os heróis gregos afluíram de todos os cantos do continente e das ilhas para o porto de Áulis, o ponto de reunião a partir do qual planejavam velejar através do Egeu até Tróia.

 

 

 

 

Cavalo de Tróia
De acordo com a lenda associada à conquista de Tróia pela Grécia, na chamada Guerra de Tróia, um grande cavalo de madeira foi abandonado junto às muralhas de Tróia. Construído de madeira e oco em seu interior, o cavalo abrigava alguns soldados gregos dentro de sua barriga. Deixado na porta da cidade pelos gregos, os Troianos acreditaram que ele seria um presente como sinal de rendição do exército. Após a morte de Lacoonte, um grego que atirou um dardo no cavalo, o presente entrou na cidade.
Durante a noite, os guerreiros deixaram o artefacto, abriram os portões da cidade. O exército grego pôde assim entrar sem esforço em Tróia, tomar a fortaleza, destruí-la e incendiá-la.
O cavalo de Tróia teria sido uma invenção de Odisseu (o guerreiro mais sagaz da Ilíada e personagem da Odisseia) e construído por Epeu.
Apesar de ser parte da história da Guerra de Tróia, o cavalo de Tróia só é descrito em detalhes na Eneida, obra da literatura latina que conta a fundação de Roma.

Após mais uma refrega, gregos e troianos estão esfalfados, desorientados e desanimados e voltam para suas bases – uns, para o acampamento; os outros, para a cidade. Depois da morte de Heitor e Aquiles, os dois lados estão num impasse.
No lado grego, a exaustão faz-se sentir amargamente. São dez anos desde que deixaram a pátria para reaver Helena, mas, apesar de todas as mortes e sofrimentos, Tróia continua inconquistável. Esquecendo o antigo entusiasmo, os mais cansados já falam em voltar para casa. É mais que hora de fazer alguma coisa, e, se a força não consegue derrotar Príamo, talvez a astúcia seja a solução.
Pelo menos, essa é a convicção de Ulisses. Pacientemente, ele arquitecta um plano e, debaixo do maior segredo, o propõe ao rei Agamenon. Este ouve-o com atenção, dá alguns palpites e resolve aceitar a proposta de Ulisses.
Algum tempo mais tarde, enquanto todos os aqueus dormem; um homem esgueira-se entre as tendas e escapa da vigilância das sentinelas. Muito ferido, deixa o acampamento e, mancando, dirige-se a Tróia. Ao chegar às portas da cidade, faz tanta algazarra que os vigias, apesar de desconfiados, acabam abrindo-as. O desconhecido conta sua história:
– Eu me chamo Sínon e era prisioneiro dos gregos. O esperto Ulisses e Agamenon reduziram-me ao lamentável estado em que me encontro. Mas consegui fugir e suplico que me dêem asilo.
O homem é levado a Príamo, o qual, após ouvi-lo, resolve oferecer-lhe a hospitalidade e os cuidados de que necessita. O velho e sábio soberano de Tróia nem desconfia de que Sínon, primo de Ulisses, é um espião e está ali para destruir a cidade.
De manhã, do alto das muralhas os habitantes de Tróia descobrem um espetáculo assombroso: as tendas e os navios gregos desapareceram. Até onde a vista alcança, não há mais nenhum vestígio da presença dos aqueus. No entanto, diante da maior porta da cidade ergue-se um cavalo de madeira. Que significa uma coisa dessas?
Mandam buscar Sínon, na esperança de que ele possa explicar aquela situação esquisita. O espião engana-as dizendo que os gregos, cansados de lutar inutilmente, voltaram a sua terra. O cavalo seria apenas um meio de tentar garantir sua segurança durante a viagem marítima – enquanto ele ficar fora da cidade, os aqueus serão poupados pelas tempestades. Se, porém, o cavalo entrar em Tróia, toda a frota grega naufragará.
Os troianos dão gritos de alegria. Vão enfim poder vingar-se daqueles que os fizeram sofrer durante dez anos. Abrem os pesados portões e apressam-se em trazer para dentro o cavalo.
Cassandra, filha de Príamo, tem o dom de ler o futuro. Ela prediz que, se os troianos tomarem o cavalo, então as piores catástrofes ocorrerão. Mas suas advertências são motivo de descrédito de zombaria.
Os troianos começam a trabalhar, uns empurrando e outros puxando o animal. Ao fim de muito esforço, o colossal cavalo chega dentro da cidade, diante do templo de Atena.
Quando a noite cai, os súditos de Príamo, serenos, vão dormir. Enquanto descansam, abre-se no ventre do cavalo um alçapão habilmente escondido. Do corpo oco do bicho saem uns dez guerreiros. Acompanhados de Sínon, vão à entrada de Tróia, livram-se sentinelas e abrem as portas. Armados da cabeça aos pés, os aqueus penetram na cidade. O plano de Ulisses é um sucesso: a partida dos gregos era uma farsa, e os navios voltaram com a escuridão.
Os gregos lançam-se sobre os adormecidos troianos. É uma carnificina. O velho Príamo e seus filhos são passados pelo fio da espada. Resistir é impossível, pois os troianos nem ao menos conseguem reunir-se para enfrentar o inimigo.
No palácio de Príamo, o príncipe Enéias cai da cama. Acaba de ter um pesadelo enviado por sua mãe, a deusa Afrodite. Ainda mal desperto, dirige-se ao terraço, onde vê que o sonho era realidade: um gigantesco incêndio devasta Tróia.
Recuperando o sangue-frio, Enéias reúne alguns troianos apavorados. Segura pela mão o filho, Ascânio, e carrega nas costas Anquises, seu velho pai. Evitando os lugares onde há lutas, o pequeno grupo consegue fugir, escapando à morte.
Enquanto isso, os gregos tornam-se senhores de Tróia e não deixam vivo um só homem. As mulheres e as crianças passam a ser escravas dos vencedores. Quando amanhece, a cidade antes gloriosa, está reduzida a um monte de cinzas e escombros.
No meio de toda essa desolação, um homem está no auge da felicidade: Menelau. Finalmente recuperou Helena! Ela, a causadora de todo esse horror, entra no navio do marido sem nem ao menos lançar um olhar para as troianas em lágrimas, sem nem pensar em Páris um segundo sequer...
O antigo pastor do monte Ida, morto no decorrer da guerra, sem querer acabou cumprindo a profecia: causou a completa destruição de sua cidade.
Fonte: QUESNEL, Alain. A Grécia. Mitos e lendas.

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Trabalho e Pesquisa de Carlos Leite Ribeiro – Marinha Grande – Portugal

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