ESPLANADA DOS PROSADORES -

JUNHO DE 2010

Participação de Vários Autores

Arte Final: Iara Melo

 

 

 

 

A ESPERA DO SOL...
 
 


Ilda Maria Costa Brasil
 

Há cinco anos, Lúcia espera ver o sol brilhar novamente. Após o parto, teve sua bebê roubada. O tempo passa e a sua dor se intensifica. Seus dias são todos iguais: delegacia de menor; conselho tutelar e jornais.
Em casa, mantém-se sentada ao lado do telefone na esperança que esse toque e lhe traga uma boa notícia. Às vezes, pensa em retorna à Universidade, mas desiste; seus sonhos estão enfraquecidos.
Certa ocasião, ela e o marido viajaram para o Chile. Um casal havia ligado, afirmando saber o paradeiro da menina. Chegando lá, a neném nada tinha a ver com eles, era oriental. Infelizmente, recebiam, com frequência trotes; as pessoas não aprenderam a respeitar o sofrimento dos outros.
Retornaram muito tristes para casa. Ao olhar as fotos do parto, enchia-se de esperanças. O companheirismo e o apoio de colegas, amigos e familiares os fortaleciam e faziam-nos acreditar que, muito em breve, o sol voltará a iluminar suas vidas.

 
 
***
 

FINDO O BURBURINHO...

Ilda Maria Costa Brasil

 
Exausta, só pensava em chegar em casa e descansar em paz.
Sonho... Utopia... Mal dobrara a esquina da São Francisco, ouvi o infernal burburinho do 304.
A altura do volume é tamanha que não é possível ouvir claramente um noticiário ou concentrar-me no trabalho.
Passado algum tempo, procurei a síndica do prédio e reclamei. Essa me disse que não estava aguentando mais. Após conversarmos, fomos ao dito apartamento. A porta estava aberta e a moradora, deitada no sofá, dormia profundamente.
Enraivecida, desliguei o aparelho e toquei na campanhia. Dona Clara, ao acordar e nos ver paradas na porta, disse:
“– Como estava tudo tão calmo, tirei uma soneca.”
A síndica e eu olhamo-nos e, possessas, descemos as escadas.
Findo o burburinho, finda a nossa paciência.
 
 
 
 
 
 
 
 
SHALON
 
 

 


Juraci da Silva Martins
 

Paz, uma palavra tão propagada por séculos e mais séculos, agora parece vir à tona, com maior ênfase. Ressoa por todos os recantos, em todos os idiomas que possam existir. Muito já se tem dito e escrito sobre a “Paz”. São muitas as definições. Algumas, dentre elas, parecem ter mais lógica como a que diz: “A paz é um estado de espírito satisfeito, uma consciência tranquila que, mesmo em meio a um mundo conturbado pela violência, não se deixa afetar, sem, no entanto, deixar de se comprometer pela causa da justiça que produz tal fruto. Descobri nas páginas de um livro, cujo autor não gravei na memória, algo muito importante em referência a Paz. Diz o autor: “A paz é plenitude de vida, de alegria, de prosperidade, que brota de duas condições: a integridade moral da pessoa e a prática da justiça.” Esta palavra PAZ” tem seu significado; vem do hebraico “Shalon” e ela representa a paz, que é fruto da justiça para com Deus e os homens. Foram muitos os profetas do Antigo Testamento, entre eles: Isaías, Jeremias, Miquéias que tinham a visão do elo entre paz e justiça. (A paz verdadeira é obra da justiça, diz o profeta Isaías, e fazia destaque ao seu perfil ético-social: a paz deve se realizar mediante o empenho contínuo, perseverante de cada pessoa no âmbito da sociedade como um todo.)
 

 
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REFAZER É PRECISO

Juraci da Silva Martins

 
Um novo dia é sempre um novo dia, um recomeçar, quase sempre traz consigo um novo alento, uma nova esperança. A vida é um processo, bem o sabemos. A cada momento somam-se os efeitos e os defeitos. É o seguimento da história; ora com fatos marcantes, ora rotineiros. Isso somente analisando o nosso espaço, a comunidade em que vivemos ou talvez um pouco mais longe de nossos horizontes. E é, na precariedade em que vivemos que se processa toda a realidade que interage no nosso dia-a-dia.
Somos, sem dúvidas, os semeadores dessas realidades...
Uma realidade pode ser boa ou má para todos ou serve bem para alguns e dificulta o bem estar de outros. São chamadas de realidades injustas, por que inclui e exclui, proporcionando desníveis não aceitáveis, sentimentos de culpa e uma série de questionamentos. Como seria bom se todos se ocupassem em semear a paz como fruto da justiça e, com certeza, a ceara do amor encheria de colorido a vida de cada ser. Sabemos que por muitos séculos o nosso maravilhoso planeta terra vem sofrendo as agressões, motivadas pela inconsciência humana, ou descaso quanto a sua conservação. Hoje, o homem arregala os olhos ao perceber que certos fatos são irreversíveis. Então, começa em disparada na busca de concertos para o que foi estragado, entre eles, a queima do ozônio, e, consequentemente, o rápido aquecimento global...
O planeta terra vem, há bastante tempo, pedindo socorro ante o desmatamento, as queimadas, os venenos agrícolas, as tecnologias e experiências que não sabemos no que vai dar... Parece que escrever esta página é “chover no molhado”, ditado muito usado quando se repete assuntos já conhecidos de tantos. Mas o fiz tomando como princípio o velho adágio: “Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura”. Quem sabe alguém vai ajuntar-se comigo nessa empreitada.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Einstein - uma história real
 
 

 


Lígia Antunes Leivas


       Primeiro de abril de 2010. No folclore, reconhecidamente dia "dos bobos", quando alguns 'pregam peças' para 'curtir' não só a tradição, mas o gosto de 'tirar sarro' da cara dos outros. Mas para nós não seria bem assim...
       Outono no hemisfério austral. Chegando mansamente, temperatura tépida. No céu ainda a presença da lua cheia. Linda!
       Duas horas da madrugada. Na casa dormem tarde... costume, gosto pela noite, pela madrugada e seus mistérios, sua magia exercida sobre o invisível de cada um de nós.
       O cão fareja alguma coisa e vai para a rua quando o portão se abre e chega, de longa viagem, seu dono e amigo especial, sempre a lhe fazer festa desde o dia do nascimento da 'ninhada' que viera farta: seis cãezinhos. Todos foram doados, mas ele, esqueirando-se daqui e dali, acabou ficando 'de lembrança'... todo branquinho, sempre escolhendo retirar-se para um canto qualquer da casa, ele ganhou o nome de "Sossó' - pela individualidade e a pouca vontade de  se juntar aos demais. Enfim, foram-se todos. Menos Sossó. Talvez um lance do destino, tendo em vista o que viria a ocorrer posteriormente.
     Nascido em 10 de fevereiro de 2001, lá pelo dia 8 de março começou a dar sinais de algum mal, imediatamente diagnosticado: cinomose. Sim, o cãozinho estava com os dias contados. A luta foi ingente, mesclada com perda de esperanças e denodo férreo!!! Eis que no dia 24 de abril daquele ano (2001), após a própria clínica veterinária ter sentenciado a 'condenação' do animalzinho, ele - muito devagarinho -se dirige às tigelas sempre expostas ao seu cambaleante andar e prejudicado faro e come o que ali fora servido e bebe a água com soro no outro recipiente: estava SALVO!!!
      
       Nove anos se passaram.
       "Sossó" cresceu escabelado, com pelo muito branco e farto. Todo ele inteiramente branco! Vira-latas albino. Mas não só... super inteligente!!! De "Sossó" passou a chamar-se EINSTEIN! Uma bela homenagem ao genial cientista... também pudera: Einstein abre até portas com maçanetas sextavadas!!! E sempre com os pelos arrepiados!!!     

      ...então... 1º de abril de 2010. Einstein na rua passeando por perto. Voltaria, como em outras noites já ocorrera.
       3h da madrugada, 4 h... nada. Cadê o Eisntein???
       Ninguém sabia... nem nós, nem os guardas da volta, nem a vizinha que tivera o cuidado de telefonar para avisar que o tinha visto entrando no pátio do colégio das redondezas. PERDERA-SE!
      Na mesma noite começamos as buscas. Por todos os cantos possíveis e imagináveis. Nada. Já no início da manhã, divulgação pelo rádio, pelos jornais, pela internet, entre os amigos. Assim foram os doze dias seguintes. Orações, pedidos, buscas. Esperanças quase perdidas.
      Dia 12, 11h. Toca o telefone. O Hospital Veterinário da Universidade avisa que a Prefeitura havia descarregado lá no hospital uma 'leva' de cães recolhidos na rua e parecia que um deles era o que procurávamos.
      - Mas como??? Aí ??? Tão longe, em outro município !!!
         De que jeito????? Por quê???
      - Aqui  temos as informações do S.O.S Animais e pelas fotos que nos enviaram, parece que o seu cão está entre eles. Se quiseres ver, às 14h nós abrimos.
      Uma viagem de cerca de meia hora e estávamos no campus da universidade. Entramos... aquela quantidade de cães engaiolados, mal podendo se mexer. Numa da gaiolas, EINSTEIN!!! Quando nos ouviu chamá-lo... foi instantâneo: latiu, movimentou-se como pôde. E nós ficamos engasgados, meu filho e eu.
     Todo ferido, mancando, sangrando, roxo (remédio que é aplicado para proteger os animais), faminto, sedento... mas VIVO!

      Hoje ele já está melhor - um tratamento rigoroso, boa comida, muito carinho, nosso 'velhinho' está ativo. Se vai ainda viver muito, não sabemos. Mas está conosco, em casa, onde tem atenção e primoroso atendimento. Encontrá-lo, para nós foi um milagre!!!
      Da janela da sala ele olha os outros seis vira-latas (ao longo do tempo foram chegando novos cães aqui...) que correm pelo pátio e pelo canil e que parecem também felizes com o  'parceiro' EINSTEIN de volta !!!
     Afinal, para alegria de todos nós, EINSTEIN não é mais um "desaparecido" !!!!
 
Pelotas, RS, BR
10.6.10
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
GUERRA & PAZ
 
 

 

Malude Maciel

 
Caso fosse feito um plebiscito ou pesquisa em todo o mundo, nesse momento tão delicado da História, quando países se armam, (até com ameaças de bombas nucleares) e se deflagram covardemente em desafios bélicos que matam, acabam e complicam a vida de todos os seres do planeta, e se cada cidadão expressasse sua opinião, dizendo SIM ou Não à guerra que ameaça a raça humana, sem sombra de dúvida a PAZ venceria essa ânsia de provar soberania e poder que tanto prejudica o globo terrestre.
O ser humano, em sã consciência, deseja a paz e não a guerra, pois sabe de suas nefastas consequências e as experiências negativas e super sofridas já foram o bastante para fazê-lo compreender que esses conflitos só destroem todo tipo de vida (humana, vegetal e animal), além dos sofrimentos de toda espécie que são consequências dessas asneiras de líderes governamentais que querem ser semideuses.
Segundo o filósofo Emmanuel Kant: a violência é um elemento presente na estrutura antológica da natureza humana, pois o homem nasce como o mais frágil dos animais, mas é dotado de razão e precisa de cuidados que garantam sua sobrevivência, sendo a disciplina e a perseverança direcionadas ao BEM que transformam a animalidade em humanidade elevando-o do estado bruto inicial. O homem é uma criatura que deve ser educada, pois ele só pode se tornar verdadeiramente "gente" pela educação, porque será aquilo que a educação fará dele.
Sem educação e instrução o homem seria reduzido a um animal qualquer, talvez o pior deles, como disse Eric Wwil: "Enquanto natural, o homem é violento, age à maneira das forças primitivas, dominado por suas tendências, instintos e necessidades."
Por tudo isso, a transformação do homem mau em bom é possível pela força do BEM e ele pode ser conduzido à moral. Para Kant: "Devemos agir sempre de tal maneira que a nossa ação possa se tornar um exemplo a ser seguido." Deve haver: " O céu estrelado acima de mim e a lei moral em mim".
Mesmo tendo sido a guerra um mal constante no caminhar da humanidade e sempre ter provado ser um ato insano, autodestruição e loucura sem desculpas, muitas vezes as lideranças mundiais não calculam o mal, as perdas, e todo sofrimento, e apenas satisfazem seus instintos inferiores, embora sabendo do grande erro que poderia ser evitado com sensatez e grandeza de espírito, pois: "Mente sã em corpo são."
Neste século de tantas conquistas e evoluções, quando as mentes estão mais esclarecidas e se acredita no diálogo e no amor, não se admite que apenas pela força bruta se possa dirimir quaisquer problemas, sejam eles quais forem. As almas e corações clamam pela harmonia entre os povos. E esse clamor se espalhará infinitamente e será ouvido dos confins da Terra ao mais alto dos Céus, e assim, pela Graça de Deus, chegaremos à vitória. E nós podemos!
 
Malude Maciel
Membro da ACACCIL
Caruaru - PE
 
 
 

 

 

 

 
 
 
 

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